Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

Nunca entendi o critério que etiqueta certos temas como "de consciência" - os que envolvem alguma crença ou preconceito religiosos, como se a consciência fosse monopólio de igrejas. E não, não vem isto a propósito da votação da alteração à lei de PMA que tem hoje lugar, mas do Orçamento do Estado.

 

Um grupo de deputados do PS propôs-se reunir as assinaturas necessárias para levar o corte dos subsídios de férias e de Natal do sector público à fiscalização do Tribunal Constitucional, obtendo a adesão do grupo parlamentar do BE. O PCP, li ontem, já afirmou não assinar; grande parte da bancada do PS também não o fará. É certo que o PS se absteve na votação, e que parece (e é) contraditório deputados que se abstiveram solicitarem agora aos juízes do TC que se debrucem sobre a admissibilidade da norma. Mas é igualmente certo que o que está em causa sobreleva calculismos partidários. É que se há, se alguma vez houve, uma questão de consciência colocada aos deputados da nação é esta: rasgar ou não rasgar a Constituição?

 

E porque é que isto é tão importante, perguntar-se-á, se o País está em estado de emergência? Ora é mesmo para momentos destes, quando os direitos mais essenciais - liberdade, igualdade, integridade do indivíduo - estão em perigo, que mais precisamos da Constituição. Ela é a fronteira que nos protege da arbitrariedade, do poder discricionário; a legitimação ética do regime. Podemos, é claro, debatê-la, discordar dela, alterá-la (com dois terços dos deputados). Mas o que não devemos - e o que nem deputados nem o PR podem, porque entre as suas funções essenciais está defendê-la e zelar pelo seu cumprimento - é fingir que não existe.

 

É claro que cabia a Cavaco, que fez questão de dizer que os cortes põem em causa a equidade fiscal - ou seja, ferem o princípio da igualdade e portanto são inconstitucionais -, enviar o Orçamento para fiscalização preventiva (coisa que só o PR pode fazer). Não o fez. Isto não só significa que mesmo reputando os cortes de inconstitucionais Cavaco os acha necessários e portanto concorda com eles, como também que incumpriu gravemente o seu dever. Mas contra isso batatas: nada se pode fazer a um Presidente que viola a sua jura solene. A Constituição não prevê sanções para isso (e devia). Resta pois, porque o TC não pode de motu proprio analisar diplomas (outra coisa a pensar), a possibilidade de um grupo de deputados - ou o provedor de Justiça - solicitar a fiscalização.

 

É isso ou aceitar que a proposta de revisão da Constituição que Passos apresentou e meteu na gaveta perante a reação adversa da maioria dos portugueses é posta em prática sem sequer ir a votos no Parlamento; que o regime em que vivemos desde 1976 acabou sem um ai. No país em que, diz um estudo recente, só 56% defendem a superioridade da democracia, que haja quem por ela se atravesse - quem, constitucionalmente, não seja capaz de a trocar por outra coisa qualquer.

 

(publicado hoje no dn)

7 comentários:
De JgMenos a 20 de Janeiro de 2012 às 12:08
'...Constituição. Ela é a fronteira que nos protege da arbitrariedade, do poder discricionário...'
Só precisava de ser verdade!
Faz-me lembrar os contratos blindados que são legais, mas imorais.
No caso são precisos 2/3 de gente vinculada a partidos e não às suas consciências, para que uma geração não fique refém de outra geração que viveu outras circunstâncias e que se assumiu como capaz de definir um futuro que não lhes pertencia!


 


De R. Esteevs a 20 de Janeiro de 2012 às 12:56
Excelente a crónica ponto por ponto incluindo a sugestão de alterações à atual possibilidade que o PR têm de triar impunemente o seu próprio juramento.


De fernando f a 20 de Janeiro de 2012 às 12:56
De quando em vez no PS lá se arregimentam uns sociais-democratas à séria. O PC está naquela, nada com socialistas que fazem jus ao nome, nada com bloquistas, pois comunistas só há uns..,  na certeza de que aparece sempre um Proença que lhes garante o abono. 


De jj.amarante a 20 de Janeiro de 2012 às 13:30
Parece-me que os deputados fizeram muito bem, se tinham dúvidas sobre a inconstitucionalidade era seu dever fazer a pergunta ao Tribunal Constitucional.

Já citar esse "estudo" sobre o desamor da democracia pelos portugueses, duvido que seja boa ideia. Não se trata de censura mas de não ampliar mais uma peça de propaganda da parte mais reaccionária da direita portuguesa que tem grande domínio dos meios de comunicação social e que passa a vida a dizer que os políticos são todos iguais, implicando que deveríamos entregar o poder aos descendentes daqueles que nos governaram tão bem durante 50 anos e que nos deixaram em 1974 com 25% de analfabetos e menos 1 milhão de pessoas que emigraram nos anos 60.


De Miguel Ferreira a 20 de Janeiro de 2012 às 13:49
O problema do respeito pela Constituição não reside no grupo de deputados do PS pedir a fiscalização (onde estavam eles quando o PS reduziu os ordenados da função pública?), ou até o Presidente da República pedir a fiscalização preventiva (este PR já nos habituou à sua inacção permanente).
O problema reside na Lei Orgânica do Tribunal Constitucional. Conforme se viu no recente Acórdão sobre a redução de vencimentos...este TC é uma extensão política do "bloco central de interesses".
Estou curiosíssimo por ver o Acórdão...


De MCosta a 20 de Janeiro de 2012 às 15:14
Bem apontado, até porque a escolha dos Juízes é descaradamente partidária e não é raro aparecer na comunicação social as tendências politicas dos seus membros.

Já agora, alquém sabe a resposta para esta duvida: O PR pode enviar "cartas" à AR com reprimendas sobre esta (a AR) não estar a cumprir a sua função, p. ex. durante o caso da alteração dos estatutos dos Açores. E o contrario não é possivél? Se ele, o PR, jurou cumprir a CR e não o faz, a AR não deve chama-lo a atenção para isso?


De Jacinto Bettencourt a 21 de Janeiro de 2012 às 10:40
Sim, o país está em estado de emergência.


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