Sábado, 6 de Dezembro de 2008


A primeira recolha de informação do PISA, - Programme for International Student Assessment - teve como principal domínio de avaliação a literacia em contexto de leitura e o PISA 2003 incidiu especialmente sobre literacia matemática e teve como domínios secundários as literacias de leitura e científica, assim como a resolução de problemas. O PISA 2006  incidiu sobre literacia científica e contou com a participação de 57 países, que respondem por cerca de 90% da riqueza mundial. Em Portugal, o PISA envolveu 172 escolas (152 públicas e 20 privadas), abrangendo 5109 alunos. A análise das “Competências científicas dos alunos portugueses” no âmbito do Pisa 2006 está disponível na página do Gabinete de Avaliação Educacional do Ministério da Educação.
Entre 2000 e 2006 os resultados pouco variaram, ou seja, continuamos abaixo da média e na cauda da OCDE. Na realidade, numa primeira análise, parece ter-se agravado o fosso do desempenho de acordo com a origem socio-económica do aluno, que em Portugal apresenta um peso mais relevante que na média dos 57 países analisados.

Se olharmos para os valores apresentados, verificamos que os conhecimentos científicos são os menos sensíveis ao rendimento do agregado familiar, mas que quer em matemática (519 contra 424 numa escala até 800 pontos, menos 95 pontos) quer em leitura (menos 108 pontos), a média dos alunos provenientes de famílias mais desfavorecidas é muito inferior. De igual forma, o desempenho dos alunos reflecte as habilitações académicas dos pais, embora menos marcadamente que a sua situação económica (cerca de mais 60 pontos nas três áreas para os filhos de licenciados).

Em relação à evolução das  médias nacionais, verificamos que na literacia em ciências há uma ligeira melhoria (um valor de 474, o que compara com 459 em 2000 e 468 em 2003) mas estamos 26 pontos abaixo da média da OCDE (498 pontos) e 17 abaixo da média da totalidade dos países analisados.

Na literacia em leitura, o valor de 2006 (472) é superior ao de 2000 (470), mas inferior ao de 2003 (478) e inferior em 20 pontos à média dos membros da OCDE e 12 abaixo da média do total de países avaliados.

Na literacia em matemática, mantemos os 466 pontos de média verificados em 2003, acima dos 459 de 2000 mas estamos 32 pontos abaixo da média da OCDE e 18 abaixo da média da totalidade dos países analisados.

Em relação à literacia científica, tão preocupante como os valores médios obtidos é a distribuição dos desempenhos. De facto, numa escala de 1 a 6, 25% tem conhecimentos científicos limitados (ou nulos) e a maioria dos alunos, 53,3%, não ultrapassa o nível dois. Apenas 3,0% dos alunos portugueses atinge o nível 5 e o nível máximo foi obtido por uns míseros 0,1%.

Estranhamente, apesar de desempenhos no fundo da tabela (só três países da OCDE se saem pior que Portugal - Grécia, Turquia e México), os estudantes portugueses demonstram uma ambição em prosseguir uma profissão científica muito acima da média (38.8 contra 25.2%), aliás, é mesmo a mais alta no conjunto dos países da OCDE.

Este último dado dever-nos-ia fazer reflectir: se os alunos nacionais, não obstante os resultados obtidos, demonstram uma tão grande apetência por carreiras científicas, ou seja, um tão grande fascínio pela ciência, o que há de errado no nosso ensino/curricula que os impede de concretizar e aprofundar esse fascínio? Se a motivação está lá, o que falta?
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8 comentários:
De JoaoNarciso a 6 de Dezembro de 2008 às 09:45
desconfio da forma como foram feitos estes testes. Sei muito bem como é que em Portugal funciona a escolha dos alunos que vão fazer as provas. Normalmente, são voluntários, muitos deles desinteressados, que procuram apenas uma dispensa justificada das aulas. Não sei como é nos outros países, mas tenho quase a certeza que os alunos não são seleccionados com esta leviandade.

JoãoNarciso


De Palmira F. Silva a 6 de Dezembro de 2008 às 10:10
Caro João Narciso:

Se a literacia científica dos alunos que nos chegam ao Técnico, entre os melhores alunos do país de acordo com as médias de entrada, se podem extrapolar então a literacia científica anda pelas ruas da amargura.

Aquilo que me faz mais impressão nas duas últimas levas de alunos não é a total incapacidade de abstracção, de raciocínio científico e a abismal capacidade decorativa ( de decorar factóides científicos, fórmulas e definições sem os perceber) é a humildade dos alunos e o pânico que se vê espelhado nas caras deles quando percebem a sua total falta de preparação. Claro que há excepções, mas são muito poucas.
Não creio que os jovens nacionais tenham emburrecido de repente, aliás os resultados que tive o ano passado - em que houve pela primeira vez em muitos anos uma subida drástica do 1º para o 2º e deste para o 3º teste - mostraram uma enorme vontade e capacidade para aprender.


De Palmira F. Silva a 6 de Dezembro de 2008 às 12:00
Entretanto andei a tentar descobrir como se escolhiam os alunos. Ainda não fiquei totalmente esclarecida (nomeadamente não sei como são escolhidas as escolas) mas a selecção dos testados é feita em todos os países pelo Consórcio Internacional que administra o PISA. estes são escolhidos forma aleatória, sendo sorteados 25 alunos de cada uma das escolas seleccionadas para participar da avaliação.



De Palmira F. Silva a 6 de Dezembro de 2008 às 12:05
Algo que me intriga é o facto de não obstante estes resultados miseráveis, Portugal ser um dos países que mais investe em educação. Portugal investe bastante mais do que outros países que obtiveram melhores resultados, por exemplo, a Finlândia que ocupa o 1º lugar do ranking, juntamente com o Japão e a Coreia do Sul.

aliás, há uns tempos numa reunião em que se discutia o financiamento do ensino superior fiquei estupefacta quando descobri que se investe por aluno muito mais no secundário que no ensino superior.


De Flanger a 6 de Dezembro de 2008 às 14:19
É surpreendente que sendo a Palmira uma cientista ainda não tenha descoberto o que qualquer pessoa comum descobre ao fim de cinco minutos: Na Europa, os portugueses são os mais preguiçosos e laxistas. Naturalmente, os resultados miseráveis são o corolário lógico.


De romeu a 6 de Dezembro de 2008 às 15:48
"Estranhamente, apesar de desempenhos no fundo da tabela (só três países da OCDE se saem pior que Portugal - Grécia, Turquia e México), os estudantes portugueses demonstram uma ambição em prosseguir uma profissão científica muito acima da média (38.8 contra 25.2%), aliás, é mesmo a mais alta no conjunto dos países da OCDE.

Este último dado dever-nos-ia fazer reflectir: se os alunos nacionais, não obstante os resultados obtidos, demonstram uma tão grande apetência por carreiras científicas, ou seja, um tão grande fascínio pela ciência, o que há de errado no nosso ensino/curricula que os impede de concretizar e aprofundar esse fascínio? Se a motivação está lá, o que falta?"

Não me parece nada estranha esta afirmação de "ambição de prosseguir carreira científica"... Sou estudante, actualmente num curso de Engenharia, e percebo perfeitamente porque dizem isso os estudantes portugueses: dizem isso, e dizem muitos deles como sempre pude ver, porque segundo se diz, e até parece ser verdade, os cursos nas áreas das ciencias (que incluem medicina, entre outros cursos de saúde, outras ciências e as engenharias) são aqueles cursos que toda a gente diz que dão emprego e riqueza, por oposição a outro tipo de áreas e de cursos (como as humanidades e as letras). Assim é minha convicção que muitlos alunos dizem querer seguir cursos ligados à ciência não por gosto ou por boa preparação, mas porque acham que são dos poucos cursos associados a boas taxas de emprego. O pior é que depois de entrarem nesses cursos os resultados são desastrosos...

Mais se poderia dizer sobre isto, mas a verdade é que em Portugal não se dá valor a cursos de outras áreas, nem às coisas associadas as essas áreas, sobretudo áreas como as artes, a educação e as letras/humanidades.


De Tozé Marques Silva a 6 de Dezembro de 2008 às 19:15
Todo esse estado de coisas, que era lamentável, pertence ao passado. O governo do Sr. Eng. Sócrates já conseguiu uma notável melhoria em matemática. Em dois anos devemos ter ultrpassado dezenas de países. Mais um ano e calculo que estaremos entre os 5 primeiros. Se isso não se reflectir num próximo Pisa é porque a OCDE mente abjectamente ou porque os alunos foram escolhidos entre os piores pelos professores, classe que anda desorientada e muitos deles a soldo dos inimigos da Nação. Já dizia Camões que entre os portugueses traidores houve às vezes.


De Nuno Costa a 8 de Dezembro de 2008 às 15:04
Os números do "investimento" em educação têm muito que se lhes diga. A simples comparação dos montantes gastos com a educação é uma medida muito pouco reveladora da importância da educação nas políticas públicas. Convinha, por exemplo, distinguir as despesas com pessoal das despesas com instalações e equipamentos, o que se pode revelar importante, por exemplo, para o desempenho nas ciências naturais.


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