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jugular

Alguém me diz outra vez em que ano estamos?

No dia 2 de Junho escrevia Almiro Ferreira no Jornal de Notícias que «Mestre» Alves invocara entidades demonícas num ritual satânico (?) para bloquear os adversários da selecção portuguesa na fase de grupos do Euro-2008. Felizmente para o auto-denominado «mestre», poucos em Portugal levam a sério estas patetadas New Age.

O mesmo não acontece no Congo onde o jogo de ontem entre o Nyuki e os seus rivais Socozaki em Butembo acabou com a morte de 11 pessoas e ferimentos em várias devido aos feitiços de um jogador.

Numa altura em que o Nyuki perdia para o seu adversário, o guarda redes resolveu intervir no que a Radio Okapi, uma emissora local financiada pelas Nações Unidas, afirmou ser incantações de feitiços para enfraquecer a outra equipa. A luta campal entre as duas equipas alastrou para as bancadas e a intervenção policial não conseguiu impedir o trágico balanço do jogo.

 

Os problemas da feitiçaria não são inéditos neste país.  Há muitos anos que as ruas de Kinshasa e restantes centros urbanos do Congo estão apinhadas de crianças, muitas delas expulsas das suas famílias depois de «diagnosticadas» com kindoki. Em 1999 eram mais de 14 000 apenas em Kinshasa. E estas crianças de rua são os mais felizes dos «bruxos» infantis. Muitas são simplesmente mortas por familiares e vizinhos após o diagnóstico; outras são mantidas prisioneiras em igrejas, supostamente aguardando exorcismo. Em 2006 o ministro dos Assuntos Sociais do Congo, Bernard Ndjunga, estimava existirem serem cerca de 50 000 as crianças aprisionadas.

Este tipo de incidentes mortais relacionados com «feitiçaria» ou «possessões»  têm sido frequentes nos últimos tempos em alguns países africanos. Aliás, na Tanzânia aumentaram tanto que o presidente Jakaya Kikwete devotou ao combate a estas superstições mortais a sua mensagem de Ano Novo.

Alguns feiticeiros africanos são apenas curandeiros tradicionais e alguns witchdoctors são muito respeitados - mesmo quando informam que um cesto voador pode levar mais de 2000 passageiros do Malawi a Londres -, mas segundo informa Eunice Kimutai, uma professora reformada que tenta convencer os habitantes da sua aldeia de que a SIDA não é causada por mau olhado ou espíritos malignos:

Her struggle is the kind that often makes headlines out of central and southern Africa. That’s where a mixture of folklore and evangelical Christianity in some communities has spawned a fundamentalist belief in witchcraft and possession by evil spirits, one that blurs the line between traditional medicine and extreme religion through the entire continent.

Estas misturas de cristianismo evangélico com folclore africano acompanharam a diáspora dos seus habitantes e, por exemplo, em Inglaterra o abuso físico ou mesmo o assassínio de crianças consideradas bruxas ou possuídas levou à criação em finais de 2005 de um projecto, o Projecto Violeta, que pretende prevenir abusos físicos de crianças relacionados com a religião (o relatório em formato pdf está disponível aqui). Existem em Inglaterra cerca de 300 igrejas pentecostais como a Igreja do Combate Espiritual, em Dalston, Londres que servem especialmente a comunidade negra oriunda da África Ocidental que recomendam formas agressivas de exorcismo dos possuídos (normalmente crianças).

Na altura, estes casos fizeram manchetes em vários jornais e indignaram o teólogo negro Robert Beckford, que afirmou a propósito da cobertura mediática:

Yet at the same time, some of the coverage reminds me of the racist 19th-century anthropological literature. West Africans are not the only people who believe in demonic possession or the existence of evil spirits. The Anglican church believes in those things too and so does the Evangelical Alliance. The attitude seems to be that if the people supporting the beliefs have PhDs then they are sensible but if they are working class people from Africa then they must be mad.

De facto, não são apenas as igrejas evangélicas que acreditam em espíritos malignos e exorcismos e os incidentes mortais não se restringem à comunidade negra, embora, tanto quanto saiba, a última condenação por feitiçaria tenha ocorrido em solo europeu há mais de 60 anos.

O pilar da racionalidade, a crer em alguns dos nossos leitores, apresentou com pompa e circunstância a 6 de Janeiro de 1999, na Sala de Imprensa da Santa Sé, pela mão do Cardeal Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Sua Eminência Jorge Arturo Medina Estévez, o novo ritual de exorcismos da Igreja Católica, o De Exorcismis et Supplicationibus Quibusdam.

Como referiu a revista Época pouco depois do lançamento, «A Igreja Católica perdeu fiéis no período em que relegou o exorcismo, enquanto as igrejas evangélicas pentecostais arrebanhavam multidões com rituais espetaculares».

Ao manual de 27 páginas sobre a arte de bem exorcizar qualquer «demónio» - que envolve o uso de litros de água-benta, encantamentos e orações sortidas q.b., incensos, imposição de relíquias ou símbolos cristãos-, seguiu-se uma série de iniciativas destinadas a recuperar para o catolicismo esta prática, que culminou há meses com a transmissão online e em canais católicos de uma série em que figura o exorcista mais famoso da actualidade, o padre Gabriele Amorth, exorcista da diocese do Papa há 21 anos.

As medidas foram tão bem sucedidas que o Demo, há muito arredado destas práticas, desdobrou-se em atenções possessivas. Os exorcismos necessários para afugentar os diabos aumentaram tão estupidamente um pouco por todo o mundo católico que há padres que consideram que os católicos precavidos devem ter sempre na sua posse água benta, o equivalente para o Mafarrico ao alho dos vampiros. Mais bizarro ainda, em pleno século XXI, há quem veja o mafarrico em coisas tão diversas como os livros do Harry Potter, uma dor de barriga ou insónias.

Para responder a tal assalto das hostes «demoníacas», têm tido lugar vários encontros de exorcistas católicos e planeiam-se centros de exorcismos para tratar do assanhamento do Demo. De igual forma, teve tanto sucesso  o primeiro curso de caçadores de demónios do século XXI,  que o Ateneu Pontifício Regina Apostolorum o reeditou pouco depois.

Há cerca de um mês, um alto dignitário da delegação britânica da Igreja Católica, o padre Jeremy Davies,  resolveu fornecer ao público em geral informação «preciosissima» sobre o que propicia a «possessão» demoníaca. A expertise do padre vêm-lhe não só do facto de o exorcista oficial da arquidiocese de Westminster ser co-fundador com Gabriele Amorth da International Association of Exorcists como do seu livro «Exorcism: Understanding Exorcism in Scripture and Practice», publicado este ano pela Catholic Truth Society (CTS).

Graças a este exorcista bem habituado às manhas do Demo, ficámos a saber que, para além da expectável demonização induzida pelo sexo sem fins reprodutivos - foram veementemente apontadas como portas para o Demo a contracepção, aborto, promiscuidade, pornografia e homossexualidade (a pedofilia não está incluída pelas razões óbvias) -, aquilo que o dignitário apelida de humanismo secular ou cientismo ateísta é na realidade «satanismo racional».

Achei deveras surpreendente saber que a investigação científica que não segue os ditames católicos é inspirada pelo Demo mas a surpresa máxima foi a revelação bombástica de que uma das causas da homossexualidade é um «factor demoníaco contagioso». Só não percebi qual a sugestão do padre tão obcecado com sexo para o caso de o «exorcismo» falhar, quiçá o método tradicional hoje em dia tão em voga em outras paragens…

Dislates senis deste último padre àparte, em relação a possessões demoníacas e afins pensaria ser completamente absurdo encorajar este tipo de crendices e superstições que podem ter consequências muito nefastas. Mas também pensava ser um absurdo que os ventos do tempo já deveriam ter varrido o que li hoje de manhã no Portugal Diário

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