Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008

Algo que me irrita sobremaneira são charlatanices e em especial charlatanices químicas que me entretenho a desmontar já há uns tempos no De Rerum Natura. Os nossos leitores no DRN sabem dessa minha predilecção e volta e meia enviam-nos informações sobre as últimas banhas da cobra a assolar o cantinho, como aconteceu hoje quando abri o mail, que tratava de algo que o leitor em questão suspeitava (com imensa razão) ser uma fraude e que consiste numa coisa que dá pelo pomposo nome «hidrolinfa».
Esta tal hidrolinfa (nunca percebi o fascínio pela água de tanto charlatão...) não passa de uma versão lusa dos Aqua Detox que infestam qual praga o mundo em geral, os países anglo-saxónicos em particular. Em Portugal, são construídas e comercializadas por algo com o nome pomposo MENP - Fabrico de Máquina de Saúde e Ecologia que faz parte d'«O Departamento de Desenvolvimento Tecnológico e Científico (T.S.D. - Technological & Scientific Development), que trabalha em exclusivo para a UPN - Universidade Profissional do Norte».
A
abusivamente auto-denominada Universidade,
ministra «cursos» numa gama abrangente de banhas da cobra, de homeopatetices a naturopatetices, exibindo ainda uma «pós-graduação» em ...hipnose! Não sei se a naturopateta que «tratou» um conhecido meu se «formou» nesta coisa, mas certamente adquiriu o seu instrumento principal de trabalho às empresas associadas De facto, a mulher desse conhecido, mais céptica, inquiriu-me sobre os «tratamentos» que me descreveu, incluindo na descrição a maquineta, que descobri agora ser se não a tal «hidrolinfa»
uma congénere, e os resultados de uma detoxificação pelos pés como a ilustrada.

Na altura disse à pessoa que me inquiriu, só pela descrição, que não é preciso saber muita química, apenas olhar para a água ferrugenta que sai volta e meia dos canos, para perceber o que aconteceu. De facto, os charlatães extorquem dinheiro aos mais incautos com um vulgar banho de pés complementado com eléctrodos que quando ligados à corrente e na presença dos sais com que é temperada a água se corroem. A cor dos sais de ferro que se formam depende do cocktail adicionado à água (é
simples ferrugem com água da torneira) e do pH da mesma e não tem remotamente nada a ver com a saída de toxinas pelos poros dos pés (!).
Aliás, não percebo muito bem
o que sejam as toxinas que entraram no léxico de todos os charlatães das medicinas alternativas mas todas as substâncias tóxicas que produzimos são incolores, nomeadamente «
o Colesterol, Triglicerídios, Ureia, Glicose (nunca me passou pela cabeça que um açúcar fosse considerado uma toxina
), Creatinina e Ácido Úrico» que os vendedores de banha da cobra afirmam peremptoriamente que «
A terapia HidroLinfa, ao coincidir nos poros existentes na planta dos pés,
exercita a diminuição imediata comprovada». Na realidade, estas «toxinas» são excretadas naturalmente na urina e na transpiração.
Embora já soubesse da existência da coisa não tinha ideia da sua dimensão e assim agradeço as informações gentilmente transmitidas pelo nosso leitor que me permitiram ler incrédula
o monte de dislates químicos com que os
charlatães da UPN enganam os mais incautos e que podem ser apreciados em todo o seu esplendor na página em que publicitam a coisa.
Estes são tantos e tão variados, aliás, não há quasi uma linha do longo texto que não seja um disparate químico, que não sei qual me escandalizou mais. Não sei se a afirmação extraordinária de que «
toxinas e venenos são incompletos, falta-lhes um electrão negativo» - o que é um total disparate, e não estou a referir-me ao pleonasmo electrão negativo -, ou se as efabulações sobre o hidrogénio, em particular sobre o hidreto (H
-), supostamente formado no «
Tratamento HidroLinfa, rico em iões negativos, aumenta o número de electrões de carga negativa no organismo humano, aumentando assim os iões negativos que transformam o hidrogénio em (H-)», uma barbaridade total. Assim como é uma barbaridade total dizer que «
O oxigénio não actua sem o hidrogénio, a fusão destes dois elementos, transforma-se em energia», um delírio quasi tão idiota como as considerações sobre o ATP ou sobre o equilíbrio de pH fisiológico que o aparelhómetro supostamente mantém.
Sobre este último, é importante esclarecer que nós somos quimicamente muito bem regulados,
nomeadamente a nível de pH que é mantido numa gama muito estreita de valores por uma série de tampões biológicos como sejam o que envolve bicarbonato (e o dióxido de carbono), o fosfato e várias proteínas (
ficheiro em formato pdf que explica a regulação fisiológica do pH). Mas essencialmente importa esclarecer e sobretudo regular as ditas «terapias naturais» e acabar de uma vez por todas com
fraudes magnéticas, quânticas, homeopatetas e afins. Como concluiu o professor
Edzard Ernst após ter recuperado da estase em que esteve mergulhado e que o levou a leccionar banhas da cobra sortidas, «A maioria das terapias alternativas são clinicamente ineficientes e muitas são totalmente perigosas».
De Helena Velho a 24 de Dezembro de 2008 às 18:26
Palmira
É fantástico como faz parecer o difícil tão fácil. Obrigada pela sua capacidade de nos dar bocadinhos de sabedoria(a sua , claro!).
Tenha uns dias maravilhosos !
Y Palmira se fosse possível desmontar a má poesia que por aí voa como a águas barrentas que inventam era bom. Bem: espreita o F-se! Tem lá excertos de um Poema do AFA uma espécie de referencial para afugentar a má poesia quando nos aparece...
vale. Boas festividades.
De Anónimo a 26 de Dezembro de 2008 às 15:59
Espectáculo! E mesmo que não se ponham os pezinhos lá dentro, as toxinas também saem e acastanham a água, certo?
Claro :) Aliás, é o que aconselho aos cépticos, experimentarem sem pôr os pés e verem as «toxinas» saírem pelos poros... dos eléctrodos :)
De Filipa Rocha a 21 de Janeiro de 2009 às 15:45
D. Palmira, o cepticismo é normal, vivemos om isso diáriamente. Eu própria o fui em tempos. Posso-lhe garantir que o equipamento HidroLinfa funciona e que não é uma charlatanice, nem foi concebido por nenhum "homeoPATETA" como assim apelida os profissionais da àrea homeopática. Se teve uma má experiência com algum... bem isso acontece diáriamente com médicos, mecânicos,advogados,padeiros,policias...
Talvez fosse melhor experimentar o equipamento antes de disparar baboseiras. Em relação à coloração da àgua, terei todo o prazer em sublinhar no manual do equipamento que é distribuido gratuitamente a qualquer pessoa a frase onde explicita "Porque é que a àgua muda de cor" è diz o seguinte: "A maioria da coloração deve-se à reacção química verificada entre a àgua, o cloretode sódio e a corrente eléctrica, bem como ao Ph da mesma. A restante sujidade resulta da reacção das toxinas do noso organismo em contacto com a àgua ionizada." (e continua). Também lhe posso ceder cópias de algumas análises de clientes hidrolinfa e análises feitas à àgua antes e depois do tratamento. Mais simples ainda, para que não restem duvidas pode mesmo ser a D. Palmira a fazê-lo, acabe com os fantasmas na sua cabeça e prove-o.
Obrigada
De Anónimo a 18 de Março de 2010 às 09:55
Posso-lhe dizer, até porque já experimentei, que se não colocar os pés na água esta apenas fica com uma coloração amarela e não vê toxinas nenhumas a sair.
De José a 26 de Outubro de 2010 às 10:02
Quem diz que está comprovado, que há estudos, que há análises, podia de uma vez partilhar as fontes e estudos para essas reivindicações em vez de se ficar pela generalidade da coisa.
Eu após ler a documentação da "terapia", encontrei tanta barbaridade - logo a começar pelo departamento fictício de uma "universidade" inexistente, a questão da cor da água e da ionizações já totalmente desmistificadas - que creio que a questão da legitimidade deste "tratamento" está ferida de morte.
Se querem provar o contrário, provem, não fiquem pelo "eu sei porque eu já li e conheço quem tenha lido".
Quanto ao "há pessoas que gostaram tanto que já nem as trato - compraram elas a máquina", pois é natural. Os milhares de euros que pedem por elas cá no burgo dão muito lucro também.
De Anónimo a 20 de Julho de 2011 às 19:37
Tás a brincar certo? Pega tu na máquina e vê se funciona sem meteres os pés. É preciso publicar muitos gráficos? O pior cego é o que não quer ver.
De José a 21 de Julho de 2011 às 01:03
Tens razão, a ciência existente não chega para explicar algo tão complexo e transcendente.
...apesar das explicações já providenciadas.
Entretanto em vez de blá blá blá, podes responder ás questões, partilhar os estudos, análises, etc. Se não for para isso mais vale continuar cego.
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