
Devem estar curiosos por saber que foi feito do Silva.
Pois bem, depois de criar o seu paraíso no deserto, qual deus menor com a mania das grandezas, o Silva morreu, ao volante do seu camião cisterna novo-usado - parece que foi uma falha nos travões.
A estufa lá ficou, anos a fio. Abandonada.
E aconteceu.
É sempre fácil zombar das regras da natureza, munido de lápis e papel, inventando estórias num banco de jardim.
Das flores.
Morreram todas. Ou melhor, salvaram-se as que se adaptaram à nova realidade. Mas essas não eram bem flores, daquelas que aformoseiam esquifes. Sem água e adubos, sobreviveram, mas feitas mutantes, espécie de náusea aos sentidos.
As árvores.
Salvaram-se as de raízes revoltas e manhosas. Iguais àquelas que, diz quem sabe, fazem parte do jardim da legião dos seis mil.
E as abelhas.
Desprezaram o mel e, em sensualidade e luxúria, passaram a produzir fel. Aguçaram ferrões e, por Azazel - antes de este engenhar os cremes para a casca humana, mataram-se umas às outras, divididas em clãs. Mataram-se e reproduziram-se (outra espécie de morte) e aliaram-se e firmaram pazes podres. Fizeram pela vida, como os bolores humanos fazem.
Para melhor terem uma ideia da estufa do Silva depois da morte deste, deixem-me que vos conte dos vidros partidos, dos cheiros nauseabundos vindos directamente do inferno. Da confusão desassisada de sentidos.
Há quem diga que um formoso devir.
E depois…
Depois foi isto.
Isto.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
