O Alberto Gonçalves é um ganda maluco. Mas é um maluco genial, pois, do alto de toda a sua inteligência, ele foi o único (louvemos a sua perspicácia) capaz de perceber que por trás dos rabiscos humorísticos do Pedro Vieira está um projecto político radical — neste caso, trata-se da apologia dos panteras negras — que todas as pessoas de bem deviam rejeitar. Mas o sociólogo Gonçalves não se fica por uma hermenêutica da suspeita; ele diz — e diz muito bem — que esta coisa de se ter eleito o Obama foi um acto de puro racismo. Nem mais. Só falta estender esta brilhante análise e transformá-la numa grelha analítica que nos fará reinterpretar uma parte significativa da nossa história. Rejubilámos com a eleição de Mandela? Racismo. Marchou-se com Luther King? Racismo. Defende-se Israel? Racismo. Oooooooops, esta não, que o Sociólogo não gosta. Chamemos-lhe a excepção que confirma a regra, e assim fica toda a gente satisfeita
Eu acho fascinante que um sociólogo, supostamente inteligente, atinja níveis de argumentação André-Pessoanos (ou será Mirandeses) nesta história do racismo. Então um gajo que estudou sociologia não percebe que ser racista não é sinónimo de dar importância ou valorizar a cor da pele de alguém? A cor de Obama não é um facto que alguns — para simplificar, chamemos-lhes 'Obamistas' — valorizam gratuita e injustificadamente. A cor de Obama não existe no vazio, pois ela remete para uma história de emancipação que está inscrita no código genético do povo americano, é o seu pecado original. A cor da pele é importante porque infelizmente ela esteve associada a uma história de exclusão e violência. Ou seja, ela é importante porque ela, infelizmente, sempre foi importante. Achar que eleger um preto nos EUA é um momento fundamental numa história de emancipação, não é racismo; é tomar uma posição concreta num campo simbólico onde a cor da pele é mais do que uma simples pigmentação ou um dado biológico.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
