Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

Custa-me escrever isto. Gosto de Richard Dawkins. Dawkins é um brilhante divulgador de ciência e o homem que me induziu a primeira crise existencial, quando me convenceu que o altruísmo aparentemente puro é uma ilusão. O problema de Dawkins foi o excesso de convívio com os evangélicos americanos. Antes, Dawkins escrevera um livro escorreito que desmonta a tolice do Criacionismo e do "Intelligent Design", mas a partir dos encontros com os evangélicos ensandeceu (o que não surpreende). A sua actual cruzada ateísta é patética (mais do que a de Hitchens, que me parece ser sobretudo uma boa oportunidade de negócio). O autocarro ateu não faz sentido porque o único ateísmo lógico é necessariamente passivo, defensivo, sempre vigilante, mas no limite apenas pontualmente reactivo. Só não seria assim se fosse possível provar não a inexistência de Deus, mas a possibilidade de o homem viver sem religiões. Ora, a História e a Psicologia dizem-nos já que tal não será nunca possível. Nem o mais fervoroso crente na engenharia social como ferramenta de transformação do homem pode defender tal cenário. Sendo assim, o ateísmo pró-activo, mais do que patético, é sobretudo contraproducente, porque funciona como uma simples caixa de ressonância que reforça o peso das religiões dominantes ou então cria brechas para que apareçam outras seitas, tendencialmente piores. Pois bem, entre Policarpo e aquele aldrabão da Igreja do Reino de Deus, prefiro Policarpo. Correndo o risco de passar por arrogante, isto parece-me mais ou menos óbvio.

 


98 comentários:
De f. a 16 de Janeiro de 2009 às 10:39
'o único ateísmo lógico é necessariamente passivo'. se todos os ateus pensassem e agissem de acordo com esse postulado, viviamos em teocracia.


De António Parente a 16 de Janeiro de 2009 às 10:57
Ui! A f. não valoriza o país em que vive nem a liberdade que usufrui. Parte do princípio que todos os católicos gostariam de viver em teocracia e que anseiam por ver D. José Policarpo como Ministro das Finanças. E até parece que andam por aí centenas de milhares de ateus pelas ruas a salvar o país de uma teocracia. A catolicofobia parece levar as pessoas a perderem o contacto com o mundo real.


De JDC a 16 de Janeiro de 2009 às 11:05
A f. sugere, então, que só os ateus defendem a laicidade do Estado, correcto? Não será um pouco exagerado? Além disso, como está escrito no post:
"[...]o único ateísmo lógico é necessariamente passivo, defensivo, sempre vigilante, mas no limite apenas pontualmente reactivo. "
A passividade do ateísmo deve esgotar-se sempre que se cometam abusos do outro lado, deverá ser vigilante...

Quanto à "propagação" do ateísmo (como se fosse uma religião...), cai no erro de proselitismo que tanto criticam nas religiões...


De f. a 16 de Janeiro de 2009 às 11:15
incorrecto, jdc. conheço muitos católicos -- e até mçulmanos, veja lá -- que defendem um estado laico. mas negar que historicamente foram os ateus que criaram a laicidade é um pouco obtuso.

a propaganda do ateísmo, como lhe chama, é claramente destinada a fazer pensar sobre aquilo que se aceita passivamente, ou seja, sobre a omnipresença de propaganda religiosa que, não há muito tempo, foi debatida em portugal a propósito da presença de crucifixos nas escolas nos termos de que julgo estaremos todos recordados. defender a laicidade pode passar por gestos como o do autocarro ateu. e, já agora, achar, como toda a gente que se irrita com o autocarro nestas caixas de comentários -- e refiro-me também à do meu texo abaixo e às dos textos que a palmira escreveu -- que a frase dos autocarros é com o deus cristão e não tem nada a ver com os outros mostra bem a incapacidade que os crentes parecem ter de perceber que o mundo não se resume à respectiva mundividência.


De JDC a 16 de Janeiro de 2009 às 11:26
1º Nunca neguei que tivessem sido os ateus a lançarem a laicidade para o contexto político europeu. Mas isso já foi há mais de 200 anos, certo? Como tal, a defesa da laicidade do Estado não depende exclusivamente, nos dias que correm, dos ateus.
2º Não me parece que a primeira e principal mensagem do autocarro - contra o qual, nada tenho, só faz bem pensar nas próprias convicções - seja a de alertar contra a "omnipresença de propaganda religiosa", mas sim a de "curar" as pessoas desse mal que é a religião. Aliás, basta andar pelos meios ateístas (como o Diário Ateísta) para ver que pessoas como o sr. Carlos Esperança consideram a religião um vírus, conceito esse que teve enorme projecção num dos pais do autocarro - Richard Dawkins. É esta mentalidade e proselitismo que critico!


De john a 19 de Janeiro de 2009 às 14:52
"(...) a propósito da presença de crucifixos nas escolas nos termos de que julgo estaremos todos recordados."

Já que se este tema volta a surgir, uma pergunta que me surgiu há já algum tempo: pela mesma lógica, não deveriam também ser abolidos os feriados religiosos?


De João André a 16 de Janeiro de 2009 às 11:23
Por acaso sou a favor do proselitismo religioso. É uma das coisas que gosto neste Papa. As religiões devem ser proselitistas, não devem fingir que são apenas uma entre muitas. Se os crentes julgam que estão certos, devem obviamente dizê-los. Podem e devem manter respeito pelas crenças dos outros, mas nunca se devem abster de dizer que a sua é a correcta.


De João André a 16 de Janeiro de 2009 às 11:21
Fernanda, eu também não concordo com a afirmação, mas daí a levar isto à teocracia é um passo excessivamente longo. A diminuição do peso da religião na sociedade começou por ser feita ao deixar entrar outras religiões, só depois é que foi através de uma maior permeabilidade ao ateísmo.


De f. a 16 de Janeiro de 2009 às 11:30
a minha observação é histórica. e em história é costume dar passos longos -- senão não é história. não creio que a sua observação, daquilo que sei, seja correcta. pelo menos do que sei da história na europa houve obviamente as guerras religiosas e as cismas mas quem impôs a separação entre estado e igreja(s) foram ateus.


De João André a 16 de Janeiro de 2009 às 11:45
«quem impôs a separação entre estado e igreja(s) foram ateus», talvez. Mas, se bem me lembro (posso estar errado, como é evidente), os autores da Constituição americana, que consagraram tal separação (acho) eram também crentes. Apenas teriam crenças diferentes e não queriam essas crenças a dividir o seu país.

Mas concordo que os ateus tiveram um papel fundamental, não digo o contrário. Quando falo no peso da entrada das outras religiões, refiro-me à mudança das percepções que isso acarretou, não necessariamente a leis ou movimentos políticos.


De jorge c. a 16 de Janeiro de 2009 às 13:08
Ahahahahahahahahahahahahah!
Aahhahahahahahahahahahahah!

Bah ahahahahahahahahahahahahah!

V. pensou antes de dizer isso ou foi a primeira coisa que lhe saiu? Eu compreendo porque às vezes também me saem assim umas atordoadas dessas. Mas é hilariante!

Ahahahahahahahahahahahah!


De f. a 16 de Janeiro de 2009 às 13:15
jorge, espero que saiba que o poppers faz mal ao cérebro. aliás, nem sabia que isso ainda se vendia.


De jorge c. a 16 de Janeiro de 2009 às 13:18
Pois, a novidade não devia tê-la feito começar a tomar outra vez. Mas veja lá se esses que anda a cheirar não são home made. É que a forma artesanal como são feitas podem-na levar a dizer mais coisas dessas. Para mim é óptimo porque acabo por me divertir imenso com esse jacobinismo despropositado e ressentido.


De Isabel Prata a 16 de Janeiro de 2009 às 10:44
Oh Vasco, a mim que sou uma católica tolerante (e com crises de fé permanentes), a ideia do autocarro diverte-me, não a consigo levar mais a sério do que a um spot dos Monty Python.


De nuno castro a 16 de Janeiro de 2009 às 10:50
mas que montanha de baboseiras! - é a única coisa óbvia no seu post.

Se a psicologia e a história provaram que não se pode viver sem religiões, como explica o ateísmo?

E face a uma ofensiva (o que é aquilo que se passa na América através do evangelismo cristão?) do conservadorismo religioso é bom que se comece a propagar o ateísmo.

Não compreendo porque razão teria o ateísmo lógico que ser "passivo". Se assim fosse B. Russel nunca teria escrito o que escreveu e colocado em questão a sua carreira universitária.

Quanto a Policarpo vs IURD, como dizia o outro: venha o diabo e escolha.


De João André a 16 de Janeiro de 2009 às 11:27
«Se a psicologia e a história provaram que não se pode viver sem religiões, como explica o ateísmo?»

Eu até concordo que a psicologia e a história não provam nada, apenas falam do que foi e tem sido.

Ainda assim, o ateísmo seria facilmente explicado à luz dessas duas disciplinas da mesma forma que a homossexalidade. Note-se que, se toda a gente fosse homossexual, não estaríamos agora aqui (no passado não havia técnicas de inseminação artificial, não é verdade?). Isso não impediu que existissem homossexuais. Ou seja, a sociedade não pode ser homossexual para poder sobreviver, mas pode perfeitamente acomodar homossexuais.

Isto não é a defesa do que escreveu o Vasco, apenas uma comparação (algo tosca e simplificada) da possibilidade de surgimento do ateísmo mesmo que a história e a psicologia provem que foi (e é importante usar aqui o termo passado) impossível a sociedade (e não indivíduos) ser ateia.


De Vasco M. Barreto a 16 de Janeiro de 2009 às 12:28
"Prova" no sentido da demonstração que é possível à História. O que a História nos diz, já hoje, é que não faz sentido pensar que a religião desaparecerá por causa do progresso científico. A religião recuou já, em parte como resultado desse progresso científico e social. O que digo é que não se pode a partir destes dados traçar uma linha para o futuro e prever que a religião será erradicada como a varíola. A religião preenche um vazio que a ciência não consegue colmatar. Para alguns, esse vazio não existe, mas haverá sempre uma proporção considerável da população que terá necessidade da religião. Isto propaga-se pela cultura, mas faz parte da natureza humana. Se alguém fizesse desaparecer todos os símbolos religiosos e toda a memória das religiões, isto é, se alguém conseguisse despir a humanidade do traje da religião e a apagasse da nossa cultura, em algumas centenas de anos teríamos novos trajes, diferentes dos anteriores no detalhe, mas cumprindo o mesmo objectivo, tal como sucede actualmente com as diferentes religiões. Só por isso, a campanha de Dawkins é absurda. De certo modo, é até anti-científica, no sentido em que ignora algum conhecimento.


De Vasco M. Barreto a 16 de Janeiro de 2009 às 11:01
De f. a 16 de Janeiro de 2009 às 10:39
'o único ateísmo lógico é necessariamente passivo'. se todos os ateus pensassem e agissem de acordo com esse postulado, viviamos em teocracia.

A citação está truncada. Não é isso que eu escrevo. Mas adiante. Não me parece que os actuais ateus pró-activos sejam os herdeiros directos dos cidadãos que se bateram pelo laicismo e não são seguramente o seu garante, por muito que isto lhes perturbe a auto-estima.

De Isabel Prata a 16 de Janeiro de 2009 às 10:44
Oh Vasco, a mim que sou uma católica tolerante (e com crises de fé permanentes), a ideia do autocarro diverte-me, não a consigo levar mais a sério do que a um spot dos Monty Python.

Não estou preocupado com aqueles que se divertem com o autocarro. Estou mais preocupado com o que ficam indignados e com os que ficam excitados. Em concreto, o que se tem a ganhar com a circulação deste autocarro?

De nuno castro a 16 de Janeiro de 2009 às 10:50
mas que montanha de baboseiras! - é a única coisa óbvia no seu post.

Então o Nuno deve andar muito aborrecido, para ainda o comentar.

Se a psicologia e a história provaram que não se pode viver sem religiões, como explica o ateísmo?

A falha é minha, mas referia-me às sociedades, não aos indivíduos.

E face a uma ofensiva (o que é aquilo que se passa na América através do evangelismo cristão?) do conservadorismo religioso é bom que se comece a propagar o ateísmo.

É verdade que a frase é longa, mas eu não falo só em ateísmo passivo, refiro-me também a ateísmo pontualmente reactivo. É o caso que descreve.

Não compreendo porque razão teria o ateísmo lógico que ser "passivo". Se assim fosse B. Russel nunca teria escrito o que escreveu e colocado em questão a sua carreira universitária.

Ver acima.

Quanto a Policarpo vs IURD, como dizia o outro: venha o diabo e escolha.

Curiosamente, este comentátio parece-me uma baboseira, mas ainda bem que a escreveu no fim.


De f. a 16 de Janeiro de 2009 às 11:07
'Quanto a Policarpo vs IURD, como dizia o outro: venha o diabo e escolha.

Curiosamente, este comentátio parece-me uma baboseira, mas ainda bem que a escreveu no fim.'

curioso, vasco. ia jurar que quem começou por aventar essa extravagante opção foste tu.


De Luís Lavoura a 16 de Janeiro de 2009 às 11:08
Excelente post. Aplaudo com ambas as mãos, da primeira à última linha.


De João Pinto e Castro a 16 de Janeiro de 2009 às 16:40
É mais difícil aplaudir só com uma mão.


De Vasco M. Barreto a 16 de Janeiro de 2009 às 11:10
Curioso porquê? Para mim a baboseira no comentário do Nuno não é a "extravagante opção", é a ausência de escolha.


De f. a 16 de Janeiro de 2009 às 11:18
pois a mim parece-me claro que para o nuno -- para mim, decerto -- a baboseira é teres colocado sequer a questão da opção.


De Vasco M. Barreto a 16 de Janeiro de 2009 às 11:21
São opiniões, creio que chegámos a um impasse.


De f. a 16 de Janeiro de 2009 às 11:36
julgo que isto começou por ser exactamente uma questão de diferença de opinião. mas colocar como conclusão do teu post a comparação/opção entre um cardeal católico e um bispo da iurd, como se estivesse em caua na discussão, pelo menos aqui, no jugular, ter de optar entre seitas ou seus representantes -- aliás, parece-me ser óbvio que é exactamente o contrário disso que digo no fim do meu texto, ou seja, que não faz sentido falar disto como se fosse preciso optar, no caso entre os católicos e os muçulmanos -- extravasa no meu ver a questão da diferença de opinião e passa para o campo da ininteligibilidade.


De TragédiaGeek a 16 de Janeiro de 2009 às 11:20
O autocarro italiano é ateu – nega a existência de Deus. Já o britânico é agnóstico, diz que talvez Deus não exista o que implica logo que talvez exista. O Britânico é mais simpático porque convida à reflexão e ao debate, coisa que o italiano nega porque já tirou uma conclusão e ninguém o vai fazer mudar de ideias.

O pior de tudo é que devemos estar mais perdidos do que julgamos para nos voltarmos para um autocarro para definir as nossas crenças e a nossa filosofia de vida. Acho que a seita que vai surgir vai ser a dos seguidores do autocarro. Qual unicórnio cor-de-rosa qual carapuça. O grande Deus é o autocarro.


De João André a 16 de Janeiro de 2009 às 11:31
O autocarro inglês aventa apenas a probabilidade da inexistência por razões legais. A lei em Inglaterra (para produtos publicitários, onde se inscreve a campanha) nãopermite afirmações peremptórias.

Aliás, isso deixa um espaço curioso. Se uma religião colocasse um autocarro semelhante a dizer "Deus é o caminho" ou algo do género, creio que tal limitação não lhe seria imposta. Seria realmente assim? E porquê (do ponto de vista legal)? Será que alguém me sabe responder a estas questões?


De TragédiaGeek a 16 de Janeiro de 2009 às 11:57
Eu sei que foi por motivos legais, mas isso não invalida o que eu disse.

O que deu início à campanha do autocarro no RU foi precisamente a publicidade pró-religiosa nos autocarros, conforme fiquei a saber por este blogue http://segundalingua.blogspot.com/ que tem links e tudo. Publicitar com uma frase da Bíblia é permitido. Isso eu sei.


De Nuno Albuquerque a 16 de Janeiro de 2009 às 11:21
A sua tese é a que tem permitido às religiões (da católica às IURD's) manterem e aumentarem (em alguns casos) a sua influência na sociedade.
À partida, o ateísmo passivo, do tipo "isso é lá com eles, não me diz respeito", parece quase lógico.
Sucede que tal como et pour cause de Dawkins, me dei conta de que a rédea livre que, acriticamente, é concedida às religiões, lhes vem permitindo fomentar toda a sorte de dislates.
Dawkins decidiu dar um passo em frente. A religião não serve o homem, antes o limita e condiciona e, em tantos casos, destrói. A doutrina vigente tolera o ateísmo passivo por não o considerar perigoso. São apenas uma cambada de incréus condenados às chamas do inferno. Já o ateísmo activo, que, como Dawkins, considera que a humanidade se devia livrar da religião e que, racionalmente, procura demonstrá-lo, é tido como "obra do diabo" e deve ser, a todo o custo, silenciado.
A evolução, creio, tratará de relegar a religião para o seu devido lugar.
Quanto a Dawkins, "graças a deus" por agitadores como ele.


De Vasco M. Barreto a 16 de Janeiro de 2009 às 11:42
Nuno,

Eu não tenho uma "tese", tenho uma opinião. Gostaria apenas que essa opinião não fosse descaracterizada. O ateísmo passivo a que me refiro não é ficar em casa a desenhar órbitas de electrões numa folha de papel. Falo também de um ateísmo vigilante e pontualmente reactivo. O que me aborrece é o espingardar por tudo e por nada e a ideia de que os que berram mais vezes ou mais alto são os que fazem mudar o mundo. Às vezes a coisa regride.


De f. a 16 de Janeiro de 2009 às 11:53
'espingardar por tudo e por nada'. bom, de facto não se passou nada: o cardeal português comparou todos os muçulmanos a lobos e avisou todas as mulheres portuguesas a não falar com muçulmanos. quem o critica é apelidado de intolerante. e tu pelos vistos achas que reagir a isso, ou seja, a essa exibição de óbvia intolerância religiosa, é exagerar e que os ateus é que estão a 'berrar mais alto'? extraordinário. só falta dizeres, à pacheco pereira, que os católicos estão a ser limitados na sua liberdade e que a central de comunicação ateia controla tudo.


De f. a 16 de Janeiro de 2009 às 12:00
casar e não 'falar', obviamente. lapso significativo, em todo o caso.


De Vasco M. Barreto a 16 de Janeiro de 2009 às 12:10
Sobre o campo da inintegibilidade. Começo por agradecer o eufemismo, mas insisto. No post, termino o meu raciocínio dizendo que o comportamento dos ateus militantes só vai levar ao fortalecimento das religiões estabelecidas e, no caso de lhes provocar brechas, ao aparecimento de outras ainda piores. Segue-se depois a tal ininteligível comparação, que passo a explicar com suporte gráfico:

representante da religião estabelecida --- Policarpo

representante da seita oportunista ------ aldrabão da IURD.


Uma hipótese: talvez a comparação parecesse mais absurda se o meu post fosse um comentário ao teu texto, que é essencialmente sobre Policarpo. Mas se reparares, o meu texto é sobre o autocarro. Traduzindo, eu escrevi um post e não um comentário ao teu texto. O objecto de análise, o meu ateu militante, é o Richard Dawkins e não a Fernanda Câncio. Creio que cometes o mesmo erro num outro comentário que li neste labirinto de opiniões


De f. a 16 de Janeiro de 2009 às 12:18
o teu gráfico é muito giro. gosto especialmente da dicotomia estabelecida/oportunista. ficamos assim a saber que o que é estabelecido nunca é oportunista, e que aproveitar oportunidades é sempre sinal de mau carácter. presumo que se trata de uma observação científica.

por outro lado, e apesar de a minha religião pessoal ser muito claramente a minha pessoa, de facto não achei que estavas a comentar o meu texto ou sequer os vários que a palmira já escreveu aqui neste blogue sobre o mesmo assunto. achei apenas que estavas a comentar as ideias expressas por ateus como eu e a palmira sobre quer o autocarro quer as declarações de policarpo. compreendo que o teu conhecimento do meu narcisismo te tenha induzido em erro, mas não me parece que seja absolutamente absurdo esperar que pessoas que escrevem no mesmo blogue reparem no que se escreve no blogue.


De Ricardo Alves a 16 de Janeiro de 2009 às 12:28
Fátima nada tem de oportunismo. Fátima é pureza de intenções.

Se os da IURD satisfazem necessidades religiosas das pessoas, são maus. Se os da ICAR fazem o mesmo, são bons.

Acho que é assim. ;)


De Vasco M. Barreto a 16 de Janeiro de 2009 às 13:03
o teu gráfico é muito giro. gosto especialmente da dicotomia estabelecida/oportunista. ficamos assim a saber que o que é estabelecido nunca é oportunista, e que aproveitar oportunidades é sempre sinal de mau carácter. presumo que se trata de uma observação científica.

Não, Fernanda, não se trata de uma observação científica. Mas podias discutir com mais rigor. Só na tua cabeça se lê que o estabelecido nunca é oportunista. Mas só me ajudas, porque essa falta de subtileza diz muito da postura do militante ateu. O que a comparação ilustra é o ponto em que digo que as novas seitas tendem a ser piores que as já estabelecidas. Há uma série de motivos para que assim seja. Uns decorrem do hábito e não são intrínsecos às seitas, nem particularmente nobres. Outros decorrem de processos de selecção, de fiscalização e de uma certa homeostasia social que tende a temperar o oportunismo. Parece-me óbvio que a Igreja, não pela sua natureza mas pela sua condição (eles já têm o poder), é menos perigosa para os seus seguidores do que a IURD.

por outro lado, e apesar de a minha religião pessoal ser muito claramente a minha pessoa, de facto não achei que estavas a comentar o meu texto ou sequer os vários que a palmira já escreveu aqui neste blogue sobre o mesmo assunto.

Então a ininteligibilidade é toda tua. A Palmira escreveu vários textos, é certo. Mas não sobre as declarações do Policarpo. Logo, não percebo o argumento.


achei apenas que estavas a comentar as ideias expressas por ateus como eu e a palmira sobre quer o autocarro quer as declarações de policarpo.

Já expliquei que o post não é sobre as declarações do policarpo. Há cinco dias teria escrito exactamente o mesmo post. O policarpo aparece como exemplo na qualidade de representante mºaximo da Igreja em Portugal e talvez porque a actualidade é um vírus, mas percebe-se que não é sobre Policarpo. Estou cansado. Olha, ganhaste, mas não insistas neste ponto.

compreendo que o teu conhecimento do meu narcisismo te tenha induzido em erro, mas não me parece que seja absolutamente absurdo esperar que pessoas que escrevem no mesmo blogue reparem no que se escreve no blogue.

Claro que reparei. Mas... o... meu... post... ai... sobre... o... mãeeeee... Policarpo... é... hum hum hum... outro -. Este post era sobre Richard Dawkins. Análise estatística:
Dawkins - 4 referências
Policarpo - 1 referência
Hitchens - 1 referência. Quem é amigo de Hitchens? Policarpo? Duvido. Dawkins? É público.



De f. a 16 de Janeiro de 2009 às 13:12
vasco, quem estabelece a dicotomia és tu, mas a falta de subtileza é minha. ok. quanto à ideia de que 'as novas setas tendem a ser piores que as antigas', bom, também carecerá de demonstração (vide comentário sobre fátima de ricardo alves), mas o cientista, e mais a mais subtil, és tu. quanto ao facto de 'quem já tem o poder' ser menos perigoso que quem não o tem, bom, não sei que diga.

referia-me, obviamente, as textos da palmira sobre o autocarro ateu. (suspiro)

claro que este post é sobre dawkins. mas fala de policarpo. o mesmo policarpo que fez aquelas declarações que já desculpabilizaste, mesmo se ironizando. ou é outro?


De Vasco M. Barreto a 16 de Janeiro de 2009 às 13:34
Fernanda,

Acho que o assunto está esgotado.


De Nuno Albuquerque a 16 de Janeiro de 2009 às 12:10
Vasco,

Parece-me que em matéria de berraria, o ateísmo está ainda muito longe dos décibeis atingidos pelas religiões.
Em relação à sua opinião, nada a opor enquanto tal.
Julgo apenas que as reacções, normalmente adversas, à divulgação ateísta decorrem de uma doutrina que, como referi, apenas "aceita" o ateísmo se e enquanto este não for um problema. Ou seja, sempre que um ateísta, como Dawkins, aparece a divulgar as sua ideias, mais tarde ou mais cedo é apelidado de patético ou, mais cedo que tarde, de querer substituir uma religião por outra.
Julgo não ser nem uma coisa, nem outra.


De TragédiaGeek a 16 de Janeiro de 2009 às 12:23
A cruzada de Dawkins é sobre os EUA, é sobre o império e a metrópolis. Ignora o resto do mundo que está cheio de gente religiosa que pensa e age livremente, que é socialmente responsável e que contribui para o avanço e melhoria da sociedade, que até (veja só) defende a ciência com unhas e dentes. Dawkins quer remover a religião, ou seja, a forma do homem encontrar sentido no mundo e na vida, da vida das pessoas. Ora a religião responde a necessidades humanas que vão mais além do conhecimento do mundo.
Tal como o Vasco, eu também me desiludi com o Dawkins, porque não acho que tirar a religião das pessoas seja possível por um lado, e seja uma coisa boa, pelo outro. Acho que é perigoso e irresponsável confundir religião com a agenda dos que se aproveitam dela para oprimir e controlar o pensamento.


De João André a 16 de Janeiro de 2009 às 11:43
Nesta questão do autocarro, temos que ver quais as frases usadas. Nesse aspecto gosto mais das frases inglesa e catalã, não por causa do provavelmente (embora torne a campanha mais simpática) do que da italiana.

É verdade que concordo com ambas, mas a frase "aproveita a vida" remete para uma mensagem importante: Deus (seja lá qual for a forma) não precisa de ser a maior parte da vida de uma pessoa. De certa forma, vejo essas campanhas (inglesa e catalã) como servino para provocar uma reflexão sobre a função e Deus na sociedade. Considerando que o monarca inglês é também o chefe da igreja anglicana, isto assume maior importância na Inglaterra.

Já a campanha italiana, idealizada a partir das outras, pretende nitidamente provocar uma reacção, sem se preocupar em provocar o pensamento. É uma declaração de princípios, mais do que um conceito em si. Nesta frase concordo com o António Parente, quando dizia que não transmite mensagem alternativa. A frase diz que Deus não é preciso, mas não diz para quê. Subentende-se, mas não transmite mais nada.

É tudo isto inútil? Não. Sem querer abusar das comparações, também as sufragistas que marchavam em Londres e os negros que se sentavam na frente dos autocarros no sul dos EUA provocavam de forma mais violenta (embora não fisicamente) e a sua mensagem era frequentemente incompreendida para os receptores imediatos (os homens londrinos ou a a comunidade branca sulista). Isso não impediu que fosse passada, porque recebeu mais atenção e pôde depois ser explicada de forma mais calma.

Nos tempos em que eu estava na Associação Académica de Coimbra, aquando de uma qualquer actividade de contestação (fosse propinas ou outra coisa qualquer), havia sempre um desejo que houvesse confusão nas situações em que tínhamos pouca adesão. Isso dava má imagem dos estudantes, é certo, mas para a próxima vez haveria atenções redobradas (o cheiro a sangue atrai, como se sabe) o que nos permitiria passar a mensagem num ambiente mais propício.

Penso que aqui se pode aplicar a mesma lógica. E é por isso que não vejo a campanha como inútil.


De JDC a 16 de Janeiro de 2009 às 11:56
"[...]havia sempre um desejo que houvesse confusão nas situações em que tínhamos pouca adesão."

Com esta lógica, legitimam-se os cartazes do PNR em Lisboa. Ou seja, o PNR poderá afirmar que apenas pretendeu provocar uma reacção para depois poder discutir o assunto num "ambiente mais propício". Como decerto concordará, em política não vale tudo para chamar a atenção...


De João André a 16 de Janeiro de 2009 às 12:21
Não disse isso, obviamente. Claro que tem toda a razão. Além do mais, nós não provocávamos a confusão, apenas tínhamos esperança que ela pudesse surgir (sem consequência graves, obviamente).

Ainda assim, as manifestações do passado organizadas (ou promovidas) pelo PNR deram depois a umas entrevistas dos seus responsáveis. Pode não ter existido confusão, mas havia a expectativa da mesma.


De larissa a 16 de Janeiro de 2009 às 12:03
se eu que sou ateia passo a vida a conviver bem (que remédio ) com todas as religiões e a ouvir o que para mim são disparates como coisas serias porque raio os outros também não têm que conviver com os meus 'disparates'? ... E essa do nunca... nunca diga nunca.


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Não sei se reparou que esses membros da Igrej...
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