Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008
“Exigimos que sejam legalmente perseguidos aqueles que propagam e disseminam mentiras políticas através da imprensa.” Esta declaração indignada foi extraída de um manifesto do partido nazi de 1920.
As mentiras dos políticos são, nas sociedades fundadas no princípio da soberania popular, consideradas algo de extrema gravidade, mas nem sempre as cruzadas em favor da verdade na política são inspiradas pelas melhores intenções.
A experiência pessoal ensina-nos que não é possível dizer sempre a verdade, nem na vida privada, nem na vida pública, pela simples razão de que há sempre aspectos da verdade que não favorecem as nossas opiniões ou projectos.
Logo, a verdade é um paradoxo da democracia: uma exigência simultaneamente indispensável e irrazoável que, por isso mesmo, podemos qualificar de utópica.
Como é que os políticos lidam com esta dificuldade central, tendo em conta a gravidade que a opinião pública atribui à deliberada deturpação dos factos?
No essencial, criando corpos especiais de assessores encarregados de produzirem a informação factual de que os governantes depois se servem para falar ao povo. Se os factos vierem a revelar-se falsos, a responsabilidade poderá sempre ser transferida para o staff, visto que o político se limitou a transmitir de boa fé aquilo que outros o haviam persuadido ser a verdade.
Terá Bush mentido deliberadamente ao asseverar a existência de armas de destruição massiva no Iraque de Saddam? Não necessariamente, visto que essa informação lhe chegara através da CIA. Mas, então, estarão os políticos à mercê das “verdades” que os departamentos técnicos especializalidos quiserem impingir-lhes? Também não, pois os assessores aprendem rapidamente a discernir quais as verdades que os seus superiores estão ou não estão interessados em conhecer.
O político pode ser encontrado em falta, mas dificilmente se provará que mentiu. A mentira factual é hoje muitíssimo perigosa, visto que a opinião pública dispõe de poderosíssimos meios de escrutínio que se estendem, inclusive, às vidas pessoais dos detentores de cargos públicos. Todavia, a política não lida apenas com factos, mas também com interpretações e, sobretudo, com projectos, domínios em que se torna muito mais difícil estabelecer uma distinção tão clara entre o verdadeiro e o falso.
Nesta perspectiva mais vasta, a questão central consiste em saber como distinguir a demagogia da verdade, visto que a demagogia é uma patologia inseparável da democracia, ou seja, do sistema que concede aos cidadãos a possibilidade de influenciarem ou determinarem decisões políticas através do voto.
Pode a demagogia ser combatida exclusivamente com a verdade, ou será necessária alguma mentira à mistura para derrotá-la? Deve o político de recta intenção prescindir por inteiro da mentira se constatar que, ao menos em certas circunstâncias, ela possui uma vantagem natural sobre a verdade?
James Callaghan, primeiro-ministro britânico nos anos 70, dizia que a mentira dá à volta ao mundo enquanto a verdade ainda está a calçar as botas. Este melancólico pensamento reconhece o quanto às vezes é sedutora a mentira. Não só porque a favorece a estupidez humana, mas também por ter do seu lado a fantasia e o prazer de se ser enganado.
Que concluir, então, sobre a difícil relação entre a verdade e a política? Que é exagerado o receio de que a mentira possa só por si destruir a política democrática, e que devemos desconfiar daqueles que nos prometem uma política em absoluto livre de mentira.Todavia, embora um certo nível de mentira seja razoavelmente bem tolerado pelas sociedades livres, não se pode negar que, passado um certo ponto, a desconfiança de todos em relação a todos pode minar os seus fundamentos.
O importante não é abolir de uma vez por todas a mentira da política, mas fortalecer o sentido crítico dos cidadãos e garantir que ele possa exprimir-se em condições de liberdade. Para usar a feliz expressão do recentemente falecido filósofo Richard Rorty: “Cuidemos da liberdade, que a verdade cuidará de si mesma”.
De PJ a 30 de Outubro de 2008 às 02:45
desculpe que lhe diga, mas este post é mesmo muito mau. não bate a bota com a perdigota.
o meu amigo mistura várias coisas.
uma coisa é falar da concepção da verdade e da sua relação com os diferentes regimes políticos. e a questão seria: há um conceito de verdade próprio das democracias?
outra, bem diferente, é falar sobre a mentira dos políticos - que pressupõe a existência de uma verdade - para servir os seus interesses. e a questão seria: existe algum caso em que é aceitável mentir em democracia?
e outra ainda, diferente das anteriores, é falar da incapacidade humana de dizer sempre a verdade, e neste caso a pergunta será: pode o ser humano dizer a verdade?
nada disto colhe a favor da sua tese: a verdade em democracia é um paradoxo.
como se tudo isto não bastasse a citação final do rorty destrói por base a pertinência e o sentido do seu post.
posto isto, só apetece dizer:
preocupe-se mais com a liberdade, que a verdade sabe muito bem cuidar dela.
De
JPG a 30 de Outubro de 2008 às 12:34
«O importante não é abolir de uma vez por todas a mentira da política(...)»
Se o "importante" fosse feito, isto é, se a mentira fosse abolida da (na) política, acabava-se a política...
E, nesse caso, se tal coisa fosse possível, então sim, as pessoas poder-se-iam doravante dedicar àquilo que é realmente importante.
Ou seja, estamos perante duas impossibilidades técnicas, que se excluem mutuamente: abolir a política e resolver problemas.
De GL a 30 de Outubro de 2008 às 15:12
"Terá Bush mentido deliberadamente ao asseverar a existência de armas de destruição massiva no Iraque de Saddam? Não necessariamente, visto que essa informação lhe chegara através da CIA."
Esse episódio é um exemplo de uma peça de marketing levada ao extremo, e a meu ver, mal feita. Disseminou-se essa ideia de que Bush foi levado, e a CIA ficou com as culpas. Isso é conversa para o mundo ver. A última operação de branqueamento de Bush é o filme "W", que, travestido de análise crítica, na verdade tenta humanizar Bush e a meu ver o tenta desculpabilizar. Não sei quais são os propósitos de Oliver Stone, mas aquele filme é uma bela operação de branqueamento do ex-colega de universidade. Quem sabe ainda vamos levar com Bush daqui a uns anos.
Desculpe lá sair do tema, João.
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