Ontem tive uma experiência cinematográfica interessante: fui ver a mais recente obra de Martin Scorsese, chamada bizarramente em português "A Invenção de Hugo" (não entendo de onde vem "a invenção"). Duas coisas impeliram-me a ir ver o filme logo que tive oportunidade: a primeira foi a extrema curiosidade em verificar como o velho realizador iria lidar com o 3D; a segunda resultou do alarme do trailer. Ambas me fizeram temer: iria o homem de A Última Tentação de Cristo sucumbir à tentação tecnológica? Assim parecia. Quem vê a apresentação parece estar perante um blockbuster cheio de ação, um autómato, correrias, movimento, um puto pendurado nos ponteiros de um relógio, um comboio a entrar pela estação adentro. Tudo propício ao 3D, mas nada adequado a Scorsese. O resultado, porém, desfez todos os receios.
É uma obra magnífica, cheia de pontos de reflexão e de food for thought, onde o 3D, afinal, afina a cor, o contraste e o brilho e aprofunda a dimensão estética. É um filme de e para cinéfilos, onde Méliès, Harold Lloyd, Lumière, Buster Keaton e Chaplin, entre outros, fazem a sua aparição, uma homenagem aos primórdios do cinema. Mas é, mais do que tudo, um exercício sobre o tempo. Num certo momento, o público de um teatro assusta-se com o célebre filme de Lumière de um comboio a entrar numa estação. A assistência da sala, esta, a de agora, ri-se e troça... sem perceber que está com óculos 3D, objeto destinado a causar as mesmas emoções que o ângulo cinematográfico escolhido por Lumière e que, daqui a um século, parecerá igualmente ridículo. Scorsese manipula e ironiza com o tempo. O tempo e a memória: filme de 2011 passado numa década de 1930 que homenageia e recupera um tempo ainda mais remoto, o do início do século, e os seus efeitos sobre a memória.
Não só o tempo, mas a medição do tempo: o filme está cheio de relógios, mecanismos, engrenagens - é passado numa estação ferroviária, expoente da civilização - num fresco que invoca uma época de certezas e de otimismo entretanto perdida: do progresso da ciência, do triunfo da máquina, do avanço da tecnologia, rumo a um futuro radioso. Há aqui um exercício amargo e subtil de ironia e de auto contenção: Scorsese sabe, em 2011, que os tempos que se seguiram foram tudo menos luminosos. Mas o filme ultrapassa e vai além do tempo: do mesmo modo como o autómato que enche o trailer é apenas um pretexto da trama, da mesma forma como a articulação meramente mecânica do mundo é aparente (o protagonista chega a afirmar que imaginava o mundo como uma "grande máquina"), a essência do cinema não é técnica ou mecânica. Como diz o próprio Méliès, é magia e ilusão: " If you've ever wondered where your dreams come from, you look around... this is where they're made".
Esta celebração onírica do cinema não deixa, uma vez mais, de encerrar uma dimensão irónica: todos sabemos que esta casa dos sonhos é algo que faz também parte de um passado: numa era de DVDs, televisão por cabo, VODs, youtube e clips, em que as pessoas assistem a pedaços de cinema, passam à frente para a parte mais interessante, saltam "as partes chatas" e perdem qualquer respeito pela integridade de uma obra, o fascínio pelo cinema está em extinção. Não? Então porque há prelúdios publicitários intermináveis, intervalos arbitrários, e, sobretudo, gente a fazer ruído insuportável a comer pipocas, a atender telemóveis e a falar como se estivesse na sua sala de estar?
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
