Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

São 11.07 e a SIC Notícias faz um direto para o aeroporto a apanhar o treinador Manuel José, vindo do Egito; magnífico momento de televisão, sempre presente onde a notícia acontece. Lá vem ele, a  jornalista Márcia Torres vai atrás; "não vimos ainda familiares de Manuel José", diz. Ele detém-se e fala. Pede desculpa por não ter respondido a ninguém. Teve um susto, recebeu condolências, foi um dia complicado. "O que é que me apetece dizer?". Que aquilo parece ter sido organizado. Fala dos "nossos adeptos" e depois diz que o árbitro que devia ter suspendido o jogo. E que "ninguém mexeu um dedo". Afirma ter uma "relação estranha com o povo egípcio" e que o Egipto tem uma história de "turismo cultural com 5000 e tal anos". A jornalista está interessada em saber se ele está preocupado com a passagem dos distúrbios para a rua. Pelos vistos, o Manuel José é o único que conhece o Egito e que a sua chegada a Portugal priva a imprensa portuguesa da única voz que conhece o terreno. E lá voltam as perguntas. "Nós perdemos o jogo porque o árbitro estava completamente condicionado". Depois, uma incursão na política: "Os cristãos querem mais direitos ainda dos que os que têm". "E quando foi para o jogo ia descansado?", pergunta uma perspicaz profissional. "Pode-se extrair alguma lição deste episódio?", pergunta outro ainda (é sempre bom querer saber a moral da história). A conversa volta à rivalidade entre adeptos de clubes e o entrevistado assegura que nunca houve problemas. A mesma jornalista insiste e quer saber se "ia descansado para o jogo" (coisa importantíssima, de facto, nem sei como é que não ocorreu perguntar-lhe o que tinha ele comido ao pequeno-almoço). Depois o treinador vai-se embora. A jornalista faz um sumário das declarações e termina dizendo que "vai diretamente para Espinho, para casa do filho" e que "vai continuar a ser treinador idolatrado no clube egípcio". São 11.22. 15 minutos de direto televisivo. Morreram mais de 70 pessoas, mas isso não foi mencionado (nem parece interessar muito), e para sabê-lo tenho que procurar noutro lado. Estrodinário.

1 comentário:
De primaveraverao a 6 de Fevereiro de 2012 às 10:04

Pode.
E também falar. Basta ouvir reportéres e pivóts.

Mas...e as crianças Senhor porque as obrigais a desapender o há bem pouco aprendido?
Porquê só às crianças dais dor? Tende piedade.

PS.
Gostava de ver o VGM nos apanhados linguísticos da RTP1


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