Sábado, 1 de Novembro de 2008

hoje, num serviço noticioso da sic notícias, foi mencionada a sondagem euro-sondagem-expresso-renascença-sic (acho que é assim) que revela que mais de 50% dos inquiridos defendem a eutanásia (encarada como a possibilidade de um doente pôr legalmente, isto é, com ajuda, fim à vida se assim entender). o número de respostas contra é, salvo erro, de 37%. a pivot frisou que mostra que 'é um tema fracturante na sociedade'. como parece que não havia nenhuma pergunta sobre isso na sondagem, depreende-se que quem escreveu o pivot acha que isso é óbvio. estranhamente, o resultado seguinte mencionado, o da nomeação de santana lopes para candidato à câmara de lisboa, com resultados semelhantes (50 e tal por cento contra, 30 e tal por cento a favor) não surge como 'fracturante'. o qualificativo de 'fracturante' surge pois não como decorrência dos resultados de uma sondagem (por exemplo o facto de dividir claramente as opiniões 'ao meio'), mas como um a priori. de tal modo que perante o facto de a eutanásia ser vista favoravelmente pela maioria -- o que surgirá como uma surpresa num universo em que mais de 80% dos inquiridos se dizem católicos, já que a doutrina oficial do catolicismo condena muito claramente a morte auto-inflingida -- ainda se insiste em considerar o resultado como algo que fractura. fractura porquê, fractura o quê? onde está a quebra, a ruptura, o conflito aberto? melhor perguntado: onde está o drama implícito na expressão fracturante?

 

espantoso é que este tipo de 'objectividade jornalística' escandalize tão pouca gente. adivinho, porém, que se a pivot frisasse, como ontem fez manuela moura guedes, que se trata de uma opinião que entra em contradição com a identificação da maioria dos inquiridos como católicos -- o que nada tem de opinativo e tudo tem de rigoroso --, não faltaria quem se indignasse com 'o ataque à igreja'. enfim.

18 comentários:
De JDC a 1 de Novembro de 2008 às 13:39
"o que surgirá como uma surpresa num universo em que mais de 80% dos inquiridos se dizem católicos, já que a doutrina oficial do catolicismo condena muito claramente a morte auto-inflingida"

Destes dados podem-se tirar algumas conclusões:

- as pessoas dizem-se católicas por tradição, por terem sido postas nessa vivência desde pequenas sem que nunca tenham, verdadeiramente, partilhado da fé católica;
- e/ou as pessoas assimilam cada vez mais os conceitos de laicidade e, mesmo sendo contra a eutanásia , sentem que, num Estado democrático laico não podem implementar uma perspectiva só porque é a sua fé;
- e/ou as pessoas até pensam por elas mesmas e não são seres acéfalos seguidores do Papa;

Já agora, uma achega sobre os posts anteriores acerca de religião, proponho o desafio de encontrar relatos de atrocidades feitas não em nome da religião, mas em nome de uma qualquer ideologia politica/social. Julgo que se encontrará um padrão muito claro: o poder corrompe. E, se não for pedir muito, não se fique por ideologias de direita...


De f. a 1 de Novembro de 2008 às 14:21
jdc, acho que todas as conclusões que aponta são possíveis. o que não é possível é negar que o resultado da sondagem, se o encararmos como credível tanto no que respeita à opinião sobre a eutanásia como em relação à identificação da maioria como professando a religião católica, coloca exactamente essas questões.

segundo ponto: claro que também tem razão. qual a dúvida? e qual exactamente o ponto? encaro a religião -- aliás, acho que não haverá outra forma de a encarar -- como o sistema estruturado de uma crença, incluindo a estrutura de poder que implica haver quem diga aos outros como devem agir e pensar. não há muita/nenhuma diferença entre as ideologias que fizeram mais vítimas e as religiões, por um simples motivo: as ideologias em causa estruturaram-se como religiões. quanto à sua preocupação com o meu esquecimento das ideologias de esquerda, ou pelo menos que como tal foram apresentadas, só pode dever-se ao facto de não costumar ler o que escrevo e, por qualquer razão que não condigo vislumbrar, me colocar num sótio qualquer a que não pertenço e aliás nunca pertenci.


De cristã a 1 de Novembro de 2008 às 20:08
" as pessoas assimilam cada vez mais os conceitos de laicidade e, mesmo sendo contra a eutanásia , sentem que, num Estado democrático laico não podem implementar uma perspectiva só porque é a sua fé; Acho que este é 'o' ponto JDC. Acredito que os portugueses distinguem cada vez melhor o que é do foro da fé daquilo que é do foro da lei. A fé cristã é incompatível com a prática da eutanásia mas essa incompatibilidade não impede um cristão de defender a legalização da morte auto-infligida.


De cristã a 1 de Novembro de 2008 às 20:19
só para concluir: os resultados da sondagem podem traduzir uma ruptura entre os católicos e a "disciplina de voto" da Igreja mas não significam necessariamente uma contradição entre os católicos e a fé.


De cristã a 1 de Novembro de 2008 às 21:39
"ruptura dos católicos com a sua fé" e não "contradição entre os católicos e a sua fé".


De Palmira F. Silva a 1 de Novembro de 2008 às 14:31
concordo plenamente om a f. de que essas ideologias totalitárias estruturaram-se como religiões. na realidade são cópias fiéis do totalitarismo religioso, a que não falta um culto de personalidade do ditador - quasi considerado um «deus», basta pensar no culto a Lenin, Stalin, Mao ou actualmente a Kim Jong II - e ideologias políticas vendidas como dogmas inquestionáveis, verdades absolutas apenas questionadas por «hereges» merecedores de «fogueiras» ou Gulags sortidos.

O totalitarismo político não dispensa sequer cerimónias «religiosas» como comícios políticos e demais rituais de comunhão em que os «fiéis» papagueiam palavras de ordem em tudo análogas a orações…

Ou seja, todos os totalitarismos, religiosos ou políticos, assentam em três pilares:
1) A detenção de uma verdade «absoluta», à qual todos devem se submeter, mesmo os descrentes nesta suposta verdade;
2) A certeza num destino glorioso para os justos/eleitos;
3) Um grande inimigo que é necessário diabolizar, sendo a suposta perseguição por este inimigo o nexus da angariação e fidelização de seguidores.


De Palmira F. Silva a 1 de Novembro de 2008 às 14:36
Em relação à primeira parte, suponho que os resultados destes inquéritos reflictam o facto de muitos católicos terem assistido - ou conhecerem quem o tenha feito - à morte em vida de um ente querido e terem desesperado dos apelos infrutíferos a que Deus o levasse... pelo menos é a opinião dos católicos da família, todos a favor da eutanásia desde que um tio meu com cancro terminal foi mandado para casa para morrer.


De aff a 1 de Novembro de 2008 às 17:54
Tem todo o meu apoio, mas isso é normal. Você já viu a pergunta que hoje, senão me engano, fazem para anunciar o comentário desportivo de Rui Santos aos domingos que é qulaquer coisa do género "É legitimo que x 'trabalhe' menos porque um tal clube desportivo é uma SAD?" É no mínimo anedótico, como que a operalializar os jogadores de futebol para os enturmar no jargão do auditório. Trata-se também de um jargão modistico e nada mais. Qualquer dias chamam a esse tipo de problemáticas 'questões de vanguarda' ou outra coisa qualquer. Não vale a pena refilar as pessoas já sabem com o que é que contam e que não passa de jornalismo espetacular para pagar o orçamentos das estações e aguentar o pessoal colado ao ecran para as meias horas publicitárias. A coisa ainda vai piorar, ontem abriu concurso público para mais um canal. O bom senso aconselha a ver e levar a crédito moderamente. Os próprios jornalistas não se apercebem, nem faço ideia porquê, mas o cidadão comum mediano já relativamente bem informado não dá muito crédito à informação politica ou para-politica que não seja de casos muito concretos e particulares. Os telejornais pelo que tenho visto hoje em dia até obedecem a lógicas narrativas sofisticadas por forma a agarrarem na abertura, depois com um ou outro 'caso de vida' depois é que metem a política, por vezes a internacional, e os maníacos da bola aguentam aquilo tudo e ficam até ao fim para saber quem é que vai jogar no dia seguinte. Os telejornais hoje em dia são autênticas telenovelas da vida real.


De jorge c. a 1 de Novembro de 2008 às 16:17
Vou falar a sério, não apareça aí o Guarda Abel outra vez.

É evidente que o juízo é do pivot. até aí concordo consigo.
Mas julgo que é uma questão fracturante na sociedade por vir quebrar uma certa moral, um valor firmado cuja modificação afecta a escala de princípios definida ao longo dos tempos.
Deste ponto de vista, acho que as suas questões não fazem sentido. Acredito mesmo que o seu "problema" é com a expressão em si, por não querer ser estereotipada. Por isso, não creio que faça sentido.


De f. a 1 de Novembro de 2008 às 16:46
caro jorge, admito a sua interpretação, embora me pareça óbvio que aquilo que afirma prova, pelo contrário, que as minhas questões fazem todo o sentido. pode-se problematizar e desconstruir o resultado da sondagem, mas estabelecer, sem mais, como fez a pivot, que a sondagem 'prova' que a eutanásia é uma questão 'fracturante na sociedade' é uma estultícia.

já agora aproveito para lhe perguntar o que será isso da 'escala de princípios definida ao longo dos tempos'. ou do 'valor firmado'.



De jorge c. a 1 de Novembro de 2008 às 17:18
estou mesmo sem tempo, agora. respondo-lhe mais tarde, se não se importar.


De jorge c. a 2 de Novembro de 2008 às 10:18
Bem, vou então tentar responder.

Quando uso expressões como valor firmado ou escala de princípios definida ao longo dos tempos estou a falar numa estrutura que a sociedade adoptou e acreditou que seria a mais viável e estável. Falamos, portanto, de valores no sentido ético-moral.
O Prof. Eduardo Lourenço diz até que os povos são naturalmente conservadores, e sem querer basear o que defendo em citações, devo dizer que é com essa base de conservação dos valores adquiridos com a tradição - que não é senão a forma de transmissão desses valores - que a sociedade se vai solidificando.
A questão fracturante vem, então, quebrar essa linha, não sendo, com efeito, o uso desta expressão algo despropositado. Ora, isto responde às suas questões de "fractura o quê?" e por aí fora.
Quanto à questão do pivot, repito o que disse em cima: o que o pivot fez foi estabelecer um juízo. É evidente que a sondagem não prova nada. O que não muda o resto. E o que a Fernanda está a discutir, no meu entendimento, é esse resto.
Ora, se está a discutir tudo o resto e questiona-me até sobre as expressões que utilizo é porque não acredita que essa escala de valores exista, que essa estrutura adquirida não faça sentido, porque naturalmente a vai conotar com o catolicismo.
Aproveitando para responder à cristã e matando estes dois coelhos num comentário só, devo dizer que os valores judaico-cristãos, que fazem parte da nossa formação enquanto sociedade, são de uma importância inegável. Recusar a herança do catolicismo é, assim, ignorar a História e olhar para o mundo a partir do nosso umbigo.


De cristã a 2 de Novembro de 2008 às 14:59
Jorge, não preciso de te lembrar que não respondeste à minha pergunta, pois não?


De jorge c. a 2 de Novembro de 2008 às 15:30
Cristãzinha, a minha opinião não releva a questão da eutanásia, tem que ver com a ideia de fracturante levantada pela sôdona f.. Nesse sentido respondi ao falar na influência da Igreja na formação e evolução da sociedade.
Em relação ao que perguntas, se queres saber a minha opinião sobre a eutanásia, como em todos os outros assuntos, já deverias saber que não é meu hábito argumentar com motivos religiosos. E se fosse seria legítimo, como é legítimo criticar a quem o queira fazer. A consciência religiosa é uma consciência como outra qualquer, lá dizia o Fernandinho no Desassossego.


De cristã a 2 de Novembro de 2008 às 17:11
ai Jorge, jorge : quando a f. pergunta o que entendes por "valor firmado ou escala de princípios" respondes que é "uma estrutura que a sociedade adoptou e acreditou que seria a mais viável e estável. Falamos, portanto, de valores no sentido ético-moral ". Que estrutura, quais valores?- a pergunta era essa. Porque o post é sobre os critérios que levam à designação de 'tema fracturante' partindo da eutanásia pergunto se esse 'valor firmado' se refere à vida, entendida como manifestação divina. E continuo a não ter resposta.

ps - não te esqueças que sou cristã mas o meu vizinho do lado, não.


De jorge c. a 3 de Novembro de 2008 às 09:47
Achas que existe um catálogo de valores morais? Julgo que fará parte da consciência, uma consciência colectiva que acaba por ser de senso comum ou estar formalizada na lei, como é o caso da eutanásia.
Eu já te respondi que a minha resposta tinha que ver com a ideia de fracturante, que não era uma opinião em relação á eutanásia em si. Já te disse que se o fosse não seria com argumentação religiosa. Que mais queres que te diga? O que acho sobre o assunto? Já escrevi sobre isso, disse que era uma discussão forçada depois da discussão do casamento, mais uma coisa para distrair. No entanto, se queres mesmo a minha opinião, de um modo geral vejo com bons olhos a eutanásia, mas devo dizer que nunca pensei seriamente sobre o tema.


De cristã a 1 de Novembro de 2008 às 19:09
É exactamente assim, f. Em Portugal, é considerada fracturante - apenas e só - qualquer ideia que vá contra a doutrina oficial do catolicismo (independentemente da opinião dos crentes, provoque ou não a divisão dos portugueses)


"uma certa moral, um valor firmado cuja modificação afecta a escala de princípios definida ao longo dos tempos". Jorge, quando dizes "certa moral" e "escala de princípios" estás a referir-te ( tendo em conta o caso) ao valor da vida humana como dádiva divina, emanação e pertença de Deus?


De filinto a 2 de Novembro de 2008 às 10:32
Ia mais longe, ao perguntar onde está o mal em ser fracturante (termo que, aliás, o meu corrector do firefox sugere como erro... mas também sugere firefox como erro, por isso).

A sociedade portuguesa precisa de se fracturar mais para se conhecer melhor, esta paz podre circunstancial, que todos supostamente pensamos mais ou menos o mesmo até que alguém faz a pergunta espoletadora, não é saudável.

Voltando ao post, creio que o facilitismo com que se comenta e fazem notícias (sobretudo na TV em directo) leva a erros destes, onde vêm ao de cima medos, preconceitos e hipercorrecções, como essa de não se querer meter com o Santana ou com a ICAR.


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