Quinta-feira, 1 de Janeiro de 2009

A caixa de comentários do post «Transgredir as fronteiras» (e mais ainda do «Além de estúpido é um animal») estão tão animadas que resolvi esclarecer alguns pontos. Nomeadamente, realço um dos comentários  do Vidal, que me mimoseia com:

 

«só Palmira Silva e outros completamente ignorantes sobre filosofia, arte e estética contemporâneas para o re-celebrar! Fico a saber que de arte e estética contemporânea nada sabem.»

 

De facto, confesso-me ignorante sobre arte e estética contemporânea, ressalvando a óptica do «utilizador», tão ignorante que não fazia a mais pálida ideia que o post que etiquetei em ciência de facto era uma abjecta critique de arte/estética.

 

Quiçá seja essa minha ignorância estética o que impediu escrever um artigo para, sei lá, a Chem Phys Chem, sobre não a fotofísica dos pigmentos utilizados por Melanie Kreuzhof  na composição que realizou para a ópera Die tote Stadt que ilustra o post, mas inventando fantásticas efabulações sobre o significado simbólico, sexual ou político do tempo de vida do estado excitado do pigmento vermelho ou como a relaxação do pigmento amarelo  nos indica o fim da economia de mercado (bem, isso e o facto de o artigo ser liminarmente rejeitado).

 

Ou seja, não estou minimamente interessada em dar «usos politico-filosóficos» à química que faço - seria um disparate total usar para congeminações fantásticas non sequitur em áreas em que sou ignorante quer os resultados quer os modelos matemáticos que utilizo.

 

Mas há luminárias totalmente ignorantes do que seja a ciência ou o método científico que olham a ciência da forma subjectiva com que muitos olham uma pintura surrealista: «rabiscos» que qualquer um pode fazer. Assim, não percebem que a ciência e os factos científicos não são obras de «arte» que cada um interpreta subjectiva e tolamente de acordo com as suas crenças, ideologia política ou sensibilidade estética.

 

Para os interessados apreciarem em todo o seu esplendor os inacreditáveis absurdos pós-modernos sobre física e matemática de, por exemplo, Virilio, Deleuze, Guattari e Baudrillard, para além do lixo pseudo-científico com que Lacan e Kristeva impressionam hordas de fátuos iliteratos em ciência, algumas destas tolices científicas estão disponíveis online

 

Também está disponível o artigo de Richard Dawkins, «Postmodernism disrobed» publicado na Nature em 1998, de que recomendo particularmente a análise dos dislates pseudo-feministas de Luce Irigaray, a tal que acha que  E=mc2 é uma equação sexista porque ... «privilegia a velocidade da luz em relação a outras velocidades que nos são vitalmente necessárias», aliás, toda a física é sexista por que «privilegia coisas sólidas e rígidas». Uma das suas discípulas explica o que isto quer dizer

 

«The privileging of solid over fluid mechanics, and indeed the inability of science to deal with turbulent flow at all, she attributes to the association of fluidity with femininity. Whereas men have sex organs that protrude and become rigid, women have openings that leak menstrual blood and vaginal fluids... ».

 

Felizmente que o meu professor de Fenómenos de Transferência não sabia que mecânica dos fluidos e em particular o fluxo turbulento era algo que a ciência era incapaz de tratar e assim passei dois semestres fascinantes durante o curso a fazer cálculos que descobri a posteriori não existirem... 

 

O problema é que há quem dê ouvidos a estes artsy fartsy (pseudo)científicos que acham que a ciência é um «mito», uma «narrativa» como a de qualquer feiticeiro tribal,e se insurgem contra o «poder social» desta «construção» - a que chamam uma arma de opressão que cumpre «uma função social de diferenciação e de exclusão».  E se o relativismo pós-moderno que cauciona obscurantismos sortidos tem consequências desastrosas, pior ainda é o que resulta do  horror concomitante ao ensino de ciência - que consideram «um campo de conflito e de luta claramente marcada pelas relações de poder», um «instrumento de opressão e de discriminação, na medida em que contribui para punir os alunos que, sem compreensão de seus fundamentos, são mal sucedidos».

 

Steve Fuller,  grande apóstolo da epistemologia social que tenta elevar ao estatuto de única fonte de conhecimento, é um dos que dá especial atenção às relações de poder na ciência por outras palavras, se devota a denegrir a ciência.  Em 1988, Fuller escrevia no livro «Social Epistemology» que «a epistemologia clássica parecia viável exactamente porque se pensava existirem 'verdades' cuja aceitação beneficiaria a todos — ou, pelo menos, a todos os seres racionais — e consequentemente não tinham efeitos globais na distribuição do poder. Mas Fuller conclui que a ciência não é neutra, é um instrumento de opressão. Como acusa no referido livro «se a concessão de garantia epistemológica envolve, entre outras coisas, a aceitação social, e um dos benefícios chave dessa concessão é o poder de fazer pronunciamentos autoritativos, então, conceder o selo de garantia epistemológica é uma forma encoberta de distribuir poder». Assim, Fuller considera que quem deve ter poder «epistemológico» é o próprio Fuller e demais pós-modernistas... que curiosamente  devotam as suas lucubrações às ciências duras e empíricas que tanto desprezam!

 

Na sua cruzada contra a ciência, nos últimos tempos Fuller tem-se dedicado à defesa do ensino do criacionismo em roupagem de desenho inteligente, tal como já fez no julgamento de Dover. A posição cretina pós-moderna de Fuller sobre DI e evolução foi passada a livro, «Science Vs Religion?: Intelligent Design and the Problem of Evolution», um monte de dislates fátuos, ou antes «um pedaço de trabalho verdadeiramente miserável, cheio de erros científicos, históricos e mesmo teológicos», fabulosamente dissecado no artigo da Skeptic «The Painful Elaboration of the Fatuous, Norman Levitt Deconstructs Steve Fuller’s Postmodernist Critique of Evolution» de Norman Levitt, um matemático de Rutgers. A recensão de Sahotra Sarkar foi bastante mais simpática. Sarkar leu o livro como uma anedota que muito o divertiu já que «No one should begrudge us our simple pleasures. I'm happy to have read this book, and even more so not to have paid for it».

 

Felizmente alguns dos mais ferozes defensores da «crítica da ciência» começaram recentemente a perceber os efeitos das suas patetadas. Nomeadamente Bruno Latour escreveu em 2004 um artigo muito interessante, curiosamente no mesmo número da «Critical Inquiry» em que Žižek elabora em linhas paralelas de pensamento,

 

«Should we apologize for having been wrong all along? Should we rather bring the sword of criticism to criticism itself and do a bit of soul-searching here: What were we really after when we were so intent on showing the social construction of scientific facts? Nothing guarantees, after all, that we should be right all the time.

 

(...) What has critique become when a French general, no, a marshal of critique, namely, Jean Baudrillard, claims in a published book that the World Trade Towers destroyed themselves under their own weight, so to speak, undermined by the utter nihilism inherent in capitalism itself–as if the terrorist planes were pulled to suicide by the powerful attraction of this black hole of nothingness?  What has become of critique when a book can be a best-seller that claims that no plane ever crashed into the Pentagon?

 

I am ashamed to say that the author was French too. Remember the good old days when revisionism arrived very late, after the facts had been thoroughly established, decades after bodies of evidence had accumulated? Now we have the benefit of what can be called instant revisionism?»

 

Posso apenas ser optimista e esperar que este mea culpa seja consequente e seguido por mais «críticos» ... e que não seja tarde de mais para reverter o mal que entretanto fizeram!

 

Adenda: Já depois de ter escrito o post descobri que este espírito pós-crítico está longe de ter chegado a Portugal, pelo menos é o que transparece de uma das muitas pérolas da caixa de comentários:

Talvez seja porque a obra de Caravaggio, Rembrandt ou Velázquez são realidades mais importantes do que toda a história da ciência junta.


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12 comentários:
De Joe Science a 1 de Janeiro de 2009 às 22:11
Palmira,

Por favor descreve um processo químico qualquer. De forma simples mas rigorosa. Para um leigo. (que sou) Não pretendo questionar a tua descrição. Nem sequer poderia fazer tal coisa.


Depois de ler a tua descrição (presumo-me capaz de compreender a lógica estrutural da coisa), comprometo-me a encontrar na história política recente um ou vários processos que exibem familiaridades estruturais com os processos que descreveste.

Só mais um reparo: Na acústica encontramos magnificas metáforas que nos ajudam a Descrever (sim, a descrever) e a conceptualizar le phenomene politique, nicht nicht???? :)

A linguagem da geografia também não é mazinha de todo. A actual crise é, como é que se diz, Ciclónica!! LOL

Enfim

Votos de um ano repleto de organicidade. :)
(o teu post está muito bom)

Virilo, por ex. diz muita asneirada. Mas também tem rasgos de perspicácia notáveis.


De Palmira F. Silva a 1 de Janeiro de 2009 às 22:27
Olá Joe:

Ora pós-moderniza o que estou a escrever agora :)

When a photon is absorbed by a semiconductor polymer, a bound state of an electron and a hole (positive-charge carrier) called an exciton is created on the polymer. In the simplest organic solar cells, made by sandwiching thin films of these polymers between two electrodes, the exciton binding energy prevents effective splitting of the photogenerated exciton by the built-in electric field.

Excitons in organic semiconductors that are not split eventually recombine either radiatively or nonradiatively, thereby reducing the quantum efficiency of a solar cell.

To separate the bound electrons and holes, a driving force to overcome the exciton-binding energy is necessary. This can be achieved adding an electron acceptor with an offset electron affinity in relation to the polymer ionization potential that provides a sufficient chemical potential energy to overcome the intrinsic exciton-binding energy.

Upon charge transfer, the electrons are transported in the acceptor material and the holes in the donor material to their respective electrodes.

Thus, most organic solar cells (OPVs) consist of two materials, the polymer and an acceptor, to facilitate generation of free charge carriers.


De Carlos Vidal a 1 de Janeiro de 2009 às 22:43
Não esperava da sua parte citações truncadas e descontextualizadas. A última revela a sua má-fé. Não esperava. Habituei-me a ler alguns dos seus textos, como os de João Galamba, e cheguei a dizer algures que eram as duas vozes interessantes do jugular. Agora truncar a minha última citação é má política, desonestidade e, francamente, é um desespero desnecessário. Ou tem medo desses artistas? Também os acha insuperáveis quando comparados com qualquer teoria científica? Má-fé e desonestidade caracateriza o seu post. É lamentável e deprimente. A última citação tem como motivo o seu uso de Sokal para denegrir filósofos que são relevantes para usos estéticos. Você denegriu-os sem pestanejar. Os nome são muitos e a sua misturada não tem pés nem cabeça. Quando citei Rembrandt e Velázquez, e depois de você ter denegrido o essencial da produção filosófica do século XX, o que eu disse FOI QUE SE A PALMIRA GOSTAVA QUE EU CONCLUÍSSE QUE VELÁZQUEZ VALIA MAIS QUE TODA A HISTÓRIA DA CIÊNCIA ????????????
Foi uma ironia dirigida a quem denegriu e gozou com filósofos e pensadores relevantes para esses pintores. Se Foucault é um imbecil, e se o que escreveu sobre "Las Meninas" é incontornável, para "Las Meninas" e para a definição de modernidade, e se a Palmira gozou, partindo de Sokal com todos eles, eu perguntei se gostava que considerasse alguns artistas, analisados por Foucault (no caso, Velázquez) mais importantes do que a toda a história da ciência. O seu post mente e é desonesto. Desilude-me e muito. O que escreve é falso. Completamente falso e mal arquitectado.


De Palmira F. Silva a 1 de Janeiro de 2009 às 23:07
Caro Carlos Vidal:

Não faço a mínima ideia quais os usos estéticos dos referidos filósofos nem foi sobre isso que escrevi. Escrevi sobre as barbaridades pseudo-científicas que debitam, ponto.

Devo confessar que não tentei descontextualizar o seu comentário que acrescentei ao post. Releve a adenda devido à minha ignorãncia estética/pós-moderna :) mas ajude-me então a descodificar o que significa:

«Não sei porque é que certos cientistas teimam em dar-se mal com humanistas (das ciências humanas, pois a palavra "humanista" não é muito clara) e artistas. Talvez seja porque a obra de Caravaggio, Rembrandt ou Velázquez são realidades mais importantes do que toda a história da ciência junta. Talvez. Gosta, Palmira ?»


De Joe Science a 1 de Janeiro de 2009 às 22:53
Se isto é para um leigo eu chamo-me Leopoldina e vivo no Estoril.

Amanhã. OK? Prometido.

Mas poderíamos começar por aqui, à laia de ilustração. :)

http://www.youtube.com/watch?v=oeftc6U3Cqw

Até amanhã.

cumprimentos


De Palmira F. Silva a 1 de Janeiro de 2009 às 23:09
Ah! Mas um pós moderno não usa linguagem científica para o povo :) se não lá se perdia o efeito de ofuscamento pretendido. Só se interessam pela matemática ou física mais rebuscada e com um formalismo semiótico de encher o olho.


De joe Science a 1 de Janeiro de 2009 às 22:56
Ultimamente ando cheio de medo dos artistas.


De joe Science a 1 de Janeiro de 2009 às 22:58
Palmira, ser completamente ignorante é duro. Logo agora, no principio do ano.


De bolacha a 2 de Janeiro de 2009 às 00:27
Tenho bastante que agradecer à ciência . Ultimamente não me agrada é o uso que fazem do discurso cientifico para vender , ou manipular , é muito evidente na medicina e indústrias associadas ou nas histórias sobre aquecimento/arrefecimento/ no pasa nada global e montes de livros , filmes , e tal , que dão bom dinheiro. Aquelas histórias de falsificação de pesquisas para não perder financiamentos também .

Quanto aos outros. , nada criam , nem sequer transformam . Ruminam . Velázquez , Dalí , Klimt ... existiam na mesma sem eles e eu continuava a considerá-los um presente dos deuses . E suponho que eles se babariam , sobretudo se tivesse dinheiro para os comprar. E nós , sem ciência , não podíamos escrever aqui . Suponho que pensam que é a embalagem que vende : ao impressionar de sofisticada e complicada , nem vemos o que lá está dentro . Pero , aunque la mona se vista de seda , si mona era , mona se queda".
Resumindo , "a minha bolacha é melhor que a tua" , requer complicadas ruminações mentais muito além da lógica e utilidade da ciência , só acessível a estômagos poderosos e sensíveis.


De Miguel Gonçalves a 2 de Janeiro de 2009 às 12:32
Cara Prof.ª Palmira Silva,

lembre-se sempre que os lúcidos são sempre lembrados mais tarde, por isso, se espera algum tipo de reconhecimento mais grandioso pela sua honrosa tentativa de abrir os olhos de muitos, terá de ter as palmas e o obrigado de poucos!
Junto-me aos poucos que agradecem o facto de existir neste espaço e neste tempo para dar à Ciência e à Sociedade os lugares e valores que realmente merecem!

Um dia destes ainda vou vê-la na Almedina... pode contar com o convite!

Abraços e bom ano de 2009!

Miguel Gonçalves


De Palmira F. Silva a 2 de Janeiro de 2009 às 17:55
Obrigado Miguel pelo comentário ... e fico à espera do convite :)


De João André a 3 de Janeiro de 2009 às 16:43
Palmira, sobre o Carlos Vidal cheguei a uma conclusão: ele pode saber muito de Arte (não sei o suficiente sequer para me aperceber do que possa ser asneira ou não, por isso assumo que sim), mas precisa de voltar ao secundário para aprender a ler e a escrever. Ele escreve alhos e espera que se perceba que pretendia escrever bugalhos. E lê melancias onde outros escrevem Mata Atlântica, por isso não é de estranhar isto tudo...


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