Quinta-feira, 1 de Maio de 2008
Palmira F. Silva

Hoje tivemos um rol de exemplos de como o catolicismo anda tão excluído da res publica, tão oprimido, tão angustiado com a vida, que não houve telejornal que não transmitisse em horário nobre a indignação clerical por tal estado laicista de coisas.

Tão penoso dia foi certamente consequência daquele momento que a Igreja não perdoa e verberou na frase excelsa da laicidade clerical inclusiva, proferida por Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa e porta-voz do episcopado: «depois do referendo sobre a IVG a sociedade portuguesa pensou que era laica».

Esta desatenção da sociedade nacional tem sido corrigida veementemente nos últimos tempos por aquele que, embora preterido nas eleições de hoje para dirigir a CEP, parece ter sido promovido a comissário político do Vaticano na luta contra o PS (e a laicidade).

O mesmo Carlos Azevedo sente-se tão excluído da coisa pública pelas invectivas do «estado militantemente ateu», pelo laicismo desenfreado de alguns ministros, que deu hoje mesmo uma conferência, transmitida na íntegra pela televisão pública, a explicar isso mesmo e muito mais que o tem incomodado.

Nas muitas intervenções para os media em que foi pródigo nas últimas semanas, o ilustre prelado não escondeu esse incómodo evocando à exaustão, em panegíricos solenes, o papel social da Igreja como justificativa das bananas interferências arbitrárias que nos quer impingir; recolheu-se comovido perante as campas da memória de ilustres mártires do Afonso Costa que verberou muitos hoje se sentirem filhos, lamentou o lugar adquirido pela mulher dos anos 80 para cá - uma posição que inquieta a Igreja e que se deve à mutação cultural que propiciou flagelos como o individualismo, o relativismo ou o laicismo -, e prometeu-nos um repensar do estilo de evangelização que nos remeta ao diálogo com os nossos egrégios avós e, por arrastão ao passado, à erradicação destes males modernos.

E o que está no cerne da crispação que despertou para o combate político uma Igreja «pouco mais do que passiva» no que respeita «à ofensiva do Governo contra os capelães hospitalares e prisionais», «branda e descoordenada» no referendo do aborto ( se com folhetos terroristas distribuídos em infantários, ameaças com o Cânone 1331 que excomungaria os que votassem SIM no Referendo, a campanha da Igreja foi branda e descoordenada até estremeço ao imaginar o que seria para o prelado uma campanha dura…) ? Deixemos o bispo auxiliar de Lisboa explicar pelas suas próprias palavras:

«a Lei da Liberdade Religiosa aplica-se às confissões religiosas, mas não à Igreja Católica».

Ficámos assim a saber que aparentemente as outras religiões não passam de meras confissões religiosas mas a Igreja Católica é muito mais que isso, como dizia o bispo numa entrevista recente à TSF, é «a verdade objectiva» que apenas o relativismo, isto é, os erros do pensamento moderno, justifica não seja reconhecida pela população em geral e pelo governo em particular - que não legisla de acordo com a vontade da Igreja e não obriga todos, católicos ou não, a submeterem-se à única «verdade objectiva». Isto é, para a Igreja só há uma verdade: a sua. A Igreja defende a tolerância … mas apenas para o que é a sua verdade.

É à luz destas revelações que deve ser entendida a ode ditirâmbica à tolerância segundo a CEP de Jorge Ortiga, o arcebispo de Braga hoje reconduzido na presidência da Conferência Episcopal Portuguesa, que tanto baralhou a Fernanda.

Isto é, a laicidade para a Igreja Católica significa separação biunívoca entre religião e Estado apenas para meras confissões religiosas. No caso da Igreja Católica significa simplesmente, como ilustrou o prelado na tal entrevista (sicofanta) de Manuel Vilas Boas, que a Igreja está acima das leis do Estado, por exemplo no caso da reforma de Januário Torgal Ferreira - estranhamente num país com um governo tão militantemente ateu, bispo das Forças Armadas. Mas para o comissário político da Igreja, o Estado deve submeter-se às leis da Igreja, isto é, a tal «laicidade inclusiva», adjectivação da laicidade que tem marcado indelevelmente o léxico eclesiástico nos últimos tempos, significa que «é mais um sinal claro da postura de afrontamento que o actual Governo assumiu relativamente à Igreja Católica» não aceitar que o nosso Direito deve ser regido pelas leis canónicas.

A Confederação Episcopal Portuguesa parece assim querer ressuscitar os ícones políticos que povoam o seu relicário mental, imaginário de quem se considera detentor das verdades absolutas, reveladas pela mesma reverberação divina que os incubiu da missão histórica de salvar a humanidade mesmo contra vontade desta.

Pessoalmente fico sempre muito comovida com o empenho, diria quasi obsessão, com que alguns se entregam a salvar todos os outros. Até percebo o desinteresse com a salvação própria que manifestam na devoção em não deixar na paz das perpétuas chamas os que se desinteressam da salvação da alma. Mas fico igualmente muito baralhada quer com a descrença nas verdades absolutas e universais de que afirmam ser paladinos quer com a falta de fé nas respectivas capacidades persuasivas que manifestam ao quererem impor no Direito que rege todos, católicos e não católicos, a proibição ou criminalização dos pecados que lhes atormentam as sinapses. E ao susterem que deve ser o Estado a sustentar a proselitização da única religião verdadeira, a deles …


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