Domingo, 1 de Fevereiro de 2009
Palmira F. Silva

No momento em que inicio este post, Fernando Nobre descreve na Sic Notícias o que , em sua opinião, é o combustível da guerra na República Democrática do Congo*, uma guerra que dura há quase dez anos, mais concretamente desde o dia 2 de Agosto de 1998. O médico sem fronteiras informa que este conflito ignorado já fez mais de 5 milhões de vítimas e escravizou inúmeras outras, muitas delas crianças, as principais vítimas desta guerra. Segundo um relatório de 2008 do International Rescue Committee, continuam a morrer por mês cerca de 45 000 pessoas em consequência de mais um conflito que não faz primeiras páginas.

Esse combustível, ou antes mineral,  de sangue é o coltan, na realidade dois minerais, a columbite e a tantalite, ambos óxidos mistos de ferro, manganês, nióbio e tântalo, a columbite mais rica em nióbio (e contém ainda magnésio); a tantalite mais rica em tântalo. Ambos os metais, mais raros e mais cobiçados do que o ouro, são indispensáveis às novas tecnologias, de telemóveis a  estações espaciais passando pelas armas mais sofisticadas, algumas das quais utilizadas na guerra que assola o território onde se situam  80% das reservas de coltan.

O Ruanda e Uganda ocupam militarmente parte do território congolês, uma ocupação violenta que tem como objectivo explorar os recursos minerais do Congo embora esse objectivo seja disfarçado numa necessidade de combate a grupos rebeldes. Tudo isto perante a total passividade da mesma comunidade internacional que há bem pouco tempo tanto se indignou com outra guerra, de dimensões e consequências que empalidecem face a esta. A guerra que assola a República Democrática do Congo tem como causa última a ganância. E esta guerra tem a total colaboração dos governos ocidentais que fecham os olhos às actividades das suas empresas.

De facto, pelo menos desde 2002 que a ONU adverte da existência de uma rede complexa envolvida na depredação dos recursos minerais do Congo,  rede da qual fazem parte muitas empresas ocidentais que alimentam não só a violência como a corrupção sistémica desta zona do globo. Por exemplo, nessa altura o Exército Patriótico Ruandês (EPR) tinha uma bem montada estrutura para supervisionar a actividade mineradora no Congo e facilitar os contactos com os empresários e clientes ocidentais. Existiam várias empresas mistas formadas por europeus, membros do EPR e do círculo de pessoas próximas do então presidente ruandês Paul Kegame.

Em Outubro de 2008, Anneke Van Woudenberg -senior researcher para o Congo da Human Rights Watch  - escrevia num artigo que vale a pena ler, «A New Era for Congo»:

The armed rebel groups, rampant corruption, greed for the country’s mineral wealth, and a national army that commits rape and murder, all combined with a pervasive culture of impunity, require a transformation of the country itself.

Mas essa transformação não ocorrerá enquanto for rentável (e impune) continuar a roubar despudoradamente os recursos congoleses. Em 2002, quando terminaram o relatório, os peritos da ONU pediram que fossem tomadas medidas duras contra os autores destes crimes económicos, nacionais e estrangeiros, um embargo total dos minérios roubados, uma extensão do embargo aos estados que apoiassem os rebeldes, e, especialmente, que fosse criado um Tribunal Internacional para julgar os responsáveis e atribuir compensações às suas vítimas. Nada de muito consequente foi feito embora alguns criminosos de guerra começem agora ser julgados. E nada de muito consequente parece ir ser feito com o anúncio ontem pela ONU de que a MONUC, a missão da ONU no Congo,  terá um papel muito restrito no conflito, que me parece longe de estar terminado apesar do anúncio de que as tropas do Ruanda e Uganda deixarão o Congo no fim de Fevereiro.

 

*O ex-Zaire agora (outra vez) República Democrática do Congo ou Congo-Kinshasa, para o diferenciar do vizinho Congo-Brazzavile, é um dos maiores países de África. Independente desde 30 de Junho de 1960, o Congo assumiu à data o nome de República do Congo - em 1964 foi acrescentado o adjectivo «democrática». Mas de facto a democracia e a paz têm estado afastadas do Congo, em particular desde que em Novembro de 1965, Mobutu Joseph Désiré tomou o poder num golpe de estado. Mobutu estabeleceu uma ditadura personalista e em 1971 mudou o nome do país para Zaire e da capital para Kinshasa (ex-Leopoldville). Ele próprio passou a chamar-se Mobutu Sese Seko Koko Ngbendu wa za Banga, que significa «o todo-poderoso guerreiro que, pela sua resistência e inabalável vontade de vencer, vai de conquista em conquista deixando fogo à sua passagem».

O poder absoluto de Mobutu foi especialmente contestado a partir Outubro de 1996, altura em que explodiu no país uma rebelião liderada por Laurent-Désiré Kabila. Nos meses seguintes aumentaram os choques entre a guerrilha, baptizada de Aliança das Forças Democráticas pela Libertação do Congo-Zaire (AFDL) e o Exército, que enfrentou deserções em massa. Mobutu foi finalmente derrubado em Maio de 1997, e Kabila tornou-se presidente do Congo nessa data, cargo que manteve até ao seu assassinato em Janeiro de 2001. Foi sucedido pelo seu filho Joseph Kabila Kabange, que tentou pôr termo à guerra que assola o país e que, de acordo com outro relatório do International Rescue Committee, vitimou 3.3 milhões de pessoas nos primeiros quatro anos, entre Agosto de 1998 e Agosto de 2002 e fez cerca de 5.4 milhões de vítimas em menos de dez anos.


40 comentários:
De Fortuna a 1 de Fevereiro de 2009 às 21:31
Uma crise esquecida? É uma questao de prioridades ou acha que o que se passa no congo é mais importante que os "autocarros ateus"?


De Palmira F. Silva a 1 de Fevereiro de 2009 às 21:39
Caro(a) Fortuna:

Embora lisonjeada com o cumprimento implícito de que seria capaz de produzir este texto quasi instantaneamente após ter sido alertada para o mesmo pelo Fernando Nobre na Sic Not., a verdade é sigo esta crise (assim como a do Darfur) há já alguns anos.

mas folgo em pelo menos a ter despertado para a crise , embora, claro, no meio dos remoques tão expectáveis que já nem surpreendem :)


De tina a 1 de Fevereiro de 2009 às 23:04
Uma vez, a África do Sul organizou um encontro entre os diversos lados da RDC para ver se estes chegavam a algum acordo. Esse encontro teve lugar em Sun City e os participantes congolezes passaram o tempo inteiro a jogar golf, no casino, etc e no fim foram-se embora sem ter chegado a nenhum acordo.

Quando não existe nenhuma vontade entre eles próprios, como é que alguém do exterior pode ajudar?


De Palmira F. Silva a 1 de Fevereiro de 2009 às 23:40
Cara Tina:

Tem (ou teve) semelhante em inúmeros casos, até no Afeganistão e mesmo no conflito palestiniano. Isto é, os dirigentes das facções envolvidas não estavam interessados em resolver os conflitos muito menos em intervenção externa.

Porque razão mil mortes na Palestina comovem tanto a comunidade internacional e cinco milhões e meio de mortes (mais a restante população, com excepção daqueles a quem a guerra convém, a viver em condições completamente miseráveis, alguns em condição de escravatura) são completamente ignoradas?


De Luis Serpa a 1 de Fevereiro de 2009 às 23:52
Precisa realmente da resposta, cara Palmira Silva?


De Palmira F. Silva a 2 de Fevereiro de 2009 às 00:07
Claro que não, mas faz-me imensa confusão o disfarce de outras coisas com pretensas preocupações humanitárias.

Bolas, não haverá uma ideologia política ou outra que faça alguém interessar-se pelos desgraçados do Darfur, Somália e Congo, só para mencionar alguns? Se nos restringirmos à blogosfera nacional, o recente conflito na Palestina deu origem a vários posts por cada vítima do conflito... Cinco milhões e meio de mortes e quantos posts sobre a guerra na RDCongo?


De Luis Serpa a 2 de Fevereiro de 2009 às 08:55
Que eu me lembre, nenhum (fiz no DV uma referência a um possível passo para a paz no Congo, mas não conta como post. Não sou analista).

Aquilo é muito complicado. Imagine uma Alexandra Lucas Coelho: a favor, ou contra quem é que ele seria, lá? (Não esqueço o último texto dela, em que faz uma descrição arrepiante do Hamas). Ao menos na Palestina pode ser-se contra Israel (e não ser anti-semita, claro); no Congo não se pode ser contra ninguém, e isso é uma maçada muito grande.

Isto para não mencionar todo o mal que lhes fizémos, coitados, durante os séculos que por lá estivémos - bem merecem ser deixados em paz, a matarem-se uns aos outros (coisa que, verdade seja dita, nós europeus não conseguimos fazer. Mas imagine que se saía de lá a reconhecer que afinal o colonialismo e o Rousseau e... que grande embrulhada, já viu?)

Ná. Ao menos na Palestina as nossas convicções não são postas em causa, tudo é clarinho (sem jogo de palavras), os maus são os mesmos de há séculos, os bons não têm possibilidade nenhuma de deixar de o ser, por muitas asneiras que façam. A boa consciência alimenta-se, cara Palmira, de certezas; não de dúvidas.



De Luis Serpa a 2 de Fevereiro de 2009 às 09:33
Desculpe, só uma pequena adenda:

Isto dito, não acredito muito nos 5,5 milhões de mortos. Os números são inflacionados desde a origem, por várias razões (uma das quais é predominante). No Burundi trabalhávamos internamente com um factor de 1,2 / 1,3, mas "exportávamos" 1,5 / 1,6 (o que nem sempre corria bem: um dia tive que ir buscar "200 ou 300" refugiados à fronteira do Rwanda; preparei o transporte para 400 e apareceram-nos quase 700. Mas era a excepção, não a norma).

Em 96 no Zaire assisti os primeiros refugiados e IDP dessa guerra, e havia milhares de pessoas no mato, em trânsito na sua maioria para Angola. Era fisicamente impossível contá-los - nem os responsáveis pelas "colunas"- e acredite que a organização interna é admirável - podiam ter uma ideia precisa, entre os que se lhes juntavam e os que deixavam o grupo. Muita dessa gente é provavelmente dada como morta (e muita morre, indubitavelmente).

Em Kindu estávamos (CICR) a assistir o que pensávamos serem 36,000 mil pessoas e só quando parámos a operação nos apercebemos que devia haver pelo menos 40 a 50,000. Os números não são credíveis.


De Palmira F. Silva a 2 de Fevereiro de 2009 às 12:22
Caro Luís:

Seria suficiente seguir as recomendações da ONU em relação ao boicote dos minerais de «sangue».


De Luís Lavoura a 2 de Fevereiro de 2009 às 12:14
O problema é, que podemos nós fazer?

Eu suspeito que nada possamos fazer.

Se fizéssemos alguma coisa, tipo invadir o Congo para pôr aquela gente na ordem, provavelmente o resultado seria como no Iraque.

A Palmira está disposta a mandar os seus filhos para lá dar tiros contra os soldados ruandeses e ugandeses e contra as diferentes milícias congolesas, e arriscar-se a morrer, para pôr aquela cambada toda na ordem?


De tina a 2 de Fevereiro de 2009 às 08:35
"Bolas, não haverá uma ideologia política ou outra que faça alguém interessar-se pelos desgraçados do Darfur, Somália e Congo, só para mencionar alguns?"

Se os houvesse americanos envolvidos, talvez a esquerda se interessasse. O que faz falta é um bocadinho de cowboyada.


De viana a 2 de Fevereiro de 2009 às 11:38
Como noutras ocasiões, a Palmira em vez de dizer claramente o que pensa, fica-se pelas insinuações. Que nem tenho a certeza de perceber bem. Parece-me sugerir que a reacção mais intensa ao conflito israelo-palestiniano tem essencialmente razões ideológicas, sendo essa reacção alimentada principalmente pela Esquerda. Não deixa de ser interessante que a Palmira acuse de insensíveis aqueles que habitualmente mostram mais preocupação pela brutalidade exercida sobre pessoas algures no mundo. Suponho que para a Palmira, quem é de Direita e está-se normalmente a marimbar para as vítimas de qualquer tipo de conflito (a não ser que sejam da sua "tribo"), não tem culpa de ser indiferente aos conflitos africanos: são mesmo assim, é defeito, não há nada a fazer.

A Palmira quer mesmo saber porque tanta gente, se calhar a maioria delas nem é de Esquerda, dá importância acima do habitual ao conflito israelo-palestiniano? Por vergonha. Pela mesma vergonha que se sente quando alguém da nossa família comete um crime, tanto mais intensa quanto mais próximo fôr o parentesco e pior o crime, e que não é sentida quando um estranho comete um crime muito pior. Por várias razões, incluindo a sua cultura, a sua génese, o seu sistema político, o apoio dos governos ocidentais, Israel é considerada (inclusivé por quem é de Esquerda, e é isso que parece escapar à Palmira) como fazendo parte da "família ocidental". Por isso, aquilo que Israel faz reflecte-se sobre todos os outros membros da "família", lança a vergonha sobre eles. Porque é que acha que um dos lemas da oposição à invasão do Iraque, e que já tinha sido utilizado por altura do conflito vietnamita foi: não em nosso nome? A razão porque é dada particular atenção ao conflito israelo-palestiniano no ocidente não é a identificação com as vítimas palestinianas, que também existe, mas sim com o algoz israelita. Entre os apoiantes de "Israel-no-matter-what" também existe o mesmo tipo de identificação "familiar", mas em vez de vergonha o que é sentido é que como membro da "família" Israel deve sempre ser apoiado (é o tipo de pessoa que perante um crime perpretado por um familiar, pensa primeiro em como pode ajudar o familiar a escapar à justiça). Estes dois tipos de atitude (vergonha e apoio incondicional) não se resumem ao conflito israelita-palestiniano. Se a Palmira pensar bem, estão sempre presentes quando um país ocidental entra em conflito com um país não-ocidental: ex. vietname, iraque. E como a esmagadora maioria desses conflitos envolveu os EUA nas últimas décadas, os sentimentos mencionados explicam também a hostilidade latente contra os EUA na esfera ocidental: temos vergonha do modo como os nossos irmãos se têm comportado.

Nos conflitos africanos, ou não-ocidentais (veja-se o brutal conflito no Sri Lanka), não há esta identificação dum dos beligerantes como "um dos nossos". Não tem directamente a ver com a côr da pele, mas sim com a falta de identificação cultural com qualquer dos beligerantes. A atitude é: o assunto é "deles", ocorre fora da "família", por isso é melhor não nos envolvermos (porque se calhar ainda pioramos a situação).

Não devia ser necessário mencionar, mas obviamente o que acabei de dizer não justifica a indiferença no Ocidente perante conflitos em que não está directamente envolvido, apenas tenta explicar. E para encontrar soluções é preciso perceber. E algo que discorre do que disse é que uma maneira de aumentar a visibilidade de conflitos como o da RDC é evidenciar as ligações ocidentais a esses conflitos: mostrar que "nós" também estamos envolvidos, e que também somos responsáveis (a campanha que pôs a descoberto os "diamantes-de-sangue" foi um bom exemplo).


De Palmira F. Silva a 2 de Fevereiro de 2009 às 12:29
Viana:

Eu disse não haverá uma ideologia política ou outra...

Em relação ao Congo, se seguir alguns dos links, da HWC p.e., pode confirmar que temos mais que razões para sentir vergonha.

Mas quiçá o mais vergonhoso estaja dito seja neste artigo /também linkado no texto) de que deixo o prólogo e um pouquinho mais:

General Kurtz muttered “the horror…the horror” at the end of Joseph Conrad’s 19th century novel Heart of Darkness. Widely regarded as a literary masterpiece, Joseph Conrad’s novel tells the story of Marlow sailing up the Congo River to find the lost General Kurtz. Heart of Darkness is set against the backdrop of what was then the Belgian Congo, now the Democratic Republic of Congo (DRC). However, the unrest, brutality, exploitation, and “horror” that Conrad describes in his novel are unfortunately not a thing of the past. Modern day DRC is still the scene of unrest and civil war with various armed groups fighting the government and each other. Unlike the Congo of Conrad’s day, the current violence is between ethnic groups, political factions, and nations, and is fueled by modern weapons and financed by the exploitation of the DRC‘s natural resources. This paper explores the relationship of conflict commodities, global markets, and the DRC‘s continuing civil war. In particular, the author focuses on the Columbite-Tantalum (coltan) boom the DRC experienced between 1999 and 2000.


Leopold, King of Belguim, created the Congo Free State in 1885 through nefarious political back-dealing with other European powers. Following his philosophy that a nation needed colonies to be a European power, Leopold exclusively operated the private colony. He also used it as a means to enrich his personal wealth. Initial surveys by Lord Stanley found that the Congo had tremendous resource potential, and thus Leopold aggressively exploited the country’s rubber and ivory. To ensure maximum benefit, Leopold built a rail network across the country for the sole purpose of bringing these commodities to the coast, where they could then be shipped to Europe. Leopold further exploited the indigenous population by using them as slaves to harvest the commodities. As a means to control the native population, Leopold disrupted the traditional and delicate ethnic dynamic by pitting one tribe against the other through artificial and arbitrary levels of status. Under Leopold’s rule, an estimated 10 million indigenous people of the Congo were killed or maimed as a result of his policies.


De Palmira F. Silva a 2 de Fevereiro de 2009 às 12:36
ops, esteja, não estaja, claro


De viana a 2 de Fevereiro de 2009 às 12:59
"Em relação ao Congo, se seguir alguns dos links, da HWC p.e., pode confirmar que temos mais que razões para sentir vergonha."

E eu disse o contrário?! Leia outra vez o último parágrafo. A Palmira pode-se sentir muito indignada com a indiferência generalizada perante o conflito na RDC, mas não é acusando outros de indiferentes que muda a sua atitude. Pelo contrário, só hostiliza quem tenta "chamar" para a sua causa. Pelo que disse acima, nunca se vai conseguir que o conflito na RDC tenha a mesma visibilidade na sociedade que conflitos que envolvem **directamente** (ie. soldados em acção ofensiva) governos ocidentais. Pode gritar o que quiser. Infelizmente é assim. Sugeria que parasse para pensar com base no que é real e não em desejos. Fazendo exactamente isso tenho duas sugestões: escrever os textos de denûncia da situação dando enfase primeiro ao envolvimento ocidental e apenas depois às consequências do conflito (ie. em vez de "X pessoas massacradas em Y" escrever "Estado ocidental Z apoiou o estado africano W responsável pelo massacre em Y" ou "Empresa ocidental Z envolvida no financiamento do massacre Y"); pôr os "nomes nos bois", ou seja denunciar publicamente os governos e empresas ocidentais envolvidos nos conflitos, e no caso das segundas pedir um boicote comercial público. Olhe que funciona melhor (repito, infelizmente) do que textos sobre massacres (o que não quer dizer que não sejam necessários, mas a dada altura saturam e têm o efeito contrário ao pretendido).


De tina a 2 de Fevereiro de 2009 às 12:42
"A Palmira quer mesmo saber porque tanta gente, se calhar a maioria delas nem é de Esquerda, dá importância acima do habitual ao conflito israelo-palestiniano? Por vergonha. "


ahahaha, grande mentira. Se fosse por vergonha, teriam condenado o Hamas por ter sido o primeiro a quebrar o acordo de paz. Não, a esquerda interessa-se por este conflicto simplesmente porque se identifica com o ódio que os palestinianos nutrem pelos judeus e americanos. O que faz mover sempre a extrema esquerda é o ódio e nunca a defesa ou compaixão pelas vítimas. Por isso, muitas das medidas tomadas pela extrema esquerda acabam por provocar ainda mais vítimas.

Basta ver como os próprios palestinianos usam mulheres e crianças na guerra, e como nunca a extrema esquerda os condenou por isso, para perceber exactamente o quanto eles se preocupam com as vítimas. Vir agora dizer que têm vergonha pelos israelitas se defenderem dos ataques constantes e cobardes dos palestinianos e no entanto aceitam perfeitamente que os palestinianos usem civis na guerra? Que ridículo!...



De viana a 2 de Fevereiro de 2009 às 13:02
Não percebeu nada do que eu disse, pois não?... Limitou-se a enfiar a cassete na caixa de comentários. Espero que continue feliz na sua ignorância.


De tina a 2 de Fevereiro de 2009 às 13:37
Você é que mostra muita ignorância quando (1) se põe a falar em nome de uma causa ocidental quando na realidade há muitos ocidentais que se identificam e apoiam os USA em muitas das suas medidas incluindo a invasão do Iraque (2) não percebe os verdadeiros que levam a escolher os lados no conflicto israel-palestina (3) põe-se a dar lições de moral quando a causa que defende é que demonstra sempre interesses e nunca principios. Por isso, os valores de democracia, liberdade e direitos humanos só se aplicam quando lhes convém.

E assim se percebe como é que podem ficar tão agitados com algumas centenas de vítimas palestinianas mas os milhões de africanos que morrem às mãos de ditadores prepotentes não vos faz perder uma noite de sono.


De viana a 2 de Fevereiro de 2009 às 15:48
Parece-me que realmente a tina não sabe ler. Deve ser analfabetismo funcional: até sabe as letras mas tem dificuldade com os conteúdos. Só pode ser assim, quando escreve "há muitos ocidentais que se identificam e apoiam os USA em muitas das suas medidas incluindo a invasão do Iraque" depois de eu ter escrito "Entre os apoiantes de Israel-no-matter-what " também existe o mesmo tipo de identificação "familiar", mas em vez de vergonha o que é sentido é que como membro da "família" Israel deve sempre ser apoiado". Quanto a (2), a tina arroga-se de saber melhor do que os outros, contra a opinião dos próprios, porque é que eles "escolhem lados". Quanto a (3), faço-lhe uma pergunta: qual a inclinação política das pessoas que apoiam, através de contributos financeiros e esforço pessoal, NGOs como a Amnistia Internacional ou a Human Rights Watch ? De Direita?!... Eu apoio sem hesitação, de olhos fechados, qualquer relatório da Amnistia Internacional ou a Human Rights Watch . E a tina? Sabe sequer o que dizem?... Só tem treta. Tudo da boca para fora.

"E assim se percebe como é que podem ficar tão agitados com algumas centenas de vítimas palestinianas mas os milhões de africanos que morrem às mãos de ditadores prepotentes não vos faz perder uma noite de sono."

Quantas noites de sono exactamente é que a tina perdeu com a morte de quem quer que seja?... Hipócrita.


De tina a 2 de Fevereiro de 2009 às 18:26
Direitos humanos: você foi contra a invasão do Iraque, acabou de dizer que tinha vergonha de como os nossos "irmãos" se tinham comportado. Por conseguinte, você é dos que acham que não interessa quão violenta e sanguinária seja uma ditadura, que os direitos soberanos de um país prevalecem, mesmo até sobre os direitos humanos? jà vê como são débeis as suas convinções sobre os direitos humanos? Que se a sua causa tivesse ganho, o Iraque hoje em dia ainda seria dominado pelo psicopata de Saddam em vez de ser um país livre e democrata? Pode apoiar todos essas organizações de direitos humanos. Os prepetadores só se riem na vossa cara. Cuba, Zimbabué, etc. No fundo, vocês não se ralam mesmo nada.

"Quantas noites de sono exactamente é que a tina perdeu com a morte de quem quer que seja?... Hipócrita."

Hipócritas são aqueles que usam este conflicto como combate ideológico provocando ainda mais sofrimento humano. No fundo, não se preocupam minimamente com isso. E assim se explica, mais uma vez, porque é que as partes do planeta com maior sofrimento humano lhes passam completamente despercebidas.


De JP a 2 de Fevereiro de 2009 às 12:27
Sobre este assunto um livro muito interessante de John Le Carré "O canto da missão".


De DSC a 2 de Fevereiro de 2009 às 14:44
Sou obrigado a concordar em parte com a tina.

O que move a esquerda, é o ódio. A esquerda (e quanto mais à esquerda mais acentuado como os falsos moralistas do BE e os utópicos comunistas) está-se literalmente a cagar se no congo o conflito é eticamente e moralmente reprovável porque isso não lhes granjea o voto ou simpatia. O que lhes granjea a simpatia ou o voto é a politização do ódio, no caso concreto da Palestina/Israel. Veja-se a desresponsabilização das atitudes do hamas como os escudos humanos, a limpeza política da fatah entre outras pérolas da democracia e da liberdade. E veja-se a argumentação usada contra quem ouse, sequer, mostrar essas evidências (sem tomar qualquer partido neste conflito): é-se logo conotado de fascista ou de direita.

No fundo, não é chic preocuparem com outros conflitos onde não possa existir a monopolização do ódio para benefício próprio. O ódio contra os Israelitas/USA, por exemplo. E nem uma palavra acerca de outros governos tão ou mais tiranos e brutais, vulgo de esquerda. O que a esquerda se esquece é que o ódio alimenta-se de ódio, e um dia levam com um tiro no pé.


De Palmira F. Silva a 2 de Fevereiro de 2009 às 15:07
Caro DSC:

Não entre também em maniqeuísmos :) e em particular não generalize.

nem a «esquerda» nem a «direita» são tão monolíticas como se infere do seu comentário.


De DSC a 2 de Fevereiro de 2009 às 15:23
Cara Palmira,

Não entro, prometo :).

Mas terá de concordar que existe muita monopolização de um conflito, sem se apresentar propostas concretas e reais para o resolver, para benefício próprio. E que essa monopolização é tanto mais acentuado quando se avança para as alas mais esquerdas da política.


De viana a 2 de Fevereiro de 2009 às 16:02
Qual é a parte com que não concorda com a tina? E claro que é de Direita. Porque não o assume? Acha repelente a ideia?... Que governos tiranos e brutais "de Esquerda" que há por aí, daqueles que matam aos milhares, ou houve, que não foram denunciados pela Esquerda? Diga-me que eu denuncio. Sabe, como disse ali atrás à sua "amiga" tina, eu apoio a 100% as conclusões e recomendações de organizações como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch. Faz o mesmo? Tem a certeza? Já leu algum desses relatórios. É tão fácil apanhar idiotas...

E quanto à solução para o conflito israelo-palestiniano que diz em resposta à Palmira que a Esquerda não apresenta, ela está em cima da mesa há décadas: dois estados independentes e em paz dentro das fronteiras de 1967. É também cego e surdo para nunca ter ouvido de tal coisa? Não apoia essa solução? Qual é a sua, uns banstustões para os palestinianos?...


De DSC a 2 de Fevereiro de 2009 às 16:44
Caro viana.

Primeiro não faça suposições acerca da minha ideologia.

Segundo, não o ataquei, mas pelos vistos ataquei a sua inclinação socialista a favor da liberdade e democracia. Acho que vai um pouco ao encontro da minha referência ao ódio da esquerda (igualzinha à extrema direita mas encapotada).

Provocatórios e falsos moralistas. E quando participar numa acção humanitária e deixar esses relatórios no conforto do sofazinho e do champanhe que tanto gosta a gente depois fala...

E não passe por si mesmo um atestado de burrice e de fanático, como essa esquerdalha passa todos os dias. Acha que um governo para ser tirano tem de matar aos milhares? se sim, o seu conceito de liberdade é igualzinho ao praticado em cuba, coreia, etc, etc, etc... A tal coreia que um membro comunista acha uma democracia (e como tal não denunciada como ela é, e um regime cubano que é considerado um paraíso na terra. Logo, a resposta à questão dos governos não denunciados pela esquerda está aí.

Quanto à solução em cima da mesa à décadas, bem, à decadas que não leio Lewis Carrol.


De viana a 2 de Fevereiro de 2009 às 17:13
A sua incapacidade para assumir a sua ideologia é enternecedora... nem deve conseguir ver-se ao espelho tanta a vergonha. Anoto que despreza a Amnistia Internacional e a HRW. É tão fácil apanhar certos pretensos amantes-da-liberdade... esquecem-se sempre de dizer que é da sua e não dos outros. Quanto aos regimes tiranos, claro que em Cuba não há liberdade de expressão, e existem presos polítcos, o que eu condeno. Mas só um ignorante, cego pelo ódio à "esquerdalha", coloca Cuba no mesmo saco que a Coreia do Norte, que é um regime assassino, que comete genocídio sobre o próprio povo. Chega-lhe? O PCP não fala pela esquerda. Alguma vez, dentro dessa pequena cabecinha, se perguntou porque é que há 3 partidos que se auto-proclamam de Esquerda, PS, PCP e BE?... "Perguntou" pela resposta da Esquerda ao conflito israelo-palestiniano. Teve-a. Olhe que eu não tenho dúvidas sobre que a Direita também tem uma resposta. Talvez nos queira repeti-la. Ou a sua, já agora? Não tem? Ou a vergonha continua a comer-lhe a língua? E anda a pedir respostas aos outros?... Não fica muito bem na fotografia, sabe?...


De DSC a 2 de Fevereiro de 2009 às 17:52
Caro Viana

1. Lá está aquele registo argumentativo que caracteriza a esquerda histérica, prepotente, ignorante e mal-formada (perdoe-me se ponho a esquerda toda no mesmo saco, mas tendo em conta que faz o mesmo decerto não levará a mal. - ou melhor, a mal leva visto que a sua formação e educação está ao nível da humanidade sorridente e cantante da mesma esquerda que você adora banhar-se numa vã glória de altruismo.

2. Sim. Deus me livre (ou meu deus, referi-me a Deus..) de por no mesmo saco cuba e coreia. Porque a liberdade é como uma cebola. Há várias camadas. uns são privados da mesma por terem uma opnião diferente (se sua excelência mandasse eu estava lá dentro) outros morrem. É tudo uma questão de semântica na verdade. É preferível ter o povo vivo mas na merda do que morto né?

3. Não desprezo a amnistia e a HRW. Mas também tenho a sensação que nunca deve ter visto a miséria de perto (há vida para além do bairro alto). Sugiro que, banhado na sua interminável tolerância (a mesma que demonstrou comigo sem eu nunca me referir a si no meu primeiro post) voluntarie-se (até pode ser na palestina) e verá que o mundo não tem uma cor que, pelo que vejo, só pode ser sua) - Como o mundo seria belo.
Geralmente quem se refere a esses estudos são os imbecis ignorantes que julgam que o mundo é um quadrado imutável e que se "entende" com meia dúzia de manuscritos. Isto sem retirar o valor aos mesmos (escritos por quem lá andou e não por quem lê blogs e insulta pessoas. Sabe chama-se conhecimento).

4. Não vou partilhar nada consigo porque não partilho nada com gente que não só já tem opinião formada e imutável (credo, o mesmo quadrado), mal-educada, e que achincará qualquer ideia pelo simples motivo de achincalhar. (tenho a sensação que este ponto será usado por si para uma certa argumentação quadrada (minha nossa, o mesmo quadrado!!)

5. Não se pique tanto. Isto é tudo virtual, e amanhã você terá mais uma oportunidade na vida para praticar os seus gestos de extrema candura e absoluto respeito pelos outros e pela opinião dos outros. ou não.


De viana a 2 de Fevereiro de 2009 às 18:21
O seus comentários dizem sempre o mesmo. Estão cheios de ódio pela "esquerdalha". Não responde. Não argumenta. Fica-se pelos chavões. Infelizmente para si deu para perceber quais teriam sido as respostas se tivesse tido a boa-educação para responder. Percebi eu e perceberam outros que tenham tido a paciência de ler. Tenho mais que fazer. Ponto final.


De DSC a 2 de Fevereiro de 2009 às 18:24
pois..


De fernando f. a 2 de Fevereiro de 2009 às 15:53
Aí está, a conversa desviada do assunto que lhe deu o mote.Foi sobre o(s) genocídio(s) em África que a Palmira se indignou, o Médio Oriente serviu de comparação. mas quando não se quer ir ãmago da questão mistura-se tudo para tudo ficar na mesma.
Pois é África é ONU, é por ali que se tem que começar e os Americanos tem agora uma boa opurtunidade de mostrarem que querem mudar servindo a ONU e não servindo-se dela, portanto Sr. Obama comece a trabalhar para fazer o tal mundo melhor.


De Luis Serpa a 2 de Fevereiro de 2009 às 17:10
"Suponho que para a Palmira, quem é de Direita e está-se normalmente a marimbar para as vítimas de qualquer tipo de conflito (a não ser que sejam da sua "tribo"), não tem culpa de ser indiferente aos conflitos africanos: são mesmo assim, é defeito, não há nada a fazer. "

Caro Viana,

a Palmira não precisa, já aqui o demonstrou várias vezes, que a defendam. Eu preciso, pobre de mim, mas não encontrarei decerto quem o faça: sou de direita, logo estou "normalmente a marimbar-me para as vítimas de qualquer tipo de conflito (a não ser, claro que sejam da minha tribo)". Ora um facínora destes, desumano, um marimbador na morte alheia, insensível ... credo, não continuo. Cubro-me de vergonha.

A honra da humanidade será salva pela esquerda, que detém - imagino o peso que suporta sozinha - o monopólio da sensibilidade, do coração, do altruísmo - e até, descobri hoje, veja lá, da "vergonha". A vergonha. Aí está a chave para o desinteresse com que alguns conflitos são recebidos pela - ooops, e agora: digo "esquerda" ou "direita" - ocidental? Não sei. A vergonha!

Obrigado, caro Viana. A sua análise é rigorosa e lapidar. Por mim e graças a si vou já a correr tentar converter-me ao lado bom da humanidade, o lado que tem vergonha do que fazem os primos e os tios e os outros.


De viana a 2 de Fevereiro de 2009 às 18:11
Caro Luis Serpa,

Eu disse normalmente. Se o Luís Serpa é uma excepção, fico contente. Há uma corrente ideológica muitas vezes classificada de Direita, mas cujo políticas frequentemente coincidem com as da Esquerda, que é a democracia-cristã. E nesta corrente há muita gente que genuinamente se preocupa com o sofrimento alheio, intervindo frequentemente até de modo mais directo na resolução imediata de problemas humanitários. Mas são claramente uma minoria na Direita (se sequer se podem aí incluir, pois tal deriva muitas vezes apenas do seu conservadorismo social). Basta restringirmo-nos a Portugal: compare a atitude do BE e do CDS-PP no que respeita aos direitos dos refugiados e imigrantes ilegais. Com quem concorda mais?... Porque é que vejo amiúde o BE a apoiar os seus comunicados em relatórios da AI e HRW, enquanto o CDS-PP quando menciona essas organizações é para criticar?... E o CDS-PP é também exemplo claro da tal democracia-cristã minoritária à Direita. Basta atentar ao meritório trabalho desenvolvido por Ribeiro e Castro, completamente menosprezado dentro do partido. Podia também comparar o contexto das citações do trabalho da AI e HRC em blogues de Esquerda e Direita. Mas não quer que vá por aí, pois não?...

A sua ironia é muito fina, mas nada revela. Nada adianta. Nada explica. Nada propõe. E estou a ver que se calhar é um defeito de comunicação que tenho, ou então o "cérebro-de-Direita" tipico tem dificuldade em compreender um texto escrito por mim:

"a chave para o desinteresse com que alguns conflitos são recebidos pela - ooops, e agora: digo "esquerda" ou "direita" - ocidental? Não sei. A vergonha!"

não, a chave é a falta de identificação com as partes em confronto; a vergonha e o apoio incondicional são as duas **consequências** associadas à identificação, e portanto interesse, ocidental (de Esquerda **e** Direita) para com o conflito israelo-palestiniano.


De tina a 2 de Fevereiro de 2009 às 21:02
"A sua ironia é muito fina, mas nada revela. Nada adianta. Nada explica. Nada propõe"

Por acaso, a teoria do Luís é a solução de todos os males. Basta a extrema esquerda deixar de culpar sempre os outros pelos seus males, de se acharem umas vítimas, e de tentarem construir a sua vida como as pessoas de direita fazem, para tudo se resolver. Como é possível que a Palestina seja um país tão atrasado e no entanto o partido governante só se interessa em fazer guerra aos vizinhos e se esteja completamente nas tintas para a segurança do seu povo?...


De Luis Serpa a 2 de Fevereiro de 2009 às 22:29
Caro Viana,

começo por lhe agradecer o elogio, e o didactismo. A minha ironia não propõe nada porque a minha ironia, quando quer propôr, faz. É por isso que a minha ironia andou quase dois anos no Burundi e no Zaire, a assistir pessoas (e a aprender).

Continuo por lhe dizer que não sou Democrata-Cristão. Sou liberal. Acredito nas pessoas e na capacidade delas para resolverem os seus problemas, se as deixarem. Desconfio dos bons sentimentos - não é só o inferno que está cheio deles: a maioria dos governos, que provoca metade e mais uma das catástrofes "humanitárias", também; a das ONG, as que assistem que precisa - à saída da missa, ou da mesquita. Penso - e, perdoe-me o galicismo, constatei-o muitas vezes - que a maioria dos remédios propostos por quem não ironiza é pior do que a doença (ou pelo menos piora os seus efeitos).

E sim, quanto à imigração estou mais perto das posições do BE do que das do CDS - mas não pelas razões do BE: é porque acredito na liberdade e penso que as pessoas devem viver onde querem; e porque penso que metade dessa imigração e do horrendo cortejo de mortes que a acompanha (são da minha tribo: vêm de barco para a Europa; por isso me compadeço deles) poderia ser evitada se o Ocidente deixasse de subvencionar os palhaços que governam África, em nome da má-consciência e de imbecilidades semelhantes. 30 anos de independência em África fizeram mais mortes do que 500 de colonialismo, mais fome, mais horror (e sim, conheço a história do Congo Belga, não precisa de apontar para aí. O Congo Belga foi uma aberração, não foi a norma).

Por essas e por outras deixo a minha ironia passear em vez de - vade retro - propôr seja o que for.

Quanto à falta de identificação, dou-lhe razão: infelizmente os americanos nunca se interessaram por África (até Bush, e mesmo esse foi "só" por causa da SIDA, que atrasado mental). Se se tivessem interessado - ou não tivessem levado a cossa que levaram na Somália (que bom foi para o bom povo desse país, imagine-se como estaria agora se os americanos tivesse conseguido o que queriam) - talvez houvesse mais "identificação".

Não são só os seus textos que o meu pobre cérebro não compreende: é o conjunto da esquerda europeia, que fazer? A ironia fez muito menos mal ao mundo do que muitas boas intenções.


De viana a 3 de Fevereiro de 2009 às 11:07
Caro Luis Serpa,

Obrigado pela resposta. É um saudável contraste com certos primatas, perdão, primários que por vezes comentam aqui.

"Acredito nas pessoas e na capacidade delas para resolverem os seus problemas, se as deixarem."

Esta afirmação merecia uma discussão alargada por si só. Deixo-lhe algo para reflectir. Acha que as pessoas que ajudou no Burundi e Zaire tinham capacidade para resolver os seus próprios problemas, e portanto não precisavam de qualquer ajuda? Não acha que há aqui uma contradição? Acha que o Rendimento Social de Inserção devia ser eliminado, porque na realidade essas pessoas conseguem resolver os seus próprios problemas (sem ajuda)? Acha que devia deixar de haver trabalho humanitário, porque na realidade qualquer pessoa pode resolver os seus próprios problemas (sem ajuda)?... Desconfio que não era bem isso que queria dizer, pois não?... Devemos ser exigentes com o que dizemos, e pensamos, e procurar não entrar em contradição. Eu concordo, no essencial com a frase que escreveu, mas acho que lhe falta algo no fim: "e lhes derem o apoio necessário." Em que consiste este apoio está o "grande problema". E partilho do cepticismo do Luis quanto às (consequências das) boas intenções. Por exemplo, a ajuda alimentar a Africa, quando atribuída de forma isolada e indiscriminada tem efeitos extremamente negativos na agricultura dos países afectados, incentivando a dependência e o abandono da agricultura (devido à depressão induzida nos preços dos produtos agrícolas).

"E sim, quanto à imigração estou mais perto das posições do BE do que das do CDS - mas não pelas razões do BE"

E quais são?... Não deixa de ser psicologicamente interessante quando as pessoas projectam os seus preconceitos nas acções dos outros, mesmo quando estas claramente contradizem esse preconceito...

"30 anos de independência em África fizeram mais mortes do que 500 de colonialismo, mais fome, mais horror"

Mesmo dando de barato o que diz, suponho que não está a querer dizer o que à primeira vista parece querer dizer, pois não?... Até porque contradiz o que disse antes. O que escrevemos e dizemos tem consequências.

"Por essas e por outras deixo a minha ironia passear em vez de - vade retro - propôr seja o que for."

Julguei que uma qualidade valorizada pelos liberais era a responsabilidade individual. Peço desculpa, mas acho irresponsável criticar sistematicamente sem apresentar alternativas. É típico de quem abdica da responsabilidade de decidir porque é mais confortável não ter de arcar com eventuais consequências negativas. Não me parece que o Luis Serpa seja desse tipo, pelo que fez. Então porque abdica de reflectir e propôr? Suponho que acha que há um papel para a acção colectiva, através ou não do Estado, dado que se identificou como liberal e não libertário ou anarquista. A partir do momento em que assume a necessidade desse papel, torna-se, acho eu, necessário reflectir sobre qual deve ser, por mais difícil que pareça.



De Luis Serpa a 3 de Fevereiro de 2009 às 21:35
Caro Viana,

Para além de gostar da ironia sou abúlico; o meu primeiro impulso portanto foi recorrer a esse grande mestre que é Cioran, parafraseá-lo ("nada seca tanto um espírito como a sua repugnância por conceber ideias contraditórias" ["obscuras", no original]) e voltar "à doce confusão quotidiana", a tal que, ainda segundo o mestre, "se organiza em tragédia, quando os atarefados se apropriam dela". Há muito tempo que desisti de discussões ideológicas - o resultado raramente compensa o esforço.

Mas enfim, podemos sempre abrir uma excepção, um dia não são dias.

Deixe-me começar pela mais polémica, a que o vai pôr aos saltos e fazer considerar, de uma vez por todas, que está a falar com um facínora liberal sem sentimentos nem humanidade: o colonialismo não foi tão mau como o pintam; mais, deixe-me citar Spinoza, só para fingir que sei ler: em si mesmo, nada é bom ou mau. As categorias "bom" ou "mau" vêm depois, são o resultado da realidade e por ela devem ser aferidas. Em si mesmo, o colonialismo não é bom nem mau. Há determinadas consequências dele que são más, e outras que o não são. No caso concreto de África, o colonialismo foi menos mau do que as independências.

[Posso continuar, ou já está com uma apoplexia?]

Obrigado. Por exemplo: acho que a independência do Zimbabwe é pior do que a fase colonialista, e a fase do Smith. Discorda? O mesmo se aplica à esmagadora maioria dos países africanos (não todos, há excepções).

Resumindo: parece-me indesmentível que a maioria das populações passava menos fome, vivia mais tempo, em mais segurança, sofria de menos doenças e podia tratá-las melhor; que havia menos mortalidade infantil e menos conflitos inter-étnicos quando os países africanos eram colónias do que hoje. Não são opiniões. São factos traduzíveis, e traduzidos, em números - devo dizer-lhe que, como bom liberal que sou, gosto de números, e de basear as minhas opiniões na realidade; ao contrário da esquerda, que (a meu ver, claro) prefere basear o real nas suas opiniões e tem tendência a desvalorizar os números.

Aqui chegados, o “problema são dois”: primeiro vai achar que isto é racismo. Deixe-me desiludi-lo: está a falar com um daltónico absoluto, como só uma pessoa fundamentalmente pessimista pode, sabe e quer ser. E depois vai achar que mais vale a miséria na independência do que uma relativa prosperidade numa colónia. Eu acho que isso é racismo. Pior do que racismo: é intoleravelmente desumano. E anti-democrático. Porque independência, os anti-colonialistas têm uma infeliz tendência para o esquecer, não foi nem é sinónimo de democracia, ou de liberdade. E falta de liberdade por falta de liberdade, prefiro a do colonialismo – as sociedades europeias são mais permeáveis ao humanismo do que as africanas, onde o conceito é desconhecido, e as únicas relações que contam são as da força (o que não é, repare, exclusivo delas: é característico das sociedades pobres, onde quer que sejam). Acredite se quiser, mas nas sociedades coloniais havia menos arbitrariedade no que nas post-coloniais. Acha, por exemplo, que uma situação como a do Zimbabwe é imaginável num regime colonial? Eu acho que não. E a da Somália? Que pensa da Somália?

Em segundo lugar na ordem de horrores viria, provavelmente (isto se ainda me estivesse a ler) o meu cepticismo em relação à "ajuda", e a minha crença na capacidade das pessoas. E em terceiro a minha resistência à “acção”. Mas acho que deviam ficar para depois, porque vai para aqui um chorrilho de barbaridades e eu não quero ferir susceptibilidades.

Se quiser, pode escrever-me para Lserpa@gmail.com.

Cordialmente,

Luis Serpa




De viana a 4 de Fevereiro de 2009 às 00:02
Caro Luis Serpa,

Sim, li tudo. Não tenho qualquer problema em discutir seja o que fôr desde que ache que o meu interlocutor está realmente disponível para ouvir, o que implica aceitar que pode mudar de opinião.

Qualquer conversa racional da qual se pretenda tirar conclusões requer acordo sobre a necessidade de coerência.

Faz uma defesa utilitária da época colonial (em África), em contraposição com a situação actual. Ainda não percebi, no entanto, se defende o colonialismo como modo de propagar os "benefícios da civilização", ou apenas defende que este não devia ter acabado, dadas as consequências que daí adviram. No primeiro caso, para ser-se intelectualmente honesto devia-se então incluir também na comparação a época pré-colonial. No segundo caso, relativamente a alguns países em particular, até pode ter razão. Mas relativamente a outros não. Como à partida é impossível decidir quais teriam sido os países ou sociedades que poderiam ganhar com o fim do colonialismo, foi necessário, como seria hoje, decidir com base em princípios. E, sim, entre a possibilidade incerta de ser livre e a certeza de continuar a ser escravo prefiro a primeira. E muitos outros também. Estranho é que alguém que se diz liberal não concorde. Frequentemente a porta aberta para a liberdade acabou por fechar-se. Quem poderia prever? Quem poderia prever que por ex. a Guiné-Bissau e Cabo Verde teriam tido as evoluções díspares que tiveram? Consegue prever que a Guiné-Bissau estará melhor daqui a 20 anos se se tornasse de novo colónia de Portugal? De qualquer modo, a análise detalhada das consequências materiais do colonialismo é um tema complexo, sobre o qual não tenho informação suficiente nem está num lugar cimeiro dentro dos meus interesses. Mas sei o suficiente para firmar que nas suas considerações nota-se um efectivo branqueamento de crimes graves perpetrados durante a moderna época colonial (digamos pós-1500). Não faltam massacres e genocídios tão ou mais graves como os que ocorreram na época pós-colonial. Sugiro-lhe a consulta de, por exemplo, http://en.wikipedia.org/wiki/Genocides_in_history

E fico-me por aqui.




De Luis Serpa a 4 de Fevereiro de 2009 às 06:09
Caro Viana,

vamos por partes, pode ser? Começo por lhe dizer que não me sinto muito à vontade com este squat da caixa de comentários do Jugular e que vou tentar ser o mais breve possível.

a) Genocídios, crimes coloniais pós-1500 et al. - Os crimes e geocídios que V. atribui ao colonialismo não lhe são directamente imputáveis. São-no antes à espécie humana.

b) Liberdade v. Escravatura - nem a independência foi sinónimo de liberdade, nem a época colonial de escravatura. Um dos problemas que tenho no debate com a esquerda é aquilo que percebo (talvez sem razão, vá lá saber-se) como falta de respeito pelas palavras.

c) África pré-colonial - uma pequena e rápida precisão para lhe dizer que a África pré-colonial estava longe de ser o paraíso que a boa consciência ocidental faz dela. A partir do séc. XIII dois grandes grupos (nilóticos e bantus, de que hoje descendem, por exemplo, os Tutsi e os Hutus) começaram um grande movimento migratório para sul, e que genocídios e massacres entre eles e de ambos contra os pigmeus que já lá estavam dispensavam muito bem a presença de europeus - e dos árabes que os precederam (faça uma procura no google sobre pigmees, ou pygmies, a título de curiosidade);

d) Não defendo o colonialismo como forma de espalhar a civilização, nem o ataco como fonte de todos os males. Desde que o homem saiu do Rift há movimentos e migrações - ou seja, colonialismo - e esses movimentos e migrações contribuiram para o progresso da humanidade, e provocaram muito mal. Ser contra o colonialismo é como ser contra o sol, ou o vento norte. Acha que daqui a 300 anos os EUA serão um país predominantemente branco, protestante e anglo-saxão? Não tenho a certeza. Essa ideia de uma humanidade estável, quieta, cada um no seu galho nunca existiu - e esperemos que nunca venha a existir.

E, talvez, sim, a maioria dos somalis preferisse ter um governo colonial e preferisse esses "benefícios da civilização" que v. coloca entre aspas e eu não.

e) Princípios e valores - ninguém é obviamente contra os princípios. Somos é contra o mal que a defesa de "princípios" tem feito por esse mundo fora - sobretudo princípios que não se aceitariam nos nossos próprios países. O "princípio"da liberdade é óptimo na Serra Leoa ou no Liberia - mas experimente-os na Europa. Acresce (mas isto é outro debate) que aqueles que defendem a "liberdade" como valor absoluto têm métodos para a implantar que de uma forma geral acabam com ela.

(A liberdade de que os liberais falam não é, como sabe, esse dos grandes valores absolutos, positivos, e não me parece que seja o momento para a discutir).

O que é importante, creio, é que em nome dessa "liberdade" de que fala milhões de pessoas morreram, sofrem, passam fome, são perseguidas, mutiladas, contratadas como soldados aos 8 anos. É-me intolerável que em nome de "princípios" se aceite a miséria que a aplicação cega desses "princípios" provoca. É-me intolerável que em nome da dúvida, que é uma atitude nobre, se tenham condenado milhões de pessoas a uma vida abjecta - e mais do que previsível, ainda por cima, mas isso também é outro debate. É-me intolerável que em nome do relativismo e das aspas em "benefícios da civilização" se tenha fechado os olhos a uma série de barbaridades. É-me intolerável que se utilizem as palavras como se fossem io-ios, utilidades humpty-dumptyianas que significam aquilo que nós queremos que signifiquem. É-me intolerável que para proteger meia-dúzia de agricultores europeus (agora sou eu que brinco com as palavras. Na realidade queria dizer "sanguessugas") se esteja a condenar África de uma forma mil vezes pior do que durante o colonialismo. É-me intolerável que 100.000 palermas vão para Porto Alegre propôr "remédios" que seriam muitas vezes piores do que as doenças que pretendem curar (imagine como seria um mundo desenhado por José Bové, por exemplo).

É por isso que sim, acredito na responsabilidade individual, na capacidade de cada um de saber o que é melhor para si próprio, e na acção - mas acção não é, desculpe-me, debater nas caixas de comentários dos blogs. É por isso que sou adepto de um cepticismo abúlico, e da doce confusão quotidiana.

(Ainda por cima blogs alheios. O meu pedido de desculpas, de novo).


De tina a 2 de Fevereiro de 2009 às 20:53
"Quanto aos regimes tiranos, claro que em Cuba não há liberdade de expressão, e existem presos polítcos, o que eu condeno. Mas só um ignorante, cego pelo ódio à "esquerdalha", coloca Cuba no mesmo saco que a Coreia do Norte, que é um regime assassino, que comete genocídio sobre o próprio povo"

Não há genocídio? Fidel Castro fartou-se de matar aqueles que tentaram fugir do país!... A esquerda gosta muito de contar mortes. O Hamas mata 100, então os israelitas não podem matar mais de 100. O gajo da Coreia do Norte mata 1000, então Fidel Castro é muito bonzinho se matar só 500. Saddam Hussein matou 4 000 000, mas a guerra civil não pode matar mais do que uns tantos. E neste processo de contagem não interessa quem iniciou os desagravos, ou quem é o tirano. A esquerda aparece agora com a noção da violência "aceitável". Se sair fora desses padrões então a guerra já não é aceitável, a ditadura já não é aceitável.

Como pode alguém assim dizer que se rege pelos tratados de amnistia e direitos humanos?... Se mesmo lá no fundo nem sequer existem princípios morais e tudo é relativo!...


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