Em 24 de Novembro de 1859, faz hoje 149 anos, foi publicado o livro de Charles Darwin que trata da «selecção natural como principal causa da origem, multiplicação e evolução das espécies».
O livro provocou uma verdadeira revolução na época, embora as ideias de Darwin não fossem originais, isto é, as questões que lhe suscitaram a escrita deste livro marcante já tinham sido levantadas por outros naturalistas, inclusive pelo seu avô, Erasmus Darwin, e especialmente por Pierre Louis Moreau de Maupertuis. O matemático e filósofo francês antecipou Darwin em um século propondo algo muito semelhante a selecção natural no «Venus Physique» de 1745 e no «System of Nature», publicado em 1751. No primeiro livro, Maupertius sugere que as formas de vida da Terra surgiram através de variações casuísticas associadas a sobrevivência e reprodução diferenciadas que permitiram uma acumulação de adaptações funcionais.
Darwin foi o primeiro a responder satisfatoriamente às questões que a observação da Natureza levantava desde os primórdios da História, nomeadamente tinham sido abordadas por Anaximandro (610-546 a.C.), que especulou sobre o início e a origem da vida e nos fornece o primeiro registo histórico sobre a ideia da evolução dos seres vivos. Mas se os pensadores mais marcantes da Antiguidade Clássica se questionavam já sobre o que ficaria consagrado no termo «evolution», derivado do latim «evolutio» – que significa «desenrolar-se como um pergaminho» e que começou a ser usado no século XVII para designar uma sequência ordenada de eventos -, parece que persistem atavicamente resquícios do pensamento mágico que dominava antes da grande revolução do pensamento que foi a filosofia grega.
Nos Estados Unidos, as guerras da evolução foram alimentadas pela administração Bush e as suas emanações poluiram alguns países europeus, a ponto de no ano passado o Conselho da Europa ter aprovado um projecto de resolução que rejeita, em termos muito fortes, a possibilidade do criacionismo em qualquer das suas vertentes ser ensinado nas aulas de ciência das escolas europeias (infelizmente com um voto contra português, o de João Bosco Mota Amaral). Na resolução, são condenados os advogados do criacionismo, associados a partidos políticos de extrema-direita na Europa Oriental, que os parlamentares consideram estar a impor «dogmas religiosos» e a promover «uma regressão radical ao passado» à custa da educação das crianças europeias.
Esta ameaça criacionista, que muitos tentam minimizar, é real e não está restrita aos Estados Unidos, como indica a recente demissão de Michael Reiss da direcção do Departamento de Educação da Royal Society. O criacionismo, no entanto, toma fôlego em outras paragens pela mão do Bilim Arastirma Vakfi, BAV, ou Fundação para a Investigação Científica, um grupo fundamentalista turco designado em 2001 pela Science como «um dos movimentos anti-evolução mais fortes do mundo fora da América do Norte».
A um ano do bicentenário do nascimento de Darwin e dos 150 anos da publicação da «Origem das Espécies» - e mais de 2500 anos depois de terem sido esboçados as primeiras concepções evolucionistas - podemos apenas esperar que a eleição de Barack Obama refreie os ímpetos criacionistas nos Estados Unidos e por arrasto no resto do mundo- já que a maioria dos movimentos criacionistas se inspira no Discovery Institute. Quiçá para o ano neste mesmo dia, declarações como as recentes do líder do BAV de que cerca de 90-95% dos europeus não «acreditam» na evolução sejam recebidas universalmente com as gargalhadas que o dislate merece.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
