Quinta-feira, 27 de Novembro de 2008
João Pinto e Castro

1. Mobilizar verbas equivalentes a 1,5% do PIB europeu pode parecer muito. E seria de facto muito, se se desse o caso de nos encontrarmos perante uma recessão comum. Mas não estamos: a paralisia do sistema financeiro ameaça bloquear o funcionamento da economia mundial, algo que, a esta escala, não sucedia há quase oitenta anos.

2. Pior ainda: desses 1,5%, apenas o equivalente a 0,3% resultam de iniciativas da própria Comissão. O resto provém da mera agregação de medidas tomadas ao longo das últimas semanas pelos maiores países da União. Mais uma vez, as instituições que governam a UE demonstram escassíssima capacidade autónoma de actuação.

3. No plano da Comissão há de tudo um pouco: reduções de impostos directos, reduções de impostos indirectos, reduções de impostos sobre os capitais, reduções dos descontos para a segurança social, aumentos de salários mínimos, aumentos de prestações sociais, reforços dos subsídios de desemprego, apoios a indústrias seleccionadas, créditos bonificados a PMEs, créditos bonificados à habitação, investimentos públicos em infra-estruturas, investimentos públicos em educação e saúde, etc., etc., etc.

4. Reconheço a inevitabilidade, nas presentes condições, de tal dispersão. Mas seria de esperar, ao menos, um fio condutor, uma linha forte. A ideia que fica é que tanto faz baixar impostos como aumentar despesas, e que é também indiferente que tipo de impostos ou de despesas são afectados. Nada mais falso.

5. Baixar impostos não é uma solução, porque, na actualidade, tanto as empresas como os particulares privilegiam o entesouramento como forma de se protegerem contra o risco que adivinham no horizonte. Ora o dinheiro entesourado não é consumido nem investido, apenas retirado da circulação. Caímos numa armadilha da liquidez tipicamente keynesiana.

6. Apoiar a indústria automóvel também pouco resolve, para além de representar uma injustiça em relação a outras actividades económicas. Mais absurdo ainda é dar-lhe dinheiro para acelerar o desenvolvimento de veículos ecológicos, porque isso não terá qualquer consequência no horizonte da presente recessão, mesmo que ela se prolongue por dois ou três anos.

7. O mesmo raciocínio vale para a promoção do investimento público em geral. Não interessa lançar investimentos cujo efeito reprodutor só se fará sentir dentro de vários anos, como é o caso de grandes obras de melhoramento de infra-estruturas.

8. Do que se necessita é de investimento público rápido, útil e com impacto sobre o emprego, que permita contrariar urgentemente o desaparecimento do investimento privado a que estamos a assistir. Digamos, de um grande número de pequenas obras programáveis e executáveis a breve trecho, tais como reconstrução e melhorias de escolas, hospitais, tribunais, estradas, pontes, jardins, recintos desportivos, pavimentos, muros, e por aí fora. Ora, isso é precisamente aquilo que quase não se vislumbra no Plano Barroso hoje apresentado em Bruxelas.

9. Como Keynes recomendou a Roosevelt após a sua eleição, do que agora se necessita é de gastar, gastar, gastar. Para evitar ter que gastar mais depois, quando isso for mais difícil e perigoso. Este conselho, em circunstâncias normais insensato, é o único prudente no momento actual.

10. Tudo indica que, quando finalmente os nossos líderes acordarem, poderá ser demasiado tarde para evitarem o pior.
 


22 comentários:
De Luis Moreira a 27 de Novembro de 2008 às 19:01
E o que preocupa cá é que os grandes investimentos públicos decididos antes da crise vão avançar como se entretanto, os dados não tenham sido profundamente alterados.Se antes havia dúvidas a mais autoestradas,pontes,tgv e novo aeroporto, agora não há dúvida nenhuma .São erros que o país vai pagar muito caro. Para além das ajudas oficiais aos grandes grupos económicos,estes investimentos são mais dinheiro deitado para cima dos mesmos de sempre.E se aumentassem a capacidade de consumo interno,apoiando as pequenas e as médias empresas, que representam 80% do emprego? E o dinheiro que vamos que ter de ir buscar lá fora ficava cá não voltava,como vai acontecer com a maioria do dinheiro investido nos grandes investimentos.


De Antonio Antero a 27 de Novembro de 2008 às 19:50
Em Portugal não há qualquer crise, nem recessão. Para que nos havemos de preocupar com isso ou até falar disso? É até um desrespeito pelo Senhor Primeiro-Ministro.
Há muita coisa para falar: os carros eléctricos e o Magalhães. Ninguém olha para o bom que temos! Só o que temos melhorado em matemática! Ninguém fala nisso?


De GL a 27 de Novembro de 2008 às 20:24
"E se aumentassem a capacidade de consumo interno,apoiando as pequenas e as médias empresas, que representam 80% do emprego?"

As ruas voltavam a estar cheias de SUVs e voltava a ser impossível encontrar um quarto vazio num hotel. Era bom para a TAP.


De António P. a 27 de Novembro de 2008 às 23:37
Caro Luis Moreira,
Acredita mesmo nesse mito de que as PME representam 80% do emprego ?
Cumprimentos


De nuno castro a 27 de Novembro de 2008 às 19:51
desculpa? mais absurdo é dar dinheiro para acelerar o desenvolvimento de veículos ecológicos? não estás a par com certeza do último livro do Friedman - Too hot e qualquer coisa que agora não malembra.
as tecnologias verdes são a próxima bolha, meu caro.


De GL a 27 de Novembro de 2008 às 20:28
"Tudo indica que, quando finalmente os nossos líderes acordarem,"

O problema está nesta oração. "Nossos lideres". Uma europa federal responderia mais depressa a esta crise.


De Luis Moreira a 27 de Novembro de 2008 às 22:30
A última vez que o Friedman aplicou as suas teorias foi na ditadura do Chile.Não é possível aplicar as teorias dos boys de Chicago em democracia.Quanto aos grandes investimentos previstos é um erro de palmatóriaTalvez com a excepção do aeroporto.E já agora seria bom que o BP criasse um serviço para controlar a massa que está a ser investida nos bancos, as garantias pretadas e por diante.é que o mercado sòzinho dá no que se está ver! Mas tambem não é preciso o PS transformar-se numa SA!


De GL a 28 de Novembro de 2008 às 00:52
Tudo é mal, tudo devia ser proibido. A garantia dos bancos. Os grandes investimentos. Os contentores. Carros eléctricos. Fazia-se apenas o aeroporto, para um gajo poder fugir do filme.

O que devia ser liberado: as bicicletas em Lisboa. Aliás, deviam ser abolidos os carros.

Vou ali tomar um cházinho à beira mar a ler o jornal e já volto.


De Luís Lavoura a 28 de Novembro de 2008 às 09:56
"reconstrução e melhorias de escolas, hospitais, tribunais, estradas, pontes, jardins, recintos desportivos, pavimentos, muros"

Tudo isto é construção civil.

A construção civil só emprega homens (quando a maior parte dos desempregados são mulheres) e tem uma forte tendência para empregar sobretudo estrangeiros.

Além disso, a construção civil é tipicamente de baixo perfil tecnológico, e não exporta. Desenvolve o consumo interno, mas não cria capacidade de exportação nem tecnológica.


De João Pinto e Castro a 28 de Novembro de 2008 às 10:38
1. Mesmo que só empregasse homens, isso seria bom na actual conjuntura para combater o previsível aumento do desemprego.

2. Mas não emprega só homens. Recorrer a uma enorme variedade de materiais.

3. Construção é genericamente baixa tecnologia. Reconstrução, não. Por isso é que entre nós se faz pouco.

4. Logo, reconstrução desenvolve capacidades e know-how, sim. Equipar todas as escolas com painéis solares, por exemplo, seria uma ideia.

5. Apesar disso, o que proponho é para responder a uma emergência conjuntural, não para remodelar a estrutura produtiva do país. Esses são outros contos.


De GL a 28 de Novembro de 2008 às 10:43
"A construção civil só emprega homens (quando a maior parte dos desempregados são mulheres) e tem uma forte tendência para empregar sobretudo estrangeiros."

Deve ser por isso que vão portugueses trabalhar nas obras em Espanha. Está explicado: construção civil só emprega estrangeiros.


De Luís Lavoura a 28 de Novembro de 2008 às 10:54
Exatamente. Se os portugueses que trabalham na construção civil preferem fazê-lo em Espanha, então, que continuem a fazê-lo. Se houver mais desempregados em Portugal, a solução é mandá-los para mais e mais obras em Espanha. Não vale a pena criar empregos na construção civil em Portugal porque já se sabe que eles serão ocupados por estrangeiros. Os desempregados portugueses preferirão ir trabalhar nas obras em Espanha. E acho eu que fazem eles muito bem (eu, aliás, tenho um primo que está precisamente nesse estado, a trabalhar na construção civil em Espanha, e eu acho que faz ele muito bem).


De GL a 28 de Novembro de 2008 às 13:21
"Não vale a pena criar empregos na construção civil em Portugal porque já se sabe que eles serão ocupados por estrangeiros."

Ou seja, a sua receita é que os portugueses continuem a emigrar...

"não vale a pena criar empregos na c. c. em portugal pq serão ocupados por estrangeiros"

Não sei em que país vive. Não sei se está a ver bem a realidade portuguesa. Deixo a minha opinião: enquanto não formos atendidos nos restaurantes por um português ou o trolha das obras for português, este país está mal, está mesmo muito mal.
Nada contra os estrangeiros. Estes tem servido para aumentar a produtividade, na medida em que ajudam a regular os salários, pois a única forma de valorizarmos os nossos euros, com a baixa produtividade do país era baixar os salários e isso graças aos estrangeiros temos vindo a conseguir, caso contrário havia fechado muito mais empresas. Mais daí a desejar ao outro – a emigração – o que não quero para mim... não é solução o país continuar eternamente a exportar mão de obra local e substituí-la por mão de obra externa. O melhor é haver mais trabalho, para todos, os de cá e os de fora.


De GL a 28 de Novembro de 2008 às 13:24
O pensamento de MFL faz escola.


De GL a 28 de Novembro de 2008 às 13:32
"Se houver mais desempregados em Portugal, a solução é mandá-los para mais e mais obras em Espanha"

Acabaram as obras em Espanha.


De Luís Lavoura a 28 de Novembro de 2008 às 10:06
Entretanto, também não se fala do post da origem do dinheiro.

Se o Estado baixa os impostos, ou aumenta as despesas, então o Estado tem deficit.

Se o Estado tem deficit, tem duas opções para o pagar. Ou imprime moeda, o que implica gerar inflação, ou pede o dinheiro emprestado e fica com dívidas, o que implica pagar juros por elas nos anos subsequentes.

Ambas as opções são pouco atraentes.


De João Pinto e Castro a 28 de Novembro de 2008 às 10:41
Sim, neste momento é correcto os Estados endividarem-se, porque, se não o fizerem prontamente, todos teremos que gastar mais amanhã para voltarmos ao ponto de partida. Estou certo que as gerações futuras ficarão contentes por pagarem impostos pelo direito a terem herdado uma economia próspera em vez de um mundo desfeito - porque é disso que estamos a falar. Deitem fora o .livro de receitas e comecem a pensar.


De CMF a 28 de Novembro de 2008 às 17:50
"Estou certo que as gerações futuras ficarão contentes por pagarem impostos pelo direito a terem herdado uma economia próspera em vez de um mundo desfeito - porque é disso que estamos a falar."
Sim, muito contentes. Talvez tão contentes como a actual "geração recibo verde", que anda muito feliz por ter que pagar o maravilhoso Estado Social, que afinal só serviu para uma geração, a anterior. Irra, não aprendem.


De GL a 28 de Novembro de 2008 às 10:45
"Ou imprime moeda, o que implica gerar inflação, ou pede o dinheiro emprestado e fica com dívidas,"

Imprime moeda?... isso era no tempo da outra senhora.
Agora, só com a autorização do Banco Europeu.


De nuno castro a 28 de Novembro de 2008 às 11:02
um esclarecimento: o Friedman de que eu falei não é, obviamente, o Milton, mas sim o mais prosaico Thomas. Pensei que fosse clarinho como água.

um reparo: o JPC acha mesmo que o plano Barroso foi traçado dentro da comissão?


De Luis Moreira a 29 de Novembro de 2008 às 18:23
"O Friedman de que eu falei..." onde é que falou?
Você vai ao ponto de introduzir novos dados para poder responder como quer. É para mostrar que sabe a diferença entre o Thomas e o Nilton?No outro dia, por razões parecidas, disse-lhe que os seus argumentos roçam o desonesto mas pelos vistos não roçam,são mesmo desonestos! Acha que o que escreve nos seus postes,no que se refere à economia não podem ser lidos,com semanas de antecedência,numa qualquer revista ou jornal da especialidade? Deixe-se de tretas,homem! Seja humilde.


De Luis Moreira a 29 de Novembro de 2008 às 18:27
desculpe, não foi você que falou no Friedman, foi o Nuno Castro.retire o comentário.Obrigado!


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