Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

«Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido de cada vez e só um caminho, e está sempre em desvantagem».
Robert Musil in O Homem sem Qualidades

 

Nunca pensei ao pôr as minhas leituras em dia dar azo a uma discussão tão iluminante sobre um tema em que estou certa o João (Galamba), a Inês (esta é mesmo provocação) e o Miguel darão contribuições inestimáveis. De facto, os comentários de um certo Mattos,  que brande qual arma final de discussão o nome de Félix Guattari, recordaram-me outro obscurantismo que ameaça a modernidade e que tão bem foi dissecado por Alan Sokal e Jean Bricmont no livro «Imposturas Intelectuais».

 

O livro surgiu na sequência do Sokal Hoax, o artigo de nonsense «patafísico» que dá título ao post, escrito por Sokal e enviado à mui prestigiada revista «Social Text», vade mecum de um certo tipo de  «estudos culturais». Os editores gostaram tanto das patetadas inventadas por Sokal sobre as implicações filosóficas e sociais das ciências naturais e da matemática que o publicaram prontamente numa edição especial  devotada à filosofia e à sociologia da ciência.

 

O artigo  incluía referências a inacreditáveis absurdos sobre física e matemática provenientes de luminárias pós-modernas como Deleuze, Derrida, Guattari, Lacan, Lyotard, Stanley Aronowitz (membro da direcção da revista, citado nada menos que 13 vezes) e Andrew Ross (responsável pela edição do número em que o artigo apareceu, citado quatro vezes).

 

Os autores citados primeiro no artigo (vale a pena ler a análise de Paul Boghossian, traduzida pelo Desidério e disponível em formato pdf) e analisados por Sokal e Bricmont no livro que recomendo, caucionam obscurantismos sortidos e  toda a espécie de charlatães e vendedores de banhas da cobra com as suas teses contra a ciência ou mais concretamente contra o «dogma imposto pela longa hegemonia pós-iluminista exercida sobre a atitude intelectual ocidental». A linguagem do Mattos que nos calhou nas caixas de comentários, que entrou a matar reprovando a «ciência» (assim mesmo entre aspas)  fascista-imperialista europeia, é a mesma dos que elaboram ocas teses filosóficas  que apenas demonstram que não fazem pálida ideia dos conceitos científicos em que supostamente as assentam.

 

Mais concretamente, Sokal e Bricmont pretendem mostrar que esses erros não são involuntários nem acidentais, mas que constituem imposturas deliberadas que pretendem impressionar e intimidar com uma pseudo erudição científica uma audiência ingénua e cientificamente iliterata. Como no título do artigo de Sokal, os autores criticados usam e abusam de termos científicos impenetráveis ao público alvo em contextos completamente non sequitur e recorrem deliberadamente a uma linguagem obscura, difícil ou mesmo impossível de entender, para vender puro lixo pseudo científico como lucubrações profundas. Mais concretamente, parecem estar especialmente fascinados pela mecânica quântica, teoria do caos e teorema de Gödel  das quais extrapolam inanidades indescritíveis para concluir que se deve rejeitar «a epistemologia clássica» que consideram «uma forma encoberta de distribuir poder» já que a ciência é um instrumento de opressão.

O livro denuncia assim a influência crescente do relativismo epistémico (e consequentemente cognitivo) em certas áreas das humanidades, afirmando mesmo que há uma crise geral na epistemologia contemporânea  - cuja origem pode ser traçada a Popper, Lakatos e ao Círculo de Viena e às reacções de Kuhn e Feyerabend a uma delimitação demasiado restritiva do que é ciência pelos primeiros.

 

O relativismo pós-moderno, que basicamente assenta na presunção de que a ciência tem tanto valor epistémico quanto os delírios de um qualquer feiticeiro tribal ou vendedor de banha da cobra, como reflecte o filósofo alemão Jürgen Habermas, embora brandido normalmente por gente que se diz de esquerda, esconde tendências políticas e culturais neoconservadoras, determinadas em combater os ideais iluministas.

De facto, graças aos ideais iluministas houve espectaculares avanços civilizacionais e científicos nos últimos 250 anos. Na ética, na política, no direito, no conhecimento e nas metodologias. Estes avanços deveriam impor ao nosso intelecto a disciplina do pensamento crítico e da comprovação prática da validade de uma qualquer afirmação. Foi assim que a ciência e com ela a nossa civilização avançaram. Todavia, os estragos operados pela transposição para as nossas escolas e media da verbosidade mística dos apóstolos do pós-modernismo permitiram que qualquer charlatão possa afirmar o que quer que seja sem recear que lhe peçam qualquer comprovação (especialmente se disfarçar a vacuidade do discurso num palavreado impenetrável, aparentemente muito «intelectual», com muitas mensagens de paz, amor, tranquilidade e preocupação com a natureza e esgrimindo que há formas alternativas de conhecimento se tudo o resto falhar).

No livro «Pós-modernismo, razão e religião», de 1992, Ernest Gellner refere-se ao pós-modernismo da seguinte forma:

«O pós-modernismo é um movimento contemporâneo. É forte e está na moda. E sobretudo, não é completamente claro o que diabo ele é. Na verdade, a claridade não se encontra entre os seus principais atributos. Ele não apenas falha em praticar a claridade mas em ocasiões até a repudia abertamente...».

Gellner rejeita, como qualquer pessoa de bom senso - e mesmo o mais empedernido pós-moderno não usa telepatia em vez de telefone ou tapetes voadores em vez de aviões-, que uma afirmação factual, quer científica quer mitológica ou mágica, tenha o mesmo valor epistémico e só possa ser considerada verdadeira ou falsa em relação a uma determinada cultura. Um portátil funciona da mesma maneira em Ouro Preto e em Osaka; afirmar que o oxigénio, O2, no seu estado fundamental, é uma espécie paramagnética é a constatação de um facto que tem o mesmo valor epistémico aqui, no Afeganistão ou na China. Como continua Gellner:

«O mundo em que vivemos é definido, acima de tudo, pela existência de um sistema de conhecimento único da natureza, instável e poderoso, e pela relação corrosiva e conflituosa que mantém com outros conjuntos de ideias ("culturas") que orientam a vida dos homens.(...)

Existe um conhecimento externo, objectivo e que transcende a cultura: existe, de facto, um "conhecimento para além da cultura." (...) A faculdade, inerente à cognição, que lhe permite ultrapassar as fronteiras de um qualquer casulo cultural e atingir formas de conhecimento válidas para todos - e, consequentemente, um entendimento da natureza que resulta numa tecnologia extraordinariamente poderosa - constitui o facto crucial das nossas condições sociais comuns».

 

Esta faculdade inerente à cognição que nos permite transcender limites étnico-culturais é estrangulada por estas correntes pós-modernas que, sob a capa do multiculturalismo e respeito pelas diferenças, na prática aprisionam em guetos os membros de uma dada «comunidade cultural» ou social.

 

Para que não seja mal interpretada, não quero dizer com isto que o conhecimento se reduz às chamadas  ciências duras, bem longe disso. Apenas quero dizer que acho um total disparate dizer, como Lacan, que o pénis é equivalente à raiz quadrada de (-1), que E=mc2 é uma equação sexista ou que o  Big Bang é sexista. Parafraseando Einstein, «Gravity explains the falling of objects, but gravity cannot explain why people fall in love». Mas também considero que explicar porque alguém se apaixona não nos fornece nenhum conhecimento sobre a queda dos graves. Muito menos considero que o princípio da incerteza de Heisenberg nos explica as causas da decadência do império árabe (ou romano ou otomano) ou que a polarização e repolarização das membranas citoplasmáticas permita dizer que o avanço científico é (escolha a hipótese menos «empobrecedora» ou a mais «elegante»)  sexista/ eurocêntrico e só beneficia os «patriarcas»/a cultura «ocidental».


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28 comentários:
De Shyznogud a 31 de Dezembro de 2008 às 09:36
Até me assustei com o título do post. Passado o susto gabo-te a pachorra de tentares dar resposta a alguém q não só defende o impensável como, do alto de uma presunção intelectual inqualificável, nem sequer sabe dar uso a conceitos simples. Falar, por exemplo e como o referido senhor faz, em "civilização muçulmana" é risível.


De Nuno Cruz a 31 de Dezembro de 2008 às 10:27
Que belo artigo.

Durante quatro anos vivi em França. Li algum Deleuze, algum Foucault e mais um bom punhado de intelectuais franceses ligados sobretudo à história da arte.

é ainda hoje uma questão que me interpela: a tradição filosófica francesa ignorante da ciência, palavrosa, opaca, pretensiosa e conservadora, como o é toda a retórica da esquerda do hexágono. Infelizmente.

(mas estarei talvez a ser demasiado crítico)

Interessante pensar que este abismo entre o pensamento francês e o anglófono é algo que data já, pelo menos, do século XVII e das primeiras academias da ciência europeias. Já nessa altura se constatava mais o gosto dos franceses pelo discurso que pela experiência.


De Nuno Cruz a 31 de Dezembro de 2008 às 10:33
Também o Merleau-Ponty (que escreve muitíssimo bem sobre a pintura, diga-se) fazia parte desta frente anti-ciência que se vê ainda, e muito, no universo dos críticos da arte franceses: uma grande parte é, manifestamente, tecnofóbica.


De Carlos Vidal a 31 de Dezembro de 2008 às 13:21
Na crítica de arte francesa mais recente, muito recente, formam-se duas linhas; uma, totalmente anti-vanguardista, capitaneada por Jean Clair, antigo director do Museu Picasso e da Bienal de Veneza; outra, tese ligada a um círculo que se move pelo Palais de Tokyo, ainda mais recente, criada por Nicolas Bourriaud e que dá pelo nome de "estética relacional" e "pós-produção", a partir de artistas como Dominique Gonzalez-Foerster e Rirkrit Tiravanija. Nada disto tem a ver nem com tecnofilia nem com tecnofobia.
Ponto dois, nunca esperaria ver as brilhantes "descobertas" de Sokal recuperadas agora tantos anos depois. Esquecidíssimo, justamente, só Palmira Silva e outros completamente ignorantes sobre filosofia, arte e estética contemporâneas para o re-celebrar ! Poderia continuar este comentário com listas de artistas que se relacionaram com todos os filósofos aqui gozados, mas não o vou fazer. Fico a saber que de arte e estética contemporânea nada sabem. Por isso, nem vale a pena encetar nenhuma argumentação.
Passem pelo Prado e vejam o Rembrandt, que é o que deveriam fazer para respeitarem os outros e aquilo que não sabem. Ou comecem pelo Giotto, já agora.
Daqui por dois séculos chegam à Louise Bourgeois, que já tem quase um século de vida, bela vida.

Vão-se lixar com o vosso Sokal.


De Miguel Madeira a 31 de Dezembro de 2008 às 15:02
"Poderia continuar este comentário com listas de artistas que se relacionaram com todos os filósofos aqui gozados, mas não o vou fazer. Fico a saber que de arte e estética contemporânea nada sabem. Por isso, nem vale a pena encetar nenhuma argumentação."

Atendendo a que esta discussão não tem a ver com arte nem com estética, não percebo qual é a relevancia desse ponto


De Carlos Vidal a 31 de Dezembro de 2008 às 16:06
Tudo isto, neste ponto em que intervim, tem a ver com arte.
Pus o neu comentário onde eram evocadas questões de história da arte, ou melhor, ligações entre os filósofos que Soakal julga ter "desmistificado" e a arte ou a ahistória da arte. Ainda bem que este comentário de M. Madeira é de M. Madeira e não de Palmira Silva.
Intervim na questão da história da arte trazida pelo Nuno Cruz.

Quanto a Sokal, ele está esquecido e Lacan ou Deleuze ou Derrida são dos autores mais importantes em qualquer ramo de estudos nos Estados Unidos e ocupam mais de metade das estantes de filosofia entre Londres e Nova Iorque, etc, etc. Felizmente, sinal de inteligência.
Sokal, zero. O obtuso já desapareceu. Finito. ZERO !!

Sokal representa a forma mais primária de anti-intelectualismo que existiu recentemente. Fugazmente. Hoje, só existiu, por muito poucos minutos, aqui, no jugular, em post de Palmira Silva.

Bom ano.

E leiam o Sokal. Eu prefiro o S. Boaventura ou as teorias da luz de Grosseteste. Não se compreende Caravaggio nem Rembrandt sem esse sábio do século XIII.

E vou fazer como uma pessoa que por aqui passa: repetir, repetir:

Bom ano.


De Eu a 10 de Janeiro de 2009 às 00:08
Isto é a sério ou é uma caricatura?

Por favor, digam-me que ninguém é assim tão estúpido ao ponto de não compreender a completa irrelevância do que escreve para o assunto em discussão.


De filipe canas a 31 de Dezembro de 2008 às 11:39
Excelente artigo Palmira, sobre um tema muito interessante e sempre actual.

Acho que a questão das dúvidas epistemológicas levantadas pelo post modernismo não pode ser adereçada falando no geral das ciências. Somos capazes de obter um resultado mais satisfatório olhando ciência a ciência, e separando as ciências sociais das humanas.

No caso da Sokal Hoax houve nitidamente um enorme descuido da parte dos editores do journal (que, naquela altura, não tinha o processo de peer review que hoje normalmente todas têm), mas continuo a achar que o artigo não foi um wake up call tão grande como o próprio Sokal acha. Mas adiante.

O problema epistemológico grave que se verificava antes das críticas de Kuhn e de Feyerabend era exactamente o excessivo 'aprisionamento' de algumas ciências a certos critérios epistemológicos e metodológicos, tidos como 'científicos'.

Pelo que entendi (e admito estar errado, porque não li muito da sua obra), Feyerabend tem mais contra a homogeneização do que conta como científico do que contra qualquer método ou epistemologia em si. Se bem me lembro ele definia-se como um oportunista epistemológico - usava o que mais lhe convinha.

A radicalização a que a Palmira alude, dada por algumas correntes do post modernismo, parece-me ser uma reacção radical ao 'aprisionamento' de algumas ciências. Libertação essa que gerou e gera os problemas de relativismo epistemológico que refere.

No entanto, muitas ciências estavam, e algumas ainda estão (como a Economia diria eu, a Ciência Política até há uns tempos também), presas a critérios epistemológicos - tidos como cientificamente adequados - que, senão estão ultrapassados, limitam muito as formas de estudo do objecto da disciplina.

Cumprimentos e boas entradas,

filipe canas


De Aquasky a 31 de Dezembro de 2008 às 12:03
Quer se queira quer não a verdade é que a epistemologia clássica apresenta brechas por todos os lados. A crise teve início em Einstein e na Mecânica Quântica, nomeadamente com a Teoria da Relatividade e da Simultaneidade de Einstein. Teorias que vieram revolucionar as nossas concepções de espaço e de tempo, ou seja, o Tempo e o Espaço absolutos de Newton deixam de existir. É também com a Mecânica Quântica, ao demonstrar que não é possível observar ou medir um objecto sem interferir nele sem o alterar, e que está bem expressa no Princípio da Incerteza de Heisenberg. É o Teorema da Incompletude (resultado das investigações de Goedel) ao demonstrar que o rigor da Matemática carece, ele próprio, de fundamento. È uma miríade de descobertas que mostra a saciedade que o paradigma dominante faliu. Só não vê quem não quer.


De Aquasky a 31 de Dezembro de 2008 às 12:10

Ademais, um modelo que nega todas as formas de conhecimento que não se regem pelas suas regras metodológicas é um modelo totalitário. É o que o paradigma clássico é, já que não coloca dentro das suas fronteiras o senso comum e os estudos humanísticos, i.e., estudos históricos, filosóficos, jurídicos e literários.

Fruto de todas as investigações de um vasto movimento científico ( de que a Palmira não faz parte), temos hoje, em vez da eternidade a história, em vez do determinismo a imprevisibilidade, em vez do mecanicismo a inter penetração, em vez da reversibilidade a irreversibilidade e a evolução; em vez da ordem a desordem. Este movimento científico tem originado uma profunda reflexão epistemológica sobre o conhecimento científico, a razão pela qual nunca houve tantos cientistas-filósofos como actualmente.


De João Pinto e Castro a 31 de Dezembro de 2008 às 12:37
Eh, eh, grande trapalhada Palmira. Se bem me lembro, daquela vez que começámos a discutir este assunto optámos antes por provar o bolo de chocolate. Tenho a impressão que só um génio ainda por nascer conseguiria opinar satisfatoriamente sobre isto num blogue.


De CMF a 31 de Dezembro de 2008 às 15:38
Palmira, o rei vai nu e - basta ler alguns comentários para se perceber isso - continua a pavonear-se em pelota. Recentemente, e já não sei porquê, reli parte do Discurso sobre as Ciências, do indescritível Sousa Santos. O tempo não lhe trouxe virtudes e muito menos razão. Continua a ser um texto risível, mas podia muito bem ser a Bíblia do novo obscurantismo: há sempre – cada vez mais? - seguidores dispostos a ajoelharem-se perante o palavreado oco, mas muito pomposo, de Sousa Santos, Lacan ou Deleuze. (Pobre Godel! Se os neo-beatos, em vez de lhe atribuírem o título de algoz da Matemática, tentassem entender a maravilhosa demonstração dos teoremas da incompletude, talvez o mundo fosse mais seguro.)


De C. Mattos a 31 de Dezembro de 2008 às 18:55
Vidal: bom comentário. O que me faz espécie é que um dia lê-se aqui um elogio ao iluminismo e no dia seguinte a mesma pessoa tece loas ao Habermas, nem se apercebem que ele viu bem os limites do iluminismo de que ele(a) se consideram herdeiro(a)s. Isto é um exemplo, tal como com os "valores ocidentais". Afinal onde se fundam os valores? A chatice é que parece que nem reparam que vivem na inconsistência - estéril, porque negada.
E as ingenuidades, pensar que Sokal resolveu "a questão". Chega a doer. Não lêem e depois é isto, a ciência do minuto suplmentar lol, puro almanaque.
Bom ano, muitos """"""" para usar.


De Carlos Vidal a 31 de Dezembro de 2008 às 21:39
A verdade caro Mattos é que os cães ladram e a caravana passa. Quando estou por Londres ou Paris, o que se lê é Deleuze, Foucault, Derrida e não Sokal. Pelos vistos, Sokal, agora inesperadamente desenterrado (vá lá saber-se porquê) não existe em lado nenhum. Nenhuma consideração por uma fraude engraçadinha e estúpida. O homem é um nado-morto. Ninguém já o discute. Ninguém sabe quem é ou quem foi. Só mesmo aqui.
Já agora, como bem se sabe, o filósofo Alain Badiou sabe mais de matemática, de Cantor e Gödel, como de Lacan e Platão de olhos bem cerrados, que o pobre do Sokal de olhos mais do que bem abertos.
Caro Mattos, passemos da estupidez para as leituras que nos interessam. Não percamos tempo. Um novo ano se aproxima. Boa sorte.


De Diogo MD a 31 de Dezembro de 2008 às 19:03
Interessante artigo. Tem, no entanto, um problema que costuma caracterizar a trampa pós-modernista: a arrogância. A arrogância é muito boa quando as coisas são preto no branco. Longe de mim defender os Deleuze’s, os Derrida’s e Cia., mas enfiar tudo no mesmo saco é sempre complicado. Por exemplo, não é por a prosa opaca do Derrida ou do Deleuze ser citada no artigo do Sokal que faz deles a porcaria que são; dessa forma, Godel que é usualmente citado pelos mesmos charlatães também era uma treta igual e de facto não é. O problema é mais ou menos o mesmo do que o tipo que fala da ciência como “fascista-imperialista europeia”, seja lá o que isto quer dizer, e que vê o mundo a duas dimensões: os bons e os maus. Aliás, esta sobreposição da moral à razão é típica dos pós-modernistas, como também revelou, mas também surge aqui e ali nos positivistas, digamos assim – e o maniqueísmo é apenas uma das suas formas. A forma como o trabalho de Feyerabend, por exemplo, foi lido é um exemplo disso mesmo (e ainda bem que Lakatos não foi contagiado pelo mesmo espírito); e da mesma forma, na antropologia, a forma como Clifford Geertz é muitas vezes colado gratuitamente ao pós-modernismo.
Esse maniqueísmo leva a que autores como Gellner, que escreveu esse livro apesar de tudo fabuloso e que é um antropólogo incontornável, tivessem que inventar citações (sem o admitir) e atribui-las a alguns dos autores que refere só para realçar ainda mais o absurdo do que criticava. A sua crítica é bastante acutilante e até certeira, mas então porquê atribuir àqueles que crítica coisas que não disseram e porquê usar citações descontextualizadas que lhes roubavam ainda mais o pouco sentido que em alguns casos já tinham? Julgo que o problema está também numa coisa que Gellner enquanto antropólogo também criticará: a tendência que temos para repescar os pormenores mais exóticos do nosso objecto de estudo para adornar a nossa narrativa, fragilizando dessa forma, em muitos casos, a validade científica da nossa própria proposta. Nem tudo o que crítica a ciência, algumas das suas consequências (também morais, porque não) e muita da epistemologia tem que ser anti-científico, antes pelo contrário; daí até podem surgir revelações bastante consequentes.
Gellner também tinha outro problema: o facto de dominar tantas áreas, escrever tão bem e ser o tipo inteligentíssimo que era levava-o a menosprezar arrogantemente outras propostas e áreas, a dizer grandes absurdos e a insistir neles mesmo quando não tinha razão, só porque a carneirada o seguia animadamente. Veja-se por exemplo a sua crítica militante à hermenêutica, coisa que afinal nunca percebeu, mas que nem por isso fez com que deixasse de ter o estatuto de seu maior crítico, e que enfiava com grande facilitismo no saco do pós-modernismo.
Afirmar, como faz a Palmira, por exemplo, que a existência de um conhecimento externo, objectivo e que transcende a cultura se deve a uma faculdade inerente à cognição humana é uma daquelas mega-afirmações à pós-modernista para a qual não arranjará, certamente, qualquer comprovativo. Mas também digo-lhe que não precisa dele para nada. A ciência e os seus fundamentos não precisam de existir para lá da cultura (como se pudessem andar aí pelo ar à espera de ser agarrados), nem precisam de ter nascido simultaneamente noutra cultura que não a nossa, para que possam legitimar a sua existência – e também não é preciso ter medo dessa coisa etnocentrismo e procurar contorná-lo com afirmações sobre a natureza humana; o etnocentrismo é inevitável e nem sempre maléfico. As próprias ciências duras têm problemas quanto à sua solidez, não são absolutamente coerentes e produzem teorias muitas vezes inconciliáveis que podem muito bem por em causa a validade de muitas das suas formulações. Estas contradições por resolver mostram em grande medida como a ciência não é algo que exista independentemente de que quem a cria e de onde é criada.


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