Sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

Lawrence Eagleburger, secretário de Estado de  George H.W. Bush e um dos mais proeminentes apoiantes de McCain, declarou ontem aos microfones da National Public Radio, num programa ironicamente destinado a promover a candidatura republicana, que   Sarah Palin's não estava preparada para assumir a presidência no caso de algo acontecer a McCain. O excerto da entrevista em que Eagleburger fala de  Palin pode ser escutado no final do post. As dúvidas de Eagleburger ecoam as de muitos outros conservadores, os obamacons  cujo número cresce diariamente.

 Muitos dos «dissidentes» citam especificamente a escolha de Sarah Palin para VP como a causa da assunção pública do voto em Obama. Anne Applebaum resume bem o que Palin significa num artigo na Slate: «I admire the man, but his party has been taken over by anti-intellectual extremists.»

Ou como escreve outro conservador, «Palin, of course, has done the Republicans no good whatever other than making the “base” even more strident and demonstrating to the electorate that the Republicans have become untrustworthy in the extreme.  The rest of the world looks at the Republican candidate for VP and gasp at the ineptitude of such a choice by the Republican standard-bearer. It is events and thinking inside the box that will bring doom to the Republican Party.»

De facto, os que deram a nomeação republicana a McCain votaram no candidato mais avesso às «guerras culturais» que devastaram os EUA nos últimos anos,  isto é, deram um claro sinal de que estavam fartos  do basismo anti-intelectual do GOP. O facto de ter sido o fundamentalismo religioso anti-racional e agressivo que determinou a escolha de Palin para VP, foi um rude golpe nas esperanças de muitos republicanos, que as várias intervenções da senhora consolidaram.

O anti-intelectualismo não é um fenómeno novo, na realidade aparece periodicamente em todas as sociedades, normalmente associado a períodos conturbados na história, como ilustrado pela foto à esquerda, tirada em Berlim num dos períodos mais negros da história da Humanidade. Há mais exemplos que permitem constatar que os pontos altos do anti-intelectualismo correspondem normalmente a regimes totalitários ou pelo menos autoritários.
Por exemplo, na China, os intelectuais foram activamente perseguidos durante a Revolução Cultural. As universidades permaneceram fechadas por praticamente dez anos. Também o Khmer Rouge de Pol Pot considerava os intelectuais o expoente do mal e devotou-se à tarefa de assassinar todos os intelectuais cambojanos. De igual forma, a União Soviética promoveu a classe trabalhadora em relação aos inúteis intelectuais e, especialmente sob Estaline, devotou-se a perseguir e a enviar para Gulags sortidos todos os intelectuais que lucubravam sobre temas capitalistas, decadentes, burgueses ou mesmo fascistas como a genética, anátema na URSS até 1964.

É impossível dissociar o anti-intelectualismo da sua vertente política, o populismo. É fácil reconhecer o populismo no discurso político pela substituição de ideologias, significados, razões e outras coisas racionais por apelos aos sentimentos e emoções - algo mais «democrático» e, simultaneamente, mais difícil de questionar.

Orwell escreveu já há uns tempos que «descemos a um ponto tal que a reafirmação do óbvio é o primeiro dever dos homens inteligentes». Só podemos esperar que o «susto económico» (e os resultados destas eleições) sejam a reafirmação do óbvio que  varra a onda populista e anti-intelectual que assola a política internacional.

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4 comentários:
De carlos a 31 de Outubro de 2008 às 11:29
só um (quase)aparte, aquele elefante que salta do barco a tapar um suposto nariz é absolutamente hilariante!


De Luís Lavoura a 31 de Outubro de 2008 às 11:47
Eu o que já li foi que a Sarah Palin se estará já a preparar, não para esta eleição, mas sim para concorrer a Presidente dos EUA daqui a quatro (ou oito) anos.

Se esse ponto de vista estiver correto, o que há a dizer é que, ao contrário daquilo que a Palmira sugere, a Sarah Palin é uma mais valia, e não uma menos valia.

Temos que ter em conta que a maioria dos cidadãos americanos são de um nível intelectual, cultural e científico bastante inferior ao da Palmira. Eles gostam da Sarah Palin e, certamente, odiariam a Palmira.

É triste, mas é verdade.


De Palmira F. Silva a 31 de Outubro de 2008 às 12:01
Luís Lavoura:

Já referi essa possibilidade, a da candiadtura de Sarah Palin em 2012 no post «Sarah Palin: um momento Fargo ou um pesadelo?». Fiquei mais sossegada com o artigo Palin 2012 Frenzy: Media Myth Or A Real Possibility?...


De Luís Lavoura a 31 de Outubro de 2008 às 12:12
De certo modo, a candidatura republicana ( e o Partido Republicano) está numa contradição ente a Sarah Palin, que é uma direitista conservadora, e o John McCain, que é um direitista a puxar mais para o liberal. Entre a Sarah Palin, que é uma anti-intelectual, e o John McCain, que é um tipo que diz coisa com coisa (apesar de a idade já não o ajudar).

Se não fosse o sistema eleitoral dos EUA, o qual obriga ao bipartidarismo, seria muito provável (e desejável) que o Partido Republicano se cindisse já a seguir a estas eleições, indo os tipos do estilo da Sarah Palin para um outro partido, de cariz marcadamente conservador.


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