Lawrence Eagleburger, secretário de Estado de George H.W. Bush e um dos mais proeminentes apoiantes de McCain, declarou ontem aos microfones da National Public Radio, num programa ironicamente destinado a promover a candidatura republicana, que Sarah Palin's não estava preparada para assumir a presidência no caso de algo acontecer a McCain. O excerto da entrevista em que Eagleburger fala de Palin pode ser escutado no final do post. As dúvidas de Eagleburger ecoam as de muitos outros conservadores, os obamacons cujo número cresce diariamente.
Muitos dos «dissidentes» citam especificamente a escolha de Sarah Palin para VP como a causa da assunção pública do voto em Obama. Anne Applebaum resume bem o que Palin significa num artigo na Slate: «I admire the man, but his party has been taken over by anti-intellectual extremists.»
Ou como escreve outro conservador, «Palin, of course, has done the Republicans no good whatever other than making the “base” even more strident and demonstrating to the electorate that the Republicans have become untrustworthy in the extreme. The rest of the world looks at the Republican candidate for VP and gasp at the ineptitude of such a choice by the Republican standard-bearer. It is events and thinking inside the box that will bring doom to the Republican Party.»
De facto, os que deram a nomeação republicana a McCain votaram no candidato mais avesso às «guerras culturais» que devastaram os EUA nos últimos anos, isto é, deram um claro sinal de que estavam fartos do basismo anti-intelectual do GOP. O facto de ter sido o fundamentalismo religioso anti-racional e agressivo que determinou a escolha de Palin para VP, foi um rude golpe nas esperanças de muitos republicanos, que as várias intervenções da senhora consolidaram.
O anti-intelectualismo não é um fenómeno novo, na realidade aparece periodicamente em todas as sociedades, normalmente associado a períodos conturbados na história, como ilustrado pela foto à esquerda, tirada em Berlim num dos períodos mais negros da história da Humanidade. Há mais exemplos que permitem constatar que os pontos altos do anti-intelectualismo correspondem normalmente a regimes totalitários ou pelo menos autoritários.
Por exemplo, na China, os intelectuais foram activamente perseguidos durante a Revolução Cultural. As universidades permaneceram fechadas por praticamente dez anos. Também o Khmer Rouge de Pol Pot considerava os intelectuais o expoente do mal e devotou-se à tarefa de assassinar todos os intelectuais cambojanos. De igual forma, a União Soviética promoveu a classe trabalhadora em relação aos inúteis intelectuais e, especialmente sob Estaline, devotou-se a perseguir e a enviar para Gulags sortidos todos os intelectuais que lucubravam sobre temas capitalistas, decadentes, burgueses ou mesmo fascistas como a genética, anátema na URSS até 1964.
É impossível dissociar o anti-intelectualismo da sua vertente política, o populismo. É fácil reconhecer o populismo no discurso político pela substituição de ideologias, significados, razões e outras coisas racionais por apelos aos sentimentos e emoções - algo mais «democrático» e, simultaneamente, mais difícil de questionar.
Orwell escreveu já há uns tempos que «descemos a um ponto tal que a reafirmação do óbvio é o primeiro dever dos homens inteligentes». Só podemos esperar que o «susto económico» (e os resultados destas eleições) sejam a reafirmação do óbvio que varra a onda populista e anti-intelectual que assola a política internacional.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
