Sábado, 24 de Maio de 2008
Até há muito pouco tempo, era raro ver documentários no circuito comercial. Menos comum ainda que os documentários exibidos fossem portugueses. Isso está a mudar: Lisboetas, o documentário de Sérgio Tréfaut sobre os imigrantes que vivem na capital, teve mais de 17 mil espectadores. Um feito que Cartas a uma Ditadura, de Inês de Medeiros, tem todas as condições para duplicar.
A partir da descoberta acidental de um conjunto de cartas de 1958 -- , compradas num alfarrabista, que nunca as leu por pensar tratar-se de “cartas de amor” -- relacionadas com o Movimento Nacional Feminino, o documentário vai à procura das suas autoras. Da mulher de um alto dignitário do regime (director da companhia do gás) que acalentava “famílias de pobrezinhos” e ia de motorista “convencer” mulheres a voltar para maridos bêbados porque “o casamento é para sempre”, a uma costureira de aldeia que por ausência de marido era cabeça de casal e portanto podia votar (honra concedida nessa época apenas às mulheres “chefes de família” e às licenciadas), as protagonistas ouvidas fazem um retrato íntimo de um regime no qual, como diz Belmira, a costureira, “se vivia como dentro de uma concha –à espera”. Um regime em que, como narra uma das senhoras que se entregou de coração e alma ao movimento – criado como reacção à candidatura de Humberto Delgado à presidência, descrita numa das cartas como “um vento satânico” --, se faziam recenseamentos selectivos, riscando dos cadernos eleitorais as pessoas “do contra”, e se recebiam em casa os votos “fechados”, conta Belmira, que os entregava sem os abrir: “A gente nem sabia no que votava”. Contado por mulheres que “nunca se meteram em política”, porque “a política é coisa de homens”, o salazarismo, em todo o seu negrume, tristeza e injustiça, ganha uma dimensão próxima, realista, palpável, de uma brutal cândura. A maioria delas ainda fala de Salazar como um herói e um mito – e que pungentes são as imagens do velho gagá que, após a queda da cadeira, julgando ainda reinar sobre a nação, é destratado pelos técnicos que o filmam para a RTP e gritam: “ó, não mexa, não mexa” –, embora reconheçam que “não se podia falar senão era-se preso”, que “o Humberto Delgado talvez não fosse assim tão mau”, que “havia muita miséria” (uma delas lembra uma família que se alimentava de uma única sardinha, esfregando o pão no peixe) e até, num delicioso aparte de coscuvilhice, uma comente: “nunca foi bem explicada aquela relação do Salazar com a Dona Maria [a velha governanta do ditador], que mandava nele mas era feia e gorda e velha, não devia ser amante dele de certeza”. Por acaso ou não, quanto mais baixa a condição sócio-económica das mulheres entrevistadas, mais o seu olhar sobre o período é desencantado. Belmira é a mais crítica. Lamenta não poder ter sido “alguém” por ter sido obrigada a deixar a escola e a trabalhar dia e noite para sustentar os filhos, apresentando como o seu maior orgulho na vida poder ver os netos “formados”. “Não consegui com os meus filhos, mas consegui com estes”, diz, ao lado de uma neta que sorri, entre a comoção e a perplexidade. Para a neta de Belmira, é talvez impossível perceber como no espaço de duas gerações aquilo que era um sonho esforçado para a avó se tornou uma possibilidade banal, tão banal que desprezível: estudar, ser independente, ter voz – “ser alguém na vida”. Poder dizer: “Agora sei em quem voto”. O que é democracia e ditadura, pergunta Inês às entrevistadas. Este documentário é uma suave, afectiva, comovente mas exacta resposta. Devia passar em todas as escolas do país. E ser enviado, por correio, para casa de todos os que esqueceram ou insistem em esquecer a diferença. (publicado na notícias magazine de 18 de maio)
De ana a 25 de Maio de 2008 às 19:20
Tudo mudou e muito, felizmente. Se ainda hoje hoje as mulheres são pouco visíveis devido à imensa sobrecarga familiar que ainda lhes pesa sobre os ombros, nesses tempos eram completamente invisíveis. E todos eram donos dela: os pais, os maridos, o estado, a igreja, o patrão.
Em 1968, fui trabalhar para uma empresa em lisboa, entrei em julho. Reparei que todas as minhas colegas usavam meias. Havia assim umas regras para cumprir, como usar meias mesmo no verão, não usar cabelos compridos soltos, não usar "pinturas garridas", não usar calças. E vestir bata, mesmo nos escritórios, para se ser "impessoal".
Antes, na escola, os rapazes iam para um lado, as raparigas para outro. Nunca andei em escolas mistas.
Há quem pense que tudo teria mudado mesmo que não tivesse havido 25 de Abril. Também penso que teria mudado um pouco, mas não tanto.
Poderíamos ainda falar no total domínio do homem sobre a mulher, da incapacidade de esta se ausentar do país, comprar e vender bens, etc, etc, sem autorização do seu amado esposo. Mas fica para outra altura.
De Augusto Lopes Pires a 25 de Maio de 2008 às 01:23
Menina Fernanda, sou eu ainda, o Pires. Tão tarde e veja lá não tenho sono. Estive para ali a matutar, a menina é que podia fazer um documentários bonito sobre as senhoras dos altos dignitários do regime. Do de agora, assim uma coisa moderna. Elas não hão-de ficar em casa. A senhora do dr. Constâncio, a do dr. Gomes do Porto, a do Dr. Vara, as senhoras daqueles administradores por parte do estado, como se diz, também devem ter os seus motoristas e os seus pobrezinhos - que isso é coisa que não falta e com fominha tal qual como dantes. A menina é que podia fazer um documentário sobre isso, mas a cores que a preto e branco ficamos todos com um ar tão pobrezinho que dá dó. E daqui a 70 anos depois vêem e vêem como a gente era agora, quando tínhamos tão pouca gente a acabar a escola, menos 40% do que lá fora ou lá o que eles dizem e gente a emigrar para ser alguém e havia fominha. Dava um bonito documentário, a menina não se acanhe e lembre lá a ideia.
Irei ver com certeza. Aliás, já está marcado nos planos familiares.
De Augusto Lopes Pires a 25 de Maio de 2008 às 00:42
Ainda me lembro muito bem do programa do pai da menina Inês, no tempo da ditadura. Não sabia que o senhor Almeida era partidário da ditadura! Era um bom programa. E também havia aquele programa do Sr. Prof. Nemésio, era outro bom programa na RTP. Também não sabia que o Prof. Nemésio era da ditadura. Talvez fosse por se chamarem Vitorinos.
Tenho pena de agora não haver programas assim na RTP. É preciso ir ao cinema? E isso é coisa para custar quanto com as viagens?
De A.Silva a 25 de Maio de 2008 às 12:11
As coisas mudaram muito é um facto,contudo as pessoas que não conheceram esses tempos tem dificuldade em compreender o que elas representaram para as mulheres.Lembro-me de quando comecei a trabalhar passei a estudar numa escola nocturna,tive a sorte de viver em Lisboa porque no resto do País era coisa que não existia,onde as alunas adultas muitas delas já casadas e mães de filhos tinham que tirar por pouca que fosse as pinturas porque senão não eram autorizadas a entrar na escola,existia uma funcionária á porta do estabelecimento que mesmo nos dias quentes nos apalpava as pernas para se certificar se levavamos meias porque se não as tivessemos não podiamos entrar.É só um pequeno exemplo,do que acontecia as mulheres,que eu não esqueci e do qual a minha filha tem muita dificuldade em acreditar.
De Sotnas a 25 de Maio de 2008 às 09:52
No fundo, bem lá no fundo, será que as coisas não mudaram tanto assim, como diz o Sr. Augusto Lopes Pires ?
Quanto à Inês Medeiros ... Vá ser actriz em filmes. Fica MARAVILHOSA!
São péssimos os documentários em que põe o dedo! Tem o grande Génio de Destruir - com uma facilidade exemplar - qualquer ideia Muito Boa! Já o foi assim com o seu documentário "je t’aime... moi non plus" frase indiciadora do seu - digamos capricho - tão tique moderno como o da Srª Teresa Guilherme que quis ser artista de telenovela, tal como o dos Srs. tontos (enumera-los é dispensável, abram-se por divertimento os livrinhos na secção pomposa de uma livraria a dizer: Poesia Portuguesa) etc. Ora esta gente, Tal como a Inês Medeiros como documentarista se lhes desse na cabeça serem Cirurgiões Pediatras e quisessem operar o coração dos vossos Filhos ( não dos deles) Vocês deixavam??? Então porque lhes sacrificam os Olhos, os dedos, a tinta e a voz?? É! Vivemos mesmo tempos desmazelados, a arte contemporânea virou qualquer coisa que não vale a pena dar um pontapé, porque com ele ou sem ele não se dá por isso, então é melhor guardar energias para esbracejar e espernear quando o Cristiano Ronaldo estiver em campo à beira de um golo... etc.
Sim! A Inês faz muita diferença num ecrã de Cinema! LINDA. Mas Realizadora de documentários é MEDIOCRE até à tristeza lastimosa, a mesma com que se olha para qualquer incompetente, ufanado de vaidade.
(Sim! Digamos que faço "dieta", mas dos docslisboa, p.ex. vejo das 11 horas da manhã à 23 horas da noite todos os documentários possíveis em sala! Para já não falar dos outros suportes etc... Pelos excepcionais documentários e realizadores de cinema documental reservo-me ao direito de manifestar assim o meu repúdio ... É que o Cinema Documental é uma Área da Cultura quase Virgem (em Portugal) ao nível da profanação grosseira e por capricho do porque sim.
Nota: O Sérgio Tréfaut é um Realizador Muito BOM. Muito acima da Média. parece que também tem fragilidades, como esta de ser produtor de um documentário de uma amiga caprichosa como o é a Sra. Teresa Guilherme e afins.
Outra Nota:Sérgio Tréfaut é um Ser Humano Louvável ( e o que interessa isto?, É que é tão raro cruzarmo-nos com seres assim que quando os encontramos devemos apontar: Está aqui! Olhem!)
De Maria Rodrigues a 27 de Maio de 2008 às 03:22
e fará o sr. ou sra Puta Madre o obséquio de se indentificar ?? tão referenciado e conhecedor do meio não terá um nome ?
fiquei sem saber se nesse fartote de 12h seguidas chegou a ver o documentário em causa. Eu sem as suas referencias fui ver e gostei e
da Teresa Guilherme ainda não vi nenhum.
bem haja
De Ricardo Santos Pinto a 25 de Maio de 2008 às 23:12
Serge Abramovici, de pseudónimo Saguenail, será provavelmente o melhor realizador de documentários a trabalhar em Portugal. É belga, professor de Francês na Faculdade de Letras do Porto, marido da Regina Guimarães e um verdadeiro génio. Os documentários que fez com presidiários de Paços de Ferreira ou na Baixa histórica do Porto são fantásticos. Há-de haver quem não goste do género (num deles aparece ele próprio, grotesco, em grande plano, durante 5 minutos, a masturbar-se, ou a tentar) e quem lhe chame maluco, mas não se duvide da (alternativa) genialidade.
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