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Solidariedade e sentido coletivo

por Paulo Pinto, em 04.02.13

Disseram-me uma vez que o que distingue um português de um holandês é que, no país deste último, quando alguém conta ao vizinho que fugiu aos impostos, este denuncia-o ao fisco, porque percebe que está a pagar por ele; em Portugal, quando tal ocorre, o vizinho não só aprecia o relato como quer saber pormenores para poder fazer o mesmo. Isto é, evidentemente, uma anedota. Contudo, é uma historieta reveladora da falta de sentido coletivo e do individualismo com traços de infantilidade que está muito, mas muito incrustado nos nossos hábitos. O "Estado" não somos todos nós, é uma entidade que convém sugar porque nos esmifra e suga. Estou a falar em sentido geral, não estou, evidentemente, a particularizar o momento atual em que o sentido de injustiça, de desânimo e de absurdo é dominante. Por acaso, até estou, mas noutro sentido.

Há poucas horas ouvi num noticiário a informação de que o governo vai mesmo fazer cortes nos salários da TAP. Veio logo o representante do sindicato dos pilotos a lamentar a medida. Argumentos? Essencialmente, dois: a) é uma "medida populista"; b) irá levar à fuga dos quadros mais qualificados da empresa. Portanto, se queremos manter os nossos pilotos na transportadora nacional - porque as pessoas guiam-se pelo mercado - devemos abrir uma exceção. Muito bem. Aceito que uns milhões a mais ou a menos nao alargam nem saram os buracos orçamentais e que seria de todo importante evitar tal sangria de qualificações. A questão é: e podemos deixar fugir os músicos, os biólogos, os sociólogos, os canalizadores, os informáticos, os enfermeiros - há até quem diga que tudo não passa de "oportunidades" - ? fazem menos falta que os pilotos? têm menos dignidade, menos direitos, menos qualidades do que o escol da TAP? ah pois, não têm é a mesma capacidade de mobilização e de ameaça. Talvez por estarem desempregados, será? 

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11 comentários

De Nuno Rebelo a 05.02.2013 às 02:25

Não poderia concordar mais.

Há já uns quantos anos que aqui ando e cada vez mais, fruto do processo de crescimento, me vou apercebendo que de facto embarco numa certa categorização do povo português. Do sebastianismo, já o sabíamos, mas há mais ou haverá mais, deixo ainda a porta entreaberta, que caracterize o "ser-se português". Acredito então num ideia de traços comuns, de coisas aparentemente predominantes, sim.

Para reforçar a ideia aqui passada de egoísmo e inveja, assim a leio pelo menos, gosto sempre de referir aquela que considero como uma das mais paradigmáticas demonstrações de um certo ser-se português - a manifestação dos 200 mil ou quase professores com familiares, apoiantes, amigos. 200 mil ou quase na rua contra a avaliação. Só isto. Avaliação e talvez o Estatuto do Docente. Quantos vieram para a rua com os atuais cortes do nº de professores? Pois. Quantos viriam para exigir, nem que genericamente, "uma Escola melhor?" pois.

Somos egoístas. O nossos problema é, muitas vezes, maior do que o do outro, não o sendo.

Damos provas de sermos rápidos a regatear e exigir direitos mas a esquivarmo-nos aos deveres.

Ser piloto tem de deixar de ser visto como uma profissão de exceção . Há imensos pilotos que o não chegaram a ser. Há pilotos desempregados. E há pilotos que monopolizam. No meio s encontrará uma solução, a virtude até, quem sabe.

De M Rocha a 05.02.2013 às 08:39


Sim, os povos do Norte são excelentes a cumprir a lei e optimos cidadãos! De tal modo que se a lei disser que também de deve denunciar quem é judeu, não se inibem de o fazer, como bem se viu há pouco mais de meio século.Perante cenas dessas, confesso que preferia  ser siciliano....
 Quanto à substancia, penso que trata de uma forma algo ligeira uma questão bastante complexa. Penso que para muita gente, mesmo que não consiga elaborar sobre isso, a relação com o estado está inquinada pela atitude  prepotente e discriminatória deste, que  não age como pessoa de bem perante o cidadão. Dariam os holandeses a outra face como recomenda Cristo ? Ou derivariam para soluções  paralelas, para uma "cosa nostra" como fazem os sicilianos?

De Luís Lavoura a 05.02.2013 às 09:41

O Paulo Pinto não está a ver a ideia.
A TAP tem que tentar preservar os seus funcionários qualificados. Não se trata de um problema "nosso", de um problema do país, de um problema da sociedade - trata-se de um problema da TAP, que é uma empresa. É um problema só dela. Cada empresa, em Portugal, deve tentar preservar os seus funcionários qualificados. Se um sociólogo ou um músico estão no desemprego, eles não são problema de nenhuma empresa; se eles estão empregados mas não são muito necessários ao funcionamento da empresa, também não serão grande problema. Porém, os pilotos e outros funcionários da TAP são essenciais a ela, e ela tem quie tentar preservá-los, impedindo que fujam, por exemplo, para a Emirates.
É um problema da TAP, não um problema do país.

De primaveraverao a 05.02.2013 às 13:55


Da parte da denúncia não gosto. São tiques da dura II Guerra.
Dos holandeses aprendi que não bebem à semana nem em casa.
Mas, aos fins-de-semana, é coisa para quase coma.
São outras culturas com grandes sofrimentos colectivos e outra educação.
As crianças do Norte e Lesta da Europa são muito diferentes. Tem uma educação mais exigente e de responsabilidade.
Depois, aquela gente não paga impostos.
Paga seguros colectivos de alto retorno.
Não é comparável.
Por mim considero que paguei adiantado e estou a ser muito mal servida.
Se eu soubesse ....Ah...se eu soubesse....o que me esperava....

De Anónimo a 05.02.2013 às 14:22


Não existem "profissões de excepção"........excepto .....as seguintes:
-paineleiros das TV's
-sucateiros e criadores de residuos
-controladores de "factos" políticos
-cavalheiros com  cara-de-bacalhau- á- banda e gravatas azuis
-zés de laço apertado
-esfregador de costas
-polidores de cadeiras
-arrumadores de  inuteis

Alexandre
-

De Anónimo a 05.02.2013 às 14:34

Os holandeses serão assim tão delaktores? (O k é para contrariar o acordo ortográfico). Eu não gostaria de ser holandês.

De Anónimo a 05.02.2013 às 17:21

Caro anónimo:
Olhe que delator não tem "c" mudo antes do t.

De Anónimo a 05.02.2013 às 22:08

Eu sei que não tem "c". Mas agora passa a ter um "k" (já pertence ao alfabeto) bem audível e bem carregado antes do "t". Para chatear o Malaca Casteleiro.

De Anónimo a 05.02.2013 às 19:29

A TAP é Estado ou não é Estado?

Tem acesso à ADSE? À Caixa Geral de Aposentações?

Se é Estado regula-se pelas leis para o Estado. Se não é, então o Estado não pode mandar cortar salários. O Paulo Pinto quer que seja Estado? Ou gosta que os trabalhadores da TAP tenham o pior dos dois mundos? Aliás, como os dos CTT, etc.

Custa-me é que alguém ache que a aplicação universal de uma lei injusta torna-a mais justa.

Para taxar o rendimento das pessoas existe o IRS. O resto é confisco. E esse é sempre errado.

De jj.amarante a 05.02.2013 às 22:30

O poder negocial dos pilotos deriva de , além de serem profissionais muito qualificados, poderem, com muito mais facilidade do que noutras profissões, mudar de companhia que os emprega, dado que os aviões que irão lá pilotar são exactamente os mesmos e as regras para os aeroportos internacionais serem muito homogéneas.

De Gonçalves Correia a 06.02.2013 às 11:44

A mim palpita-me que vistas curtas são as suas. Solidariedade népia. O seu pensamento é que é tuga: se eu estou na merda todos os outros devem estar.
Em vez de se tentar elevar, prefere tentar nivelar todos pelos tornozelos.
Os vizinhos tem uma galinha melhor que a sua, não é?

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