Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

estive a ouvir -- até certa altura, quando desisti por manifestamente não aguentar mais idiotice -- o fórum da tsf sobre o corte de feriados superiormente decidido pelo álvaro (inesquecíveis para todo o sempre aquelas palavras -- 'não podiamos tirar o 25 de abril e o 1º de maio, o 10 de junho é o dia de portugal, sobravam o 5 de outubro e o 1º de dezembro') e não queria crer que a ninguém ocorresse dizer o mais óbvio dos ululantes óbvios: toda esta conversa de 'tinhamos de cortar 2 feriados civis porque a igreja concordou em cortar 2 religiosos' é simplesmente absurda.

 

admitindo que é um imperativo nacional cortar 4 feriados -- o governo tem legitimidade para tomar esse tipo de decisões, por estúpidas e infundamentadas que nos surjam --, fazendo as contas constatamos que nos 13 feriados ditos nacionais estabelecidos na lei 8 são de cariz católico. mais de 60% dos feriados impostos pelo estado são portanto referentes a celebrações de uma religião -- e uma apenas.

 

isto começa logo por ser um problema constitucional, em virtude da separação entre estado e religião, e prossegue sendo-o à luz da lei de liberdade religiosa. óptima oportunidade pois a que se oferece para endireitar esses erros clamorosos e contra-natura. porém, como é sabido, o governo não o fez -- invocando a concordata e o facto alegado de que ela obriga o estado português a entender-se com a igreja católica (entendida aqui como a hierarquia da dita e o seu quartel-general, o vaticano) nesta matéria.

 

sucede que isso é rotundamente falso. e não acreditem em mim, vão ler a concordata. e já agora oiçam também sobre isso o suponho que insuspeito cardeal patriarca.

 

temos pois que o que se passou com este dividir dos cortes de feriados 'ao meio' foi que o governo português decidiu entregar à igreja católica -- ou seja, se quisermos, a um 'poder estrangeiro' --, a decisão sobre uma matéria que só ao estado português diz respeito e em relação à qual não se constituiu jamais em qualquer obrigação. e isto só se pode interpretar como deliberação de, por um lado, erodir a memória colectiva e abalar a identidade histórica nacional num fervor saloio de pseudo-liberalismo e de 'nós podemos tudo' (chama-se a isto fazer tábua rasa) e por outro 'comprar' a benevolência dos bispos, curvando-se perante uma religião e afirmando que a simbologia clerical lhe é mais cara que a nacional. uma mistura de oportunismo parvenu e beatice interesseira. é bonito. mas mais bonito ainda é a forma como o país dos comentadores e dos jornalistas engoliu isto tudo sem dificuldade, repetindo à saciedade 'feriados civis e religiosos', como se essa distinção tivesse o menor sentido; como se não houvesse apenas feriados nacionais e não se tratasse, ao reduzi-los, de ter em consideração a dignidade nacional e o cumprimento da constituição -- mas, claro, a constituição já não vale nada, não é?

 

 


8 comentários:
De Tiago C a 27 de Janeiro de 2012 às 16:26
 Na questão dos feriados, sim são todos eles nacionais mas olhando para a história, ou melhor para a construção de Portugal como Estado vemos que o Vaticano teve o seu papel. Sim somos um Estado laico mas isso é na constituição, não na prática política diária. Westfália já foi há uns anos mas o Estado português ainda sente uma espécie de reverência institucional em relação à igreja católica. Poderá, deve ter de certeza a ver, com a questão, tão básica, do pavor de perder apoio popular, visto grande parte da população portuguesa olhar para o seu catolicismo, seja ele muito ou pouco, como coisa dogmática e por isso intocável. É a base moral mesmo dos amorais, passe o paradoxo. Ora político que se preze, vulgo venda, não desperdiça neste campo qualquer percentagem da sua sempre descendente popularidade.
A constituição começou a ser desrespeitada assim que nos sentimos sem medo, temerários mesmo, sobre um qualquer retrocesso no processo democrático. Ali pelas alturas do nosso pr como pm.


De Samuel a 27 de Janeiro de 2012 às 18:49
Em cheio!


De Rafael Ortega a 27 de Janeiro de 2012 às 19:29
1º um erro. Nem todos esses feriados são católicos. Várias outras correntes cristãs festejam o Natal e a Páscoa.

O 1 de Janeiro é feriado religioso ou civil (não sei)?


De f. a 27 de Janeiro de 2012 às 19:34
sim, rafael. sucede q foram impostos como feriados nacionais pelo seu carácter católico. porq s formos por aí, o natal tb pode ser encarado como a ancestral celebração pagã do solstício de inverno e a páscoa como a festa da fecundidade ou assim.

o 1º de janeiro é, como poderá constatar se clicar no segundo linque contido no texto, um feriado considerado de cariz religioso. está elencado na concordata como tal.


De António C. Mendes a 27 de Janeiro de 2012 às 21:53
Fernanda,
se o único critério de escolha, dos feriados a cortar, fosse a vontade expressa da maioria dos portugueses, quais lhe parece que seriam os eleitos?
Gostava de ver este barometro.


De Sofia Loureiro dos Santos a 27 de Janeiro de 2012 às 22:14
Excelente artigo.


De António nunes a 27 de Janeiro de 2012 às 22:50

Ouçam, esta conversa entre feriados católicos e não católicos, mais ou menos importantes, é como entrar na paródia do "gajo do Norte e do gajo do Sul", do "funcionário público e do trabalhador privado", do "calinas e do trabalhador", do "empregado e do desempregado".
Caramba, o que está em causa, ao retirar estes feriados - e nós temos uma História e temos uma matriz cultural - é o dizerem-nos que somos uma cambada de preguiçosos, que têmos Sábados, Domingos e feriados.
A quem é que isto interessa?
Não é pelo número de feriados. É por nos porem de joelhos, a expiar uma qualquer culpa que não é nossa.
Temos muitos feriados (convencem-nos), temos demasiadas férias (convencem-nos), trabalhamos pouco (concencem-nos), ganhamos demais (convencem-nos). E o que fazemos? discutimos o feriado A e B.
Não é esse o caminho, pois não?


De JgMenos a 27 de Janeiro de 2012 às 23:25
Quem quer discordar sempre encontra um caminho!
60% dos feriados são católicos; entende-se excessivo induzir que a Igreja Católica representa os portugueses católicos em matéria religiosa? E que os governo devem negociar com as instituições representativas?
A concertação social é monopólio de sindicatos?
Pelo menos a CGTP não exita em transformar os feriados católicos em direitos inalianáveis de todos os trabalhadores!
Não está fácil...


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