Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

É daquelas coisas que se escreve uma vez. Quem quiser ler, que leia. Não que seja um tema menor em tempos de crise, como muitos afirmam. É apenas por uma questão de enfado. E o pasmo é uma doença terrível, pois até consta que há quem tenha morrido dele. No tempo em que os homens eram homens e as leis naturais não eram simples preceitos de circunstância, evidentemente. O que me leva a escrever hoje, quebrando o juramento que fiz junto à campa do meu amigo Ernesto, de não mais perder um minuto que fosse em diatribes de duvidosa utilidade e incerto proveito, é o programa radiofónico que ouvi esta tarde. Imputai, pois, à Ama Patos Nires e ao marujo de voz fanhosa e palavras titubeantes o dolo das palavras seguintes. Que, felizmente, serão únicas e irrepetidas.

Tenho a maior dificuldade em entender certas coisas. Uma delas é as águas turvas dos raciocínios truncados e das intenções mal disfarçadas. De que falo? Do casamento entre pessoas do mesmo sexo, acabadinho de regressar à ribalta pela mão primitivo-ministerial e que vai sendo servido de canapé, debicado aqui, ratado acoli, petiscado quando calha, enquanto não for colocado claramente em cima da mesa. Lançado assim como uma carta de jogo, trás!, à qual se poderá assistir, passar, cortar ou simplesmente virar a mesa e fazer acusações de batota e outras malcriadices, como é hábito entre maus jogadores e piores perdedores. Entretanto, tomam-se pulsos, dão-se espreitadelas ao jogo alheio, mandam-se piadas para o ar e blefa-se. Muito blefe, credo.

O primeiro blefe, e o mais importante, é o ecológico, a ideia de que tal eventualidade é anti-natura. Ou seja, de que o casamento civil entre duas pessoas do mesmo sexo contraria as leis da Natureza. Pois juro que me interrogo, e convido todos os que lerem este rabisco a juntarem-se-me, sobre para que raio é que a Natureza é para aqui chamada. Aqui, o casamento civil, que consagra socialmente a vida em comum de duas pessoas. Cá para mim são filmes da Disney e fábulas a mais. Só nos desenhos animados é que os bichinhos falam, vestem-se, guiam automóveis e casam-se. Ah não era neste sentido? Era no sentido reprodutivo? Bom, então nesse caso são todos fornicadores inveterados, porque copulam sem casamento, mudam de par sem pagar pensão de alimentos e até devoram os parceiros, em casos extremos. Isto é que é natural, presumo, ou então que se exterminem imediatamente as aranhas e mais uns quantos milhares de espécies.

Aproveito a onda natural e relembro um desprezível pormenor, o de a civilização humana ser, toda ela, anti-natural. Toda. Caso contrário, não salvávamos os nossos filhos doentes e fracos, deixávamo-los morrer para que apenas sobrevivessem os mais fortes. E abandonávamos os nossos velhos logo que deixassem de ser úteis. E não tomávamos vacinas, anestesias ou antibióticos e não faríamos transfusões de sangue, transplantes de órgãos ou cirurgias cardíacas. Tudo isto é, na sua essência, anti-natural, contraria as leis e altera os rumos da Natureza. Ou alguém pensa que é só passarinhos a chilrear, aromas de alfazema e paisagens deslumbrantes? A evolução humana fez-se pelo decréscimo do natural a favor do cultural. Ups, evolução, que disparate, já me esquecia. O casamento civil, de que estamos aqui a falar, é natural? Ou cultural? É que se alguém diz que é natural faço já as malas e vou pregar para outra freguesia.

O segundo blefe é o viral, a ideia de que o casamento é o laço que une a célula nuclear da sociedade, a família. Ora, uma família resulta da reprodução e esta só possível com uma XX e um XY. Logo, permitir o casamento de duas XX ou de dois XY destrói o tecido social, como se de um vírus se tratasse, um bicho danado que corrói tudo à sua volta e que contamina as células sãs e viçosas. Eu sou casado e tenho 3 crianças e sou muito feliz. Ou sou solteiro, tenho 1 filho e feliz sou. Ou sou viúvo, com filhos e netos, ou nem por isso, 2 mulheres, 4 concubinas, 3 ajeitosadas. Tenho uma família, ou duas, ou aquelas que me saíram num bolo-rei. Que diabo me interessa, ou perturba, ou incomoda, ou contribui para a minha (in)felicidade, ter um casal de lésbicas ou gays casadinhos da silva a viver no 2º esquerdo, com um puto ou quantos forem?

Seria bom alguém relembrar por aí aos mais esquecidos, aos que falam da família como se de um arquétipo de Platão se tratasse, que uma mulher pode ter filhos sem estar casada, ok? E que os tempos da bastardia e dos filhos ilegítimos já lá vai. Ah! E já agora que não se esqueça de dizer que há uma coisa chamada divórcio, outra chamada “família monoparental”. E que às almas sensíveis a quem horroriza que uma inocente menina de caracóis loiros e olhos azuis descubra que tem dois pais ou duas mães, que horror, e que por isso se sinta discriminada e diferente na escola e que acabe toxicodependente, prostituta e, pior, fufa deslavada, pergunte quantos putos, hoje, não têm efectivamente dois pais (um mais do que o outro) e duas mães (uma verdadeira e uma emprestada) em simultâneo, a juntar a mais uns quantos irmãos postiços? Será isso que fez este mundo perder-se e que rebentou a bolha imobiliária, despoletou o aquecimento global, causou as epidemias e as fomes no Sahel, manteve o Mugabe no poder e agravou a crise no Médio Oriente?

O terceiro blefe é preguiçoso. Assenta no apuradíssimo argumento de que não vale a pena mexer nisso agora porque temos todos mais o que fazer, há uma crise à porta, o desemprego espreita, a deflacção ameaça, o Benfica está à rasca e ainda falta muito para chegar Agosto. O tempo escasseia. Não é oportuno. Pois, pois, esperemos a ver quando é que o será. Mas sentados, é melhor. Ainda estaríamos com o Código de Justiniano em vigor, com argumentos destes, porque haveria sempre problemas mais prementes a resolver do que tratar das liberdades civis e dos direitos humanos.

O quarto blefe é injurioso. Afirma que tudo isto são manobras de diversão porque não há qualquer discriminação na lei contra os homossexuais, e os pregões a favor do casamento são apenas fumos hipócritas destinados a permitir deduções fiscais, benefícios sociais, proveitos financeiros, mais-valias patrimoniais. Tsc tsc como a gente projecta nos outros os nossos anseios e medos, hein? Isto em psicocoiso tem um nome qualquer.

O quinto blefe é o reaccionário apocalíptico. Não porque não, porque está tudo bem assim, para quê mudar séculos de felicidade social e harmoniosa tradição consuetudinária só para agradar a meia-dúzia de degenerados e malucas, que em vez de terem juízo ainda se vangloriam e exibem e puxam os cordelinhos através de poderosos lobbies? Se se permitir que se casem, multiplicam-se. Haja um mínimo de decência, um limite, senão, onde acabaremos todos? É um bocado o raciocínio do João César das Neves: ontem legalizou-se a água das pedras, depois o divórcio, agora o aborto, amanhã a pedofilia, depois de amanhã os discos do Toy, onde irá isto parar? Acabaremos como Sodoma e Gomorra, ora pois.

O sexto blefe é o autista cego. É aquele que não argumenta nem expõe ideias, mas apenas dados incoerentes, conceitos vagos (como o de “normalidade”), números, aquele que assobia para o lado, atira areia para os olhos, introduz falsas questões, muda de assunto porque este não interessa. Foi o que fez o senhor na rádio. Não aceita o casamento entre pessoas do mesmo sexo porque lhe “faz confusão”. Pois a mim também me faz muita confusão pensar nos pobres electrões às voltas atrás das electroas mas não é por isso que deixo de utilizar a energia eléctrica.

O sétimo blefe, finalmente, é o paternalista hipócrita. É o mais generalizado, o mais profundo e o menos visível, uma espécie de mix de todos os anteriores. É aquele que diz que sim, tudo bem, não tenho nada contra os homossexuais, por acaso até conheço um, coitado, nem é má pessoa, cada um sabe de si e leva onde gosta, podem até viver juntos mas casar é que não, porque isso é algo reservado às pessoas normais e decentes, enfim, as humanas de pleno direito. Ainda por cima, essa gente, como todos sabemos, é promíscua e incapaz de uma relação estável, saudável e frutuosa, deixá-los casar seria lançar a confusão. Não. É para o nosso bem e, no fundo, para o bem deles. O problema não reside em que dois XY ou duas XX forniquem como alimárias. Não, credo, isso seria uma opinião homofóbica, que é coisa que já não existe. Mas caso existisse, nunca se confessaria. Somos todos adultos, tolerantes e modernos. O perigo reside, apenas e somente, no facto de serem civilmente casados. Nada de confusões, está bem?

Os blefes são assim. Mas neles só acredita quem quer.


40 comentários:
De Helena Velho a 22 de Janeiro de 2009 às 02:12
Acho que nem que quissesse, conseguiria escrever tudo como o Paulo faz. E bem!


De Nuno Palha a 22 de Janeiro de 2009 às 02:21
Está genial!!


De PGFV a 22 de Janeiro de 2009 às 03:02
O Público on-line está a fazer um inquérito estúpido e a pergunra é:

Concorda com a legalização dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo?

O não vai bastante à frente.

Sabemos que este tipo de coisas vale o que vale, mas quem achar que nem só de leitores mentecaptos vive o Públicpo fajá sabe o que tem que fazer


De zeca araujo a 22 de Janeiro de 2009 às 05:23
Acho que cometeu um pecado quando escreveu "pensar nos pobres electrões às voltas atrás das electroas". Para ser coerente deveria ter misturado os electrões com electrões e as electroas com as electroas.
Outra pecado que cometeu foi ter-se esquecido das fodas. É que foder é o acto número um que preside à procriação dos mamíferos, e se um macho pode foder uma fêmea e dois machos podem mandar a pissa à merda e foder-se um ao outro, já duas fêmeas podem fazer o que quiserem uma com a outra mas foder é que não.
Um terceiro pecado é que você não explica por que raio dois amigos precisam casar-se. Por quê? Para quê? Para se afirmarem como iguais depois de séculos de luta para aceitação da diferença? Ora!
Gozem mas é a vida e deixem-se de merdas.


De Paulo Pinto a 22 de Janeiro de 2009 às 11:42
1. Bom, tem razão. Haverá também um certo número de electrões e electroas degenerados. Se calhar é por isso que a luz falta, às vezes.
2. Não me esqueci das ditas. Mas o que se passa com elas é o mesmo que se passa com muitas outras coisas. Há quem tenha conceitos restritos e quem tenha conceitos abrangentes.
3. Não sei responder. Pergunte a quem quer e não pode.
Obrigado pelo conselho.


De Anónimo a 22 de Janeiro de 2009 às 13:12
que ganda atrasado este zeca araujo.


De Inês Meneses a 22 de Janeiro de 2009 às 16:18
"Outra pecado que cometeu foi ter-se esquecido das fodas. É que foder é o acto número um que preside à procriação dos mamíferos, e se um macho pode foder uma fêmea e dois machos podem mandar a pissa à merda e foder-se um ao outro, já duas fêmeas podem fazer o que quiserem uma com a outra mas foder é que não"

mas ca falta de imaginação, Zeca, tsc, tsc.


De jorge c. a 22 de Janeiro de 2009 às 07:34
Não está nada genial. A questão é que o gajo escreve bem e vocês concordam com o fundo da questão. Mas tem umas falácias extraordinárias, como esta:

"O primeiro blefe, e o mais importante, é o ecológico, a ideia de que tal eventualidade é anti-natura. Ou seja, de que o casamento civil entre duas pessoas do mesmo sexo contraria as leis da Natureza."

Isto não é verdade. Tão simplesmente porque o que se defende é que o casamento entre pessoas do mesmo sexo não cabe no mesmo regime jurídico do casamento civil porque incide sobre uma relação jurídica de natureza diferente.
Mas eu agora não tenho de te dar uma carga de porrada por causa disso, levantar a mesa e tal, porque tenho de fazer uma coisa que ninguém pode fazer por mim.

Já agora, apresentar a carta "trás!" não é absolutamente jogo limpo, é jogar com a atribuição de direitos como factor eleitoral, secundário, e não essencial. É desonesto e fútil. Mas, mais logo andamos à porrada.
Alguma vez tinha de discordar de ti.


De Paulo Pinto a 22 de Janeiro de 2009 às 11:48
Ora bem. Obrigado por só teres denunciado uma falácia. Da próxima vez que ouvir um qq gajo (um Mário Crespo, um sacerdote ou um marinheiro do 31) invocar a questão da reprodução, da natureza ou da família já sei o que lhe responder.
Quanto à "carta" ter sido lançada agora, não concordo. Escondê-la tinha certamente rendido mais votos.
Agora, com a tua licença, vou voltar ao D. Sebastião, que me interessa, de momento, bem mais do que isto.


De Miguel Vale de Almeida a 22 de Janeiro de 2009 às 09:39
Tungas (fungas), na jugular! Parabéns!


De nuno castro a 22 de Janeiro de 2009 às 09:55
Grande texto! Vale a pena lê-lo todo - não se dá o tempo por perdido...e eu que nem sequer sou picolho.


De Vasco M. Barreto a 22 de Janeiro de 2009 às 10:04
Lapidar, lapidar, Mas nota-se que és como Obama, Paulo, um escravo do estilo. O oitavo blefe mortal, também o mais importante, é o "superior interesse da criança".


De Paulo Pinto a 22 de Janeiro de 2009 às 12:27
Sim, pois sou, o que até é estranho, sendo eu branquinho de raça e não com a escravatura nos genes como o outro (sim, sim, já sei, já sei). Quanto aos interesses dos putos, pá, não são para aqui chamados, isso daria outro bailarico. Mas acho que escrevi para ali qualquer coisinha, aí a meio, a da menina loira, tás a ver?


De Ana Matos Pires a 22 de Janeiro de 2009 às 10:11
Grande naco de prosa pensada.


De Citadina a 22 de Janeiro de 2009 às 10:26
Muito bem!

(O que se seria de um post destes no Twitter? Neste caso o Twitter só serve para os blefadores responderem, "concedem" 140 caracteres e depois mudam convenientemente de assunto, lá está.)

Um dos grande problemas dos blefadores, e que os motiva até à paranóia, é a inveja.
Veja bem, Paulo, como nenhum consegue desviar-se da questão da foda. É inveja, meu caro, no fundo é inveja.


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