... mas o entusiasmo dos meus companheiros de blogue com o discurso de Sócrates desconcerta-me. Ainda há uns dias, o Miguel baptizava um seu post mais cauteloso de "excitação (e ejaculação precoce?)", título que, depois do seu mais recente "Portugal será provavelmente o 7 ou o 8 país do Mundo a garantir a igualdade de acesso ao casamento civil para casais do mesmo sexo ! [negrito meu]" agora me parece prescientemente autobiográfico. Quanto à Fernanda, que naturalmente havia terraplenado a recusa dos socialistas de, a reboque do BE, resolverem de uma vez por todas a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo quando tiveram oportunidade de o fazer, parece que agora sente vontade de "celebrar" a declaração de Sócrates feita "sem tibiezas, sem meias soluções". Deixo de lado esta inolvidável passagem de demagogia barata ( "sem tibiezas"? É simples calculismo eleitoralista, embora seja preciso fazer umas contas complicadas) e de falta de rigor ("sem meias-soluções?" Mais meia-solução nem por encomenda, porque adia a questão da adopção); pergunto apenas: mas festejar o quê? A proposta de um partido que, podendo ter arrumado o problema de tantos, para bem exclusivo do PS o adia para uma legislatura futura em que nem assim - ou talvez até por isso, se foram burros (mas isto é irrelevante) - deixa de arriscar a perda de maioria absoluta (o PS tem 41% das intenções de voto em Janeiro de 2009, o que é uma pequena descida quanto a Dezembro de 2008)? Quer-me parecer que "isto do casamento panila" não é um assunto arrumado. Porém, o meu desconcerto nem sequer vem daqui.
Perdoem-me o paternalismo, mas sendo o Miguel e a Fernanda vozes importantes e experientes nesta luta, não percebo como podem ser ingénuos e mostrar agora tanto entusiasmo público, sem se darem conta de que estão implicitamente a dar o seu aval a posteriori à estratégia socialista que antes criticaram. Porque o que se ouviu ontem foi a simples execução do plano que há uns meses os indignou. É ainda a mesma estratégia, apenas na sua segunda etapa. Eu até percebo a psicologia desta reacção: sendo a fé de ambos nos políticos e nos socialistas tão diminuta, sentiram hoje um tremendo alívio. Sucede que teria sido mais avisado fazerem uma celebração menos pública. Porque, embora eu saiba que não se trata disso, o seu comportamento parece algo submisso. Mais orgulho, sff.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
