Sábado, 4 de Fevereiro de 2012
em 1997, joão carreira bom, colunista da revista do espesso, viu a sua colaboração com o jornal abruptamente interrompida por ter ousado criticar o patrão balsemão num texto sobre a programação da sic, que apelidava de 'tele-lixo'. o então director do jornal, o deslumbrante arquitonto, veio aliás asseverar que se tivesse tido conhecimento antecipado da crónica não a teria publicado.
apesar de ter chocado muita gente, esta assunção descomplexada da defesa da censura por um director de jornal (para mais com os pergaminhos do espesso) e o despedimento de alguém por delito de opinião não suscitaram nem debates no parlamento nem interpelações e nem sequer uma audiçãozinha na comissão de ética e comunicação social. nadunxa. isto porque, aparentemente, em portugal a censura e as cessações de contrato por delito de opinião só ganham relevo e só indignam se existir qualquer possibilidade de atribuir as causas àquilo a que costuma chamar 'o poder' -- sendo que para a maioria das pessoas que se pronunciam sobre estas coisas 'o poder' é só e apenas 'o poder político'.
vem este intróito a propósito daquele a que se deu o nome de 'caso pedro rosa mendes'. tenho poucas dúvidas de que, se ouviu ou teve conhecimento da crónica do pedro, o ministro relvas não terá gostado. acredito também que à própria administração da rtp o conteúdo da mesma não pode ter agradado. e decerto o pedro quando a escreveu não tinha em vista ser simpático para uma e outro. daí que o facto de, a seguir à publicação da crónica, ter sido informado de que a sua colaboração ia terminar, não possa deixar de criar a suspeita de que esse afastamento se deveu ao conteúdo da crónica -- mesmo que não tenha sido esse o caso.
a diferença de reacção face aos dois casos -- o de carreira bom e o de rosa mendes (e poderia dar muitos outros exemplos, incluindo um recente ocorrido na bola) --, se frisa o quanto a defesa da liberdade de expressão está geralmente adstrita, em portugal, a critérios de oportunidade da luta política, permite por outro lado perceber o quanto é importante a existência de serviços públicos de informação e de difusão de opinião. é que estes são os únicos em que os critérios editoriais passam necessariamente pelo crivo da sindicância parlamentar e podem ser questionados com efectivas consequências. num mundo em que toda a informação e difusão de opinião é privada, o debate e a interpelação sobre situações em que a liberdade de expressão possa estar em causa fica, como parece amplamente demonstrado no caso de carreira bom, restringida pela ideia do 'direito de quem paga'. a 'deslealdade' ao patrão dos media só está consagrada e só é esperada e incensada, afinal, no serviço público.
assim, ao contrário do que se tem sustentado, casos como o chamado 'caso rosa mendes' só reforçam a necessidade de um serviço público de rádio e tv.
O Relvas era incapaz de tal malvadez...a culpa é da F.Campos Ferreira e o seu "Reencontro" que foi certamente dos seus programas mais partidários....e negativos.
De DSC a 4 de Fevereiro de 2012 às 19:33
Fora os saneamentos na era sócrates..
De
f. a 4 de Fevereiro de 2012 às 19:36
pachorra.
De mac a 4 de Fevereiro de 2012 às 19:38
Cara Fernanda,
Estou de acordo com a tua conclusão de que em Portugal deve haver um serviço público de rádio e TV. Acrescento mais, esse serviço deve ser forte e bem financiado, incluindo receitas de publicidade.
O que é mais grave, para mim, é o facto que todos os órgãos de CS em Portugal são propriedade de empresários que militam ou fazem o jogo da direita. Nos últimos anos todos eles perderam a vergonha, se alguma vez a tiveram, e fazem da CS não um negócio mas um meio de obter favores políticos que, mais tarde, trarão proveitos muito superiores aos encargos financeiros que suportam para manter vivas essas empresas.
Uma sociedade democrática, para sobreviver, precisa de uma CS ideologicamente bem balanceada.Aqui o serviço público e a regulação (ERC) podem fazer a diferença. Contudo, isto é uma condição necessária que pode não ser suficiente
Por favor não te ofendas com esta afirmação, que eu próprio considero forte: atualmente alguns jornalistas de esquerda, como tu, são mantidos nas redações dos jornais com o simples propósito de se arranjar uns bibelots para enfeitar uma montra.São jornalistas brilhantes mas não garantem, por si só, a pluralidade na CS portuguesa
De Niamey a 5 de Fevereiro de 2012 às 00:30
mac, são as "honrosas exceções" do jornalismo português(expressão de Mário Soares) que não mudam nada no panorama jornalístico nacional que é, sendo assim e em rigor, medíocre, mau, péssimo e under dog...na verdade sem exceções. As que "existem" servem para aparentar credibilidade, dão jeito. Refiro-me sobretudo ao jornalismo português. Jornalista é a profissão que,atualmente e por excelência, pode e deve ser generalizada: é tudo do piorio, não escapa um e qualquer um pode ser jornalista. Não tem nada que saber. Uma porteira é jornalista,para o que é bacalhau serve e não tenho respeito por porteiras e abomino a frase do bacalhau....mas é a única que dá para o jornalista. As honrosas exceções são maquiagem.
Isto fui eu a comentar e a fazer uma apreciação a partir do Facto que aponta no seu comentário. A apreciação é apenas minha. O seu comentário é um simples Facto. Infelizmente.
"num mundo em que toda a informação e difusão de opinião é privada, o debate e a interpelação sobre situações em que a liberdade de expressão está, como ficou amplamente demonstrado no caso de carreira bom, restringida pela ideia do 'direito de quem paga'."
O direito essencial da liberdade em sábias palavras.
De
f. a 4 de Fevereiro de 2012 às 20:48
essa frase tinha um piqueno problema: faltava-lhe qq coisa. já arranjei.
De Nuno Gaspar a 4 de Fevereiro de 2012 às 20:40
"num mundo em que toda a informação e difusão de opinião é privada"
Hã?!
A blogosfera e redes sociais afins também são privadas?
Corrija, se faz favor: nunca existiu tanta possibilidade de difusão pública de informação e opinião. Quem quer propaganda pague-a do seu bolso.
De
f. a 4 de Fevereiro de 2012 às 20:48
pachorra.
De JgMenos a 5 de Fevereiro de 2012 às 00:23
Sempre me confunde este aparente direito do jornalista de que lhe paguem para dizer tudo o que entende dizer.
A liberdade de expressão na área da notícia, tem por contraponto a censura - é ilegítima e inconstitucional.
Na área da opinião, não tem uma publicação direito a uma linha editorial, e até a um área de interesses?
Não tem o jornalista de procurar as publicações que aceitam divulgar os seus pareceres, como outros procuram partidos, criam blogs ou sobem num banco na praça pública?
No demais, que se reservem direitos nos contratos de trabalho, e se obtenham as compensações a que tenham direito.
E que haja uma ERC não partidarizada, honesta e que decida em 2 dias!
De Tiro ao Alvo a 6 de Fevereiro de 2012 às 15:23
Estou consigo JGmenos. Esta gente quer convencer-nos de que a maioria da CS é de direita. E que o director de cada jornal não tem direito de definir a linha editorial. Direito têm os donos dos blogues de censurarem os comentários, quando não lhes agradam, como acontece aqui no Jugular. Coisas.
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