Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008
Sabes o que é, Maria João? É que às vezes não há pachorra. Quando li a divulgação daquele estudo disse logo para mim mesmo "oh, não, vem aí merda...". Basta ler a caixa de comentários ao post do irmãozinho para perceber do que se trata: desata-se logo o chorrilho de confusões sobre "raça" e grupo étnico e religião e cultura. Uma salganhada. Confusões que, aliás, não são maiores do que as que estão implícitas naquele tipo de estudos: há um gigantesco salto lógico que é dado quando se passa do estudo dos marcadores para as ilações sobre descendência no sentido cultural. O estudo é o que é (e é válido, não é isso que está em causa): um estudo de marcadores que, por si, não dizem nada, isto é, não significam. As ilações são inevitavelmente políticas, carregadas de significados produzidos aqui e agora por relações sociais e não por marcadores ou por nossosenhorjesuscristo. É nas ilações que começa a "guerra": o nacionalista assusta-se por "ter" tantos antepassados judeus; o multiculturalista fica contente por ver o nacionalista lixado; ambos estão a usar o significante "judeu" ou "mouro" com uma carga de significado que não está nos marcadores. Desculpa (desculpem) a linguagem, mas é que é assim mesmo: aquelas duas "coisas" - o estudo e as ilações - são incomensuráveis.
PS - já agora, e a contrapêlo do que digo acima: pena é que a "mestiçagem" a que alude o artigo do Público sobre aquele estudo não tenha incluído dados sobre a "nossa" "herança" (tanta aspa, meus deuses...) negra-africana... Então é que era um forró.
De
Shyznogud a 8 de Dezembro de 2008 às 12:26
Pronto, já me fizeste sentir menos ignorada, obrigada pelo reforço de auto-estima, Miguel.
Agora mais a sério, neste tipo de discussões - e esquecendo o resto a q tb. aludes e que é fundamental - o que me faz confusão logo à partida é a demonstração clara de que a maior parte das pessoas não sabe usar os conceitos.
De Miguel Lobo a 8 de Dezembro de 2008 às 17:34
De facto não há pachorra, ainda por cima para algo que parece tão óbvio. Mas o problema é que não é, nem para aqueles para quem devia ser óbvio e a quem a Maria João apela: os antropólogos. Na semana passada tive a confirmação que aquilo que eu julgava ser a única coisa próxima dum consenso na antropologia social, a inexistência de raças, afinal ainda não está adquirida. Em plena aula ouvi um colega seu, antropólogo e professor do ISCTE, a afirmar quase revoltado que as raças existem e nem compreende como é que nós, e principalmente os antropólogos, nos recusamos a aceitar tal facto - aliás, acrescentou, a existência de raças é tão óbvia e tão visível que é precisamente isso que nos leva a negar a sua existência (recorrendo a uma subversão fantástica, para um cientista social, duma ideia de Bourdieu) . De resto, para ele, a maior prova deste "facto" é precisamente este tipo de estudos. Claro que devo acrescentar que ele deixou bem claro que a noção de raça não serve, em nenhuma circunstância, para legitimar qualquer desigualdade ou discriminação - como se fosse possível separar as duas coisas, digo eu.
De
Shyznogud a 8 de Dezembro de 2008 às 17:39
Bom, Miguel, não respondo por esse misterioso professor, claro. Mas confesso que fiquei mortinho por saber quem é :)
De Miguel Lobo a 9 de Dezembro de 2008 às 00:52
Imagino que tenha ficado mortinho por saber quem é, e foi com o prazer de suscitar essa curiosidade que eu fiquei mortinho por partilhar este acontecimento :) desculpe a crueldade. Mas é também um desabafo pela crise existencial que despoletou em mim, ainda por cima ao ver o efeito catártico que teve na maioria dos meus colegas de turma (antropologia do 3º ano) mortinhos por poderem exprimir livremente, enquanto quase-antropólogos, aquilo que estavam impedidos de dizer desde o primeiro ano e que eles comprovam todos os dias com os próprios olhos: a existência de raças.
Mas é claro que não vou dizer o nome do professor, até porque duvido que ele tivesse coragem de fazer as mesmas afirmações num artigo científico ou usasse o mesmo tom perante colegas de profissão.
Muito bem. Até seria caso para dizer, se eu tenho um "marcador de raça" num cromossoma que nunca mudou, ao fim de centenas de gerações é provável que os outros 45 que se misturam consistentemente tenham já pouco de si que ver com o primeiro.
Mas olhe que os jornais também não ajudam a evitar esta tendência para o disparate.
Comentar post