Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009
Miguel Vale de Almeida

Meio a propósito de aqui, quer no post, quer nos comentários. Sou daqueles (poucochinhos) que acham que “ciências sociais” ou “ciências humanas” são misnomers. A coisa começou com o desejo e a ilusão positivista de conhecer supostas “leis” da vida social. E piorou quando os praticantes perceberam que só seriam respeitados nas instituições universitárias e de investigação se “acedessem” ao estatuto científico tal como definido pela ciência natural. Isto significa duas coisas: que tanto as “ciências sociais” como as ciências naturais têm uma dimensão política, narrativa, discursiva – o que quiserem. Como poderia não ser assim, se são actividades humanas sociais enquadradas em instituições com história? Reconhecer isto – e estudar isto, este carácter socialmente construído – não significa subscrever ideias tolas e apressadas sobre mentiras, embustes e teorias da conspiração (“construção social” não quer dizer “mentira” – é um mantra que repito até os meus alunos sentirem tonturas...). Não é possível fazer Ciência ou Humanidades (como eu preferiria designá-las, sem hierarquia) sem uma reflexão epistemológica e metodológica constante e essa reflexão implica uma atenção permanente ao carácter social, institucional e discursivo daquilo que fazemos – tod@s. A guerra tribal é que não tem interesse nenhum porque, quando ela aperta, vai-se invariavelmente buscar as piores armas – o  positivismo ou o hiper-racionalismo, de um lado, ou o desconstrutivismo na versão hiper-relativista, do outro. De qualquer modo, hoje em dia até já nem há dois “lados” claramente definidos. Em vez de prestarmos atenção a velhas guerras, se calhar era melhor dirigirmos as baterias para o grave desprezo crescente pela ciência básica, de um lado, e o acolhimento instrumentalizado de certas “ciências sociais” (I shall say no names...) por parte da “governança” (e isto já para não falar da "ascensão a ciência" - lá está: ao reconhecimento social e político - de conhecimentos instrumentais e de gestão sem qualquer reflexão epistemológica). Precisamos de Humanidades que saibam os limites do inquérito crítico; e de Ciência que não se veja a si mesma de forma acriticamente limitada.

 

Nota: Alterei o post, de modo a tirar, numa frase, uns qualificativos que desviavam o sentido do post. Não é muito by the book fazer isto em posts, mas...

 


16 comentários:
De Palmira F. Silva a 2 de Janeiro de 2009 às 11:44
Eu bem dizia que darias uma contribuição inestimável à discussão :)

Subscrevo de cruz o que disseste e anoto o (“construção social” não quer dizer “mentira” – é um mantra que repito até os meus alunos sentirem tonturas...).

A minha ideia pelos vistos errada (sou totalmente ignorante de antropologia por isso a porvocação :) foi cimentada por coisas como, por exemplo, esta:

«I was inculcated in the tenets of a field known as science studies, which teaches that scientific knowledge has suspect access to truth and that science is motivated by politics and human interest.

This is known as social constructivism and is the reigning mantra in science studies, which considers historical and sociological understandings of science.

From the vantage point of social constructivism, scientific facts are not discovered but rather created within a social framework. In other words, scientific facts do not correspond to a natural reality but conform to a social construct.(...)

In many ways, social constructivism has been reframed as postmodernism, since both movements question the scientific realm's theory of truth—that is, that scientific facts mirror an external reality which does indeed exist.»

Molecular Biology in Narrative Form: A Study of the Experimental Trajectory of Science


De Miguel Vale de Almeida a 2 de Janeiro de 2009 às 12:17
Pois, compreendo. Uma parvoíce, de facto, esse texto. Às vezes deparo-me com o facto de que a selecção de qualidade nas Humanidades é bem mais difícil, porque acedem a elas pessoas que pensam que vai ser fácil, que se pode pensar e dizer tudo...


De Carlos Vidal a 2 de Janeiro de 2009 às 11:45
Já respondi a Palmira Silva, em duas caixas de comentários e post no 5dias.
Por aqui apenas isto:
nunca tinha pensado em Jacques Derrida e na desconstrução com uma freakalhada.
Nem nunca tinha visto Lacan e Deleuze como lixo pseudo-científico. Nunca. Inimaginável. Ó como eu desconheço o vosso mundo.
Mas é meu defeito de formação.
O que a Palmira diz em baixo, aliás, sobre a perspectiva também não faz muito sentido. Estudei perspectiva (e anatomia) e a coisa, como escrita em baixo, não tem muitos pés nem muita cabeça.
Ficamo-nos pela inimizade arte e ciência (mas não entre pessoas!), pelo menos com cientistas como a Palmira Silva.
(Talvez o Jorge Calado possa remediar este problema, não sei. Talvez.)


De Palmira F. Silva a 2 de Janeiro de 2009 às 11:57
Só mais uma questão: o que pensas estar na génese do desprezo crescente pela ciência básica, de um lado, e o acolhimento instrumentalizado de certas “ciências sociais” (I shall say no names...) por parte da “governança” (e isto já para não falar da "ascensão a ciência" - lá está: ao reconhecimento social e político - de conhecimentos instrumentais e de gestão sem qualquer reflexão epistemológica)??

Achei muito interessante o artigo do Bruno Latour que referi no segundo post exactamente por achar que lança luz sobre isto...


De Miguel Vale de Almeida a 2 de Janeiro de 2009 às 12:20
Bem, pela experiência que tenho tido com Bolonhas e RJIESes e transferências, hummm..., académico-governamentais..., diria que podíamos começar a procurar a resposta ali para os lados da Terceira Via do Giddens meets capitalismo neo-liberal? Mas isto sou eu a provocar...


De Ricardo Alves a 2 de Janeiro de 2009 às 13:07
A questão não é a da inexistência de «ciências sociais», nem a de uma putativa hierarquia entre «ciências naturais» e humanidades, nem sequer de tudo isto ser «socialmente enquadrado».
O ponto é que existe um discurso cultural obscurantista, anti-ciência, que se alimenta do pós-modernismo; e existe um discurso político reaccionário, anti-universalismo e antiliberal que se alimenta de um certo «multiculturalismo».
Ambos esses discursos devem ser confrontados.


De GP a 2 de Janeiro de 2009 às 13:50
Só uma coisa interessante e longe de ser única: a autora da primeira citação da Palmira tem, além de PhD em literatura, mestrado em genética e é pós doc numa escola de medicina (de elite, não é?). Muitas vezes, os cientistas quando se metem a fazer «semiótica» são muito mais selvagens que os «humanistas»; se calhar o problema não é não saberem nada de ciência, mas sim não saberem nada de «humanidades» -- e só colherem os slogans mais panfletários. Desculpem lá, mas "I was inculcated in the tenets of a field known as science studies, which teaches that scientific knowledge has suspect access to truth and that science is motivated by politics and human interest" isto é uma posição um bocado freak e marginal no campo dos science studies (que de resto não é *um* campo, unificado, singular, etc).


De João Pinto e Castro a 2 de Janeiro de 2009 às 14:00
Apoiado.


De Valupi a 2 de Janeiro de 2009 às 15:31
Muito bem, Miguel.


De Aquasky a 2 de Janeiro de 2009 às 16:50
Todo o conhecimento científico natural é científico social. Os avanços actuais da física e biologia bem como o conteúdo de diversas teorias recentes vêm demonstrar que a distinção entre ciências naturais e ciências sociais deixou de ter sentido e utilidade. O conhecimento do paradigma emergente tende a ser um conhecimento não dualista, um conhecimento que se funda na superação nas distinções tais como natureza/cultura, natural/artificial, vivo/inanimado, mente/matéria, observador/observado, subjectivo/objectivo, colectivo/individual, animal/pessoa. Consequentemente o colapso destas distinções, repercute-se nas disciplinas científicas que sobre elas se fundara.


De Aquasky a 2 de Janeiro de 2009 às 16:53
A tendência é que os fenómenos naturais sejam estudados como se fossem fenómenos sociais, em vez do inverso. E à medida que as ciências naturais se aproximam das ciência sociais, estas aproximam-se das humanidades.


De Ana Matos Pires a 2 de Janeiro de 2009 às 18:01
Boa, Miguel. As minhas lides são um bom exemplo do efeito "luta de galaricós". A psiquiatria - e, pior, quem dela precisa - bem se "lixou" com estas "dicotomizações de base hierárquica" que apenas servem para encapotar ignorância e sustentar o Príncipio de Peter.


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