Aliás, é curioso que o Rogério tenha escolhido transcrever agora este texto porque finalmente encontrei uma tradução (para inglês) do discurso «ecológico» que Bento XVI debitou do alto das suas tamanquinhas Prada.
A tradução do bispo Michael Campbell permitiu-me esclarecer as dúvidas causadas pelo original italiano, nomeadamente em relação à parte que tanta celeuma tem causado aqui na jugular, mais concretamente o ponto 1 das quatro dimensões do «Espírito Santo».
Este ponto resume as tolices habituais de Bento XVI sobre «biologia bíblica», recentemente reunidas na Dignitas personae, e a antropologia também «bíblica» sobre que elaborou na carta aos bispos católicos de todo mundo, «sobre a colaboração do homem e da mulher no mundo e na Igreja» - em que denuncia como profundamente errada a «antropologia, que entendia favorecer perspectivas igualitárias para a mulher, libertando-a de todo o determinismo biológico».
Por «biologia bíblica» refiro-me à profunda convicção de Bento XVI de que o homem não «tem direito pleno sobre a sua natureza biológica» muito menos dispõe de «soberania (sobre o seu corpo)». Claro que a mulher tem ainda menos soberania, acho sempre interessante reler as lucubrações papais sobre o útero feminino nas «Respostas às dúvidas propostas sobre o «isolamento uterino» e outras questões» em que Ratzinger responde peremptoriamente que o útero feminino é pertença da Igreja e apenas pode ser extirpado in extremis. Convém recordar que a questão não é académica uma vez que a obediência amoral às leis «divinas» é exigida aos hospitais e instituições de saúde católicas (ou aos que participam em consórcios em que entram hospitais católicos) que são obrigados a seguir as normas desumanas ditadas de Roma. E a ICAR está em força no mui lucrativo negócio da saúde, por exemplo, detém cerca de 40% do mercado nos EUA.
A primeira «dimensão» do «Espírito Santo» termina com uma referência à Humanae Vitae: de Paulo VI e à sua intencão de defender o amor contra a sexualidade, um tema muito querido de Bento XVI, abordado não apenas na referida carta aos bispos mas na sua primeira encíclica «Deus caritas est».
A referida carta destina-se a condenar veementemete «um certo discurso feminista» que se arroga a considerar que a mulher tem direitos, ou antes, «exigências ‘para ela mesma’», mas trata igualmente da «dimensão antropológica da sexualidade» que «é inseparável da teológica» - o abominado sexo é uma consequência da «queda» - e como tal a humanidade deve «evitar» as relações marcadas pela «tríplice concupiscência», a «concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida», pechas para o mal advindas «do pecado [original]».
A primeira parte da encíclica de Bento XVI condena como erro a separação de eros (amor «mundano») e agape (como expressão do amor fundado sobre a fé), afirmando «quando as duas dimensões se separam completamente uma da outra, surge uma caricatura ou, de qualquer modo, uma forma redutiva do amor». Assim, sem sequer o citar, Bento XVI pretendeu anular a influência do bispo de Lund e influente teólogo do século XX, Anders Nygren, que com a sua obra de 1932, «Agape e Eros», marcou a forma como o mundo cristão moderno vê o amor. Também não mencionado mas obviamente refutado é C.S. Lewis (sim, o mesmo das Crónicas de Nárnia) mais concretamente o seu livro «Os quatro amores», que distingue quatro tipos de amor (igualmente válidos), storge (afecto), philia (amizade), eros (amor erótico ou romântico) e agape (o amor cristão por excelência).
De uma forma magistral, nesta encíclica curta, incisiva e completamente cristocêntrica, Ratzinger, que é na minha opinião o Papa mais inteligente que ocupou o trono papal, resolveu igualmente as questões «fracturantes» que agitam as hostes católicas. Ao afirmar «numa orientação baseada na criação, o eros impele o homem ao matrimónio, a uma ligação caracterizada pela unicidade e para sempre; deste modo, e somente assim, é que se realiza a sua finalidade íntima», Bento XVI reafirmou a oposição da Igreja à contracepção, implicitamente ao aborto, a qualquer relacionamento fora do matrimónio, ao divórcio e não só ao casamento homossexual como à homossexualidade.
Ou seja, o discurso polémico de Bento XVI mais não é que uma variante da encíclica que debitou há quase três anos, em que a única nota nova (e preocupante) reside no parágrafo enfático que informa o mundo que as tolices papais devem prevalecer na res publica:
«the Church cannot and should not confine itself to passing on the message of salvation alone. It has a responsibility for the created order and ought to make this responsibility prevail, even in public.»
Isto é, Bento XVI não falou apenas para os fiéis, ou se quisermos, recordou-lhes o que já lhes tinha ordenado na dita encíclica, que é «missão dos fiéis leigos configurar rectamente a vida social» sendo sua obrigação imiscuirem-se na dispensa da justiça sempre que esta não seja «recta», isto é, não obedeça aos ditames do Vaticano, ou antes «às exigências do bem», sendo que o bem é o agape cristão definido e interpretado por Ratzinger. Bento XVI assumiu-se assim como o guardião de todos nós, mesmo aqueles que não lhe reconhecemos qualquer autoridade para isso, com a «responsabilidade» de nos impor a todos, não apenas aos crentes, as tolices que congemina.
Sim, Palmira, mas nota que a frase em português que cito pretende demonstrar que o senhor não mede as palavras.
"... nem sempre é respeitada a igualdade entre todos nem a dignidade de cada um, enquanto novas barreiras são levantadas por motivos relacionados com a raça, a religião, as opiniões políticas ou outras convicções."
e as opções sexuais, não se encaixariam bem aqui?
:)
estás-te a esquecer da dentadinha na maçã da Eva, pá.
De TragédiaGeek a 26 de Dezembro de 2008 às 21:58
Por essa ordem de ideias, ninguém deveria tornar publica a responsabilidade que julga ter a respeito de qualquer convicção, pois estaria a assumir-se como guardião de todos nós o que é uma chatice pois, como é sobejamente sabido, isso transforma-nos de imediato em fiéis seguidores dessa convicção.
De
MRC a 26 de Dezembro de 2008 às 23:48
Palmira
Explique-me uma coisa que eu ainda não percebi sff.
Se a Maçonaria pode influenciar a res publica através das mais variadas e sinistras formas de influência; se os grupos de gays podem influenciar a res publica através das suas mais variadas formas de pressão; se os clubes de futebol podem influenciar a res publica através dos seus contactos; etc.etc.etc. porque raio é que a ICAR não pode tentar vender o seu peixe na res publica ??
Qual é a capitis deminutio que a ICAR tem (ou, no seu douto entender, deveria ter) que a deveria obrigar a se confinar ao espartilho do obscuro recanto de uma bafienta sacristia algures no interior de uma aldeia perdida no meio da serra mais recôndita do interior ?
Não têm nos EUA 60% de outras opções em termos de assistência hospitalar que não as católicas? Não são as pessoas livres de aceitar ou não ou simplesmente ignorar o que o Vaticano diz ?
Ah! Finalmente alguém que assume que bento XVI não falou só para os crentes e que o que pretende é que todos sejamos obrigados a seguir as suas tonterias :)
E vamos lá a ver, eu não disse nada sobre a liberdade de bento xvi debitar as suas patetadas, por mim esteja à vontade para isso, cá estarei para as dissecar. Agora maça-me um bocadinho o coro de vitimização que se ergue quando alguém critica os tiques totalitários da ICAR.
Porque o que a ICAR quer é que as pessoas não sejam de facto livres para ignorar as suas tolices; quer que a letra da lei transcreva essas tontices, proibindo ou criminalizando o que é contra as biologia e antropologia «bíblicas».
De António Parente a 27 de Dezembro de 2008 às 12:04
Cara Palmira F. Silva
Não respondeu às perguntas da comentadora MRC.
De
MRC a 27 de Dezembro de 2008 às 00:46
Não posso deixar de a elogiar pelo facto de fazer algo que muitos católicos (mesmo, os ditos praticantes) não fazem: dar-se ao trabalho de ler o que o Papa escreve e diz.
Assim sendo, parece-me que a origem última das suas dúvidas é bastante anterior aos textos papais que comenta e, de forma a compreender melhor o "absolutismo" da ICAR, recordo a enciclica Veritatis Splendor , em particular, o seu capítulo II. I sobre a "Liberdade e a Lei" onde esta temática é mais extensamente desenvolvida.
Por fim, recordo que a ICAR leva muito a sério a importância da liberdade, incluindo a liberdade de errar, discordar e até pecar. Porém, isso não significa que se deva abster de proclamar aquela que é, para si, a sua verdade.
Caro MRC;
Li a Veritatis Splendor de uma ponta à outra, assim como a que se seguiu dois anos depois, a Evangelium Vitae, que enfatiza a mensagem da primeira: o aborto é um mal intrínseco e que não há excepções que o permitam. Mesmo que essa excepção seja salvar a vida da gestante…
Aliás por isso João Paulo II canonizou Gianna Beretta Molla com o título Mãe de Família, uma mãe que deve ser o paradigma das mulheres católicas, que confrontada com uma gravidez que se levada a termo resultaria na sua morte se «sacrificou» pelo embrião!
mas devo dizer que já na altura em que li pela primeira vez a Veritatis a achei uma abominação, em particular o capítulo que recomenda, a começar pela citação inicial
«Não comas da árvore da ciência»
De António Parente a 27 de Dezembro de 2008 às 12:29
Cara Palmira F. Silva
Que a Palmira leia tudo, ninguém duvidará. O problema é que a leitura não é isenta, é influenciada pelos olhos da paixão. Quando leio documentos ou post cujo conteúdo provoca a minha discordância a primeira pergunta que coloco é sempre a mesma: "será que eu estou equivocado e não tenho razão"? No seu caso, nunca tem dúvidas, só tem certezas. Nesse aspecto a sua postura é idêntica à dos criacionistas que tanto detesta.
Caro António Parente:
Não sei exactamente que dúvidas haveria a ter nesta história, depois de ter visto a tradução para inglês da alocução. Disse-lhe que tinha dúvidas e não me pronunciava quando apenas dispunha do original em italiano e os recortes jornalísticos. As palavras do papa numa língua que entendo esclareceu todas as dúvidas :)
De António Parente a 28 de Dezembro de 2008 às 08:44
Cara Palmira Silva
O Papa repetiu o que sempre disse. Não há novidade nenhuma. A posição que ele exprimiu é legítima. A reacção exacerbada que se verificou é um sinal de profunda intolerância, fanatismo e radicalismo.
Se não existem pessoas que se manifestem contra essa intolerância, um dia a liberdade de expressão sobre assuntos de cariz homossexual poderá estar em causa. Quem ousa emitir uma opinião sobre o casamento homossexual é imediatamente apelidado de homofóbico, no mínimo. É uma tentativa de condicionamento da liberdade de opinião e de pensamento por parte de uma minoria militante. E Karl Popper tinha razão: devemos manifestar-nos contra a intolerância porque um dia seremos vítimas dos intolerantes.
Outra questão: quando afirma, se a memória não me falha fê-lo anteriormente, que Bento XVI não pode impôr a sua visão das coisas aos não crentes está a iludir a questão. Muitos católicos revêem-se nas posições de Bento XVI, não estou a particularizar o meu caso pessoal, e têm o direito de apresentar publicamente, tal como a Palmira o faz, propostas para serem adoptadas pela sociedade de forma democrática tal como a Palmira o tem. E se vencerem terão de ser respeitadas por todos. Não falo em leis absurdas que condicionassem a livre expressão das suas ideias ou a obrigassem a professar uma religião assim como a praticar os seus rituais e usos, mas em questões de carácter ético e social. Só um laicismo retrógrado e intolerante é que pretende expulsar do espaço público aquilo que designa por "religião". Parece-me que esse "laicismo" é também uma forma de policiar o pensamento e impedir a livre expressão de ideias sob o pretexto de terem um fundamento religioso e pode conduzir a que exista discriminação de cidadãos por motivos religiosos, isto é, as suas opiniões deixam de ser válidas só porque professam uma religião. Por esse caminho o "não matar" e o "não roubar", constando dos dez mandamentos divinos, deviam ser excluídos de um código penal laico.
Não estou aqui a discutir se Bento XVI tem ou não razão naquilo que afirma. O que é assustador é o tipo de reacções que a livre expressão de opiniões provoca e a deterioração da qualidade da democracia em que o debate de ideias é substituído pelo insulto e pela violência verbal. Neste momento, parece-me que essa é a causa mais importante.
Tenha um excelente Domingo :-)
caro António Parente:
Concordo em pleno com a parte:
deterioração da qualidade da democracia em que o debate de ideias é substituído pelo insulto e pela violência verbal
não apenas devido ao hate mail que recebi a propósito da minha recente declaração ao Público mas em particular em relação ás palavras debitadas pelo papa em inúmeras ocasiões em relação á homossexualidade que são elas sim sinal do profunda intolerância, fanatismo e radicalismo da ICAR.
ou seja, continua a não perceber o que seja tolerância (e já agora fanatismo e radicalismo). Intolerância é não admitir que os outros tenham comportamentos ou pensamentos diferentes dos que adoptamos e é isso que a ICAR, não os ateus, fazem. Nunca me ouviu dizer, por exemplo, que deve ser proibido ir à missa, ciliciar-se ou fustigar-se, bem pelo contrário. Apenas que gostaria que os crentes se dedicassem á sua religião e não em regular a vida alheia.
Depois também acho que continua a confundir democracia com ditadura da maioria quando diz que se as tolices papais vencerem terão de ser respeitadas por todos ou seja, devem ser impostas a todos porque Muitos católicos revêem-se nas posições de Bento XVI.
Há direitos humanos básicos que não devem ser sujeitos a plebiscito, imaginemos que a maioria da população achava por bem legalizar a escravatura ou afins?
E o que a ICAR (e praticamente todas as religiões, não está sózinha nesta) pretendem é simplesmente limitar os direitos de todos, crentes e não crentes.
De António Parente a 28 de Dezembro de 2008 às 22:14
Cara Palmira
Permita-me discordar mas o Papa não é fanático, nem radical nem intolerante. O Papa rejeita a teoria sociológica do género, inventada nos anos 70 nos EUA e que serve de base teórica às reivindicações do casamento homossexual. Foi isso que ele disse no seu último discurso. O Papa desenvolve o seu pensamento considerando como fundamento de organização e estrutura social o casamento heterossexual. São duas visões diferentes do mundo.
O casamento homossexual não é um direito mas sim um privilégio. Se considerar que todas as pessoas têm direito a casar com outra pessoa do sexo oposto então se há um grupo de pessoas que reivindica casar com uma pessoa do mesmo sexo ganha um privilégio sobre os restantes.
Ninguém interfere na vida pessoal e privada de ninguém. O que acontece é que se considera uma determinada norma que fundamenta a organização básica da sociedade sem asfixiar outras formas. As pessoas podem viver em grupo, conforme quiserem. O Estado não vai a casa de cada um ver como vivem. Todavia tem o direito de reconhecer as melhores formas de organização que poderão proteger a própria sobrevivência da sociedade. Isso ninguém pode negar ao Estado.
Não estou a confundir democracia com ditadura de maioria. O voto a favor da liberalização do aborto venceu e nunca pensei que existisse uma ditadura da maioria. Mas no caso do casamento homossexual pode existir uma ditadura duma minoria. Aliás, há um site da esquerda inglesa que defende uma teoria muito interessante: desaparecido o proletariado, devem os intelectuais, uma minoria a que eles chamam "elite", uma espécie de vanguarda da sociedade, provocar mudanças em todos os campos - económico, social e político - por via legislativa dada a inércia do povo para conduzir a revolução. Não será isso que sucede na defesa do casamento homossexual? Não é isso que fazem os burocratas da União Europeia ao impôr-nos um modelo de sociedade que referendam quantas vezes forem necessárias até que as aceitemos ou que procuram formas de dispensar o nosso parecer? Há lobbies, há grupos de interesses que pressionam para que a sociedade funcione de determinada maneira. Porque não poderão os católicos intervir no espaço público como todos os outros grupos? Só porque têm uma religião? Mas se forem excluídos do debate público não é uma forma de discriminação? Teremos todos de imitar a maçonaria e formarmos sociedades secretas para conseguirmos colocar em prática as nossas ideias, escondendo as nossas filiações e convicções íntimas? Não será melhor defendermos as nossas ideias no espaço público, sem disfarces nem máscaras, olhos nos olhos?
Não faz sentido considerar que é uma ditadura da maioria quando estamos em minoria e discordamos das leis aprovadas pela maioria e considerarmos que vivemos em democracia plena quando somos os detentores do poder e achamos que tudo aquilo que fazemos é para bem do povo.
Não pode comparar o direito ao casamento homossexual com a escravatura. É ofensivo para milhões de pessoas que hoje conhecem novas formas de escravatura em pleno século XXI. Acaba de cometer o erro de que acusou Bento XVI: fez uma comparação pavorosa. O casamento homossexual é uma reivindicação de uma classe média urbana que já assumiu a sua orientação sexual, tem visibilidade pública e está bem integrada na sociedade. Não são exactamente um grupo de sem-abrigo que viva debaixo da ponte e que passe fome. Não é um direito básico. A escravatura, por seu lado, é um crime. Há 200 anos não a consideravam assim. Provavelmente hoje eu e a Palmira achamos o nosso mundo perfeito e daqui a 500 anos uma historiador achar-nos-à completamente bárbaros e selvagens. Não sabemos como seremos julgados pela gerações futuras.
Quanto à limitação de direitos, está claro que discordo mas como o comentário vai longo ficará para outra oportunidade.
Votos de um excelente 2009 :-)
De
MRC a 27 de Dezembro de 2008 às 09:56
Pois, mas o "comer da árvore da ciência" não tem o sentido literal que lhe parece estar a dar.
Por outro lado, será que a existência de uma lei natural inscrita no coração de todos os homens é algo assim tão pateta ou aberrante ?
Regras como honrar pai e mãe ou não matar presentes no decálogo não terão carácter universal?
Compreendo, porém, que a Palmira tenha dificuldade em aceitar que outras matérias mais polémicas estejam também incluídas na lei natural.
Quer se queira, quer não, a falta de fé não sendo condição para a aceitação da lei natural, facilita em muito a sua compreensão e interiorização.
Quanto à questão do aborto em caso de perigo de vida para a mãe, a ICAR apenas destaca o acto de dádiva e generosidade de um mãe que opta por dar a vida em benefício de um filho e daí a canonizar. Porém, se uma católica optasse por, em situação grave de perigo de vida para si, não levar a gravidez até ao fim, não estaria a cometer qualquer pecado.
Esta situação, porém, é bem diferente das situações em que a mulher opta voluntariamente por abortar sem que exista qualquer perigo para a sua saúde ou vida.
Cara MRC;
Acho complicado haver algo inscrito no coração de alguém :) mas não, não acredito que haja uma lei «natural» muito menos acredito em leis «reveladas» presentes em de cálogos, corão ou afins.
Aliás, já escrevi no DRN sobre isso em tempos, transcrevo a parte relevante:
Não é muito difícil pensar que a maioria dos códigos morais das religiões correspondem às regras de bom senso e às regras de convivência das comunidades onde surgiram, temperadas com as bananas de quem as coligiu. Quem já assistiu a uma matança de porco no Alentejo em pleno Agosto e verifica a velocidade com que a carne se torna imprópria para consumo se não for imediatamente refrigerada percebe a proibição de comer carne de porco em religiões originárias de climas mais quentes. Assim como percebe porque essa regra nunca constou dos códices morais de países nórdicos. Mas se essa regra fazia sentido antes do advento dos frigoríficos, hoje em dia é completamente absurda.
Algumas das regras dos códigos religiosos continuam actuais e muito do que os representantes de todas as religiões dizem é pacífico, as primeiras porque ou são redundantes, ou seja, são regras de convivência básicas que a maioria de nós seguiria mesmo que não fossem formuladas como regras, ou são normas de senso comum que todos aceitamos sem problemas. Mas há muitas que são simplesmente absurdas ou pior, como a execração do uso de preservativo mesmo como medida profiláctica da contaminação com o HIV em casos em que um dos membros de um casal está infectado.
Esqueci-me desta:
mas o "comer da árvore da ciência" não tem o sentido literal que lhe parece estar a dar.
tem um sentido ainda pior que se torna óbvio depois de ler o constante nesse ponto. que basicamente diz que por causa dessa dentadinha na maçã a Igreja precisa proibir o «mal» e deveria por isso ser ela a estabelecer as leis. mas fica nas entrelinhas tb o sentido literal, aliás reiterado há relativamente pouco tempo pelo actual papa que queria proteger os católicos dos intelectuais :)
De
PDuarte a 27 de Dezembro de 2008 às 22:35
Ó Dona Palmira, de tanto ler as coisas que vêm de Roma ainda temo que um dia a encontre de joelhos às voltas à capelinha das aparições em Fátima.
Aceite um beijito deste fã.
Caro PDuarte:
Pode estar certo que isso nunca acontecerá, muito menos por ler as coisas de Roma cujo único efeito é irritar-me, como me irritam todas as charlatanices e desonestidades intelectuais :)
Aliás, foram as aulas de catequese que deram um contributo não despiciendo para o meu ateísmo e as missas a que a família me obrigava contra vontade a assistir até à minha rebelião adolescente que o cimentaram :)
De
MRC a 28 de Dezembro de 2008 às 15:10
De facto, quer no interior da Igreja Católica, quer das famílias ditas católicas, ocorrem verdadeiras aberrações que, na realidade, nada têm a ver com a verdadeira e autêntica Igreja Católica.
A minha remissão para a enciclica “Veritatis Splendor” prende-se precisamente com a importância que, no capítulo que referi, é dada à questão da liberdade e da livre adesão.
Aí se refere que, na medida em que é livre, o homem é rei de si mesmo e que, qualquer adesão, terá sempre que ser levada a cabo através de uma liberdade consciente e esclarecida.
Ninguém pode ser coagido a aceitar ou, muito menos, a praticar qualquer verdade de fé sob pena de se estarem a violar de forma grosseira os mais elementares direitos humanos.
Assim, quando o Papa chama à atenção para a existência de uma lei natural que, no seu entender, tem consequências, ao nível das relações interpessoais, necessariamente está a defender uma posição à qual só adere quem quer, porquanto, como refere a dita enciclica “Deus quis deixar o homem entregue à sua própria decisão”.
Porém, é função da Igreja e do Papa divulgar e difundir as suas ideias perante todos, mesmo os que não são crentes, ficando, depois, ao critério de todos, aderir ou não.
O facto de um partido político divulgar, mesmo perante os seus não militantes que a forma de actuar em economia ou na sociedade é a X ou a Y, não significa que eu tenha que concordar ou sequer votar nesse partido.
Se, como a Palmira diz, o objectivo da ICAR é limitar os direitos de todos, incluindo dos não crentes, tal, se assim fosse, iria contra a própria essência da religião Católica que, como referi em cima, se fundamenta na liberdade humana.
De jorge pires a 25 de Junho de 2009 às 07:52
Há aqui muita ignorância sobre o que o Papa e a Igreja pensam, sobre a biologia bíblica, que não existe; existe, sim, uma antropologia bíblica...
A questão está exactamente neste ponto. A biologia é igual para todos. Por isso é que a Igreja tem a pretensão de dizer coisas universais e não apenas para os católicos. Informe-se. Poderei ajudá-lo. jorgepiresf@gmail.com
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