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Embora suspender a racionalidade por seis meses

por João Pinto e Castro, em 17.01.13

Decorrida uma breve semana, já não se encontra por aí uma alminha capaz de defender a “qualidade” do relatório do FMI.

Em contrapartida, os que na altura acharam o trabalho “muito bom” (este grupo incluiu sem surpresa destacados jornalistas económicos) preferem agora uma outra linha de argumentação mais arrevesada.

Sustentam eles que, embora a operação seja criticável por pífia na forma e medíocre no conteúdo, a verdade é que a reforma que o tandem governo-FMI deseja é tão necessária como inevitável.

Como é que sabem?

Recorde-se que o relatório não se limita a propor medidas. Com a empáfia expectável dessas bandas, ele anuncia ao mundo que vai apresentar uma estratégia “inteligente” assente numa análise criteriosa da realidade do país em comparação com o que se passa “lá fora”.

Por outras palavras, pretendeu-se diagnosticar disfunções e anomalias efectivas do estado português como passo indispensável para identificar cortes racionais na despesa.

Mas, então, pergunto eu: se o relatório falhou miseravelmente nesse propósito – ou seja, se ficou por demonstrar a alegada ineficiência comparativa do estado português na saúde, na educação e na segurança social – como pode fazer-se de conta que ele necessita do tipo de reforma que o governo teima em levar por diante? Onde está a propagada “inteligência” de tudo isso?

Se a análise está errada, as conclusões não fazem sentido. A racionalidade é uma chatice.

 

(Ler também isto.)

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10 comentários

De Luís Lavoura a 17.01.2013 às 16:05

ficou por demonstrar a alegada ineficiência comparativa do estado português na saúde

Há uma coisa, porém, que está abundantemente demonstrada: que Não Há Dinheiro.
Ou seja, não é uma questão de eficiência na forma como o dinheiro é gastado, mas sim de insuficiência de dinheiro.
E, não havendo dinheiro, tem que se cortar nos gastos.

De João Pinto e Castro a 17.01.2013 às 16:23

Muita gente está convencida de que percebe o que é o "dinheiro" apenas porque traz um cartão Multibanco no bolso. Mas, mesmo sem entrarmos por caminhos complicados, está muito enganado: tirando os juros, sobra presentemente dinheiro ao estado, o que significa que ele não carece de financiamento externo adicional.

De Adolfo Dias a 17.01.2013 às 16:29

JPC
está errado, ainda existe um défice primário, de cerca de 1% do PIB, incluindo medidas extraordinárias
e, para só para estabilizar o rácio da dívida (isto é, assegurar que apenas não há aumento do endividamento em percentagem do PIB) é necessário um excedente primário de mais de 2% do PIB
E se quiser reduzir a dívida, em percentagem do PIB, tem que ter um excedente de mais de 3%
Como os encargos com juros até vão ser mais elevados, é mesmo necessário cortar na despesa

E nem precisei de puxar sequer do cartão de débito (vulgo Multibanco)

De João Pinto e Castro a 17.01.2013 às 19:55

Não havendo nova dívida, os juros não serão mais elevados. Quanto ao resto, está a falar de trocos.

De Luís Lavoura a 17.01.2013 às 16:36

tirando os juros, sobra presentemente dinheiro ao estado, o que significa que ele não carece de financiamento externo adicional

Eu já suspeitava disso, o Estado português tem presentemente um excedente primário.
Porém, para materializar isso que Você diz, seria preciso que o Estado deixasse de pagar os juros.
Não sei bem quais seriam as consequências disso, mas estou em crer que não seriam nada triviais.

De João Pinto e Castro a 17.01.2013 às 19:53

O seu ponto não é, portanto, que não há dinheiro, mas que certos pagamentos (neste caso, os juros) devem ter precedência sobre outros. E é claro que as consequências de não pagar pensões, educação ou saúde também não são, como diz, "triviais".

De Luís Lavoura a 18.01.2013 às 09:27

Eu não disse que nenhuns pagamentos devam ter precedência sobre outros.
Apenas registo que
(1) o JPC afirma que já não há défice primário,
(2) o JPC é partidário de que o Estado faça default.
Eu não sabia nem uma coisa nem a outra. Sabia que no BE e no PCP há partidários declarados do default, não sabia que na área do PS também os houvesse.

De João Pinto e Castro a 18.01.2013 às 14:47

O défice primário é hoje insignificante, nada que nos assuste.
Mas não pode inferir do que eu disse que sou ou deixo de ser partidário de não pagar os juros. Em contrapartida, o Luís defende - isso é claro - o default do estado português no que toca às suas responsabilidades para com os portugueses.
Finalmente, eu não sou de nenhuma "área".

De Gonçalo a 17.01.2013 às 18:33

Essa sua primeira frase, João, até a mim me doeu. Veja lá ainda vem o Portas por aí abaixo, frémito de emoção, com o dedinho em riste.

De ... a 17.01.2013 às 21:17


...Já para não falar das consequências de cortar os "pagamentos" aos militares, apesar do saldo histórico recente ter sido positivo... 

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