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jugular

e se?

Ó filho, dá cá o pau ao caruncho. Foi a primeira vez que ouviu uma destas, teria uns 13 anos e seguia com os amigos para a escola. Não sabia bem o que era o "caruncho", mas o ar desbragado da mulher deu-lhe vontade de rir. Quase parou e ainda esteve para perguntar ao colega, mas este apressou o passo e olhou em frente. A partir daí, e à medida que crescia, passou a entender. Enfunava-te uma vela nessa verga que ta rachava toda. Mesmo que não entendesse o significado exato das palavras, era fácil detetar o tom babado e os olhos gulosos. Esfrega-me aqui esse alho no meu bacalhau. Umas eram mulheres feitas, outras quase garotas; outras ainda, bem mais velhas, pareciam ser quem dava o mote. Algumas metiam um ar falsamente delicado, o que lhe aumentava o incómodo e a sensação, profunda, de desrespeito, de exposição pública, como se fosse um animal ou um boneco. Fugiste da feira? É que és cá um pão com chouriço...

Foi ensinado a não responder, a ignorar, a não "dar trela", senão era pior. Uma velha asquerosa e babada, uma vez, pediu para ele lhe fazer um minete. Quando um amigo lhe explicou o que era isso, andou dias enjoado, só de imaginar... Ó menino copo de leite, anda cá que eu seco-to todo. Era um nó no estômago quotidiano, de manhã, quando saía de casa e sabia que tinha que passar naquela travessa, e ao fim da tarde, no regresso, nas redondezas de um certo estabelecimento. O tom variava, entre a piadinha brejeira - Chamas-te Izidoro Nobre, acertei? - e a interpelação grosseira e obscena - dava-te à bomba até te fazer calos nesses colhões. O que mais o incomodava era o caráter gratuito de tudo aquilo, para quê, qual a utilidade, qual a piada? Havia estúpidas provas de feminilidade com que elas se vangloriavam entre si, com os gajos que já tinham papado, e tal, agora aquilo, para que servia? A resposta era só uma: para nada. Era só para ele saber que estava debaixo de olho, que não riscava nada, que estava à mercê, ali à mão de semear, que era um pitéu pronto a ser devorado, se, quando, como e onde alguma delas quisesse. Não era desejo, nem elogio, nem humor, nem nada. Era poder, apenas isso.

Sabia que as mulheres eram assim, sobretudo em grupo. Cada uma delas era uma pessoa, se calhar boa pessoa, com responsabilidades, família, amizades. Sós, em ambiente maioritariamente masculino, ficavam intimidadas e não piavam. Mas assim, na rua, no meio das amigas, eram umas rainhas, em especial se calhava toparem com uma presa desgarrada, tenra e desprotegida. Umas bestas. Ó bom, tens um irmão gémeo? marchavam com caixa e tudo. O pai dizia-lhe que era mesmo assim, que sempre tinha sido assim, que no tempo dele até era pior, que as mulheres eram estúpidas e que não valia a pena usar a razão, muito menos a educação, para persuadi-las do que quer que fosse. A verdade é que toda a gente, elas e eles - sim, havia homens que nem se dignavam falar daquilo e desprezavam quem o fazia -, pareciam minimizar o assunto e reduzi-lo a uma banalidade; que eram elogios, que eles até deveriam sentir-se apreciados, que eram práticas inofensivas que os faziam sentir-se mais homens. E que, no fundo, todos gostavam, embora não o reconhecessem. Ó carapau, não tens bigode? anda cá que eu arranjo-te um.

Mas ele pensava de maneira diferente e estava certo de que não era assim, que não podia ser assim. Que tinha o direito a andar por onde quisesse e quando quisesse, sem ser importunado com assobios e comentários sobre a sua vida, sobre o seu corpo, sobre a sua roupa ou sobre a sua intimidade. Nunca foi fisicamente molestado, teve sorte. Os amigos não falavam muito do assunto mas, à boca fechada, um ou outro lá deixava escapar o asco que sentira com aquela mão, a repugnância daquele encosto, o arrepio daquele contacto não-solicitado, evitado mas suportado em silêncio. E, sobretudo, aprendeu que o que lhe ensinaram não era regra universal, que não tinha que ser assim porque sim, que em muitas regiões do globo o cenário era diferente. Havia até países onde eram os homens que importunavam as mulheres na rua, imagine-se. Alguém acredita?

(Para as Joanas, Ritas, Helenas e Cláudias de Portugal e do mundo)

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