Sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

Aconteceu um destes dias. "Os extremistas islâmicos da Somália executaram uma jovem de 23 anos, por lapidação. A mulher foi acusada por adultério na localidade Kismayu, no Sul do país." A mulher não tem nome, quem a matou também não, a história tem dez linhas. Não há imagens nem entrevistas, nada daquilo que faz "o interesse humano". Não é pois uma grande notícia, morrer à pedrada. Pedra após pedra da mão de gente que ainda ontem talvez nos dissesse olá, que ainda ontem era um vizinho ou um primo ou um irmão, que ainda ontem julgávamos amigo. Mas morremos ali, cercados como por lobos, golpe após golpe. Nenhum profeta para entrar no círculo e suster o massacre com uma parábola, nenhum sinal divino, nenhum raio a fulminar os monstros. E depois nenhum julgamento, nenhum castigo.


É como se estas mulheres nunca tivessem existido. É como se nunca tivessem sido exactamente como nós, a pensar no que vão fazer no dia seguinte, que vai haver um dia seguinte, que não é possível morrer assim, tão injusta e brutalmente, que o destino não pode ser aquele, que algo virá para mudar a sorte, que quem golpeia perceberá que não pode ser, que é demasiada dor, demasiado sangue, demasiado pavor, que não se imaginará a viver com a culpa, que nenhum deus poderá querer aquilo, em nome de quê uma morte assim. Mas a mulher de Kismayu está morta. Ainda hão-de ter-lhe cuspido o cadáver, arrastado os restos para um buraco onde a comerão os bichos. A mulher de Kismayu não existia para quem a matou senão como abominação e exemplo. A mulher de Kismayu é todas as mulheres, homens e crianças que um versículo satânico condenou à fogueira, à lapidação, à tortura mais atroz para glória de uma ideia de universo, de uma ideia de bem.

Uma ideia de bem, sim, Bem com capitular, letra grande, reverência e vénia. Bem, isto. Palavra de um deus qualquer traduzida por um tipo qualquer num pergaminho qualquer. Não, não digam que o Alcorão não diz que se devem matar os infiéis. Não digam que a Bíblia não diz que se devem matar os infiéis. Não digam que é má interpretação. Não digam que as religiões são amor e quem as estraga são os homens: as religiões são feitas, construídas, sonhadas, e ditadas por quem as pratica, por quem diz e crê que nos livros que mandam matar está a palavra de deus, a palavra que não pode ser contrariada, discutida, reflectida, abjurada. Não é decerto por acaso que nunca se ouviu um mullah lançar uma fatwa contra quem lapida mulheres. Não é por acaso que nunca se ouviu o papa pedir desculpa às mulheres, em nome da instituição que representa, pela perseguição, tortura e morte de "bruxas", adúlteras, mães solteiras, todas as que tiveram o azar de irritar os santos homens e a sua ideia de santa mulher. Há muçulmanos boas pessoas, em horror ante Kismayu? Claro. Há católicos que não se reconhecem no Deuteronómio. Mas, vistos do Deuteronómio e da sua infinita crueldade, são infiéis como os outros. (publicado hoje no dn)


 

56 comentários:
De SCR a 31 de Outubro de 2008 às 11:40
Era de manhã. O dia estava bonito com, apenas, uma ou duas nuvens brancas que não faziam antever gotas de água. O caminho que percorria era o mesmo de quase todas as alvoradas. Alameda fora até à boca do metro.

Na Fonte Luminosa a água estava muda e parada; alguns miúdos já atiravam a bola de um lado para o outro na resplandecente relva verde; várias mães empurravam os carrinhos de bebé em passeios matinais; outros, avós, levavam, pela mão, gente de palmo e meio; muitos velhos já se acotovelavam nas mesas fixas ao chão onde deitam cartas para entreter a vida e matar o tempo.

Enquanto driblava uns quantos buracos no passeio e fazia gincana por entre tapumes de obras olhei para um dos locais que me aquece a alma para mais um dia de trabalho: o parque infantil. E via-a. Olhei novamente. Lá estava ela. Fazendo uma coisa tão banal como empurrar o baloiço de uma criança.

O que tinha de diferente? O que nunca tinha visto antes em Lisboa. Da cabeça aos pés, estava tapada por uma burqa preta. Só os olhos estavam visíveis, mas, esses, eu não conseguia ver porque o asfalto nos distanciava. Do outro lado da rua, travei a marcha e olhei mais uma vez. E depois outra. A imagem, até hoje, mantém-se inalterável na minha cabeça. Uma mulher de burqa empurra o baloiço de uma criança.

A menina parecia feliz, como são todas as crianças quando se balançam. Os seus cabelos castanhos mel esvoaçavam ao sabor do vento enquanto subia e descia de encontro às mãos da mãe.

De burqa, em Lisboa, longe do seu país de origem, - que não sei qual é, mas que os dedos de uma mão chegam para tentar adivinhar – mas sem esquecer a cultura que a proíbe de mostrar os rosto, os braços, as pernas, os ombros ou qualquer laivo de pele visível. Sem esquecer a opressão, a tirania e a pressão moral que leva a que alguns homens se achem no direito de se armarem num qualquer deus que proíba as mulheres de serem seres humanos à escala e direitos deles próprios.

A imagem, no parque infantil, apesar de fria, era terna. Pode ser que a menina do baloiço, não tenha que usar a burqa com que tapam e calam a mãe.


De f. a 31 de Outubro de 2008 às 12:33
sara, já escrevi sobre essa mulher, ou outra como ela, para a notícias magazine, nos sermões impossíveis. é uma visão perturbadora.


De Chuckie a 31 de Outubro de 2008 às 14:09
sobre os véus:

Les filles voilées parlent - Ed. La Fabrique
Ismahane Chouder, Malika Latrèche, Pierre Tevanian

Mona : « L’argument du voile “symbole d’oppression des femmes”, je pose la question : oppression pour qui ? Pas pour moi. Je suis libre de mes choix, et si j’ai choisi de porter le foulard, c’est une expression de ma liberté. » Nadjer : « À peine arrivée, quand ils m’ont vue avec mon voile, ils m’ont dit que la place était prise. » Malika : « Elle s’est exclamée “Vous comptez donc trouver un emploi avec ce que vous avez sur la tête ? Je me suis levée, je lui ai rappelé les lois de la république. » Khadidja : « Notre exclusion était à l’ordre du jour, et je voyais des militants des Verts ou des JCR, ou même des féministes, qui me psychanalysaient ou qui faisaient de l’exégèse du Coran ! » Ismahane : « Nous étions plusieurs Féministes pour l’égalité à défiler, dont Malika et moi qui portions le voile, et un bonhomme furibard nous a apostrophées, parce que “Ni Dieu ni maître”. J’ai répliqué : “OK, mais alors toi, tu n’es pas mon maître ! (rires). »

Ce livre ne traite pas de « la question du voile ». Les trois personnages qui l’ont conduit – dont deux sont des femmes voilées – n’ont pas cherché à mener une enquête sociologique. On pourrait même dire, au contraire : celles qui parlent ici ne sont pas des objets d’étude, mais des sujets – il n’y pas de féminin à ce mot. Elles peuvent être drôles et insolentes, elles peuvent être en colère ou découragées, mais de témoignage en témoignage, au-delà de la diversité des tempéraments, des origines sociales, des contextes familiaux, des itinéraires spirituels et des parcours scolaires et professionnels, ce qui relie toutes ces filles et ces femmes, c’est l’expérience intime et violente de la stigmatisation.

Pierre Tevanian enseigne la philosophie à Drancy. Il coanime le collectif « Les mots sont importants » (www.lmsi.net) et a publié plusieurs livres, dont Le Dictionnaire de la lepénisation des esprits (L’Esprit frappeur, 2002), Le Ministère de la peur (L’Esprit frappeur, 2004), Le Voile médiatique (Raisons d’agir, 2005) et La République du mépris (La Découverte, 2007).

Ismahane Chouder est membre du collectif « Une école pour tou-te-s » et anciennement vice-présidente du collectif des « Féministes pour l’Égalité ». Elle a par ailleurs contribué à l’ouvrage collectif Le Livre noir de la condition des femmes (XO Editions, 2006).

Malika Latrèche s’investit dans « Une école pour tou-te-s » et défend les mamans exclues des sorties scolaires. Depuis octobre 2006, elle co-préside le collectif des « Féministes pour l’égalité ».


De Shyznogud a 31 de Outubro de 2008 às 14:58
Ainda bem que trouxeste esta referência, Chuckie. Por muito perturbadora que seja a visão de uma mulher "burkada" parece-me q o respeito pelo individuo e as suas escolhas deve sobrepôr-se a tudo. Naturalmente q estou a falar de escolhas individuais e não impostas.


De Shyznogud a 31 de Outubro de 2008 às 15:57
(tive de apagar o outro comentário porq o link estava a desatinar)

E já agora acrescento estas palavras, escritas noutro sítio, pela Inês:
"Acerca de burkas e de fascismos libertadores

Este artigo é muito bom para baralhar as cartas todas e nos lembrar que, no que toca a comportamento humano, as coisas são quase sempre mais complicadas do que agradaria às nossas preguiças mentais e aos voluntarismos cheios de boas intenções (sim, as tais que mantêm aquele sítio quente com a lotação esgotada)."

O artigo é este http://womenage.lifelogger.com/875349

De qqr forma não é de véu q se fala aqui, foi conversa paralela.


De SCR a 31 de Outubro de 2008 às 14:11
fernanda, escapou-me essa crónica. sim, é mesmo perturbador.


De Joana Góis a 31 de Outubro de 2008 às 11:53
Uma mulher muçulmana foi barbaramente assassinada por... muçulmanos fanáticos. Eis um belo pretexto para desanca nos...católicos. A grande diferença entre os católicos e alguns muçulmanos não reside no que lêem (seja a Bíblia ou o Corão), mas sim no que praticam. Que eu saiba, mas a f. conhecerá a verdade melhor que todos nós, os católicos não mandam mulheres para a fogueira há uns anitos valentes. Julga-se a história de grupos inteiros, e não de indivíduos, com a vantagem do tempo. Isso é hipócrita e preconceituoso. É fácil. Compare o que é comparável, se é de actos, e não de palavras, que pretende falar.


De f. a 31 de Outubro de 2008 às 12:47
joana góis, o texto fala de religiões e do que resulta delas, nomeadamente do que dizem os livros considerados sagrados e que os crentes encaram como a voz de deus. se acha que o que os livros ditos sagrados dizem não significa nada, e que o facto de no deuteuronómio se instarem os crentes a matar todo o qualquer não crente, 'sem pena nem compaixão', mesmo que seja a mãe, o filho, a mulher ou o amigo, certificando mesmo que a mão do próximo deve ser a primeira a erguer-se contra o seu irmão, bom, não sei o que dizer. de facto, à luz da lei portuguesa e das leis da generalidade dos países ditos democráticos e civilizados, há passagens inteiras da bíblia e do corão que são objectivamente aquilo a que se dá o nome de 'incitação ao ódio e à violência religiosos'. depois, lamento informá-la, joana, de que o último relato conhecido de mulheres mandadas para a fogueira por católicos é de janeiro de 2007 -- três mulheres da mesma família foram queimadas como bruxas em timor. mesmo em portugal há um caso relativamente recente, creio que dos anos 80.


De JPG a 31 de Outubro de 2008 às 15:22
Esta mulher foi assassinada (a seu pedido, pelos vistos) no dia 29 ou 30 do mês de Outubro do ano de 2008.
Isto não sucedeu na Idade Média; foi anteontem.
As "três mulheres da mesma família [que] foram queimadas como bruxas em timor" foram de facto queimadas como bruxas... em Timor. Mas... por católicos? A sério? Acredita nisso?
Já esteve em Timor? Conhece Timor? Sabe o que é o "catolicismo" em Timor?
Bem, não cabe aqui uma necessariamente longa prelecção sobre o assunto, mas seria talvez de boa política não esgrimisse "certezas" absolutas sobre algo que, presumo, desconhece em absoluto.
E meter no mesmo saco a barbárie que desapareceu da História com a barbárie que persiste em fazer História, misturar o horror do passado (que já não volta) com o horror do presente (que volta uma, e outra, e outra vez), enfim, tentar justificar o injustificável com paralelos de antanho, enjorcar analogias entre o que já não tem nem solução nem remédio e aquilo que se poderia facilmente evitar, agora, hoje, já, enfim, tudo isso é, no mínimo, de uma desonestidade intelectual a toda a prova.


De f. a 31 de Outubro de 2008 às 15:44
'o horror do passado que já não volta'. ah, que certeza magnífica.

e 'justificar o injustificável', é o quê, jpg, pode explicar-me?

quanto ao catolicismo em timor, bom, parece que é considerado muito forte e genmuíno pelos representantes locais da igreja católica, tão forte que sitiou o governo por causa da anunciada intenção de acabar com a obrigatoriedade da educação religiosa católica.

o que não pode deixar de querer dizer alguma coisa é a miríade de acusações de desonestidade que chovem mal alguém sonha dizer menos que bem da religião católica. não querem, sei lá, arranjar outra forma de argumentar? assim uma que seja mais cristã -- mais novo testamento, enfim.


De JPG a 31 de Outubro de 2008 às 16:33
As minhas humildes desculpas. Foi um equívoco meu, de que muito me penalizo.

Julgava, agora vejo que erradamente, referir-se o seu artigo a uma mulher que foi morta à pedrada; afinal, o seu artigo era sobre o perigo iminente do regresso da Inquisição. Desconhecia em absoluto essa iminência, ignorância da qual igualmente me penalizo, e tanto assim é que vou já ali espetar umas cabeçadas na parede.

Com sua licença.

(bonk bonk bonk)

Pronto. Já me sinto melhor, assim, e espero estar desculpado.

Sobre o catolicismo em Timor, talvez este (http://timor.no.sapo.pt/3690564.html) artigo da insuspeita Agência Lusa possa fazer alguma luz sobre o assunto; um textículo meu, por outro lado, já não digo luz, mas ao menos o efeito de uma lamparina poderá fazer. Perdoará a abusiva e intrusiva auto-citação:
»O catolicismo de raiz animista, obriga a uma espécie de recato com requintes de sadismo e malvadez. Diz-se que, se um malai olhar uma timorense bem nos olhos, ela engravida. Bocas. Mas o que é facto é que não "fica bem" uma senhora tomar banho sem estar completamente vestida; nada de decotes, rachas, mini-saias ou outras mui pecaminosas coisas. Vejam o que aconteceu no Mercado, a 4 raparigas timorenses vestidas à europeia; não fora a GNR e a tropa da UNTAET, que também passaram um mau bocado, e as raparigas tinham sido linchadas. Timor é dos timorenses; portanto, a cultura, a tradição, os costumes, os hábitos e as idiossincrasias timorenses são também deles.» (http://timor.no.sapo.pt/ir.html)

Só mais uma notinha: nunca me tinham tratado no plural, da forma que utiliza, "tipo" ah, e tal, vocês, os católicos, etc. Nem no singular, de resto. Mas agradeço na mesma.


De f. a 31 de Outubro de 2008 às 16:45
estou a ver, jpg. se aconteceu algo de horripilante feito por pessoas que se dizem e crêem católicas, é porque essas pessoas não são verdadeiramente católicas. e ninguem pode lembrar as malfeitorias perpetradas pelo catolicismo, porque isso significa que está a dizer que a inquisição está à porta. e eu é que tenho uma argumentação desonesta e de má fé? eheheh. mas não bata mais com a cabeça por minha causa. eu não advogo castigos corporais para combater ideias. vá com deus.


De JPG a 31 de Outubro de 2008 às 18:56
Já fui.
De facto, foi pura perda de tempo.


De António Parente a 31 de Outubro de 2008 às 15:36
F.

Noto um grande preconceito anti-religioso naquilo que escreve e comenta. Não a conheço bem (nem bem nem mal, acrescente-se) e por isso não vou afirmar "não esperava isso de si" (considero-a uma mulher culta e inteligente mas até os cultos e inteligentes podem ser preconceituosos). Julgo é que o seu preconceito não está bem fundamentado. Dito de outro modo, existe uma enorme fragilidade argumentativa na forma como aborda o tema.


De António Parente a 31 de Outubro de 2008 às 12:08
F.

Concordo com tudo o que escreveu. Inclusivé com a pontuação.

Jesus foi o primeiro infiel de todos os infiéis. Eu sou um católico seguidor de Jesus, logo serei um infiel. Deixe-me fundamentar o que afirmo na Bíblia:

Evangelho segundo S. João:

8 A mulher adúltera - 1*Jesus foi para o Monte das Oliveiras. 2De madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele. Jesus sentou-se e pôs-se a ensinar. 3Então, os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio 4e disseram-lhe: «Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério. 5Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E Tu que dizes?»
6Faziam-lhe esta pergunta para o fazerem cair numa armadilha e terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se para o chão, pôs-se a escrever com o dedo na terra.
7Como insistissem em interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes: «Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!» 8E, inclinando-se novamente para o chão, continuou a escrever na terra. 9Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio deles.
10Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: «Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?» 11Ela respondeu: «Ninguém, Senhor.» Disse-lhe Jesus: «Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar.»


De m&m a 31 de Outubro de 2008 às 12:24
joão paulo II pediu desculpas pela inquisição.

comparar barbáries com 300 anos de diferença é um bocadinho.. sei lá... talvez má fé?


De f. a 31 de Outubro de 2008 às 12:49
m&m, sobre questões de má fé remeto-o para os textos ditos sagrados que ditam a morte de infiéis, adúlteras e homossexuais, que não foram abjurados até ao momento -- que eu saiba -- por quem pode fazê-lo. sobre a idade das barbáries, e apenas no que respeita a mulheres martirizadas, remeto-o para a resposta que dei a joana góis, um pouco acima.


De m&m a 31 de Outubro de 2008 às 13:22
A fernanda discute alienações criminosas pontuais ou discute praxis religiosas actuais? acha que a bíblia é um gatilho mortifero que deva ser colocado num index?

Há alienados de várias géneses; um indivíduo, em julho, baleou os vizinhos por acreditar que um deles, homossexual, estaria a sodomizar o seu gato. Há malucos para tudo.


o último caso parecido com os que refere que conheço em portugal foi nos anos 30, no crime que bernardo santareno imortalizou em livro, «O Crime da Aldeia Velha»


De f. a 31 de Outubro de 2008 às 13:56
m&m, essa é boa. há imensos muçulmanos que lhe dirão que o que sucedeu em kismayu foi uma alienação criminosa, como m&m parece dizer do quec se passou em timor e em portugal. que o corão e a bíblia foram escritos há bué, que não são para levar à letra, que têm de ser lidos à luz do tempo actual, trá-lá-lá. sucede, m&m, que há muita gente, e não apenas na somália, que lê as chamadas escrituras à letra. e consideram-se os verdadeiros crentes. parece que m&m acha que são todos criminosos. o que é interessante, porque quando os papas, por exemplo, citam as escrituras para condenar a homossexualidade, por exemplo, não costumo ver muita gente a explicar-lhes que aquilo é uma coisa bafienta, escrita por semi-analfabetos preconceituosos. se calhar tenho estado pouco atenta.


De Cam a 31 de Outubro de 2008 às 14:15
Os exemplos que a Fernanda Cancio deu das mulheres queimadas por catolicos, em timor, é um bom exemplo... da falta de lucidez, da quase alucinação em que vivem a FC e a PS.

Mesmo no tempo da inquisição eram muito raras as mulheres mortas por bruxaria. Consta que em Portugal terão sido 4 (pelo menos na documentação estudada até agora, isto segundo diz a wikipedia em espanhol). Ao contrario da crença popular a perseguição a mulheres acusadas de bruxaria foi mais tipica das regiões protestantes.
Mas mulheres acusadas de bruxaria e mortas por isso há-as em todas as culturas. Mesmo em culturas dominadas por sistemas ateus. Sim que tambem conheço ateus que acreditam em bruxas, acreditam que somos energia, num arrazoado new age que mistura pseudo ciencia com crenças primitivas.

Culpar uma religião por um acto condenado por essa mesma religião é uma autentica insanidade. Culpar a religião cristã-catolica por algumas pessoas, que se dizem catolicas, mas têm uma escassa formação catolica e praticam um acto contrario ao ensinado por essa mesma religião é perfeitamente idiota.

Sim, no deuteronomio condenavam as adulteras à morte. Mas a religião cristã é intrisecamente evolutiva, é uma revelação que evolui até culminar em Jesus Cristo.
Mesmo referindo-se ao deutetonomio o caso presente não se aplicaria, alias creio que nem no islão se aplicaria pois parece que a mulher foi violada. E o deuteronomio não condena mulheres violadas. A condenação à morte das mulheres adulteras é sistematica em todo o mundo antigo. O perdão é que é excepcional. É precisamente essa a originalidade cristã, a obrigatoriedade do perdão.

Já agora maluquinhos por maluquinhos, tambem não julgo todos os ateus pelos actos tresloucados dos ateus kmers vermelhos que condenavam pessoas à morte pelo simples facto de usarem oculos ou falarem linguas estrangeiras.
Mas posso avalia-la por aquilo que escreve. Revela uma falta de lucidez tipica de todos os fanaticos. Em condiçoes favoraveis tambem estaria a fazer denuncias e a mandar para o gulag os crentes.

Cam


De f. a 31 de Outubro de 2008 às 15:46
cam, claro, eu e a palmira é que alucinamos.


De Jacinto Bettencourt a 31 de Outubro de 2008 às 16:33
Sim, claramente alucinam.


De f. a 31 de Outubro de 2008 às 16:47
deus, se o jacinto o diz e tão bem o fundamenta, deve ser verdade.


De Jacinto Bettencourt a 31 de Outubro de 2008 às 17:09
Eu tenho um amigo que tem um amigo que conhece Deus, e Este disse-lhe que, não podendo, infelizmente, estar presente nesta conversa, confirma tudo aquilo que eu possa dizer.

Ele também disse que não gostava muito de si. Enfim, intriguices.


De Paulo Pinto a 31 de Outubro de 2008 às 14:52
Pois. Entendo e partilho da indignação, Fernanda, mas não concordo com o último parágrafo. Uma religião é um instrumento humano (concedido, revelado ou desenvolvido pela evolução da espécie, não importa). Pode ser usado para o melhor e para o pior. O preconceito, o medo e, sobretudo, a ignorância é que são a raiz do mal, e não os versículos de um qualquer livro sagrado. Aliás, duvido que quem atirou as pedras que mataram a mulher de Kismayu soubesse sequer ler. Sabia ler quem decretou a sentença, é verdade. Mas o que leu é irrelevante. Porque se não estivesse escrito num qualquer livro sagrado, estaria escrito noutro qualquer livro profano. O que não tornaria a sentença mais válida ou menos bárbara.


De crp a 31 de Outubro de 2008 às 15:52
Paulo Pinto disse tudo em poucas palavras e de um modo inteligente, educado e respeitoso. parabens!
f. tenho-a em muita consideração. admiro-a, mas deixe que o pensamento seja mais abrangente...


De f. a 31 de Outubro de 2008 às 16:01
paulo, talvez não falemos do mesmo quando falamos de religião. como sistema ordenado de sentido, incluindo 'tradutores oficiais' e vocação hegemónica, parece-me que a maioria das religiões servem sobretudo para o pior. e creio que a história, de hoje para trás, demonstra isso claramente.


De Paulo Pinto a 31 de Outubro de 2008 às 16:52
Hum, imagina um arquétipo de instrumento de corte. É um instrumento, mais perigoso e poderoso do que qualquer outro. Ao longo da História, serviu para o progresso das sociedades humanas, para vencer adversidades, para a felicidade e a realização das pessoas. Recentemente (e falo de um bisturi, por exemplo) serve para salvar vidas, muitas, numa mesa de operações. Mas são incontáveis as mortes e o sofrimento causado pela "espada", ao longo dos séculos.
Devemos amaldiçoar os ferreiros e desejar que nunca tivessem existido?


De Shyznogud a 31 de Outubro de 2008 às 17:10
Ou devemos voltar aquela nossa velha conversa, que aqui assenta como uma luva, a propósito do afastamente de literalidades no q à Bíblia diz respeito (simplificando)? Deste afastamento ter sido feito APESAR da Igreja e não DEVIDO a ela?


De Shyznogud a 31 de Outubro de 2008 às 16:11
Mas não deixarás de achar piada ao double standard com q avaliam um e outro texto sagrado, certo?


De Cláudia a 31 de Outubro de 2008 às 15:31
É muito difícil tomar as suas palavras no quadro da simples (e justa) indignação provocada por um acto bárbaro de inspiração religiosa, f., quando de seguida responde a um comentário que "o texto fala das religiões e do que resulta delas". A f. vê nestes lamentáveis actos a expressão de que a religião (qualquer religião) é intrinsecamente má/negativa?
Se sim, as consequências positivas inspiradas por um qualquer sistema de crença (também apoiado na leitura de "textos ditos sagrados", ou da sua tradição oral) são quê, fortuitos? E já agora, um aparte "técnico": no quadro doutrinal que respeita ao Cristianismo (já que o interpela no seu texto), que sentido pode fazer, para um crente que a leia, a referência a um texto veterotestamentário como o Deuteronómio, sem a releitura por via do "mandamento novo" (legado pelos textos deixados pelos seguidores) de Jesus? Eu diria que nenhum.


De cristã a 31 de Outubro de 2008 às 16:11
É exactamente isso que penso, Paulo Pinto. Também concordo com a Cláudia quando quando pergunta "que sentido faz a referência a um texto veterotestamentário como o Deuteronómio, sem a releitura por via do "mandamento novo" (legado pelos textos deixados pelos seguidores) de Jesus?". Nenhum, para um crente. Mas atenção, Cláudia, se pensarmos na Igreja é bom não esquecer que os crimes foram cometidos em nome de Cristo e não do 'mandamento velho'.


De f. a 31 de Outubro de 2008 às 17:01
alexandra e cláudia, achar que alguém só pode falar da bíblia como um todo e considerar que o facto de haver nela muitas contradições -- que são lhe intrínsecas, dada a forma como foi, digamos, manufacturada -- implica que devemos sempre interpretá-la de acordo com o que nos parece mais justo ou nos agrada mais não é, parece-me, muito óbvio. para um crente ou para um não crente -- até porque, como bem apontas, alexandra, os crimes, os muitos crimes cometidos, foram-no por crentes ajuramentados que supostamente sabiam a bíblia toda. parece que resolveram valorizar mais as partes que outros acham desactualizadas e sem autoridade. claro que podemos desde já aqui concordar que sempre que foram cometidos crimes em nome de um deus foram-no por bestas quadradas. sucede que eu vejo uma relação -- e nisso estou acompanhada, e bem acompanhada no meu entender -- entre a religião como organização e estrutura de poder (que inclui os livros) e os crimes. e não só a vejo na história como a vejo nos textos e na interpretação que ainda hoje deles se faz. lamento que isso suscite o escândalo ou a tristeza de algumas pessoas, mas parece-me que o que é desonesto é negar que o que está escrito está escrito. naturalmente, para mim o que está escrito não vale um chavelho, porque eu não acredito em deus e muito menos em gente que fala e escreve por deus. o problema é que há quem não só creia em deus como acredite que a bíblia e o corão e a torah e mais não sei o quê foram ditados pelas divindades. e portanto ache que tem de levar aquilo literalmente.

felizmente há quem, sendo crente, não se sinta insultado pelo que escrevi. é decerto o teu caso, alexandra, mas é também o caso de alguns sacerdotes católicos qe me escreveram a exprimir concordância -- curioso, não é?


De António Parente a 31 de Outubro de 2008 às 17:08
f.

O problema não foi o post nem o artigo no DN. O problema foi aqui na caixa de comentários: em linguagem popular eu diria que se "espalhou ao comprido" ou que "borrou a pintura".


De cristã a 31 de Outubro de 2008 às 17:58
é, segurante, o meu caso, f. e, ainda bem, o caso de sacerdotes católicos. Bom sinal. Os maiores insultos ao cristianismo estão na história da Igreja, na boca e nas acções dos seus príncipes.


De JB a 31 de Outubro de 2008 às 16:14
Não consigo imaginar coisa mais desprezível do que pegar numa notícia destas, horrorosa para todas as pessoas de bem, e usá-la de forma abusiva, sem pudor e ponta de carácter, para cumprir uma agenda contra as religiões, chamando à colação o que não é para aqui chamado. Sabe f. muito bem -- e certamente que uma bocadinho de terapia a ajudava a compreender isto melhor -- que o problema não está no livro -- o mesmo livro que apregoa as piores maldades, condena-as --, nem na fé, ou falta dela. A história registou feitos memoráveis e crimes vindos das mesmas instituições religiosas ou dos mesmos regimes ateus. Chamar um qualquer crente de estúpido, e imputar-lhe as responsabilidades por crimes de outrem, está para além da minha compreensão e tolerância. Mais: este tipo de texto torna absolutamente inviável a discussão com as f's deste mundo: as f's não querem um mundo melhor; querem, simplesmente, um certo mundo onde não participam pessoas com uma certa visão de um mundo melhor.


De f. a 31 de Outubro de 2008 às 17:03
tal qual, jb. nada de mais desprezível que uma opinião diferente da sua. acho, vai-me desculpar, que imagina pouco.


De Cam a 31 de Outubro de 2008 às 16:26
sim, f., os malucos semi-analfabeto, ou mesmo totalmente analfabetos, que mataram a mulher alucinam mas os extremos tocam-se, no fundo voce e a Palmira estão muito mais proximos deles que o portugues comum. As comparações que fazem roçam o incentivo ao ódio religioso, as generalizações que fazem mostram tudo menos lucidez.
O que faz é diabolizar. Noutros contextos em resultado destas parvoices que escrevem por aqui um grupo de desiquilibrados com mais tendencia para a acção que para a escrita atacaria uma igreja e agrediria os crentes que lá se encontrassem.

Quanto ao ocorrido em Timor, como alguem aqui disse voce não sabe o que é o catolicismo em Timor. Em 1974 o catolicismo era a religião apenas de uns 20% da população timorense. A adesão é recente, na maior parte dos casos superficial, entre a maioria do povo semi-analfabeto continuam a estar profundamente enraizadas crenças e praticas das religiões primitivas tradicionais.
Assim como na Africa são relativamente frequentes os ataques a mulheres acusadas de bruxaria. Isto ligado tambem às religiões tradicionais africanas.

Por cá conheço ateus que acreditam na bruxaria. Normalmente ligados às medicinas alternativas, acreditam em forças, energias, dominio dessas forças e energias por seres especiais, bruxos ou com outro nome.


De Paulo Pinto a 31 de Outubro de 2008 às 17:29
Não concordo. Não acho que aqui alguém esteja a incitar ao ódio a quem quer que seja. O Cardeal Patriarca disse, há tempos, que há um défice de religião e que isso é a causa de muitos males. Pois há quem ache exactamente o oposto. Eu, por mim, acho que o problema não é haver disso a mais ou a menos, mas enfim...


De Cam a 31 de Outubro de 2008 às 19:34
É muita ingenuidade não perceber que associar a religião cristã com esta atrocidade é um incentivo ao ódio. Fosse outro o dominante cultural e com textos como estes tinhamos ataques de desiquilibrados a crentes inocentes.

Ou julga que no futebol só os holligans são culpados? E os acicatamentos que recebem dos dirigentes dos seus clubes são rosas comparados com os posts da f. e da PS.


De f. a 31 de Outubro de 2008 às 21:27
ora que seria de nós sem a argúcia da pessoa cam, hem? andávamos para aqui convencidos que ter opiniões menos prazenteiras sobre as religiões, incluindo a cristã-católica, era uma coisa, digamos, aceitável, até quiçá consubstanciada pela história da humanidade e o seu cortejo de horrores cometidos em nome das religiões que tanta gente denunciou ao longo dos séculos. afinal denunciar a violência cometida em nome das religiões é uma incitação à violência contra as religiões.

então não se está mesmo a ver? a malta diz: uma turba islâmica apedrejou uma mulher até à morte. logo, estamos a inciotar à violência contra todos os islâmicos. tipo, bordoada neles.

já as partes dos livros sagrados que essas religiões consagram que incitam literalmente à violência são metáforas, coisas para ignorar, enfim, umas cenas que uns gajos meio alucionados convencidos que estavam a falar com deus escreveram há uns milhares de anos, nada a que se deva dar crédito. só as partes que não são estas, escritas por uns outros gajos que achavam que estavam a falar com deus é que são boas. apre, é lógico.


De Paulo Pinto a 31 de Outubro de 2008 às 22:15
Pode-me chamar de "muito ingénuo", que eu não me ofendo. Mas não vejo nenhum incitamento ao ódio. Mas cada um vê o que quer, não é?


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