Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
Eu, pelo menos, não: julgava que os tempos que vivemos fossem tempos de exceção, de crise, de um turbilhão que começou nos EUA e cujas ondas de choque apanharam uma Europa entorpecida, demasiado confiante e incapaz de reagir e de avançar em conjunto; uma crise dos "mercados" que foi direta ao coração da "economia real", sobretudo a dos países mais periféricos, frágeis e vulneráveis, que se julgavam protegidos pela segurança da Festung Europa. Julguei eu que a crise fosse um acidente que todos queremos ultrapassar, e que a integração europeia tivesse valido a pena em prol do bem-estar de todos os portugueses. Afinal, segundo vozes autorizadas e eleitas pelo povo, tudo não passou de uma espiral de junkies viciados em preguiça e em gastar à tripa-forra. Pensava eu também que as clivagens e os desequilíbrios sociais fossem entre muitos pobres e muito ricos; enganei-me, segundo representantes da nação: é entre velhos e novos. Fiquei também a saber que velhos operários, reformados de miséria, gente que trabalhou toda a vida e que passou dificuldades que certos deputados só conhecem dos filmes, são afinal os beneficiários de uma "ditadura das mesmas classes sempre protegidas" (e que este acordo irá benevolamente por cobro). Ah malandros que andaram a desbaratar tudo. Fiquei razoavelmente desconcertado; mas alertado para uma coisa: nas próximas eleições vou ver bem, mas mesmo bem, quem são os deputados que o meu voto elege. E se os oiço a dizer certas barbaridades, garanto que peço a devolução do boletim.
"O acordo de Concertação Social esta semana alcançado pode ter evitado uma guerra entre gerações. (...) Durante muitos anos, os governos de vários partidos pediram empréstimos sucessivos para manter um estilo de vida acima das nossas possibilidades, ou seja, um estado de perfeita negação, como qualquer viciado. Pagámos os nossos benefícios com o dinheiro dos nossos próprios filhos, sustentando o nosso vício através da penhora das gerações futuras. (...) Apesar de já vivermos há muitos anos em democracia, persiste ainda uma ditadura, com a qual nós não contávamos: a ditadura dos direitos adquiridos, a ditadura das mesmas classes sempre protegidas. (...)" (intervenção do líder da JSD, hoje, na AR - sim, sim, esse mesmo, o mocinho do yo, o rapazote para a eternidade).
De Anónimo a 19 de Janeiro de 2012 às 23:42
Realmente, ouve-se e não se acredita. Concertação social? A UGT é mesmo um sindicato? Inacreditável!
De António a 19 de Janeiro de 2012 às 23:49
Que chatice, que ignorante fui, eu que pensava que vivia à custa do meu salário. Como não tenho filhos estou a parasitar quem? Aparece cada cromo...
De
Dylan a 20 de Janeiro de 2012 às 01:00
Mas alguém liga a esse perfeito anormal?!
Eu ligo. É que "esse perfeito anormal" não é um qualquer fura-vidas a querer atenção mediática ou um emplastro que se tornou célebre por ter entrado num concurso da tv; nem sequer é um blogger a cantar de galo; é um deputado da nação, eleito pelo povo e ao serviço do povo, cujo salário e "direitos adquiridos" são suportados pelos meus impostos; é, também, o líder da juventude partidária do partido hegemónico. Como não ligar? Não basta já o Alberto João? Ou teremos que dar desconto, "coitados, são políticos, têm desculpa"? A cidadania começa aqui.
De
Dylan a 20 de Janeiro de 2012 às 23:52
Não deixa de ser um perfeito anormal e, neste caso, de fraldas. A questão não é ter um deputado da nação suportado pelos meus impostos, é questionar o facto de alguém, com 30 anos, ter chegado a deputado! É rirmo-nos de alguém que vem falar de "ditadura dos direitos adquiridos" quando ele próprio é o resultado dessa ditadura, pois toda a vida andou a saltitar de assessoria em assessoria política até ter chegado à AR. Aquele discurso é igual à sua credibilidade: zero! "Não ligar" é a minha forma de mostrar indignação.
Safa, o tipo não se enxerga mesmo.
De
Shyznogud a 20 de Janeiro de 2012 às 10:13
De
Dylan a 20 de Janeiro de 2012 às 23:56
Que lição!
É mesmo difícil acreditar.
São discursos e discursos individuais proferidos por "jovens".
Ou de contradição, ou ajustados à propaganda engagé
E lembro, oh se lembro que ontem estiveram todos, muito quentinhos, de acordo em expulsar um governo.
E mais : encontraram um formalismo cunjunto !!!
Que lástima vergonhosa para todos!
Parole, parole, parole!
E hoje, seguem de acordo :
- quem pediu a Troika foi o PS.
Pediu mesmo? Por sua alta recreação?
Não é isso que lembramos.
Mostrem os títulos dos jornais.
Lembrem as vozes dos que forçavam.
As vozes, ainda hoje, de frágil coerência defendendo :
- devia ter sido há mais tempo...
Lembrem T.S. : ...não os vi na Portela.
Lembrem a drmática postura da Banca.
Lembrem o desespero do presidente :
- o Governo de Gestão tem que negociar!
Pudera!
Estas retóricas em directo, às quintas, por muito que nos esforcemos, já não aquecem nem arrefecem.
E o PS cheio de vergonha e todo responsável, e todo sem saber como responder à letra.
O Povo, algum povo, esquece e não percebe.
Mas há o outro Povo que se espanta com a retórica do momento.
Retórica de pouquíssimo valor que faz da política um imenso ruído de fundo sem sentido.
Cada estrela busca pela tv o seu momento de efémera glória
Parole, parole, parole.
A minha geração ouviu a canção e aprendeu.
Onde andam as vozes sem medo da minha geração?
Ainda bem que não tenho boletim.
Os homens do boletim mudam!
Também eu : viva e atenta.
De fernando f a 20 de Janeiro de 2012 às 12:15
O labrego não 'labregou' que são as gerações anteriores que estão a municiar as insuficiências dos 500€
De JgMenos a 20 de Janeiro de 2012 às 12:24
Alguém tem dúvidas de que 'Pagámos os nossos benefícios com o dinheiro dos nossos próprios filhos'? Não é isso uma dívida de consumo? Um presente a sustentar no futuro?
E as regalias da CP, e tantas outras, aceites por boys comandados por políticos, não são abusos de classe que se auto-proteje (desde logo a classe política)?
O 'estado de negação' - não é o que continuadamente assistimos? E desde logo em muitos dos comentários a este post?
Estamos falidos e à beira da bancarrota, Oh! inteligentes!
Se a ideologia pagasse almoços ...mas é só para uns poucos eleitos!
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