Sábado, 11 de Outubro de 2008

Como preparação ao prometido post sobre as recentes declarações do Papa, resolvi escrever um pequeno preâmbulo que esclarece o contexto em que toda esta problemática se insere. Uma das questões que urge esclarecer tem a ver com as bizarras pretensões da Igreja sobre a suposta ineficácia dos preservativos. Esta bizarria que pretende, como indica o título do post, escravizar a ciência à teologia, foi propalada pela primeira vez em 2003 por Alfonso Lopez Trujillo, o cardeal à altura responsável pelo Conselho Pontifical da Família, que afirmou no documentário «Panorama - Sex and the Holy City», verberando que se apoiava em estudos «científicos», que o HIV é suficientemente pequeno para passar através dos «poros» (?) dos preservativos. As absurdas pretensões eclesiásticas, reiteradas e reproduzidas ad nauseam, foram defendidas veementemente por outros eclesiásticos, por exemplo Rafael Llano Cifuentes, bispo auxiliar do Rio de Janeiro, autor do argumento mais demolidor contra o preservativo que já vi: «nunca vi um cãozinho usar um preservativo durante uma relação sexual com uma cadela».

O dito bispo, numerário do Opus Dei então presidente da Comissão Família e Vida da CNBB, publicou em 12 de Novembro de 2003 uma «Carta às famílias do Brasil: a educação afetiva e sexual dos filhos e o uso do preservativo como inibidor da Aids» em que denunciava em termos muito enfáticos, entre outras coisas, o programa de distribuição de preservativos nas escolas públicas brasileiras. O auto-proclamado intelectual entre os bispos decidiu-se a defender (pseudo)-cientificamente não só os dislates à la Trujillo, como o que os restantes eclesiásticos pregavam de forma meramente (i)moral... A forma como o fez é educativa e vou assim dissecá-la. Começa o venerando e venerável senhor a sua prelecção dizendo que: Ultimamente tem aparecido, nos jornais, revistas e televisão – inclusive num programa de grande audiência – ataques a nossa grande família que é a Igreja, chamando-a de “retrógrada” e “medieval”, e tratando ao Cardeal Alfonso López Trujillo, que trabalha no Vaticano como Presidente do Pontifício Conselho para a Família, de uma maneira afrontosa. Culpam-no, erradamente, de não ter apresentado nenhuma pesquisa sobre a ineficácia dos preservativos. Também por esta razão nos vimos obrigados a citar bastantes pesquisas sobre esta matéria. Ao ler esta abertura, pensar-se-ia que D. Rafael se apoiaria de facto em resultados científicos para defender o seu irmão em Josemaría Escrivá de Balaguer, e não, por exemplo, no que discuti no «SIDA: Duplicidade intelectual ou dissonância cognitiva?». Na realidade, para além da defesa incondicional de Trujillo, Cifuentes pretende acautelar o que descreve logo de seguida: Estes argumentos [a favor do preservativo] parecem tão contundentes que não poucos católicos ficam perplexos. Talvez não chegam a contradizer abertamente a posição da Igreja, mas ficam com dúvidas ou acuados ou pelo menos fragilizados. Assim, para não estimular o que Bento XVI condena frequentemente, a «religião faça você mesmo», ou que os católicos se esqueçam que «Não há Teologia católica» sem aceitação do Magistério da Igreja, D. Rafael resolve dar os «esclarecimentos necessários para que os católicos percebam que: a Igreja – a única instituição duas vezes milenar – tem razões muito sérias para recomendar que não se usem os preservativos. Mas depois de muita prosa, quando finalmente se entra nas supostas razões muito sérias, estes são tão pouco sérias como o quote mining com que se inicia a prosa argumentativa: O eminente descobridor do HIV, Luc Montagnier, não se recusou a comprometer-se a fundo ao indicar como deveriam ser as campanhas contra a AIDS: “são necessárias campanhas contra práticas sexuais contrárias à natureza biológica do homem. E, sobretudo, há que educar a juventude contra o risco da promiscuidade e o vagabundeio sexual” . Note-se que não é o Padre que fala no confessionário, mas o cientista-descobridor do HIV. A lei natural determina que existe um vínculo inseparável entre a relação sexual e a transmissão da vida. Romper artificialmente essa união – como acontece no uso do preservativo – representa uma grave infração dessa mesma lei natural. Para além de ter dúvidas sobre o que seja esta «lei natural», ou antes, pressuponho que seja mais uma daquelas em que a ciência se deve submeter à teologia católica, na realidade esta «arregimentação» de Luc Montagnier, galardoado este ano com o Nobel da Medicina pela sua descoberta do HIV, é completamente errónea já não só o cientista tem sido muito crítico da posição do Vaticano em relação ao uso de preservativos como o que de facto disse foi: Eu penso que a campanha de disponibilizar preservativos para os jovens a 0.16 euros é muito importante e isso deveria ser generalizado. De facto, o perigo está presente e há poucas campanhas nacionais voltadas para os jovens. Muitas farmácias vendem preservativos a preços proibitivos para os jovens. O efeito dessa campanha de preços acessíveis é notável. Certamente, o preservativo não é a única atitude de prevenção: gosto de lembrar que a limitação do número de parceiros e a fidelidade recíproca são também atitudes responsáveis. Quando chegamos ao substracto científico, ou são «fontes da internet» ligada ao Opus Dei, opinações de médicos Opus Dei (como o salvadorenho Luis Fernández Cuervo citado por Trujillo) ou mais quote mining. Por exemplo, Cifuentes verbera que: Uma fonte da Internet subscreve: “Em maio de 2003, um estudo realizado na França pelo “Instituto da Saúde e da Pesquisa Médica”, põe os cabelos em pé, ao indicar que a metade dos preservativos usados se rompem ou se utilizam mal: há, portanto, segundo esse estudo, somente uns 50% de eficácia prática dos preservativos. A eficácia teórica, realizada no laboratório em condições ideais, é bem diferente da eficácia alcançada no uso prático dos preservativos. Assumindo que este Instituto da Saúde e da Pesquisa Médica é o Inserm, uma pesquisa exaustiva das suas bases de dados não revelou nada minimamente semelhante, mas dando de barato que se trata de um problema de tradução e existe um Instituto de Saúde francês desconhecido para mim, seria de facto um escândalo que «dados» tão importantes não fossem conhecidos do público em geral: Esta mesma fonte acrescenta: “Toda sociedade se fundamenta na confiança que os cidadãos têm nos responsáveis políticos, escolhidos democraticamente nas urnas, por isso mesmo não há nada mais decepcionante que a queda dessa confiança. Confiamos em que os responsáveis políticos haverão tomado nota destes importantes estudos que se acabam de citar, para agir em conseqüência, já que não se pode brincar com a saúde dos cidadãos” Mas a verdade é que mesmo que algum responsável quisesse atentar nestes «importantes estudos» teria alguma dificuldade já que não só o dito Instituto desconhecido é fruto da imaginação delirante de mais um Opus Dei como os dados que supostamente reportou são simplesmente inventados. Ou seja, no ponto supostamente científico, a referência bibliográfica número 6 citada por Cifuentes remete a um obscuro senhor José Javier Ávila Martinez, mais um Opus Dei . O sub director no Colégio Tajamar (também do Opus Dei) em Madrid carpe frequentemente a «desinformação» sobre preservativos mas não consubstancia as carpiduras. Aliás, essa sua tão providencial «informação» (de que o Instituto francês teria anunciado que 50% dos preservativos falham!!) já foi retirada da página - que se limita hoje em dia a apontar outros sites afins como o Hazteoir- embora continue a ser reproduzida e abundamente referenciada em inúmeros sites católicos. Tudo isto não impede Dom Rafael de concluir «cientificamente» que: O descobridor do HIV, o Centro de Controle de Doenças de Atlanta (que, segundo o autor, teria afirmado acacianamente que a única prevenção absolutamente segura é a abstenção), o Instituto da Saúde e da Pesquisa Médica da França, não falam fundamentando-se numa norma religiosa mas, pelo contrário, baseando-se nos resultados orientados por um estudo científico sério e consciencioso. Então, como é possível dizer que a “Igreja nega o óbvio”? Na realidade, o óbvio é simplesmente que Luc Montagnier defende a ampla distribuição de preservativos e o “Instituto da França” e as suas revelações bombásticas não passam de uma invenção do Opus Dei... Para impôr as suas conclusões, D. Rafael contempla ainda candida e falaciosamente o «milagre» do Uganda. Sem qualquer suporte que não seja o boletim Aceprensa, mais uma vez do Opus Dei, e o jornal La Gaceta de Negocios - um boletim das sacristias do Opus Dei cujos principais accionistas são membros desta organização, citado abundantemente pelo Bollettino della Prelatura della Santa Croce e Opus Dei -, Cifuentes vende o Uganda como o Éden perdido, em que os naturais vivem em completa castidade, não usam preservativos e como consequência a SIDA foi erradicada. De facto, estimava-se que o Uganda tinha em 1991 uma taxa de infecção de ~15-20%, enquanto que no ano de 2002 esta descera para cerca de 10%, mas tal deveu-se à campanha ABC (abstem-te, sê fiel e, se não seguires as duas primeiras, usa preservativo), contrariamente ao que afirmou o La Gaceta de Negocios em 2002 que assume que apenas as duas primeiras foram seguidas: O jornal espanhol La Gaceta de los Negócios, (16/12/02) comenta nesse sentido: “os patrocinadores do preservativo, como principal instrumento de prevenção da AIDS, em lugar de aceitar esta evidência – o grande sucesso da Uganda – se obstinam nas políticas de extensão do uso do preservativo, que leva inevitavelmente consigo o implícito convite à promiscuidade sexual sob a mentirosa promessa do ‘sexo seguro’. O resultado é o que temos diante dos olhos. Há loucos dispostos a tudo antes de propor o domínio sobre as paixões”. A afirmação está feita por um jornal comercial, não por um boletim paroquial. Mas apesar do nome, esta gazeta de negócios não passa de um jornal paroquial, ou antes, da prelatura Opus Dei, disfarçado. Mas importa igualmente referir que desde a imposição pela força dos doláres apenas da parte AB do programa -por moralistas cristãos como G.W. Bush -, as taxas de infecção no Uganda aumentaram, como confirmam Beatrice Were da ActionAid Uganda, Leigh Anne Shafer do Medical Research Council e o comissário ugandês para a SIDA, Kihumuro Apuuli. O pseudo-estudo de Cifuentes, assente exclusivamente em «fontes» ligadas ao Opus Dei e quote mining, é uma hidra de Lerna que vai duplicando cabeças em inúmeros sites católicos, como o Portal da Família ou o Veritatis Splendor, e foi exaustivamente invocado nas nossas caixas de comentários. Na realidade, é completamente falso que os preservativos tenham «buracos» por onde se escapa o HIV. Claro que pode ocorrer uma deficiente utilização do preservativo (e não apenas a imortalizada por António), este pode escorregar ou afins, mas é completamente impossível ao vírus da SIDA passar por supostos poros dos preservativos. Para ilustrar essa impossibilidade, pensemos num vulgar balão, feito de um polímero «rasca», com deficiente controlo de qualidade e mais «poroso» que aqueles que hoje em dia são usados na manufactura de preservativos. Este é cheio com hidrogénio, H2, hélio, He, ou azoto, oxigénio e dióxido de carbono se for cheio com ar, moléculas (ou átomos) muito pequenas. Mesmo em condições extremas, isto é, inflado a limites que um preservativo normalmente nunca chega, durante o tempo de utilização do preservativo, por exemplo o hélio, que apresenta um raio de 32 pm (1pm= 10-12) m, não se escapa do balão. O raio do HIV é cerca de 2000 vezes maior, ~70 nm (1nm= 10-9 m), isto é, é ca. 10 mil milhões de vezes mais volumoso. Mesmo sem saber muita química, nomeadamente de superfícies (não são apenas as dimensões «físicas» das partículas que determinam a permeabilidade), deveria ser assim chocante pensar nas dimensões da mentira em que tantos acreditam! Esta mentira foi exponenciada por Trujillo que afirmou ainda que «os preservativos podem mesmo ser uma das principais razões para a disseminação do HIV/SIDA», ecoando o que a conferência dos bispos da África do Sul, um dos países mais flagelados pela doença, tinha afirmado uns anos antes. Não é assim de estranhar que esta posição tenha escalado e muitos altos dignitários da Igreja de Roma tenham dito aos crentes que os preservativos transmitem a SIDA, por exemplo, o cardeal Obando y Bravo da Nicarágua, Raphael Ndingi Mwana’a Nzeki, arcebispo de Nairobi, o cardeal queniano Maurice Otunga ou o cardeal Wamala do Uganda. Suponho ainda que todos recordemos as declarações do arcebispo de Maputo no ano passado, que resumem bem o que pretendia focar com este preâmbulo: «Eu conheço dois países na Europa que fabricam preservativos contendo o vírus da sida. Eles querem acabar com os Africanos, é o programa. Se nós não nos prevenirmos, seremos exterminados dentro de um século.»

13 comentários:
De Palmira Silva a 11 de Outubro de 2008 às 21:13
Cara Ibidem:

Este post era apenas um preãmbulo, já estava um pouco farta das tretas sobre a «permeabilidade» e insegurança dos preservativos.

Há uns anos acabei um post que escrevi no Diário Ateísta sobre as Filipinas

http://www.ateismo.net/2005/10/25/cultura-de-morte-nas-filipinas/

Infelizmente, como se lamenta o Dr. Diego Danila que supervisiona este flagelo do aborto clandestino e as mortes maternais para o Departamento de Saúde filipino, todas as propostas de introdução de políticas de planeamento familiar têm sido vigorosamente boicotadas pela poderosa Igreja Católica! Que recentemente, via um grupo católico oximoronicamente chamado pró-vida, propôs uma lei que pretende proibir a venda da pílula e de dispositivos intra-uterinos nas Filipinas. Ou seja, não foram os contraceptivos mas a «santa» Igreja que de facto propiciou e continuará a propiciar uma política e uma cultura de morte para as mulheres filipinas com a sua posição inflexível, a do Vaticano, contra qualquer tipo de contraceptivos.

Como tão bem conta, nada mudou, e as Filipinas continuam um dos últimos redutos da teocracia católica...


De Jaime Roriz a 11 de Outubro de 2008 às 14:39
"«Eu conheço dois países na Europa que fabricam preservativos contendo o vírus da sida. Eles querem acabar com os Africanos, é o programa. Se nós não nos prevenirmos, seremos exterminados dentro de um século.»"

Dizer isto é que é criminoso


De rita a 11 de Outubro de 2008 às 15:16
Toda a posição da ICAR em relação ao preservativo é criminosa!!!!!


[...] http://5dias.net/2008/10/11/scientia-ancilla-theologiae/ You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, [...]


De António Parente a 11 de Outubro de 2008 às 22:29
Ibidem

Vamos falar do HIV/SIDA nas Filipinas. Segundo o último relatório publicado pelo Ministério da Saúdade filipino entre 1984 e Agosto de 2008 registaram-se 3 399 casos de seropositividade. As Filipinas têm uma população de 96 milhões de pessoas.

Convido a Palmira a actualizar o seu arquivo com esta notícia:

http://www.estadao.com.br/vidae/not_vid205847,0.htm

O relatório do governo filipino pode ser encontrado em:

"www.doh.gov.ph/files/NEC_HIV_Aug-AIDSreg2008.pdf"


De Luis Moreira a 11 de Outubro de 2008 às 22:41
E se a Igreja se peocupasse com os seus pedófilos? Os santarrões da Opus
se poderem enviam toda a gente para o inferno...que os parta! Palmira e Ibidem estava para fazer uma investigação sobre o assunto, mas como esgotaram a matéria fico na bancada a apoiar :-)


De Ibidem a 11 de Outubro de 2008 às 21:01
Se fosse só o preservativo... Então e a perseguição à pílula, o DIU, e tudo o que não passe pelo método das temperaturas?

Nas Filipinas, a população vive refém da toda-poderosa ICAR, que faz lobbying e ameaça governantes para impedir qualquer política de planeamento familiar que contrarie os éditos de Roma. Em Manila, cognominada a "primeira cidade pró-vida" do mundo, o anterior presidente da Câmara, sob a influência da Igreja, proibiu em 2000 a distribuição de pílulas e preservativos nos centros de planeamento familiar (que só podem aconselhar "métodos naturais" de controlo da natalidade, como o método das temperaturas e a abstinência nos períodos férteis), conduzindo rusgas para encontrar e destruir preservativos.

Oito anos depois de os contraceptivos terem sido banidos, e apesar de entretanto a cidade ter outro presidente, a proibição continua a vigorar, tornando impossível às mulheres, especialmente as mais pobres, obtê-los. Num país onde há anualmente, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, cerca de 800 mil abortos clandestinos (uma das taxas mais altas na Ásia), e onde 70% das gravidezes não desejadas acabam em aborto, segundo o Pro-Life Philippines (um grupo anti-aborto), as ONGs são obrigadas a distribuir contraceptivos de forma clandestina às famílias pobres.

Mas para o antigo presidente da Câmara e actual secretário de Estado do Ambiente, Jose Lito Atienza, os defensores do planeamento familiar são meras "vítimas da lavagem cerebral" do Ocidente, gabando-se de ter conseguido, com a proibição, ensinar às "inocentes e ignorantes" mulheres de Manila os "verdadeiros valores da família nas Filipinas". Em Setembro deste ano, apelou à rejeição de uma lei que visa garantir o acesso das famílias a métodos de controlo da natalidade (e não prevê a legalização do aborto), afirmando que, se o diploma for aprovado, conduzirá à "falência moral" do país.

Fala a uma voz com a ICAR, que continua a considerar a pílula e o preservativo como "métodos abortivos" e classifica a lei de "dizimadora das famílias". O arcebispo Paciano Aniceto, que preside a Comissão para a Família e a Vida na mui influente "Catholic Bishop's Conference in the Philippines", apuda os que querem garantir o acesso a métodos de controlo de natalidade de "propagandistas da cultura de morte". A Lei que prevê o acesso das famílias a contraceptivos tem sido bloqueada pela ICAR, que tem tentado por todos os meios ao seu alcance impedir a aprovação do diploma.

Testemunho das devastadores políticas de Atienza e da ICAR em Manila, e monumento maior da política deste devoto católico, é o "Haven for Angels" (Paraíso para anjos), um cemitério criado por ele e a mulher para enterrar os fetos abortados que se encontram a pontapé pelas ruas da cidade. No documentário da BBC de 2003, "Sex and the Holy City", citado pela Palmira, Atienza gabava-se de enterrar e baptizar "os fetos encontrados nas ruas, no lixo (…), nos passeios da cidade, não reclamados pelas suas irresponsáveis mães" - as mesmas a quem é negado qualquer acesso a meios de controlo da natalidade.

Um grupo de 19 mulheres (incluindo uma católica com sete filhos) apresentou no início deste ano uma acção judicial contra o Estado filipino, alegando que os casais têm o direito de planear quantos filhos querem ter de acordo com as suas convicções, e que a proibição viola a Constituição e as convenções internacionais. De acordo com uma sondagem de 2007 da organização Catholics for Choice, 77% dos filipinos são a favor do uso do preservativo no combate à SIDA, e 90 % dizem que votariam num candidato que apoiasse a introdução de meios modernos de controlo da natalidade, segundo um inquérito de 2007 do "Legislators' Committee for Population and Development", um orgão filipino.

Manila é longe, e podemos desvalorizar estes horrores como exotismo asiático. Mas basta transpô-los para Portugal para sermos percorridos por um arrepio de horror. Imagine-se que em Lisboa a única forma de obter preservativos e pílulas era no mercado negro, a preços exorbitantes. Que os católicos eram ameaçados de excomunhão se recorressem a métodos de controlo de natalidade "artificiais", mesmo casados. Que uma ateia como eu e milhares de pessoas não pudessem decidir quando e se queremos ter filhos - não pudéssemos, em suma, ser senhores e senhoras dos nossos corpos, apesar de não comungarmos das visões reducionistas da autonomia humana da ICAR. Que, impedidos de, de forma responsável, tomar medidas para evitar a gravidez, tivéssemos de abortar em vãos de escada ou ir parar à prisão (esperem lá, isto começa a soar estranhamente familiar...).

Que se vede às pessoas a possibilidade de recorrer a métodos contraceptivos e se imponha, a todos, uma visão cozinhada por papas misóginos e sexofóbicos, dá bem a medida do "Estado de direito" que a ICAR, se pudesse, nos impunha a todos.

P.S. Palmira, desculpe a invasão da caixa de comentários, mas receio que esta discussão não passe das taxas de eficácia do preservativo versus comportamentos sexuais responsáveis, como se uma coisa excluísse a outra, e como se o que estivesse em causa fossem simples "recomendações" morais proferidas do alto do púlpito, de católicos para católicos, e não uma verdadeira cruzada contra a autodeterminação sexual que não poupa ninguém, crentes e não crentes.


De Ibidem a 11 de Outubro de 2008 às 23:36
Cara Palmira,

O problema é que há pessoas impermeáveis a quaisquer argumentos, mas extremamente porosas aos sermões da ICAR. Algumas das mensagens e posts que li a propósito deste novo ataque do papa aos contraceptivos raiam a esquizofrenia. É que não se acredita que 10 milhões de portugueses saquem todos os dias religiosamente do termómetro, nem que cheguem todos virgens ao casamento ou tenham taxas de fidelidade de 100%. Mas apesar de não praticarem em casa o que o papa manda, e de serem os primeiros a abrir excepções sem qualquer apoio na doutrina agora reafirmada pela ICAR, pretendem à força que, se toda a gente seguisse integralmente as recomendações do sumo pontífice, não haveria SIDA (versão mais rebuscada do clássico "Faz o que eu digo, não faças o que eu faço").

Eu não cumpro, tu não cumpres, ele não cumpre, mas se ELES cumprissem, tudo iria bem no melhor dos mundos.

Alegar depois candidamente que, se os católicos não seguem o sumo pontífice numas coisas (abstinência e fidelidade), então também não o seguem na proibição do uso do preservativo – ergo te absolvo, papa, pela disseminação da SIDA e gravidezes indesejadas –, é um argumento tributário dessa mesma lógica abstracta e idealista que ignora a vida real e a complexidade do comportamento humano, e não sobrevive fora do castelo das ideias. Como se a ambivalência de uma mensagem que diaboliza o sexo pré-marital e condena os contraceptivos mesmo no casamento não condicionasse a autonomia e influenciasse, a um nível pelo menos inconsciente e de forma duradoura, comportamentos de avestruz. "Sê responsável sexualmente", diz a ICAR, "mas não uses contraceptivos". "Controla-te", ordena o papa, "mas não adoptes o controlo da tua sexualidade". Quem depois não resiste ao instinto ó mil vezes natural da sexualidade, não vai necessariamente a correr buscar um preservativo, para mais quando toda a gente sabe que os ditos não são eficazes, ICAR dixit.

Acharão mesmo que uma mensagem como esta promove uma vivência sexual saudável, responsável e autónoma? País de panglossianos: está a vista de todos que a moral sexual evoluiu e que os papas (a começar pelo antecessor) não acompanharam a passada. Mas apesar de os mais devotos casais católicos (digo-o sem qualquer ironia) terem a pílula ou os preservativos à cabeceira, ao lado do crucifixo, continuam a insistir que não há nada de intrinsecamente errado na mensagem. Algures num laboratório de ideias virtual – uma espécie de Second Life Católico –, a mensagem do papa continua válida. Dêem-nos o ambiente asséptico das ideias e dos jogos de computador e os meus 100% de eficácia via abstinência & fidelidade ganham ao teu preservativo – YOU LOSE, GAME OVER.


De Ibidem a 12 de Outubro de 2008 às 02:54
António, está de volta? Bons olhos o leiam. Folgo em vê-lo tão preocupado com o destino das mulheres filipinas que morrem de abortos clandestinos ou envelhecem prematuramente carregadas de filhos. E regozijo-me também pelos bispos terem finalmente "liberado", neste anno domini de 2008, o "malvado preservativo" para uso exclusivo de casais seropositivos.

É verdade que as Filipinas têm uma taxa muito baixa de prevalência de SIDA (apenas 0.01%, segundo a UNAIDS, que registava 12 mil seropositivos em 2005 – o que não bate certo com os "3 399 casos entre 1984 e Agosto de 2008" de que fala, porque, como sabe, o número de casos despistados não equivale ao número real, já que nem todos os casos são detectados).

A UNAIDS atribui o facto a uma combinação de factores, incluindo o reduzido número de toxicodependentes que consomem estupefacientes por via intravenosa, a baixa ratio de clientes por prostitutas, o elevado número de circuncisões (o que, segundo alguns estudos, pode diminuir o potencial de contágio até 60% a 80%), e o baixo número de outros tipos de doenças sexualmente transmissíveis que facilitariam o contágio, mas tanto aquele organismo como a Organização Mundial de Saúde afirmam que "o potencial para a explosão de uma epidemia está lá" e insistem que a proibição de preservativos não é uma forma de combater a doença.

Note que países como a Alemanha (com sensivelmente o mesmo número de pessoas que as Filipinas mas com políticas de prevenção da SIDA que insistem no uso do preservativo) têm exactamente a mesma taxa de prevalência (apenas 0.01%).

Espero que o António não esteja a sugerir que a proibição de contraceptivos é responsável pelo reduzido número de casos de seropositos, fazendo coro com os cardeais que dizem que os preservativos provocam a SIDA. Deverei assumir que acha que o caso filipino é um modelo de sucesso da doutrina sexual da ICAR (se descontarmos uns milhõezecos de abortos clandestinos e mulheres mortas)? Acha que devemos exportar a teocracia filipina, para usar a feliz expressão da Palmira, para o resto do mundo – ie, banir os preservativos das farmácias e passar a vender cintos de castidade?

Pergunto-me que modelo de combate à SIDA e sobretudo que modelo de sociedade é que defende, afinal. Eu posso dizer-lhe o que defendo. Educação sexual nas escolas e ampla informação sobre controlo de natalidade e doenças sexualmente transmissíveis. Acesso fácil a contraceptivos e preservativos, tendencialmente gratuito para grupos de risco, adolescentes e pessoas com baixos recursos económicos. Campanhas que, alertando embora as pessoas para os riscos que correm, deixem nas suas mãos a responsabilidade pelos seus comportamentos sexuais. Em suma, políticas que não ponham em causa a autodeterminação sexual e a dignidade dos seres humanos e não comunguem de moralismos (sexo só depois do casamento, por exemplo, ou só para procriação, são coisas que não me ouvirá defender).


De o sátiro a 12 de Outubro de 2008 às 06:30
ora aí está um post exemplo do desprezo pelos doentes da sida. Sentados diante do pc, vomitam calúnias contra a icar, enquanto a icar cuida dos doentes. Já alguma vez cuidaram de alguém? Enquanto isso, impingem a infalibilidade do preserv. A grande maioria dos doentes não sabe o k é a icar, ou está-se borrifando para a "padralhada"; não querem saber do k diz a icar, e depois a culpa é da icar? Haja sensatez! E esse cartão do DA é execrável: em tempos cheguei a ler lá textos do estilo: "madre teresa d calcutá era uma sádica genocida" . Mais execrável e desprezível do k isto é impossível.


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