está toda a gente muito excitada -- na blogosfera e, segundo vi, até no parlamento -- com o facto de ter sido abundantemente noticiado na segunda-feira e na terça a existência de um relatório da ocde sobre o ensino em portugal. isto porque o relatório não é da ocde -- mas também porque foi 'encomendado' pelo governo e diz coisas agradáveis sobre o que o governo fez.
a excitação, portanto, tem várias componentes. uma é a da 'mentira' e da 'propaganda'. outra é a da encomenda e portanto também da propaganda. a terceira é a das coisas agradáveis e portanto, mais uma vez, da propaganda. chamei a atenção de um jugular para a confusão entre as componentes, e fui apelidada de augusto santos silva. portanto a partir de agora, se não se importam, chamem-me dona augusto.
não li o relatório nem tenho agora tempo para o ler, de modo que sobre a sua seriedade e métodos não me pronunciarei. nem sequer para dizer 'a ser verdade'. e não é porque um blogue seja um jornal e se reja pelas regras do jornalismo, mas porque sou assim e além disso estou de augusto santos silva (não esquecer).
vou portanto apenas falar sobre a mentira. então descobri, sem nenhuma dificuldade nem tendo que ir ao site do ps (onde também, como em todo o lado, foi noticiada a existência de um relatório da ocde), que o erro adveio do serviço de comunicação do ministério da educação. nomeadamente, de um mail enviado no domingo, 25 de janeiro, às 20.13 que diz o seguinte:
Estudo da OCDE
Primeiro-ministro e ministra da Educação na apresentação
da avaliação internacional das reformas do 1.º ciclo
O primeiro-ministro, José Sócrates, e a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, assistem amanhã, segunda-feira, dia 26 de Janeiro, à apresentação da avaliação feita pela OCDE das reformas realizadas no 1.º ciclo do Ensino Básico.
O evento realiza-se no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a partir das 10:00 horas.
A avaliação foi solicitada a um conjunto de peritos internacionais, liderado por Peter Matthews, para avaliar e aferir o impacto das referidas reformas.
Presente na cerimónia vai estar também Deborah Roseveare, responsável pelo departamento das Políticas da Educação e Formação da OCDE.
Matthews apresentará a avaliação às 10:30 horas e Roseveare comentará às 11:00 horas.
A sessão prossegue às 14:00 horas, com um painel integrado por Ana Nunes de Almeida, do Instituto de Ciências Sociais, Domingos Fernandes, da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, e João Formosinho, da Universidade do Minho.
O secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, estará presente durante todo o evento.
às 21.43, novo mail, intitulado: 'agenda/correcção' e com o mesmo título, foi recebido nas redacções. lia-se:
correcção do antetítulo e do 1.º parágrafo: onde está “Estudo da OCDE”(antetítulo) e “avaliação feita pela OCDE” (1.º parágrafo) deve ler-se, respectivamente, “Estudo” e “avaliação internacional”.
Segue texto corrigido.
Estudo
Primeiro-ministro e ME na apresentação da avaliação internacional
das reformas do 1.º ciclo
O primeiro-ministro, José Sócrates, e a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, assistem amanhã, segunda-feira, dia 26 de Janeiro, à apresentação da avaliação internacional das reformas realizadas no 1.º ciclo do Ensino Básico.
O evento realiza-se no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a partir das 10:00 horas.
A avaliação foi solicitada a um conjunto de peritos internacionais, liderado por Peter Matthews, para avaliar e aferir o impacto das referidas reformas.
Presente na cerimónia vai estar também Deborah Roseveare, responsável pelo departamento das Políticas da Educação e Formação da OCDE.
Matthews apresentará a avaliação às 10:30 horas e Roseveare comentará às 11:00 horas.
A sessão prossegue às 14:00 horas, com um painel integrado por Ana Nunes de Almeida, do Instituto de Ciências Sociais, Domingos Fernandes, da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, e João Formosinho, da Universidade do Minho.
O secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, estará presente durante todo o evento.
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parece óbvio que houve um engano. fosse qual fosse o seu motivo ou objectivo, foi corrigido no dia anterior ao da sessão onde o pm e a ministra estiveram. para falar de mentira e de 'falta à verdade', como fazem tantos bloguers e como fez no parlamento o presidente da bancada do psd, era preciso provar que esta correcção não existiu e que durante a sessão algum responsável falou de um estudo da ocde. claro que se pode escrever seja o que for, escrevendo antes 'a ser verdade'. até mentiras. e manter a inocência, claro --e acusar os outros de serem ministros da propaganda (ministros aqui no sentido duplo de criados e de ministradores, evidentemente).
da vossa augusto
Tomei a liberdade de trazer para aqui um comentário que iria ficar perdido nas catacumbas. O que me surpreendeu neste estudo não foi tanto a história da OCDE, foi a lista de interlocutores que os peritos investigaram e que, A SER VERDADE, faz com que o estudo tenha, nas suas conclusões qualitativas, muito pouco interesse, para não dizer outra coisa. Estamos a falar de níveis diferentes de manipulação. Este teu post trata do incidente de ontem e - ok - é importante que se esclareça. Mas o essencial é outra coisa. O que há umas horas escrevi foi isto.
A referência à OCDE é só uma brincadeira e se a levares à letra concluis que eu acho que o governo lixou a reputação de tal organização, o que me parece uma leitura algo literal do post. Mas é evidente que o Governo não é inocente nesta história e não me refiro a uma colagem ao rótulo OCDE (embora o site do PS tivesse difundido essa ideia). O problema é este: se o estudo está mesmo mal feito e se as falhas no seu design eram tão óbvias, era obrigação do Governo corrigi-lo, fazer de novo antes de o divulgar. No interesse dos cidadãos e do próprio Governo, que assim passa por vendedor de banha da cobra. O viés parece ser tão óbvio, que ou eles foram estúpidos ou estavam a fazer os outros de estúpidos. Isto a ser verdade, que eu (como escrevi) só li o 31 da Armada. Não tenho razões para duvidar do Carlos Nunes Lopes, como à partida não duvido dos investigadores, apenas coloco uma ressalva por a questão ser tão polémica.
Há um princípio geral nas avaliações: mostrar por todos os meios que somos maus e chegar à conclusão que, afinal, somos bons. É isto que faz avançar a ciência. Quando temos uma boa ideia, o primeiro impulso é atacá-la e ver se resiste. Os Governos (e este é particulamente brilhante nisso) fazem o contrário. Isto tem um nome: propaganda. Mas nada disto te soa a novidade, pois não?
De
f. a 28 de Janeiro de 2009 às 19:32
vasco, já tinha respondido a este comentário nos comentários do teu post. acho que escreveres 'se o estudo está mesmo mal feito' ilustra tudo o que eu disse ou possa vir a dizer sobre os 'a ser verdade' desta história.
De
f. a 28 de Janeiro de 2009 às 19:37
mas, já agora: eu tenho uma opinião muito diferente sobre a capacidade propagandística deste governo. como esta história dos comunicados demonstra, este governo tem problemas de comunicação bastante básicos. aliás, hoje, na assembleia, pelos vistos ninguém do governo tinha na mão estes comunicados para desfazer cabalmente a acusação. e isso é tudo menos brilhante.
Já tinhas respondido mas creio que ainda não percebeste o segundo problema (trataste do primeiro, que nunca me preocupou muito).
Eu não digo apenas "se o estudo está mesmo mal feito". Comprometi-me com a afirmação ao dizer que se a lista de pessoas consultadas que aparece no 31 da Armada é verdadeira, então o estudo está mesmo mal feito. Há uma diferença. Acho que isto se percebe.
Por isso, quando alguém tiver tempo (talvez a tua colega da área da educação) para ver se a lista está correcta e o quiser divulgar, voltarei atrás ou manterei o que disse. É tão simples como isto.
De
Zé Bonito a 28 de Janeiro de 2009 às 20:09
f afirma que não leu o relatório. Eu li. Por isso lhe digo que o mais grave nem é a "confusão" sobre as entidades que o fizeram- é mesmo o seu conteúdo. Veja, por exemplo, as conclusões que se tiram sobre um modelo de gestão... que praticamente ainda não existe.
f diz que este governo tem graves problemas de comunicação. Inteiramente de acordo. Digo, até, que noutro contexto se arriscava a ser o primeiro a cair por dificuldades de expressão. Exemplos disto são Correia de Campos, Lino, Pinho e toda a equipa do Ministério da Educação. Mas não consta que alguém no governo tenha feito algo para ultrapassar o problema.
De Jorge a 28 de Janeiro de 2009 às 20:39
Calculo que o pouco tempo disponível também não lhe permita ter ouvido as declarações do primeiro ministro. É pena, pois se calhar até passaria a observar a propaganda de outro prisma.
De Morgadinho a 28 de Janeiro de 2009 às 20:41
Porque é que o PM, pura e simplesmente, não afirmou na Assembleia da República que tudo se tratou de um erro da própria comunicação do Ministério da Educação? E que esse erro induziu em erro a comunicação social e o próprio PS? Porque é que passou ao ataque à oposição quando questionado sobre a veracidade da autoria do relatório? É que a reacção na Assembleia da República parece precisamente induzir que a "colagem" à OCDE foi afinal intencional...
De
f. a 28 de Janeiro de 2009 às 21:12
acho que já tinha escrito algo sobre isso, morgadinho. acho que o pm devia ter na mão os cmuncados para desfazer a confusão. às tantas ninguém lhe falou deles. que sei eu.
De F Gomes a 29 de Janeiro de 2009 às 00:06
f.
Neste caso, tenho de dizer que houve intenção do PM em misturar as coisas. É que eu vi num Telejornal o PM dizer "...nunca vi nenhum relatório da OCDE que..." e juro-lhe que dei comigo a pensar, que finalmente havia um relatório da OCDE favorável a Portugal (se bem que na matéria em causa - reformas do 1º ciclo - eu esteja de acordo com a política seguida). Além disso, no debate de hoje, que eu vi na íntegra (estou desempregado e tenho muito tempo nas minhas mãos), o PM faltou à verdade quando disse, numa espécie de aparte, mas que se ouviu bem: "...eu nunca disse que o relatório era da OCDE...". Ora por aquilo que eu lhe descrevi acima, eu, que sou povo, não entendi que o relatório fosse proveniente de qualquer outra instituição que não fosse a OCDE. No fundo tudo isto acaba por ser pouco importante, mas convém que as coisas fiquem devidamente esclarecidas.
Ah, e tenho de lhe dizer que não estou nada de acordo consigo, quando diz que o PS está fraquinho em termos de comunicação e propaganda. Há muitos anos que não se via uma máquina tão bem oleada como a deste governo e do partido que lhe dá suporte no que a propaganda diz respeito.
De
f. a 29 de Janeiro de 2009 às 00:18
f gomes, vou repetir: eu não vi a apresentação nem ouvi essas palavras. sei que quem apresentou foi uma perita em educação da ocde e que é dela o prefácio e que será, segundo ouvi dizer (não li) muito elogioso. sei que o relatório foi citado como sendo da ocde nos media. acho que é óbvio que houve uma confusão generalizada, mas não me parece crível que alguém do governo a quisesse criar, ainda por cima depois de ter existido uma rectificação no dia anterior. ganhavam o quê com isso? ser de imediato 'apanhados'?
De F Gomes a 29 de Janeiro de 2009 às 01:28
f.
Eu citei-lhe factos. Na notícia da TV só aparece o PM e não a dita Sra. Deborah. Aliás a notícia acaba com o PM a referir o "Bravo!" que a dita Sra. terá exclamado. Mais uma vez lhe garanto que a impressão que ficou, foi a de que o relatório era da OCDE porque o PM se lhe referiu. Portanto, das duas uma, ou o PM não sabia que o relatório não era da OCDE e tudo não passa de uma gaffe, ou então sabia e foi intencional. Mais uma vez reafirmo que não é importante, mas não vale a pena tapar o sol com a peneira.
De jcosta a 28 de Janeiro de 2009 às 21:40
Mas a SIC já colocou no ar as peças em que o pm aparece em objectiva contradição: ontem e hoje. Basta conferir. O Me também consegue enganar o próprio pm ? pelos vistos, não será apenas um problema de comunicação; há por aqui matéria mais funda a exigir tratamento.
De Ibn Erriq a 29 de Janeiro de 2009 às 00:36
f, eu não lhe chamaria augusto mas sim latoeira, pois, lata é coisa que não lhe falta!
Um pouco de pudor não fica mal a ninguém!
De
f. a 29 de Janeiro de 2009 às 10:48
tenho a incrível lata de escrever o que penso e assinar com o meu nome, caro ibn. desculpe se isso o choca.
De Ibn Erriq a 29 de Janeiro de 2009 às 22:54
De facto, tem lata e não só, também tem mestria a desconversar.
Talvez se estivesse atenta não fizesse essa insinuação do nome, pois, se conhecesse um pouco mais veria que também eu assino com o meu nome, basta pensar um pouco! Ah já me esquecia a sua profissão é jornalista, peço-lhe desculpa pelo facto de lhe exigir demasiado!
De pjmodm a 29 de Janeiro de 2009 às 09:16
“Há muitas décadas que leio relatórios da OCDE sobre Educação e eu nunca vi uma avaliação sobre um período da nossa democracia com tantos elogios", disse o primeiro-ministro.
De
RMG a 29 de Janeiro de 2009 às 09:58
Ahahahahahahahahah. Parabéns pela originalidade! Mas aposto que o Prof. Vital vai arranjar uma desculpa ainda mais mirabolante! Aguardemos!
De
f. a 29 de Janeiro de 2009 às 10:50
é espantoso. há quem ache que mostrar dois comunicados do ministério da educação que mostram que de facto o minisério induziu os jornalistas em erro e depois rectificou é uma desculpa. de facto, melhor falar apenas do que aparece na tv.
De J a 29 de Janeiro de 2009 às 14:42
e há quem ache que se tratou um erro, que não foi deliberadamete para dar mais importância a um relatório do que aquela que ele merece e que não teve a anuência do PM.
“Há décadas que leio relatórios da OCDE sobre Educação. Eu nunca vi uma avaliação com tantos elogios a uma reforma…”
De GL a 29 de Janeiro de 2009 às 11:50
Fiquei feliz ontem, quando ouvi da boca de Sócrates exactamente o que vai na minha cabeça e na cabeça dos 40% da população que vai votar nele: A oposição está morta de ciúmes e inveja, pq ninguém foi capaz até hoje em Portugal de apresentar os resultados de melhorias na educação e não só que este governo apresenta.
Mordam-se, rasguem-se todos, espetem-se com um garfo, batam com a cabeça na parede, tomem um copo de cicuta, chorem, escrevam posts tristes: ninguém ainda apresentou melhores resultados do que este governo.
Essa é a verdade. Verdade que vai durar por muitos e muitos anos. Ainda vou ouvir: "o Sócrates é que era"...
De ibn.erriq@gmail.com a 30 de Janeiro de 2009 às 00:22
"(...) cabeça dos 40% da população que vai votar nele (...)" Assim sendo talvez nem valha a pena haver eleições !
Haja santa paciência.
De GL a 30 de Janeiro de 2009 às 12:26
Dá-me licença de fazer as minhas 'previsões' e os meus 'comentários'? Ou está proibido?
Santa paciência para aturar estes vigilantes das opiniões, todos lixados pq o seu partido não presta.
Calma, não desespere. 4 anos passa rápido.
De Ibn Erriq a 30 de Janeiro de 2009 às 22:38
Olhe numa coisa estamos de acordo, o meu partido não presta. E sabe porquê, porque não tenho partido!
Ah é a sua opinião! que curioso "o que vai na minha cabeça e na cabeça dos 40% da população que vai votar nele". Vamos por partes; 1 - sabe que 40% vão votar em Sócrates, isso não é opinião é adivinhação; 2 - sabe o que vai na cabeça de supostos 40%, isso não é opinião é presunção e como se sabe presunção e água benta cada um toma a quer quer!
Quanto a quatro anos passarem de depressa depende, sabe, tudo é relativo, baste ler Victor Hugo ;-)
Ah já gora, se eu vier a votar no PS nas próximas eleições é capaz, Vexa, de dizer o que me vai na cabeça?
Enfim!
De geofactual a 29 de Janeiro de 2009 às 15:54
Uma pergunta apenas e independentemente da tentativa de colagem da OCDE a um estudo sobre a educação:
- como é que se afirma que o estudo é feito por especialistas independentes quando um dos autores é presidente de um órgão relacionado com a educação (CCAP) e nomeado pela Ministra da Educação?
Isto é ser independente?
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