Sábado, 16 de Agosto de 2008

Quis o acaso que aquando dos acontecimentos da Quinta da Fonte, que tiveram como mais visíveis protagonistas uma dúzia de ciganos e relançaram o sempiterno debate sobre integração das minorias, os bairros sociais, e o rendimento social de inserção, entre outras coisas, estivesse a trabalhar num documentário sobre ciganos. Na tarde em que alguém filmava os tiros no bairro social de Loures, eu filmava um almoço/entrevista com uma série de famílias ciganas. Falou-se de racismo – o da ‘maioria’, que os ciganos presentes chamavam “a vossa raça entre aspas”, contra os ciganos e o dos ciganos contra quem não é cigano. Falou-se da escola e do baixo nível de instrução da maioria dos ciganos, falou-se de realojamentos, de impostos e de subsídios e do rendimento mínimo, de direitos e deveres, da lei portuguesa e da ‘lei cigana’. Falou-se também de casamentos “prometidos” e da “tradição” de tirar as meninas da escola antes da puberdade.

Aberta e viva, com muito contraditório entre os próprios membros da comunidade, a conversa incluiu, por parte de alguns homens, não só a admissão de que os ciganos tendem a fechar-se entre si e a discriminar quem não é cigano como de que as mulheres não são, dentro da comunidade, vistas como iguais dos homens. Questionados sobre o porquê disto, os homens não souberam responder, invocando apenas “a tradição” e prognosticando, não sem tristeza, o seu fim próximo, que algumas das uniões presentes, entre ciganos e não ciganas, indiciaria. Certo é, no entanto, que essas uniões ocorreram sem a bênção das famílias e que em alguns casos o corte de relações durou anos (quando é uma mulher cigana a casar com um não cigano, a coisa é ainda mais complicada, sendo comum o afastamento definitivo da família) e que a dita tradição ou “lei” continua a fazer anualmente milhares de vítimas entre as meninas retiradas da escola e condenadas a uma vida sem escolhas ou mesmo casadas aos 12, 13, 14 anos. A semana passada foi divulgada uma investigação da polícia judiciária sobre esse tipo de casamentos, geralmente aprazados pelas famílias quando os nubentes são ainda crianças ou ainda nem nasceram e que configuram, à luz da lei portuguesa, vários crimes, incluindo o de abuso sexual de menor. Nas reacções à  investigação da PJ surgiram vozes de representantes da comunidade cigana e de especialistas vários, chamando a atenção para “a importância da tradição na comunidade”, “a necessidade de respeito por uma cultura minoritária”, e, até, ouvido a uma qualquer “especialista” numa reportagem da RTP sobre o assunto, “o facto de que a socialização das meninas ciganas lhes confere um nível de maturidade maior que a generalidade das meninas da sua idade, preparando-as para um casamento precoce” (cito de memória). A existência – óbvia – de discriminação contra os ciganos por parte da comunidade em geral, discriminação essa que já esteve vertida em leis e é, não raro, visível na actuação das autoridades, sendo em si própria uma “tradição cultural” (o que demonstra bem o quão perigosa e vácua é esta linha de argumentação), não pode justificar um tipo de conversa que, noutras paragens e em referência a outras “culturas”, levaria a “enquadrar” e “compreender” a ablação do clitóris e os chamados “crimes de honra”. Pertencer a uma etnia não pode ser nem uma condenação nem uma isenção de deveres. Torcer a lei ou a defesa dos direitos de crianças em nome de especificidades culturais sob o pretexto de que essas crianças são diferentes das outras – por serem ciganas – é obviamente discriminá-las. Ao contrário, defender para elas o mesmo que defendemos para todas as crianças é defender a igualdade. Não há “cultura” que sobreleve os direitos humanos e justifique maus tratos. Ou há? (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 8 de agosto)


42 comentários:
De Pêndulo a 16 de Agosto de 2008 às 09:11
Um aplauso ao texto.Gostei de ler.

Agora uma "provocação".
Entende a Fernanda, dado que, segundo diz:
" a dita tradição ou “lei” continua a fazer anualmente milhares de vítimas entre as meninas retiradas da escola e condenadas a uma vida sem escolhas ou mesmo casadas aos 12, 13, 14 anos."

é precisa uma atenção especial das autoridades sobre esse grupo de portugueses? Uma vigilância apertada de modo a evitar esses casos complementada com formação cívica, talvez ?

E que sugere a Fernanda que seja feito?


De nunocastro a 16 de Agosto de 2008 às 08:51
Bom texto.

sobre isto escrevi

http://nunocastro.wordpress.com/2008/08/06/em-roma-nao-sejas-cigano-e-em-portugal-ainda-menos/

http://nunocastro.wordpress.com/2008/07/31/a-fonte-do-nosso-descontentamento/


De Cristina Gomes da Silva a 16 de Agosto de 2008 às 09:11
Não, não há! Resta saber como se processa a mudança de modo a que nonguém se sinta desrespeitado e, pior, humilhado, por ser diferente.


De jc a 16 de Agosto de 2008 às 15:23
para não variar: na mouche.

seria um incómodo muito grande pedir-lhe o link (se existe) para esse estudo da judiciária? ou na impossibilidade de o obter online, onde o posso solicitar?


obrigado.


De Carlos Marques a 16 de Agosto de 2008 às 04:48
Não senhora, não pode haver "cultura" que sobreleve os direitos humanos ou o cumprimento das leis gerais de um país democrático. No entanto pode haver cultura que sobreleve os direitos dos animais, permitindo-se a tourada sem bolinha a horas decentes na televisão. A propósito do tema "ciganos", o pai da criança que morreu baleada pelo GNR ainda estará foragido? Deve ser preciso nervos de aço para conseguir fugir com um tal peso na consciência.


De jaime roriz a 16 de Agosto de 2008 às 15:49
Caro adega da vila,

Exactamente!


De Dorean Paxorales a 16 de Agosto de 2008 às 16:35
“o facto de que a socialização das meninas ciganas lhes confere um nível de maturidade maior que a generalidade das meninas da sua idade, preparando-as para um casamento precoce”

Esta citação merece mais que a invocação da memória. É possível saber quem disse isto?


De eu não sou racista, mas… « Novo mundo a 16 de Agosto de 2008 às 14:34
[...] preconceito e medo, daí ficar muito curioso em ver o resultado do trabalho jornalístico referido neste post de Fernanda Câncio. Não só porque é uma visão com o ponto de vista do “Outro”, mas também porque é [...]


De adega da vila a 16 de Agosto de 2008 às 14:43
Jaime Roriz,

"templos árabes"? o que vem a ser isso? será o "templo árabe" da praça de Espanha ou o "templo árabe" da Av. Lusíada?!! E pretende que o Estado regulamente o acesso, e como se sentam mulheres e homens numa mesquita ou numa sinagoga? E porque não também o blend do vinho e da água na eucaristia cristã? E já agora, por que não forçar o princípio da igualdade no acesso de mulheres, deficientes físicos e cidadãos destituídos de capacidade de influência à iniciação no GOL?


De Dorean Paxorales a 16 de Agosto de 2008 às 19:18
De qq modo, obrigado.


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