Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

Ricardo Reis, um economista que disse que "o efeito na economia real dos problemas nos empréstimos ‘subprime’ deve ser pequeno" e que acredita na tese da austeridade expansionista, decidiu escrever um artigo no Dinheiro Vivo sobre narrativas qualquer ligação à realidade.

 

Ricardo Reis insurge-se contra os que, em 2008, defenderam (e ainda defendem) a necessidade de investimento e despesa públicos para sair da crise e combater o desemprego, quando é evidente que isto nada resolve porque os défices aumentam as taxas de juro e matam o crédito a privados (o famoso crowding-out). Admito que na realidade postulada pela teoria económica de Ricardo Reis estas coisas aconteçam. Mas na realidade onde os outros, incluindo os 'pseudo-entendidos', vivem o que justifica os juros elevados em alguns países europeus, como por exemplo Portugal, não pode ser os défices elevados. Se assim fosse, a realidade de países como os EUA, inglaterra e Japão - que têm défices e dívidas elevados sem que isso tenha qualquer impacto nos juros - seria uma impossibilidade. Antes de se assumir como entendido, Ricardo Reis devia pensar nesta bizarra anomalia.

 

Para Ricardo Reis não é correcto dizer que 'o Fed salvou a economia americana enquanto a timidez do BCE enterra a Europa'. Ricardo Reis diz que 'os números mostram que se imprimiram mais euros do que dólares nos últimos dois anos' e que 'o BCE tem assumido mais riscos do que a Fed alguma vez assumiu'. Isto não só não corresponde inteiramente à verdade, como as duas realidades não são remotamente comparáveis. Primeiro, o aumento do balanço do BCE só passou a ser superior ao do FED en Janeiro de 2012, antes disso esteve sempre abaixo, muito abaixo. Segundo, o FED agiu muito mais cedo do que o BCE. Terceiro, em termos de risco de balanço, o Quantitative Easing (QE) do FED é diferente do LTRO do BCE: no QE a compra de títulos retira risco dos activos do balanço dos bancos americanos; no LTRO isso não acontece, porque os bancos mantêm a titularidade dos activos, sendo estes apenas utilizados como garantia para financiamento junto do BCE. Quarto, e o mais importante, ainda que o BCE tivesse feito exactamente o mesmo que fez o FED, o facto da Zona Euro não ter um Tesouro que emita eurobonds torna as duas realidades, em termos operacionais, radicalmente distintas: na zona euro, ao contrário do que acontece nos EUA, a dívida soberana é-o apenas no nome. Na ausência de um tesouro europeu e de eurobonds, mimetizar os efeitos da arquitectura monetária do dolar implicaria que a política monetária do BCE tivesse como um dos seus objectivos fixar os custos de financiamento dos diferentes Estados Membros - o que não acontece. Já agora, o FED não 'salvou' a economia americana. Os EUA tem problemas graves. O desemprego, por exemplo. Só não têm uma crise da dívida soberana.

 

Ricardo Reis é aquilo que alguns chamam de economista zombie, alguém cujas ideias pressupõem que a crise actual é uma impossibilidade e que, por isso mesmo, está condenado a viver numa realidade que não aquela em que nós, de facto, vivemos. Nessa realidade onde vive Ricardo Reis, os défices públicos levam sempre a um aumento de juros e o crowding-out é uma verdade axiomática; a economia ou está em pleno emprego ou para lá caminha, e o desemprego deve-se apenas a 'fricções' de curto prazo e à impossibiidade, momentânea, dos mercados funcionarem como mandam alguns os livros; os bancos centrais controlam a oferta de moeda e não apenas o preço a que os bancos se financiam; o crédito está limitado por um stock prévio de poupança e não apenas por rácios de capital e liquidez definidos pelo regulador; a austeridade gera confiança nos agentes privados; etc. Em suma: Ricardo Reis vive num mundo inteiramente criado pelas suas teorias, que, por defeito académico, definiu como sendo a realidade. Neste mundo, não é a teoria que se tem de adaptar à realidade; é ao contrário. Perante isto não é fácil levar a sério alguém que se julga um entendido e que se propõe destruir fantasmas.


1 comentário:
De Nelson Faustino a 1 de Fevereiro de 2012 às 01:48
João, 


Parabéns pela sua análise acutilante. Não sendo um entendido em economia (sou matemático e nunca estudei economia),  gostaria que explicasse melhor o que está a falhar na arquitectura do euro, já que tocou numa caixa de pandora que muitos desconhecem: a importância da criação de um  "tesouro europeu".


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