Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012
Paulo Pinto

Nos noticiários da Antena 1, esta manhã, passam duas declarações muito interessantes acerca das declarações do Presidente da República sobre os seus rendimentos. A primeira é de Luís Filipe Meneses e diz que tudo não passou de uma gafe, e que todos nós temos direito (até os políticos) a gafes destas; a segunda é de Marcelo Rebelo de Sousa, que afirma que o Presidente foi "infeliz". Até o comentador de serviço, Raul Vaz, alinha pelo mesmo diapasão das "declarações infelizes". Isto, para mim, é pura contenção de danos. Os americanos chamar-lhe-iam "cover-up". Gafe? Declaração infeliz? Vamos a ver uma coisa: gafe é um lapso, um engano, um embaraço, como o de Guterres a fazer contas de cabeça em frente às câmaras; dito infeliz é, por exemplo, o Eduardo Catroga a falar de "pentelhos". Saiu mal, foi mal escolhido, e depois de dito não há nada a fazer; sai uma galhofa e pronto. O que Cavaco fez foi uma declaração entre o irresponsável e o mentiroso; ou não sabia o que estava a dizer, ou sabia; ambas as hipóteses são graves. E depois foi vaiado em Guimarães, e a imprensa olhou para o lado. Era bonito se fosse com outro. E, por fim, a página da Presidência no Facebook retira e omite comentários, e ninguém parece importar-se. Seria bom começar pelo princípio: alguém sabe quanto ganha efetivamente? Se sim, cadê? se não, ninguém acha estranho? Será preciso uma investigação, cheia de "ses" e de incertezas e contingências tortuosas, para determinar, divulgar e publicar os rendimentos do chefe de estado? É que neste assunto, não há volta a dar: se nem o Presidente sabe, ou ninguém sabe por ele, ou sabe e não diz, ou sabe e mente, ou "sabe-se" mas não convém dizer e desvia-se para outro lado, quais os rendimentos da mais alta figura da nação, então como se pode exigir transparência a deputados, gestores, administradores, assessores, autarcas ou a quem quer que seja?

Para mim, o mais grave nem são as declarações em si. Mas apenas a apatia que as envolve. Sabem o que nos falta? Não, não é um Salazar. São duas coisas: um Stephen Colbert e uma democracia que permita isto. Uma gafe? uma declaração infeliz? Chamem-lhe isso. Para mim, está tudo dito.

12 comentários:
De Miguel Ferreira a 23 de Janeiro de 2012 às 13:37
Sobre Cavaco nem é preciso falar muito. O Homem não tem mesmo jeito para o discurso...que é o que mais caracteriza, e sempre caracterizou, um PR. Imagine-se um Sampaio ou um Soares perante a mesma pergunta...provavelmente teriam dito as "balelas" do costume sobre os sacrifícios que eles também iam fazer...e pediam ao Governo para ter atenção a isto ou aquilo...
Mas na verdade teriam os mesmos rendimentos...ou mais! 
Agora até se fala nos benefícios que o Cavaco irá ter após o fim do mandato...mas porquê? Os anteriores não tem?  Se fosse ao Cavaco...criava uma fundação qualquer...e pedia a uns amigos no Governo ou numa autarquia para lhe dar umas centenas de milhares de subsídios...isso talvez seja mais aceite...
Veja-se o exemplo do Monti em Itália (por mais defeitos que o homem tenha)...prescindiu do vencimento de primeiro ministro! Haverá homens, ou mulheres, capazes disto em Portugal? Só se forem obrigados por lei...e mesmo aí escolhem o vencimento de maior valor. E quando se pensava ter visto tudo...até os bloquistas vão de motorista para Guimarães...é o cúmulo!!!!
O país está a saque...


De Paulo Pinto a 23 de Janeiro de 2012 às 13:53
that's not the point... e quanto à badalada história da Ana Drago, das duas, uma: ou passa a vigorar um regimento de utilização do transporte público para todos os deputados, em circunstâncias destas, ou então isto é apenas fumaça, por ela ser do BE (se fosse do CDS já tinha direito a carro com motorista?) e não ter carta (ou tê-la é condição para se ser eleito?).


De fernando antolin a 23 de Janeiro de 2012 às 16:51
Bom parem lá com o argumento de não ter carta, é pateta...agora e o simples bom senso de solicitar um abono para deslocação em confortável Intercidades directo ou Alfa, com mudança em Campanhã ? Os deputados precisam que a AR pense por eles e tenha um regulamento próprio para deslocações ? Senão ficam presos em Lisboa ? O site da CP, com marcação e compra on-line, está bem acessível nos pc's de cada assento parlamentar. E quero lá saber do partido ou posicionamento político do deputado em questão, naquela casa todos gostam de falar da ética e dos sacrifícios, pois eis uma excelente oportunidade para, sem alardes, dar o exemplo.


De Manolo Heredia a 23 de Janeiro de 2012 às 14:27
para mim foi uma ação de propaganda concertada entre o PR e o PM (mesmo que inconsciente), do tipo salazarento-dona-maria-que-tem-galinhas-poedeiras-em-belém-para-compor-o-ordenado.


De Luís Lavoura a 23 de Janeiro de 2012 às 14:52
"foi vaiado em Guimarães, e a imprensa olhou para o lado"

A imprensa não olhou para o lado. A vaia foi noticiada. Pelo menos no noticiário da RTP 2, e creio que nas outras televisões também.


De Ativo a 23 de Janeiro de 2012 às 14:57
O representante máximo de um país não pode fazer este tipo de declarações. Equiparar os seus sacrifícios aos sacrifícios que os portugueses têm que fazer é uma falta de respeito. Um cidadão que ganhe o ordenado mínimo e tenha que sustentar uma família da dimensão da dele, só deve ficar ofendido e desrespeitado. 

Concordo plenamente que estas declarações vão para lá de uma simples gafe. São declarações insultuosas e deviam realmente ser vistas como tal.


De me notme a 23 de Janeiro de 2012 às 17:40
E se o nosso presidente estiver doente? E se ele não tem o seu sensor frontal a funcionar correctamente?
Quem se atreve a aplicar-lhe um mini mental state examination ? Já repararam que passa a vida a olhar para cenas.... assim para o parvo, sem ofensa é claro.
Pensem nisto.


De Ana Matos Pires a 24 de Janeiro de 2012 às 01:07
Sugestão antiga


De me notme a 24 de Janeiro de 2012 às 02:19
Já? Não sabia. Pronto, não se pode saber tudo. Alguma coisa uma pessoa pode não saber... ora bem estamos em 2012... Janeiro.... dia... ups... espera lá... ai...


De Helena Pato a 23 de Janeiro de 2012 às 22:11

Paulo Pinto, tomei a liberdade de transcrever na íntegra este seu post no meu mural facebook. Porque o considero muito pertinente, lúcido, indo ao essencial sem grandes divagações. Obrigada.
Helena Pato


De Helena Pato a 24 de Janeiro de 2012 às 01:00
Peço desculpa, Paulo Pinto, mas afinal não transcrevi na íntegra, como tinha dito. Faltam-lhe as 2 últimas frases. Por causa do "isto"... Em transcrição, sem se poder ouvir a peça, perdiam o sentido...
Obrigada
H.P.


De Hélder Prior a 24 de Janeiro de 2012 às 14:55


Comentar post

Autores
Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Diogo Serras
Domingos Farinho
Fernanda Câncio / f.
Filipe Nunes
Gonçalo Pires
Hugo Mendes
Inês de Medeiros
Inês Meneses
Irene Pimentel
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão
Mariana Vieira da Silva
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Shyznogud
Tiago Julião Neves

Arquivo

Isabel Moreira

Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon

correio | twitter | facebook

Maio 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9


22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


artigos recentes

Com que então, é isto que...

História(estória) de F***...

bem-vindos ao maravilhoso...

E agora, completamente a ...

ligar os pontos

Frase Pró Infinito e Mais...

frase Twilight Zone do di...

frase Twilight Zone do di...

errar outra vez, outra ve...

vamos por partes

O que é isto?

Do twitter para aqui: cor...

Sim sim, o gajo só ligou ...

O que parece é?

têm medo de quê?

últimos comentários
Não sabia que o Cameron e o Obama eram da Académic...
Só me ocorre isto, amigo...http://youtu.be/wwlGNJy...
Fraquinho, fraquinho...
Se fosse só isto...
Pelo contrário meu caro. A cabeça é precisamente a...
always.
obrigada, valter. all my children, como diz o aust...
Eu, quando pago os meus impostos, é para pagar a s...
Uma frase com o selo oficial da ignorância e da ca...
A prova de que não delira são os coments excitadís...
arquivo
tags

todas as tags

outros lugares
Subscrever feeds