Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

depois de uns dias a pedir no twitter a carlos zorrinho, presidente do grupo parlamentar do ps, que explicasse por que motivo o projecto de lei 'principal' do grupo sobre prociação medicamente assistida mantém a restrição do acesso das técnicas de pma inserta na anterior lei - só para casados e unidos de facto hetero -, lá consegui isto:

 

'acredito que uma criança tem mais possibilidade de ser feliz se tiver sido desejada por um pai e uma mãe'

 

é certo que a resposta de zorrinho, que se segue a uma pergunta minha sobre qual o interesse que o estado, com esta restrição, visaria proteger, nada acrescenta em relação ao pio argumentário habitual dos que acham que não só têm o direito de legislar em matérias tão privadas e preciosas como esta como que aquilo em que 'acreditam' -- assim, sem mais, porque acreditam -- não só adquire foro de verdade como de legitimidade impositiva.

 

o que carlos zorrinho, com esta frase, faz, não é apenas, como já disse a shyznogud também no twitter, insultar todas as famílias que não obedecem à sua crença do que é 'bom' e 'bem', e isso seria já muitíssimo grave (e ainda mais num presidente de grupo parlamentar de um partido que há dois anos exactos aprovou a alteração ao código civil que permitiu o casamento das pessoas do mesmo sexo); é impedir, ou pelo menos tentar impedir -- felizmente em toda a europa, a começar por espanha, há clínicas de pma onde qualquer portuguesa pode engravidar pagando, como pagaria em portugal se a deixassem -- o nascimento de crianças desejadas. crianças não fruto do acaso ou de um automatismo social de imitação (e tantas há assim), não, nem crianças nascidas daquilo a que mariano gago, num discurso memorável, chamou a roleta russa do sexo ocasional de alguém que quer engravidar e procura um espermatozóide ao calhas; crianças planeadas e desejadas ao ponto de alguém estar disposto a pagar milhares de euros e submeter-se, em alguns casos, a tratamentos hormonais agressivos para as poder ter, sem querer com isso levar alguém ao engano ou impor uma paternidade a quem a não deseja.

 

a monstruosidade, a insensibilidade desta visão do mundo, que se julga tão melhor e superior que se arroga o direito de se imiscuir nesta esfera íntima, para, anote-se, frise-se isto, repita-se, poupar a crianças o desgosto de nascer em famílias 'imperfeitas' (com o preço, naturalmente, de não nascerem de todo), seria sempre uma obscenidade. lê-la da boca de um dirigente do partido socialista é a certificação de que, para muitos dos eleitores de 5 de junho de 2011, o partido em que votaram é agora uma ala minoritária do ps de seguro -- a ala que, num projecto de lei assinado por pedro delgado alves, líder da js, e pela independente isabel moreira, coincide com o be no afastar desta restrição absurda e insultuosa.

 

que zorrinho aponha a sua assinatura num projecto que permite a uma mulher emprestar o seu útero para durante nove meses albergar o filho de outrem sem perguntar se essa mulher, que será submetida a técnicas de pma, é só ou acompanhada, hetero ou homo, é apenas a ironia final desta catadupa de inanidade. porque, afinal, para este projecto do ps, como, suspeita-se, para o do psd que ainda não li (e que a aceitar a maternidade de substituição, como se anuncia, é um enorme avanço em relação à postura hiper-conservadora deste partido nesta matéria em 2006 -- só faltava mesmo que fosse mais longe que o ps) uma mulher é um útero e um útero só pode funcionar em tutela masculina -- mesmo que seja, como pode muito bem ser, o útero de uma lésbica que o empreste a um casal infértil. para zorrinho e para o ps 'sénior', a única gravidez aceitável numa lésbica ou numa mulher que não esteja numa relação com um homem que queira ser pai dos seus filhos é a que advenha de uma vontade masculina -- mesmo, como a lei já prevê, a de um morto.

 

afirmar que isto se impõe 'em nome da felicidade das crianças' é, como dizer.

 

dificilmente se poderia recuar mais, dificilmente se poderia trair mais a herança recente do ps. seguramente, saberão o que estão a fazer.

 

 

 

 

14 comentários:
De Manolo Heredia a 13 de Janeiro de 2012 às 23:12
Cheira-me que o problema está no "de borla":

- Pílula do dia seguinte, de borla
- Interrupção voluntária da gravidez, de borla
- Cesariana a pedido, de borla
- Fertilização in vitro , de borla
- Barriga de aluguer, de borla
...

mais tarde teremos a interrupção voluntária da gravidez da barriga de aluger... (será til legítimo?).



 


De f. a 14 de Janeiro de 2012 às 14:52
seria mto vantajoso de vez em quando saber-s do q s fala quando se fala. tipo, saber-se q ñ está em causa nem neste post nem em lado nenhum a subvenção do sns no q respeita à pma nos casos ñ patológicos.


De Manolo Heredia a 14 de Janeiro de 2012 às 15:37

Aquilo que for autorizado por lei será mais tarde reivindicado ser inserido no SNS, em nome do alargamento da oportunidade de ser feliz a todos os cidadãos. E muito bem!

Só que os partidos do “arco da velha, ups! do poder” não gostam de dar tiros nos pés. Não me parece uma questão ideológica. Já sem falar dos berbicachos colaterais que se criam: Poderá a dona da barriga de aluguer decidir abortar (desistir do negócio)? Poderá ela recusar-se a amamentar? Terá o direito de reivindicar futuros contactos com o “filho”, terá o filho o direito de conhecer a dona da barriga que o criou? Etc.

A questão de inviabilizar “filhos desejados” parece-me um pouco hipócrita, pois falta responder ao “desejado porquê?”, por questões de herança ou para “salvar” um casamento?, etc.,etc..

Até porque, suponho, a possibilidade de alugar barrigas vai permitir a muitas “senhoras” conceber sem a chatice de, após o parto, vir a ter estrias na barriga ou os peitos descaídos. Isto é, a versão “barriga de aluguer a pedido”.

A Ciência serve para contrariar a Natureza, mas neste caso parece-me que vai criar mais problemas do que resolver. Os seres humanos nascidos assim podem muito bem ficar marcados para o resto da vida como “filhos da P…MA”.



De f. a 14 de Janeiro de 2012 às 15:51
mas q total disparate. aquilo q é autorizado na lei é integrado no sns? fumar tabaco ñ é proibido, portanto o sns é q paga o tabaco? ó manolo, pare de dizer debitar inanidades. e comece por se informar sobre a existência d maternidade de substituição por esse mundo fora antes de decretar o apocalipse. é q ñ há pachorra para ver gente a discutir as coisas como se fossem invenções nacionais.


De Manolo Heredia a 14 de Janeiro de 2012 às 17:56
Ó f. pare de por na minha boca palavras que eu não disse; o que eu disse foi que "será mais tarde reivindicado ser inserido no SNS".

Qual apocalipse? o que eu disse foi que podia trazer mais problemas do que aqueles que resolvia, como acontece nessas partes do mundo que a f. afirma não serem do meu conhecimento.

Eu até acho bem que se criem porcos que dêem corações a homens, e não me importo se a barriga de aluguer for duma macaca (é para lá que caminhamos). Porém, a generalização dessas práticas vai por em causa todo o paradigma do Ser Humano no ponto de vista da identidade. É certo que somos máquinas, mas fico desconfortável quando esse realidade vai nua e crua parar aos decretos-lei do sítio aonde vivo.

É assim como o crédito barato e facil, que põe em xeque a Independencia Nacional. Sabe bem, é moderno, mas pode ser muito mau a prazo.


 


De Rómulo da Silva a 13 de Janeiro de 2012 às 23:52
Porra, "f". Chegou-lhe a valer! Bem haja.


De Pedro a 14 de Janeiro de 2012 às 11:47
f.
Neste assunto das barrigas de aluguer há algo que me faz muita confusão e possivelmente a lei resolve mas não saberei como. E não tem a ver com o facto do casal "biologico" ser do mesmo sexo ou de sexo diferente.
Todos concordamos que nove meses de desenvolvimento de uma criança na barriga de uma mulher cria laços muito fortes e a mulher que cede a sua barriga não pode ser uma mera mercadoria mas um ser humano com direitos.
Imagiem por exemplo que numa ecografia de acompanhamento feita por exemplo as 9 semanas se detecta que a criança tem uma deficiência fisica e que os pais, por esse  motivo querem fazer um aborto.
Mas e se a mãe de aluguer não deixar, será que podemos obrigar uma mulher a abortar o filho que tem na barriga mesmo não sendo de um ovulo seu?
Há questões que me fazem confusão e que não vejo serem discutidas. Só se discute se os casais do mesmo sexo devem ter acesso ou não o que me parece redutor.

Pedro


De f. a 14 de Janeiro de 2012 às 14:53
este post ñ é nem sobre maternidade de substituição nem sobre o acesso de casais do mm sexo a essa possibilidade. favor reler. ou ñ.


De Ana a 14 de Janeiro de 2012 às 15:04

"f", a questão do Pedro é pertinente. Tal como me parece impertinente a sua estanticidade aos posts/respostas

Ana


De f. a 14 de Janeiro de 2012 às 15:40
ana, percebo q as pessoas tenham imensas coisas para dizer e dúvidas e questões sobre tudo e um par d botas. sucede q escrevi um post sobre a restrição d acesso à pma para casais hetero e sobre o facto d, indo-s mexer na lei, o ps ter optado por manter essa restrição. não é um post sobre a maternidade de substituição e o comentário do pedro demonstra q ele ou ñ o leu ou ñ o percebeu. foi portanto o pedro q foi 'estanque' ao meu post, porq lhe interessa discutir outra coisa e acha 'redutora' a minha perspectiva. o q está mto bem, sucede é q como fui eu q escrevi o post, e sou eu q giro os comentários e lhes respondo, entendi chamar-lh a atenção para isso. transformar essa chamada d atenção numa recusa minha d discutir o assunto q interessa ao pedro é mm de truz.


De Pedro a 14 de Janeiro de 2012 às 16:23
Acho que a f. tem razão,
Mas etretanto talvez num outro post ou num outro blog consiga algumas luzes para esta questão. Não acredito que os defensores da ideia não tenhamreflectido em esta e outras questões.

Pedro


De f. a 14 de Janeiro de 2012 às 18:17
pedro, a questão q levanta é interessante do ponto d vista ético; do ponto de vista prático, a aprovar-s o recurso aos contratos de maternidade d substituição, terá de ser dirimida nos ditos contratos, q obviamente terão d existir. como é q um contrato desses s acciona no caso q descreve é q m ultrapassa totalmente (recurso a tribunal? e o tempo q leva? e pode alguém ser obrigado a fazer 1 aborto, mm por ordem d 1 tribunal?). aliás para mim é óbvio q a maternidade d substituição levanta mtos mais problemas éticos e práticos q o recurso d qq pessoa à pma, entendida como a mera possibilidade de inseminação artificial no útero da pessoa q pretende ser mãe. e essa é mais 1 das perplexidades neste assunto: poder-se-á o mais e não o menos.
satisfeito?


De Ana Matos Pires a 14 de Janeiro de 2012 às 19:02
Ora nem mais.


De Anónimo a 14 de Janeiro de 2012 às 21:36
Obrigado pela resposta.
É sem duvida complexo.
Estamos a falar de um direito fundamental de integridade fisica pelo que mesmo com todos os contratos do mundo ninguem pode obrigar uma mulher a abortar à força.
Nesses casos penso que os pais biologicos terão de ceder o filho à mae de aluguer pois minguem pode obrigar uma mulher a abortar.

Pedro


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