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Os sete blefes mortais da homofobia

É daquelas coisas que se escreve uma vez. Quem quiser ler, que leia. Não que seja um tema menor em tempos de crise, como muitos afirmam. É apenas por uma questão de enfado. E o pasmo é uma doença terrível, pois até consta que há quem tenha morrido dele. No tempo em que os homens eram homens e as leis naturais não eram simples preceitos de circunstância, evidentemente. O que me leva a escrever hoje, quebrando o juramento que fiz junto à campa do meu amigo Ernesto, de não mais perder um minuto que fosse em diatribes de duvidosa utilidade e incerto proveito, é o programa radiofónico que ouvi esta tarde. Imputai, pois, à Ama Patos Nires e ao marujo de voz fanhosa e palavras titubeantes o dolo das palavras seguintes. Que, felizmente, serão únicas e irrepetidas.

Tenho a maior dificuldade em entender certas coisas. Uma delas é as águas turvas dos raciocínios truncados e das intenções mal disfarçadas. De que falo? Do casamento entre pessoas do mesmo sexo, acabadinho de regressar à ribalta pela mão primitivo-ministerial e que vai sendo servido de canapé, debicado aqui, ratado acoli, petiscado quando calha, enquanto não for colocado claramente em cima da mesa. Lançado assim como uma carta de jogo, trás!, à qual se poderá assistir, passar, cortar ou simplesmente virar a mesa e fazer acusações de batota e outras malcriadices, como é hábito entre maus jogadores e piores perdedores. Entretanto, tomam-se pulsos, dão-se espreitadelas ao jogo alheio, mandam-se piadas para o ar e blefa-se. Muito blefe, credo.

O primeiro blefe, e o mais importante, é o ecológico, a ideia de que tal eventualidade é anti-natura. Ou seja, de que o casamento civil entre duas pessoas do mesmo sexo contraria as leis da Natureza. Pois juro que me interrogo, e convido todos os que lerem este rabisco a juntarem-se-me, sobre para que raio é que a Natureza é para aqui chamada. Aqui, o casamento civil, que consagra socialmente a vida em comum de duas pessoas. Cá para mim são filmes da Disney e fábulas a mais. Só nos desenhos animados é que os bichinhos falam, vestem-se, guiam automóveis e casam-se. Ah não era neste sentido? Era no sentido reprodutivo? Bom, então nesse caso são todos fornicadores inveterados, porque copulam sem casamento, mudam de par sem pagar pensão de alimentos e até devoram os parceiros, em casos extremos. Isto é que é natural, presumo, ou então que se exterminem imediatamente as aranhas e mais uns quantos milhares de espécies.

Aproveito a onda natural e relembro um desprezível pormenor, o de a civilização humana ser, toda ela, anti-natural. Toda. Caso contrário, não salvávamos os nossos filhos doentes e fracos, deixávamo-los morrer para que apenas sobrevivessem os mais fortes. E abandonávamos os nossos velhos logo que deixassem de ser úteis. E não tomávamos vacinas, anestesias ou antibióticos e não faríamos transfusões de sangue, transplantes de órgãos ou cirurgias cardíacas. Tudo isto é, na sua essência, anti-natural, contraria as leis e altera os rumos da Natureza. Ou alguém pensa que é só passarinhos a chilrear, aromas de alfazema e paisagens deslumbrantes? A evolução humana fez-se pelo decréscimo do natural a favor do cultural. Ups, evolução, que disparate, já me esquecia. O casamento civil, de que estamos aqui a falar, é natural? Ou cultural? É que se alguém diz que é natural faço já as malas e vou pregar para outra freguesia.

O segundo blefe é o viral, a ideia de que o casamento é o laço que une a célula nuclear da sociedade, a família. Ora, uma família resulta da reprodução e esta só possível com uma XX e um XY. Logo, permitir o casamento de duas XX ou de dois XY destrói o tecido social, como se de um vírus se tratasse, um bicho danado que corrói tudo à sua volta e que contamina as células sãs e viçosas. Eu sou casado e tenho 3 crianças e sou muito feliz. Ou sou solteiro, tenho 1 filho e feliz sou. Ou sou viúvo, com filhos e netos, ou nem por isso, 2 mulheres, 4 concubinas, 3 ajeitosadas. Tenho uma família, ou duas, ou aquelas que me saíram num bolo-rei. Que diabo me interessa, ou perturba, ou incomoda, ou contribui para a minha (in)felicidade, ter um casal de lésbicas ou gays casadinhos da silva a viver no 2º esquerdo, com um puto ou quantos forem?

Seria bom alguém relembrar por aí aos mais esquecidos, aos que falam da família como se de um arquétipo de Platão se tratasse, que uma mulher pode ter filhos sem estar casada, ok? E que os tempos da bastardia e dos filhos ilegítimos já lá vai. Ah! E já agora que não se esqueça de dizer que há uma coisa chamada divórcio, outra chamada “família monoparental”. E que às almas sensíveis a quem horroriza que uma inocente menina de caracóis loiros e olhos azuis descubra que tem dois pais ou duas mães, que horror, e que por isso se sinta discriminada e diferente na escola e que acabe toxicodependente, prostituta e, pior, fufa deslavada, pergunte quantos putos, hoje, não têm efectivamente dois pais (um mais do que o outro) e duas mães (uma verdadeira e uma emprestada) em simultâneo, a juntar a mais uns quantos irmãos postiços? Será isso que fez este mundo perder-se e que rebentou a bolha imobiliária, despoletou o aquecimento global, causou as epidemias e as fomes no Sahel, manteve o Mugabe no poder e agravou a crise no Médio Oriente?

O terceiro blefe é preguiçoso. Assenta no apuradíssimo argumento de que não vale a pena mexer nisso agora porque temos todos mais o que fazer, há uma crise à porta, o desemprego espreita, a deflacção ameaça, o Benfica está à rasca e ainda falta muito para chegar Agosto. O tempo escasseia. Não é oportuno. Pois, pois, esperemos a ver quando é que o será. Mas sentados, é melhor. Ainda estaríamos com o Código de Justiniano em vigor, com argumentos destes, porque haveria sempre problemas mais prementes a resolver do que tratar das liberdades civis e dos direitos humanos.

O quarto blefe é injurioso. Afirma que tudo isto são manobras de diversão porque não há qualquer discriminação na lei contra os homossexuais, e os pregões a favor do casamento são apenas fumos hipócritas destinados a permitir deduções fiscais, benefícios sociais, proveitos financeiros, mais-valias patrimoniais. Tsc tsc como a gente projecta nos outros os nossos anseios e medos, hein? Isto em psicocoiso tem um nome qualquer.

O quinto blefe é o reaccionário apocalíptico. Não porque não, porque está tudo bem assim, para quê mudar séculos de felicidade social e harmoniosa tradição consuetudinária só para agradar a meia-dúzia de degenerados e malucas, que em vez de terem juízo ainda se vangloriam e exibem e puxam os cordelinhos através de poderosos lobbies? Se se permitir que se casem, multiplicam-se. Haja um mínimo de decência, um limite, senão, onde acabaremos todos? É um bocado o raciocínio do João César das Neves: ontem legalizou-se a água das pedras, depois o divórcio, agora o aborto, amanhã a pedofilia, depois de amanhã os discos do Toy, onde irá isto parar? Acabaremos como Sodoma e Gomorra, ora pois.

O sexto blefe é o autista cego. É aquele que não argumenta nem expõe ideias, mas apenas dados incoerentes, conceitos vagos (como o de “normalidade”), números, aquele que assobia para o lado, atira areia para os olhos, introduz falsas questões, muda de assunto porque este não interessa. Foi o que fez o senhor na rádio. Não aceita o casamento entre pessoas do mesmo sexo porque lhe “faz confusão”. Pois a mim também me faz muita confusão pensar nos pobres electrões às voltas atrás das electroas mas não é por isso que deixo de utilizar a energia eléctrica.

O sétimo blefe, finalmente, é o paternalista hipócrita. É o mais generalizado, o mais profundo e o menos visível, uma espécie de mix de todos os anteriores. É aquele que diz que sim, tudo bem, não tenho nada contra os homossexuais, por acaso até conheço um, coitado, nem é má pessoa, cada um sabe de si e leva onde gosta, podem até viver juntos mas casar é que não, porque isso é algo reservado às pessoas normais e decentes, enfim, as humanas de pleno direito. Ainda por cima, essa gente, como todos sabemos, é promíscua e incapaz de uma relação estável, saudável e frutuosa, deixá-los casar seria lançar a confusão. Não. É para o nosso bem e, no fundo, para o bem deles. O problema não reside em que dois XY ou duas XX forniquem como alimárias. Não, credo, isso seria uma opinião homofóbica, que é coisa que já não existe. Mas caso existisse, nunca se confessaria. Somos todos adultos, tolerantes e modernos. O perigo reside, apenas e somente, no facto de serem civilmente casados. Nada de confusões, está bem?

Os blefes são assim. Mas neles só acredita quem quer.

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