Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Depois de ler  um artigo sobre mais uma diatribe de  Hugo Chávez, que decidiu não participar na XVII Cúpula Ibero-Americana que se realizará entre dias 29 e 31 de Outubro em San Salvador, resolvi investigar exactamente de que tratava a dita para tentar perceber se era mesmo a sua segurança pessoal o que preocupava o presidente venezuelano.

O tema central agendado, a juventude ibero-americana, pareceu-me completamente inócuo embora o pedido de Michelle Bachelet para que fosse discutida a crise financeira actual  tenha encontrado eco em outros dirigentes e a estes dois temas juntou-se ainda à mesa de discussão as políticas de emigração europeias.

No meio da pesquisa deparei com um documento insólito que depois de confirmado nas mais altas instâncias se revelou ainda mais bizarro. Parece que nesta altura de crise a cimeira causa palpitações nas hierarquias católicas locais, cujo grande problema reside na possibilidade de na cimeira serem abordados temas como a contracepção, aborto ou homossexualidade. De acordo com a delegação local da ICAR, a declaração a ser assinada obriga os signatários a subscrever nove pontos em que se inclui o «Adolescentes e jovens saudáveis» que, horror dos horrores, recomenda programas de educação sexual e  «medidas tendientes a prevenir 'las enfermedades de transmisión sexual y los embarazos no deseados'».

Ora isto é algo completamente inadmissível para Lacalle, o Opus Dei responsável pela existência em terras de El Salvador de inspectores forenses da vagina - que confirmam que nenhuma salvadorenha, mesmo em risco de vida devido a, por exemplo, uma gravidez ectópica, tem a veleidade de abortar . Embora El Salvador já tenha informado que não assinará o documento que colide com a Constituição e com a moral católica, o preocupado Lacalle  veiculou as suas preocupações via Zenit. Esta  explica que tal abominação, a  história dos «Adolescentes e jovens saudáveis», « imporá o aborto, o ‘direito’ à autodeterminação sexual e a ideologia de género, entre outras coisas, às nações do continente».

 

Fiquei logo baralhada com esta história da imposição do direito à autodeterminação sexual - não faço a mínima ideia como se impõe um direito a alguém -, continuei baralhada com  o acrescento da Fides de que  «O projecto foi qualificado por muitas organizações de pais de família como ‘anti-vida e anti-família’»  mas o que me arrumou às boxes foi a tal história da  ideologia de género.

Descobri que a coisa pôs recentemente em alvoroço o movimento cívico cristão «As Mães Têm Voz» no Equador que marcharam contra a imposição da dita nas escolas do país de barriga em riste para evitar que «agressivos simpatizantes da ideologia de gênero que as ofendam física ou verbalmente, ‘limitando seu direito constitucional à liberdade de expressão’». Mas só fui esclarecida das minhas dúvidas pela  Veritatis Splendor que traduziu a pérola debitada sobre o tema pela Conferência Episcopal Peruana e pelas Comissões Ad-Hoc da Mulher e Episcopal do Apostolado Leigo.

O documento, que alerta sobre os perigos da coisa, devota um míseros parágrafos a deplorar esta mania de pensar « que homens e mulheres heterossexuais, os homossexuais, as lésbicas e os bissexuais sejam apenas modos de comportamento sexual produto da escolha de cada pessoa, liberdade que todos os demais devem respeitar

Mas a maior parte do documento, dedicado a algo que nunca ouvira falar, o «feminismo de género», carpe essencialmente o facto de ter falhado na IV Conferência Mundial sobre a Mulher em Pequim a pressão política do Vaticano  e dos seus poucos aliados - os fundamentalistas islâmicos, Malta e alguns países latinoamericanos. Os muitos esforços envidados pela delegação católica  não foram impeditivos de que se alcançasse o consenso necessário à aprovação da Plataforma de Acção em pontos fundamentais à vida das mulheres, nomeadamente no que diz respeito à universalidade dos direitos humanos, mais especificamente dos direitos humanos das mulheres que incluem os direitos reprodutivos.

Pelo que se percebe do documento, que afirma que este «'feminismo do género' teve uma forte presença na Conferência de Pequim», a coisa parece ser então o reconhecimento à mulher de direitos reprodutivos, isto é, o acesso a contracepção, impressão que se confirma com o esclarecedor comunicado  da arquidiocese de Tegucigalpa sobre os mesmos «Adolescentes e jovens saudáveis» de que irá tratar a cimeira.

Os bispos das Honduras garantem que não se pode deixar que «os jovens decidam sobre sua vida sexual e sua maternidade, assim como "não se pode conceber a vida sexual completamente separada do ato reprodutivo, fomentando o uso de todo tipo de métodos para não engravidar, promovendo uma espécie de libertinagem sexual'». 

«"Há vários anos estamos escutando a famosa expressão ‘saúde sexual reprodutiva’ e a ‘ideologia de gênero’, e já comprovamos que por trás destas expressões subliminares o que se esconde é um profundo desejo de legalizar o aborto, as pílulas anticoncepcionais, a proliferação da homossexualidade, as esterilizações e demais métodos artificiais e criminosos de controle da natalidade", dizem com energia os pastores de Tegucigalpa.»


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16 comentários:
De Victor Afonso a 27 de Outubro de 2008 às 00:54
Nada que espante, vindo de uma instituição tão esclerosada e autista como a Igreja Católica...


De f. a 27 de Outubro de 2008 às 09:55
maravilha


De António Parente a 27 de Outubro de 2008 às 10:04
Nunca percebi o que são direitos reprodutivos. Aliás, acho-os anti direitos humanos.


De f. a 27 de Outubro de 2008 às 10:30
nota-se que o antónio tem um bocadinho de dificuldade em perceber que uma pessoa possa escolher se quer ter filhos e quando. deve achar que direito humano é a pessoa -- a mulher -- não poder escolher. ser assim a modos que uma serva reprodutora. bonito e muito respeitador, isso. espero que não tenha filhas, antónio.


De António Parente a 27 de Outubro de 2008 às 10:49
Não tenho dificuldade nenhuma, f. O seu comentário foi extemporâneo. Devia ter-me perguntado primeiro: "porque dizes isso, antónio cristão?".

Já agora, tenho uma filha maravilhosa que fez ontem 8 anos e um filho, também maravilhoso, que tem 9. E foi a minha mulher que decidiu quando íamos ter filhos. Nunca a ouvi falar em direitos reprodutivos e temos o número de filhos que sempre quisémos ter.

Deixe-me acabar a discussão lá em baixo e depois salto para aqui.



De roza a 27 de Outubro de 2008 às 11:54
caro parente, creio que esboçará um sorriso se lhe disser que se está a pôr a jeito para a piada do "acto único".

Mas agora a sério: a auto-reflexão sobre a condição de mamífero (tem mamas) não colide com a auto-reflexão enquanto animal social (o que é uma mulher). A instituição cristã tem primado pelo "não ensinará nem falará", bem como pelo não reflectirá nem agirá senão por mediação masculina, tipo "o homem para deus e a mulher para deus nele". A condição reprodutiva é condição sine qua non para ser excluído de posição exemplar na sociedade ligada à igreja.
Está a topar o contexto?


De António Parente a 27 de Outubro de 2008 às 12:05
Não topei o contexto nem sei o que significa "acto único", estimada roza. Mas gosto de me pôr a "jeito"... É uma forma de os/as apanhar distraídos/as.. (viu como não sou inocente, f.?)


De Nuno Cruz a 27 de Outubro de 2008 às 12:43
é insólito, de facto.

Mas continuo a não perceber porque é que a crítica da Igreja Católica no 5dias e agora no jugular é constante enquanto o Islão passa ao lado do mais pequeno comentário.


De Shyznogud a 27 de Outubro de 2008 às 12:45
A Palmira q responda por ela, no meu caso é fácil de explicar: tendo a falar mais de assuntos que me podem afectar mais. Ora como a influência da Igreja Católica em Portugal é, infelizmente, evidente é normal que, por essa razão, me ocupe mais tempo


De f. a 27 de Outubro de 2008 às 13:29
o nuno cruz deve ter andado a ler o 5dias com muita atenção, de facto. 'o islão passa ao lado do mais pequeno comentário'? essa é mesmo muito boa. que cansativo ter de estar sempre a lidar com pessoas que tratam os outros como caricaturas da sua própria falta de imaginação.


De Nuno Cruz a 28 de Outubro de 2008 às 15:51
Falta de imaginação, Fernanda Câncio, é o repetir constante das mesmas frases anti-clericais e relativizar constantemente a evolução muito mais preocupante do Islão, numa distorção analítica que não consigo perceber.

E é cansativo receber respostas imbuídas de auto-suficiência quando se escreve numa caixa de comentários.

De resto compreendo a Maria João Pires. Talvez seja a distância que me faz ver que bater na igreja católica - europeia, claro - é bater num ceguinho em fase terminal (Fun, but easy) e que este não é, na minha modesta opinião, o cavalo de batalha mais urgente.

Quantos posts de fundo sobre os problemas causados pelo fundamentalismo muçulmano na europa a nível da regressão dos costumes?


De Palmira F. Silva a 27 de Outubro de 2008 às 14:10
para além do que a joão e a f. já disseram, não posso deixar de manifestar o meu espanto pelo facto de nenhum dos devotos de serviço a este espaço sequer comentar a anormalidade debitada pelos doutos eclesiásticos, uns parece que concordam e outros acham que todas as calinadas são justificadas porque o islão é pior.

pelo menos do antónio parente, que recorda certamente o que escrevi sobre o tema, tenho a certeza que não virão falácias do espantalho «islâmicas»...


De António Parente a 27 de Outubro de 2008 às 14:22
Sou testemunha abonatória da Palmira Silva e posso afirmar com absoluta certeza: quando a Palmira pega na caneta, assim como se fosse uma espécie de taco de basebol virtual, tudo o que mexe e seja religioso come por tabela. Não há discriminação entre ser cristão evangélico, católico, muçulmano ou budista. São todos espancados virtualmente sem dó nem piedade.

Quanto ao conteúdo do post penso discuti-lo, se ainda existir interesse dos interlocutores, depois de fechar mais abaixo outra discussão.


De Carlos Fernandes a 27 de Outubro de 2008 às 15:29

Caro A. Parente, é essa a sensação que eu também tenho, de levar veras "baseboladas" virtuais de deixar nódoas negras na cara e no coração, aqui da Palmira e dos seus preconceitos antireligiosos, nomeadamente a de considerar que - pelo menos é o que me pareceu ( e não conto que ela esclareça isto porque já vi qq ela não quer ou não se digna dirigir-me palavra)- quem é crente é semi-estúpido e ignorante, preconceitos esses muito maiores que os meus que ainda são medievais e obscurantistas.
Ora eu respeitaria e nunca chamaria estúpido ou ignorante a um ateu, por ex.


De António Parente a 28 de Outubro de 2008 às 10:48
Caro Carlos Fernandes

Nós, os comentadores, somos uma espécie de proletariado dos blogues. A nossa função é dar brilho ao conteúdo dos posts, provocar a polémica e a discussão, contribuir para o aumento de audiências. Não servimos para mais nada.

Se somos hostis aos bloguers então é natural que sejamos desprezados. Não há mal nenhum nisso. É uma lei básica da blogosfera.

Já viu a Palmira conversar comigo? Claro que não. Nem nunca o fará. Mas isso incomoda-me? Claro que não.

Nós, comentadores, temos uma carreira autónoma dos bloguers. Sem nós, os blogues perdem o sal e a pimenta. Sem eles, os blogues, nós não existiamos.

Assumamos a nossa função, comentar, e deixemos a outra, escrever post, para os bloguers. Cada macaco em seu galho. Assim convivemos pacificamente e vivemos todos felizes.

Quanto às pauladas virtuais da Palmira vai ver que se habitua. Chega a um ponto que a pele é uma espécie de cabedal. Acaba-se a dor, as lágrimas secam e fica só uma sensação de doce felicidade. Por isso, não desista.


De roza a 27 de Outubro de 2008 às 15:38
hum. diz que nunca ouviu falar em "direitos reprodutivos" ou, presumo, nada que se assemelhe a direitos reprodutivos, questão de palavras.

Por exemplo: os animais não têm direitos reprodutivos. Estão subordinados à agenda humana. Mas têm alguns direitos noutros aspectos, no que toca ao espetaculo da sua dor, por exemplo, porque quando falamos de coisas, falamos delas na esfera humana.

to cut a long stoty short:

O islão FAZ lei LÁ. A ICAR influencia a outra instância que FAZ lei entre NÓS (uma instância comum que transcende a nacionalidade. que lhe querem chamar?)

Diferentemente da icar e do islão, NÃO entendemos que a mulher só é sujeito político se mediada pelo parente masculino. Portanto, quando dizemos "direitos reprodutivos" estaremos então a dizer "todas as mulheres (consideradas independentemente dos parentes masculinos)". E claro, sucede-lhe "a reprodução do ponto de vista da mulher".

Considerando um exemplo dado no post:

imagine que está alojado no seu abdomen um potencial humano, que por falta de utero vai crescer até o matar. Pode partir daqui. não pense que estou a ser terrorista, por o assunto ser terrorífico.


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