Quinta-feira, 26 de Junho de 2008
“Estes tipos não percebem nada de futebol.” – explicou Marlon, futebolista brasileiro exilado nas Ilhas Faroé, ao jornalista Alex Bellos – “Nem sequer se benzem antes de começar o jogo!”

Os nossos comentadores desportivos são gente demasiado moderna para comungar de tais teses. De modo que, em vez de dizerem: “O Deco não se benzeu, mau sinal!”, dizem antes: “O 4-2-3-1 do seleccionador alemão anulou a equipa portuguesa”. Na verdade, são tão supersticiosos como o tal Marlon.

Acredito que o fascínio do futebol resulta de ninguém perceber ao certo como é que a coisa funciona. Tal como na filosofia, o espanto é o ponto de partida, complementado por um irresistível desejo de encontrar para o resultado uma explicação plausível.

A tese reducionista ingénua sustenta que a equipa vencedora será por força a que incluir os melhores jogadores, esquecendo-se de que, se isso fosse verdade, a Liga dos Campeões de 2004 teria sido ganha pelo Real Madrid, não pelo FC Porto. Conscientes desta verdade trivial, a maioria dos entendidos deposita antes a sua confiança na táctica escolhida (4-3-3 ou 4-4-2?), mas todos sabemos que os jogadores só se dispõem desse modo no terreno quando a bola vai ao centro. Assim que o jogo começa, a táctica varia de minuto para minuto ao sabor das acções e reacções das duas equipas.

Apesar de jogado num rectângulo de reduzida dimensão por apenas 22 jogadores, o futebol é um jogo de enorme complexidade, dadas as infinitas combinações que admite. Uma equipa que estava a jogar maravilhosamente, desune-se subitamente e nunca mais se reencontra. Outra, pela qual já ninguém dava nada, transcende-se e, sobrevivendo a três remates do adversário ao poste, ganha no último minuto com um golo talvez marcado em off-side. Não há dois jogos iguais, nem há dois golos iguais.

É certo que, a posteriori, o resultado de um jogo de futebol parece uma coisa tão lógica e natural que quase somos levados a crer estar escrito que as coisas teriam forçosamente que ter sido como foram. A verdade, porém, é que a minima incidência do desafio pode afectar de modo decisivo todo o seu decurso. Por isso, o resultado final depende de uma variedade de não sei quês, que não só ninguém consegue prever com antecipação, como, mesmo a posteriori, é muito difícil entender plenamente. Perde-se por quase nada, do mesmo modo que, doutras vezes, se ganha sem saber como nem porquê.

Tal como o futebol, também a economia é, por maioria de razões, um sistema dinâmico complexo. Os comportamentos dos agentes individuais propagam-se de forma imprevisível através de uma longa cadeia de interacções, produzindo resultados inesperados e súbitas mudanças ao nível agregado. A instabilidade é a regra.

A teoria económica tradicional, porém, presume que os mercados se ajustam continuamente em pontos de equilíbrio determinados pela intersecção da oferta com a procura, e postula que qualquer desvio será anormal e temporário. Armada de modelos microeconómicos simplistas, atreve-se a prever, por exemplo, que a fixação de um salário mínimo aumentará o desemprego, embora, excepto se o seu valor for muito elevado em proporção do salário médio, a tese não seja corroborada experimentalmente.

Uma boa parte da teoria económica ensinada nas escolas assenta em bases empíricas limitadas e em generalizações abusivas, o que não coibe certos opinadores de nela se apoiarem para proclamar os seus preconceitos ideológicos, como de certezas inquestionáveis se tratasse.

Alguns treinadores impõem às suas equipas esquemas tácticos muito rígidos; outros, gritam continuamente do banco instruções pontuais. Os melhores, ao invés, esforçam-se por preparar os seus futebolistas para saberem reagir psicológica e tacticamente às situações de jogo mais variadas e imprevisíveis.

No mundo empresarial passa-se algo semelhante; mas, disso, os economistas ortodoxos não sabem nem querem saber.

(Artigo publicado no Jornal de Negócios de ontem.)
14 comentários:
De carlos barbosa oliveira a 26 de Junho de 2008 às 18:03
Muito bom o artigo. Só faltou mencionar que quando Scolari foi à Turquia encontrar-se com Fatih Terim, lhe levou uma réplica de N. senhora de Caravaggio, exigindo em troca, a promessa que o treinador turco não a usaria no jogo com Portugal. Resultou. Até ontem, quando o pragmatismo de uma equipa alemã, deitou por terra o pundonor e a crença de uma euipa turca que suou a camisola em cada jogo.
O racionalismo venceu as emoções. Como sempre acontece na vida, não é?


De Luis Moreira a 26 de Junho de 2008 às 17:46
Como dizia Olaf Palme (primeiro ministro Sueco)

No futebol e na política os jogos ganham-se ao centro!

E, no estanto, só ouvimos falar de tácticas á esquerda e á direita,defensivas e atacantes.E quanto aos príncipios básicos só os usamos como limites,tal como as linhas do campo.


De o sátiro a 26 de Junho de 2008 às 19:01
E há os que põem toda a espécie de amuletos nos braços e pescoço, ou dentro das balizas, ou entram com o pé direito, ou consultam Alexandrinos, ou dizem "vou torcer por A ou B", ou levam alhos para os balneários, ou "estou convencido que ganham ou perdem"...
Enfim, uma lista interminável.


De filinto a 27 de Junho de 2008 às 14:56
Muito bem.


De google a 26 de Junho de 2008 às 19:15
mais um post de esquerda anti-futebol


De Maria João Pires a 26 de Junho de 2008 às 19:31
Mais um comentário de alguém que revela grandes capacidades para interpretar um texto.


De De Puta Madre a 27 de Junho de 2008 às 01:58
Coitadinho do Ricardo. Não batam mais no ceguinho.

João Pinto e Castro, se me permite uma variação do seu inspirado título:
"Quando uma borboleta bate as asas na China", a selecção portuguesa perde.
É só para baixar as estatísticas do dizer mal do Ricardo. Vale


De Model500 a 26 de Junho de 2008 às 16:10
Marlon tem razão. Hoje já toda a gente sabe que em todos os domínios a incerteza é uma constante. Nada pode ser provado de uma vez por todas : a ciência não acumula verdades, simplesmente vai eliminando erros. É por isso que nenhuma forma de conhecimento é racional em si mesma. Portanto, deixa de fazer sentido qualquer superioridade do conhecimento científico em relação ao conhecimento espontâneo, vulgo senso comum. Conclusão: todas as fontes de saber deverão ser colocadas no mesmo patamar, onde obviamente se incluem as ditas ciências paranormais/ocultas.


De Nuno Ramos de Almeida a 26 de Junho de 2008 às 16:10
Excelente. Só tu, para me fazeres concordar com o Lavoura.


De Luis Lavoura a 26 de Junho de 2008 às 15:48
Excelente artigo. Gostei especialmente do antepenultimo paragrafo, que e muito verdadeiro.


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