Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012
Paulo Pinto

Ontem tive uma experiência cinematográfica interessante: fui ver a mais recente obra de Martin Scorsese, chamada bizarramente em português "A Invenção de Hugo" (não entendo de onde vem "a invenção"). Duas coisas impeliram-me a ir ver o filme logo que tive oportunidade: a primeira foi a extrema curiosidade em verificar como o velho realizador iria lidar com o 3D; a segunda resultou do alarme do trailer. Ambas me fizeram temer: iria o homem de A Última Tentação de Cristo sucumbir à tentação tecnológica? Assim parecia. Quem vê a apresentação parece estar perante um blockbuster cheio de ação, um autómato, correrias, movimento, um puto pendurado nos ponteiros de um relógio, um comboio a entrar pela estação adentro. Tudo propício ao 3D, mas nada adequado a Scorsese. O resultado, porém, desfez todos os receios.

É uma obra magnífica, cheia de pontos de reflexão e de food for thought, onde o 3D, afinal, afina a cor, o contraste e o brilho e aprofunda a dimensão estética. É um filme de e para cinéfilos, onde Méliès, Harold Lloyd, Lumière, Buster Keaton e Chaplin, entre outros, fazem a sua aparição, uma homenagem aos primórdios do cinema. Mas é, mais do que tudo, um exercício sobre o tempo. Num certo momento, o público de um teatro assusta-se com o célebre filme de Lumière de um comboio a entrar numa estação. A assistência da sala, esta, a de agora, ri-se e troça... sem perceber que está com óculos 3D, objeto destinado a causar as mesmas emoções que o ângulo cinematográfico escolhido por Lumière e que, daqui a um século, parecerá igualmente ridículo. Scorsese manipula e ironiza com o tempo. O tempo e a memória: filme de 2011 passado numa década de 1930 que homenageia e recupera um tempo ainda mais remoto, o do início do século, e os seus efeitos sobre a memória.

Não só o tempo, mas a medição do tempo: o filme está cheio de relógios, mecanismos, engrenagens - é passado numa estação ferroviária, expoente da civilização - num fresco que invoca uma época de certezas e de otimismo entretanto perdida: do progresso da ciência, do triunfo da máquina, do avanço da tecnologia, rumo a um futuro radioso. Há aqui um exercício amargo e subtil de ironia e de auto contenção: Scorsese sabe, em 2011, que os tempos que se seguiram foram tudo menos luminosos. Mas o filme ultrapassa e vai além do tempo: do mesmo modo como o autómato que enche o trailer é apenas um pretexto da trama, da mesma forma como a articulação meramente mecânica do mundo é aparente (o protagonista chega a afirmar que imaginava o mundo como uma "grande máquina"), a essência do cinema não é técnica ou mecânica. Como diz o próprio Méliès, é magia e ilusão: " If you've ever wondered where your dreams come from, you look around... this is where they're made".

Esta celebração onírica do cinema não deixa, uma vez mais, de encerrar uma dimensão irónica: todos sabemos que esta casa dos sonhos é algo que faz também parte de um passado: numa era de DVDs, televisão por cabo, VODs, youtube e clips, em que as pessoas assistem a pedaços de cinema, passam à frente para a parte mais interessante, saltam "as partes chatas" e perdem qualquer respeito pela integridade de uma obra, o fascínio pelo cinema está em extinção. Não? Então porque há prelúdios publicitários intermináveis, intervalos arbitrários, e, sobretudo, gente a fazer ruído insuportável a comer pipocas, a atender telemóveis e a falar como se estivesse na sua sala de estar?

9 comentários:
De c a 21 de Fevereiro de 2012 às 22:25
chamada bizarramente em português "A Invenção de Hugo" (não entendo de onde vem "a invenção")

A "invenção" vem do livro no qual este filme se baseia, The Invention of Hugo Cabret http://en.wikipedia.org/wiki/The_Invention_of_Hugo_Cabret

Agora esteve mal em, pesar de achar que não faz sentido alterar o título desta forma, se o original é simplesmente Hugo.


De Paulo Pinto a 21 de Fevereiro de 2012 às 22:51
Bom, ainda bem que ninguém se lembrou de chamar o  "Blade Runner" de "Será que os andróides sonham com ovelhas elétricas?"


De c a 21 de Fevereiro de 2012 às 22:28
À parte do reparo, gostei do seu texto.


De sem-se-ver a 21 de Fevereiro de 2012 às 23:11
meu deus, vc nao percebeu nada do filme....

(mas ainda bem que gostou)


De Paulo Pinto a 21 de Fevereiro de 2012 às 23:23
já desconfiava disso mesmo...


(mas ainda bem que alguém percebeu)


De Mitsuko a 22 de Fevereiro de 2012 às 01:14
Parece-me que há um certo prazer em apanhar o autor em falta, em gozar com comentários, opiniões, em achar que há um detalhe que lhe escapou e esfregar-lhe a verdade (a que só alguns iluminados parecem ter acesso) na cara...

Talvez seja por trabalhar com crianças que tudo isso me parece infantil.

Obrigada, Paulo Pinto, por este (e outros) post. Queria ir ver o filme, agora quero ainda mais. Tenha ou não o Hugo inventado alguma coisa...


De primaveraverao a 22 de Fevereiro de 2012 às 12:13

Subescrevo Misuko.
É já hoje.


De zacarias a 22 de Fevereiro de 2012 às 17:09
a seguir vai-nos confessar que leu todos os livros do paulo coelho?


De florzinha a 28 de Fevereiro de 2012 às 15:58
gostei de ler o texto e até fiquei com vontade de ver o filme mas, não resisto a responder à sua última pergunta: porque talvez nem toda a gente tenha a sua forma de apreciar a arte em geral e o cinema em particular. porque há, e nem sequer são poucos, quem ache que um espaço público de carácter cultural e recreativo, vulgo bar, seria melhor local para apresentação e apreciação de determinadas obras de arte do que os verdadeiros cemitérios em que muitas vezes se transformam os museus hoje em dia.
termino, sem qualquer intenção de julgar, dizendo que a relação que estabelecemos com o outro completa e é parte integrante de qualquer relação que estabeleçamos connosco próprios.
abraços.


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