Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

... mas o entusiasmo dos meus companheiros de blogue com o discurso de Sócrates desconcerta-me. Ainda há uns dias, o Miguel baptizava um seu post mais cauteloso de "excitação (e ejaculação precoce?)", título que, depois do seu mais recente "Portugal será provavelmente o 7 ou o 8 país do Mundo a garantir a igualdade de acesso ao casamento civil para casais do mesmo sexo ! [negrito meu]" agora me parece prescientemente autobiográfico. Quanto à Fernanda, que naturalmente havia terraplenado a recusa dos socialistas de, a reboque do BE, resolverem de uma vez por todas a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo quando tiveram oportunidade de o fazer, parece que agora sente vontade de "celebrar" a declaração de Sócrates feita "sem tibiezas, sem meias soluções". Deixo de lado esta inolvidável passagem de demagogia barata ( "sem tibiezas"? É simples calculismo eleitoralista, embora seja preciso fazer umas contas complicadas) e de falta de rigor ("sem meias-soluções?" Mais meia-solução nem por encomenda, porque adia a questão da adopção); pergunto apenas: mas festejar o quê? A proposta de um partido que, podendo ter arrumado o problema de tantos, para bem exclusivo do PS o adia para uma legislatura futura em que nem assim - ou talvez até por isso, se foram burros (mas isto é irrelevante) - deixa de arriscar a perda de maioria absoluta (o PS tem 41% das intenções de voto em Janeiro de 2009, o que é uma pequena descida quanto a Dezembro de 2008)? Quer-me parecer que "isto do casamento panila" não é um assunto arrumado. Porém, o meu desconcerto nem sequer vem daqui.

 

Perdoem-me o paternalismo, mas sendo o Miguel e a Fernanda vozes importantes e experientes nesta luta, não percebo como podem ser ingénuos e mostrar agora tanto entusiasmo público, sem se darem conta de que estão implicitamente a dar o seu aval a posteriori à estratégia socialista que antes criticaram. Porque o que se ouviu ontem foi a simples execução do plano que há uns meses os indignou. É ainda a mesma estratégia, apenas na sua segunda etapa. Eu até percebo a psicologia desta reacção: sendo a fé de ambos nos políticos e nos socialistas tão diminuta, sentiram hoje um tremendo alívio. Sucede que teria sido mais avisado fazerem uma celebração menos pública. Porque, embora eu saiba que não se trata disso, o seu comportamento parece algo submisso. Mais orgulho, sff.


10 comentários:
De Luis Moreira a 19 de Janeiro de 2009 às 01:48
O que parece é que estão a dizer:.pronto, assunto arrumado, já está, acabou a discussão! Urbi et orbi ! Ao mundo ! Não é possível voltar para trás.Será?


De Shyznogud a 19 de Janeiro de 2009 às 09:39
Não me parece que exista qqr contradição entre os 2 posts do Miguel que referes. No primeiro o receio de "precocidade" era claramente identificado: afinal o PS iria defender que o casamento civil se alargasse a homossexuais ou iríamos estar em presença de sucedâneos?


De Vasco M. Barreto a 19 de Janeiro de 2009 às 09:43
Não aponto uma contradição entre os dois posts, apenas reciclo o título do primeiro para descrever um comportamento. A contradição que aponto é outra.


De f. a 19 de Janeiro de 2009 às 10:28
as coisas que sabes de pura ciência, vasco.


De Vasco M. Barreto a 19 de Janeiro de 2009 às 10:40
Não percebi.


De f. a 19 de Janeiro de 2009 às 10:41
pois.


De Héliocoptero a 19 de Janeiro de 2009 às 11:02
Eu prefiro notar a ironia de, no mesmo dia em que José Sócrates acusa a líder do PSD de falta de credibilidade por ter mudado de opinião sobre o TGV, o Primeiro-Ministro vem a público prometer fazer "sem hesitações" aquilo que o seu partido chumbou com disciplina de voto há apenas três meses.

Ainda acham que o PS ainda tem algum resto de credibilidade no que a direitos LGBT diz respeito? Ainda se em Outubro passado se tivesse apenas abstido ou dado liberdade aos seus deputados...


De jpt a 19 de Janeiro de 2009 às 11:19
Nem mais. Eu já não acredito no pai natal, e não acredito nisto. Basta um bocadinho de pressão da igreja ou uma coligação com o CDS/PP (cenário mais que provável no caso do PS não ter maioria absoluta) para nada disto ser verdade. Não há evidência nenhuma que o PS cumpra promessas eleitorais.


De GL a 19 de Janeiro de 2009 às 20:29
"Basta um bocadinho de pressão da igreja ou uma coligação com o CDS/PP (cenário mais que provável no caso do PS não ter maioria absoluta)"

Futurologia...

Adoro quando a realidade depois vem desmentir estes cenários unânimes dos comentadores.


De j a 19 de Janeiro de 2009 às 12:20
«Não há evidência nenhuma que o PS cumpra promessas eleitorais.»

Para:
Há a evidência de que o PS não cumpriu promessas eleitorias»


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