Uma vez que a educação está na ordem do dia, recupero dois posts que escrevi há cerca de um ano no De Rerum Natura. Ambos os posts abordam as performances dos alunos cá do burgo em testes internacionais - que permitem aferir a qualidade do ensino português.
O projecto PISA, lançado em 1997 pela OCDE, visa monitorizar os resultados dos sistemas educativos, avaliando as competências e conhecimentos de alunos de 15 anos, nomeadamente as literacias matemática, científica e de leitura.
O primeiro ciclo do PISA decorreu em 2000 e envolveu 43 países enquanto o PISA 2003 contou com a participação de 41 países, incluindo a totalidade dos membros da OCDE.
Os resultados nacionais foram desastrosos, verificando-se pouca ou nenhuma evolução no desempenho dos estudantes portugueses entre as duas edições.
No relatório de 2000 (ficheiro pdf) é indicado que «O ambiente familiar aparece também como relevante para as aprendizagens dos alunos», situação que não se altera em 2003. Isto é, os resultados do PISA 2000 e 2003 (e ainda mais os de 2006) corroboram o que disse ontem o Rui Tavares na Sic Notícias sobre a rigidez do nosso sistema social, ou seja, em Portugal a escola não cumpre o seu papel social.
Voltando à análise dos relatórios, em 2003 Portugal ocupava o 27º lugar no que respeita às literacias científica e matemática . Por outras palavras, a «Eterna Assimetria» do Vasco é especialmente assimétrica em Portugal, como indicava em 1998 o "Relatório do Observatório das Ciências e das Tecnologias", um organismo que entretanto foi integrado noutro e nunca mais nos agraciou com relatórios sobre o tema:
«Globalmente, e comparando com os dados europeus, observa-se um défice na cultura científica da população portuguesa, que apresenta os mais baixos resultados em quase todos os indicadores, défice associado a um problema de oportunidades».
Agravado cá no burgo pelas experiências educativas das últimas décadas, o panorama internacional no que respeita às literacias matemática e científica não é animador. Embora os números divirjam com os critérios utilizados, parece existir consenso que a literacia científica não é o forte dos americanos. De acordo com um estudo recente de Jon Miller da Michigan State University, que indica que neste capítulo os americanos vão à frente dos europeus por requererem que todos os estudantes universitários tenham disciplinas de ciências, quase três quartos dos americanos não consegue ler ou perceber a secção de ciência do New York Times, situando em 28% a fracção de literatos científicos neste país. Outros autores indicavam, em 2002, que esta percentagem não atingia 8% dos adultos, valor análogo ao que propunham para o Reino Unido.
De facto, embora hoje em dia ciência e tecnologia estejam de tal forma entrosadas que até se arranjou a sigla C&T para designar conjuntamente ambas, apenas a tecnologia conquistou o público em geral, a ciência e o pensamento científico não permearam a sociedade, mesmo nos países mais desenvolvidos. Não é assim de espantar que nas tecnologicamente avançadas sociedades ocidentais proliferem as pseudociências, a superstição, as crendices e o charlatanismo.
Para colmatar o défice de ciência, a Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAS) lançou um projecto ambicioso em 1985, o Projecto 2061, que visa educar cientificamente todos os cidadãos americanos, objectivo partilhado com, por exemplo, a Fundação para a Literacia Científica. Por cá, o Ciência Viva, com muito menos recursos, tenta a mesma proeza.
Assim, um dos grandes desafios actuais que todos os países enfrentam - porque os monstros que o sono da razão pode produzir são muitos e mais aterradores que os que assombravam Goya - é a divulgação e a compreensão pública da ciência. Algo que diz respeito aos próprios cientistas, mas passa, também, pelo jornalismo científico.
Mas considero igualmente importante reflectir porque razão se encontra a sociedade em geral tão divorciada da ciência. Porque razão o papel fulcral que a ciência desempenha no quotidiano é tão negligenciado e porque razão a ciência só mobiliza a opinião pública quando a investigação ou novas aplicações de ciência colidem com a religião (p.e., fertilização in vitro ou investigação em células estaminais) ou geram alarmismo. Por exemplo, o evolucionismo tem quase 150 anos. É a pedra basilar de todas as ciências da vida mas continua a não ser aceite por demasiadas pessoas, que contrapõem absurdos criacionismos sortidos à evolução.
Imagem: O sono da razão produz monstros (Caprichos, no. 43: El sueño de la razon produce monstruos), Francisco José de Goya.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
