Por muito estranho que pareça, uma larga maioria de pessoas acredita mesmo que o SNS é grátis. Sempre que num dos múltiplos focus groups sobre serviços de saúde a que assisti algum participante lembrava que todos o pagamos com os nossos impostos, os outros ficavam visivelmente surpreendidos com a ideia e, como tal, relutavam em aceitá-la.
Devemos por isso compreender que a proposta da direita de pôr as pessoas de mais rendimentos a pagarem os atos clínicos de que são beneficiárias tem junto dos pobres mais recetividade do que habitualmente se supõe.
E, no entanto, os cidadãos que disfrutam de rendimentos elevados já pagam, pela via fiscal, muito mais do que os pobres.
Quanto mais? Tendo em conta que quem aufere o rendimento mínimo ou algo similar não paga IRS e, devido ao seu reduzido consumo, paga pouco IVA, parece-me provável que uma pessoa como eu pague entre vinte a trinta vezes mais que alguém nessa situação.
Aposto que muito pouca gente faz estes cálculos.
Achei por isso curiosíssimo ler hoje no Público uma entrevista à historiadora Maria de Fátima Bonifácio onde ela se manifesta favorável à ideia de as pessoas de posses pagarem mais do que a sua empregada quando recorrem ao SNS.
Apreciei especialmente a parte em que diz: "A desculpa de que já descontam no IRS é uma desculpa de mau pagador. Não faz sentido."
Este argumento é muito bom, quase inultrapassável. Mas não quereria a senhora professora ter a bondade de desenvolver um pouco mais a ideia para as pessoas lá em casa, incluindo a sua empregada, conseguirem percebê-la?
De Miguel a 29 de Janeiro de 2012 às 18:47
Eu acho que há mais esperteza por ai do que parece.
É que analisando, com atenção, podemos verificar que os cidadãos que têm de pagar de taxas moderadoras (ou co-pagamento, de facto) correspondem, de facto, aos clientes alvo dos seguros de saude.
Verificamos tambem que os co-pagamentos a exigir no SNS são superiores aos co-pagamentos num seguro de saude "normal".
Portanto, a rede que levará ao fim do SNS está a ser montada. Começa por "migrar" uma fatia significativa da população para os seguros privados. Em breve será fácil "demonstrar" que o sistema funciona e deve ser alargado.
Algum tempo depois os nabos que se deixaram enganar verificarão que não pode pagar (ou não os aceitam) o seguro privado e o SNS já não existe.
A estratégia não é nova.
miguel
De Anabela M a 29 de Janeiro de 2012 às 21:17
Nem mais!
De Nuno a 30 de Janeiro de 2012 às 09:53
Na mouche Miguel. E até temos um ministro da saúde que trabalhava na saúde privada, que para lá voltará depois de feito o trabalhinho de enterrar o SNS! Achar que o SNS deve ser sustentável é uma ideia de crianças!
De Rafael Ortega a 29 de Janeiro de 2012 às 20:58
"A desculpa de que já descontam no IRS é uma desculpa de mau pagador. Não faz sentido."
Não compreendo como é que alguém que fique sem 25, 30, 50% dos seus rendimentos pode ser considerado mau pagador...
De Manolo Heredia a 29 de Janeiro de 2012 às 21:12
As pessoas "de posses" têm seguro de saúde e recorrem aos serviços de saúde privados.
As pessoas "de posses" que são forretas, e por isso não têm seguro de saúde, devem ser forçadas a comportar-se decentemente, fazendo um seguro de saúde e beneficiando dele.
Foi esta a mensagem que a Dra. Maria de Fátima Bonifácio emitiu.
Muito bem, João PC.
Quanto ao sr. Manuel Herédia, não me interessa se a mensagem é pensada ou não, mas o que quer dizer é:
- «As pessoas "de posses" têm seguro de saúde e recorrem aos serviços de saúde privados» (e também recorrem aos serviços de saúde públicos, não tenho quaisquer dúvidas)
- «As pessoas "de posses" que são forretas, e por isso não têm seguro de saúde, devem ser forçadas a comportar-se decentemente, fazendo um seguro de saúde e beneficiando dele» (e verificarem que o negócio é vantajoso, pois deixam de pagar a segurança social pública, a partir do momento que este deixa de ser universal)
- Não sendo o serviço público de saúde universal, mas à escolha do freguês (para quem pode escolher), não se pode obrigar a pessoa "de posses" a continuar a pagar o serviço público de saúde.
capisce????
tudo o resto: a «minha empregada», etc. etc. vai dar à poupança de deixar de pagar o SNS, condenando-o, sem qualqeuer decência.
Só uma pergunta: no caso de a "pessoa de posses" ter uma doença terminal prolongada, o seguro de saúde privado resolve o problema. Talve seja bom pensar nessa possibilidade.
De Manolo Heredia a 29 de Janeiro de 2012 às 22:32
Os SNS dos países europeus não têm a mínima hipótese de sobreviver no longo prazo. Isto porque os meios que a medicina vai inventando para manter os idosos vivos são cada vez mais diversificados e cada vez mais caros.
Não é possível ter um sistema público em que, por exemplo, se fazem duas transfusões de sangue e diversos tratamento de estabilização do um doente com 90 anos para depois lhe fazer uma operação ao intestino que lhe permitirá viver mais 2 anos (na melhor da hipóteses). É um caso concreto que tive conhecimento. Uma intervenção destas custa cerca de 15.000 euros num hospital privado.
Os hospitais públicos estão cheios de idosos, não para serem curados mas para serem mantidos vivos. É cruel nas é real.
De Gonçalo a 30 de Janeiro de 2012 às 11:52
Não tem razão, Manolo. Essa visão é puramente ideológica mas, vá, depois do bombardeamento de saturação a que somos submetidos, compreendo que os menos avisados sejam facilmente "sugestionados" relativamente a isto.
Bem, quanto ao caso concreto que aponta, posso dizer-lhe, por experiência própria, que infelizmente nem todos têm a mesma sorte. E que espero que, um dia, não tenha de ouvir um enfermeiro dizer, por outras palavras, para ir levar a sua mãe morrer para casa, porque não há camas e porque já é velhota.
Num país onde miseravelmente muitos doentes são ainda tratados nos corredores dos hospitais, ou onde se morre sozinho em casa, repugna-me a forma como se arrotam estas alarvidades sobre o SNS ou sobre o que quer que seja.
Fala-se sem se saber muito bem o que se diz, porque se ouviu um "doutor" qualquer dizê-lo na TV. Somos todos tão espertos e tão cultos, tão sabidos das coisas do mundo, mas não passamos de pedantes.
Ora então, o que é que se fazia aos idosos que "enchem os hospitais"?
E quando chegar a vez dos seus pais? E a sua?
Porque é que não espeta já um tiro nos cornos? Ou, melhor ainda, faça-o no dia em que se reformar, para não dar despesa ao SNS e maximizar as contribuições.
Esse tipo de discurso é, desculpe que lhe diga, absolutamente asqueroso.
Caríssimo Manolo: o SNS TEM mais do que a minima hipotese de sobreviver. Se é um sucesso na Dinamarca e nos restantes países escandinavos não tem a ver unicamente com a riqueza relativa. Tem a ver, sim, com:
a) uma população muito mais consciente dos seus direitos e menos permeável a retóricas puramente políticas e egoístas
b) uma questão de prioridades. O SNS é A prioridade absoluta por lá, enquanto que, por cá, é visto como um fardo, um anacronismo socialista, um empecilho ao livre crescimento do mercado.
De Manolo Heredia a 30 de Janeiro de 2012 às 19:17
Gonçalo, acorde!, o barco bateu na rocha e vai afundar-se. Eu sei que há comandantes muito conscientes e que uma companhia de navegação deste gabarito não contrata comandantes inconscientes, porém o barco está a afunda-se, é melhor ir vestir o colete de salvação !
Na Dinamarca, Suécia, etc. os deputados que moram longe da capital alugam um T0, às suas custas, enquanto exercem o cargo de deputados. As pessoas que alugam casas a turistas do tipo "cama e pequeno almoço" passam recibo e cobram IVA (têm consciência que o Estado Social depende do pagamento de impostos).
Nada disso se passa em Portugal, França, Itália, Grécia, etc.. São culturas muito diferentes, que não mudaram nos 10 anos que o Euro tem de vida.
Não espeto um tiro nos cornos porque faz muito barulho, sou mais de tomar uma pastilha de cianeto, quando chegar a altura... Felizmente sou reformado a gozar de boa saúde, por enquanto, e sou realista também.
De Gonçalo a 1 de Fevereiro de 2012 às 12:07
Manolo, a dormir não ando. Acordo todos os dias às 7 para vir trabalhar. De forma realista.
Pergunto-lhe o seguinte: quando o barco se afunda, atiram-se os escaleres ao mar para reduzir o peso?
Se sabe onde está o problema, porque é que se há-de mudar a solução?
Quando me responde que na Dinamarca os deputados vivem em T0 e que toda a gente paga IVA só confirma o que lhe havia dito no post anterior: o futuro do SNS não tem a ver com riquezas relativas, mas com a prioridade que lhe é alocada.
Olhe, para ilustrar um pouco o caso, uma historieta relativamente recente, a que assisti num telejornal qualquer: no seguimento do caso do Anders Breivik, o chefe da polícia de Oslo - quando interrogado sobre a demora da polícia a acorrer à ilha - disse que a Noruega é um país pequeno e que, portanto, a polícia de Oslo não tem dinheiro para mais do que um helicóptero. Logo a seguir a este notícia, passa outra, já em território português: um acidente da nacional 125, e tal, capotamento, sem mortes. Vox Pop, "tudo muito mal", "é uma desgraça" e - pequeno pormenor - por "prevenção" foi chamado um helicoptero do INEM. Ao chegar ao local, constata-se que os ferimentos são ligeiros e, pronto, ala para Lisboa de volta.
O problema não é o SNS. É antes o laxismo, a crónica má gestão e a falta de vontade política em mantê-lo. Mas se as primeiras podem (e devem) ser mudadas, já a última deriva, unica e exclusivamente, de:
1) imbecilidade
2) ser O negócio mais apetitoso do momento
Só em 2011 (!!!) os 4 maiores grupos privados na área saúde aumentaram a facturação em cerca de 15%. E estão todos - sei-o bem - super entusiasmados com as perspectivas do negócio :) Ai não... com o aumento das taxas moderadoras...
Aqui, amigo Manolo, é que está o busílis. Mas enfim...
De qualquer maneira, e voltando à vaca fria, vejo, então, que reformado e de barriga cheia, é-lhe fácil teorizar sobre a coisa e dar-me uns avisos paternalistas e conselhos genéricos.
Pois então, se ainda goza de boa saúde (como desejo que continue por muitos e bons anos) o que fará quando não a tiver?
O que fará quando o seguro for caríssimo ou lhe pedir franquias monstruosas? O que fará quando no hospital lhe disserem que não o podem tratar? O que fará quando lhe disserem para ir morrer para casa?
Vai dizer isso aos seus filhos? Vai dizer adeus? Vai compreender e aceitar, como um bom e avisado cidadão patriota, que, no meio de tanta rendas, subsídios, avenças, nomeações, sacos azuis, resgates insulares e privatizações não haja mais nada para si?
Vai mesmo tomar a pastilha de cianeto?
De Manolo Heredia a 1 de Fevereiro de 2012 às 18:04
Afinal estamos de acordo quanto ao diagnóstico da situação (diferença de mentalidades, negociatas com a saúde privada), porém:
PIB por cabeça (2010)
Portugal $22.900
Dinamarca $36.600
PIB(Pt)-PIB(Dk)= menos $79.000 milhões de dólares TODOS OS ANOS (Dk +63% que Pt)
o custo m2 de um hospital é semelhante nos 2 países, o custos dos médicos é semelhante e eles fazem mais descontos, os medicamentos e equipamentos hospitalares têm preços internacionais...
chega?
Mesmo para a Dinamarca não vai dar para acudir a milhões de idosos, se o SNS deles quiser usar a 100% os recursos mais modernos da medicina para manter vivos idosos com + 90 anos...
De henrique pereira dos santos a 29 de Janeiro de 2012 às 22:34
No mesmo jornal têm a ideia muito bem desenvolvida por Sobrinho Simões.
henrique pereira dos santos
De henrique pereira dos santos a 30 de Janeiro de 2012 às 10:14
Já agora não posso deixar de notar a coincidência de argumentação com o Automóvel Clube de Portugal sobre a taxação do estacionamento, as portagens, o eventual financiamento dos transportes públicos e todos os outros pagamentos que possam incidir sobre os automobilistas. De cada vez que se fala de qualquer taxa sobre automobilistas lá temos a lenga lenga do já pagamos no imposto de combustível, no imposto de circulação, no imposto automóvel, no IVA e por aí fora, portanto não faz sentido pagarmos, por exemplo, uma taxa de entrada em Lisboa que financie os transportes públicos. Não quero com isto dizer que o argumento não tenha alguma validade, mas é bem possível que uma distribuição equilibrada entre financiamento geral do Estado e aplicação do princípio do utilizador pagador seja mais justo e eficiente que a gratuitidade universal. É uma discussão difícil, complexa, em especial no sector da saúde (bem mais difícil que no sector da educação) mas não me parece que seja com simplicidade argumentativa e sem números (não são precisos, dir-se-á, quando se discutem questões de direitos fundamentais, como o direito à saúde, como se pelo facto de uma coisa ser um direito não fosse preciso gastar recursos a materializá-lo) que se vá a lado nenhum.
De Anónimo a 30 de Janeiro de 2012 às 14:11
HPS compara a recurso ao SNS ao recurso a um meio de transporte.
Como se o nivel de racionalidade de cada um dos utilizadores fosse igual, como se assimetria de informacao entre vendedores de servico e utilizador nao fosse brutalmente diferente.
Como se o recurso aos cuidados medicos fosse uma mera questao de "escolhas", entre se vou de automovel, mota ou transporte publico, se hoje vou ao cinema teatro ou nem por isso. Entre se, com uma pneumonia bilateral deverei "escolher" aceitar o receituario de antibioticos que o medico da urgencia prescreve ou se hei-de, ao inves, "escolher" presumivelmente no intervalo entre delirios induzidos pela febre de 40 Celsius, que se calhar nao ha "uma relacao qualidade/preco" adequada e que portanto ou "escolho" poupar o dinheiro e prefiro antes ir ao teatro, hoje vou de mota. Sou um "homo economicus" livre-decisor...
Em resumo, HPS ao nivel intelectual a que sempre nos habituou... Volte sempre.
De henrique pereira dos santos a 30 de Janeiro de 2012 às 15:48
Anónimo,
Por uma vez vou responder a anónimos que fazem ataques ad hominem.
Ao argumento de que direito fundamental ou não é preciso que haja recursos para o materializar, o anónimo respondes raspas;
Ao argumento de coincidência de que já pago impostos, não tenho de pagar mais taxas, o anónimo responde que estou a comparar acesso a cuidados médicos com meios de transporte;
Ao argumento de que esta é uma discussão difícil e complexa o anónimo responde com a lenga lenga do costume sobre a ausência de escolha do doente como se esta não fosse em primeiro lugar uma discussão sobre as escolhas dos governos e das sociedades;
Ao argumento de que esta discussão não se pode fazer sem reconhecer a sua complexidade e sem números o anónimo responde com simplificações demagógicas e sem números.
Agradeço-lhe profundamente que ao menos reconheça que estamos em níveis intelectuais diferentes. Se ao anónimo for reconhecida uma elevada craveira intelectual por este comentário eu agradeço que a mim me considerem risível. É caso para citar uma famosa carta: em todo lado onde vais só dizes mal de mim, e a todo o lado onde vou só digo bem de ti, mas quem nos conhecer aos dois sabe bem que nenhum de nós diz a verdade.
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