Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

No último fim de semana, com parte da Baixa fechada ao trânsito por causa da repavimentação da Rua da Prata - e como tardou -, um taxista comentava, escarninho: "Vêm aí as eleições, já começam as obras". Pode ser que o taxista tenha razão e que a equipa de António Costa, ao fim de um ano e meio a governar Lisboa, tenha só agora arrancado para a acção por motivos que se devem também ao calendário eleitoral. Mas, seja qual for o motivo, é de celebrar que finalmente haja uma empreitada para tapar buracos - e como os lisboetas, mais os saltos dos sapatos, pneus e jantes agradecem - , que se iniciem as obras para certificar o fim do despejo directo dos esgotos no Tejo (um escândalo q ue envergonha toda a gente) e, jóia da coroa no que respeita aos moradores e amantes da Baixa, entre os quais me incluo, um plano para acabar com o trânsito de atravessamento na zona.

É claro que vai ser chato. Obras é sempre chato. Pó, lama, ruas cortadas. Ninguém gosta e toda a gente resmunga. E mudar hábitos enraizados também custa muito - mesmo que seja para melhor. Mas há uma coisa chamada "bem comum" e há sobretudo uma coisa chamada "bem". O bem, por exemplo, de, se o plano for aprovado e for para a frente, se poder passear nas ruas da Baixa sem ser sufocado pela fumarada e estremecido pelo estrépito de um trânsito demente. O bem, por exemplo, de quem vive nas ruas da Prata ou do Ouro passar a poder abrir as janelas e não sentir a casa tremer nas horas de ponta. O bem de quem ali reside ou quer visitar uma determinada loja poder sair de um táxi à porta, em vez de ter de andar quilómetros (é proibido parar nas ditas ruas).

Evidentemente, estes bens não são para toda a gente. Quem passa de carro na Baixa vindo de não sei onde para ir para não sei onde, de janelas bem fechadas, e que acha que ali não mora ninguém e que para ir às compras é no Colombo terá grande dificuldade em perceber por raio haverá de encontrar caminhos alternativos e andar às voltas quando por ali é sempre a direito. Parece até que o Automóvel Club de Portugal ameaça processar a autarquia se avançar com as restrições de tráfego na Baixa. Será um processo interessante e absolutamente simbólico do que está em questão: os carros contra a cidade. Até agora, todo o planeamento de Lisboa foi feito a pensar no tráfego automóvel e na sua fluidez. Tudo o resto foi visto como secundário ou mesmo inexistente. É normal que quando finalmente se tenta introduzir algum equilíbrio na gestão da cidade e começar a dar primazia às pessoas, os carros se enraiveçam e tudo façam para manter o seu império. Porque é mesmo disso que se trata: se ganham os carros ou a cidade, os carros ou as pessoas. É bom que todos os que querem uma cidade e não uma auto-estrada percebam que há um a guerra, e que é preciso lutar. Por mim, vão de carrinho.

 

(publicado hoje no dn)


17 comentários:
De oprincipal a 13 de Fevereiro de 2009 às 11:15
Ainda ha quem acredite em planos para condicionar o trânsito na baixa lisboeta. Ja perdi a conta a quantos planos destes foram apresentados.
O bem comum, esse, fica para outras nupcias, já que o bem pessoal foi sempre mais importante para quem governou a cidade.
Mas alguem acredita que Costa vai tirar o trânsito da Baixa. Será que não viram a apresentação do homem ?
Enfim.


De António Parente a 13 de Fevereiro de 2009 às 11:30
Fernanda Câncio

Pelo que li algures no blogue, mora na Baixa e é natural que defenda os seus interesses. O problema é que os seus interesses chocam com os meus. Uma das vias alternativas a Baixa é a avenida onde moro, já saturada com trânsito. Por esse motivo, sou frontalmente contra o desvio do trânsito da Baixa porque se os carros saem daí vêm para aqui. As paredes do meu prédio estão negras. Se abro as janelas a fuligem dos tubos de escape acumulam-se nas paredes e no tecto. Por isso, não darei o meu voto a nenhum candidato que queira retirar o trânsito da Baixa. Antes aí do que aqui. Se me disser que se deve impedir carros de entrarem na cidade e que devemos implementar uma rede de transportes públicos eficaz e que privilegie os veículos não poluentes então estaremos de acordo.


De f. a 13 de Fevereiro de 2009 às 13:55
antónio, é certo que vivo na baixa. mas há anos defendo o que está agora a ser proposto -- mesmo antes de morar na baixa. e se percebo que esteja preocupado com o que este desvio pode significar para a sua rua, parece-me que usa um argumento 'antes aí que aqui' que deixa um pouco a desejar. até porque, diz o antónio, mora numa avenida. ora na baixa, como sabe, não há avenidas. há ruas de habitação e comércio, que devem ser tratadas como são tratadas todas as ruas do centro histórico e comercial das cidades: como ruas e não como auto-estradas. quanto ao excesso de tráfego no centro de lisboa, estamos de acordo. mas é-m óbvio que qualquer medida como esta, que preudica a chamada 'fluidez', concorre para fazer as pessoas pensarem umas vezes antes de considerarem q é uma grande ideia deslocarem-se sempre de carro. a prioridade aos transports públicos -- que continuam, neste projecto, a atravessar a baixa é sem dúvida o caminho certo.


De António Parente a 13 de Fevereiro de 2009 às 23:14
Fernanda

O meu argumento "antes aí do que aqui" foi provocatório (no sentido positivo) e foi uma resposta ao nível do seu "por mim, vão de carrinho". A decisão de retirar os carros da baixa beneficia quem lá vive e prejudica outras pessoas. Coloco todas no mesmo plano: para mim, merecem tanto respeito as pessoas que moram na baixa como as que moram na minha rua. Por isso, o problema só se resolve desincentivando a entrada de carros na cidade e melhorando globalmente a circulação automóvel. Isso exige um investimento forte numa boa rede de transportes públicos. O que existe hoje não serve. Digo-o eu que não uso carro nas deslocações dentro da cidade.



De De Puta Madre a 13 de Fevereiro de 2009 às 11:49
f. não consegues imaginar outro assunto? Este é tão chato como ficar preso num engarrafamento de trânsito.

Ah! Eu descobri um parque de estacionamento com a melhor vista do mundo. qq mando a foto. eh ehe Y é gratuito.


De Custódia Romão a 13 de Fevereiro de 2009 às 12:14

A lembrar " o velho, o rapaz e o burro "...


De Luís Lavoura a 13 de Fevereiro de 2009 às 12:16
Este post é totalmente Baixa-cêntrico, trata de Lisboa como se Lisboa começasse e acabasse na Baixa.

Acontece que o trânsito que será retirado da Baixa irá para outro lado. Acontece que no outro lado para onde o trânsito irá mora muito mais gente do que na Baixa. Acontece que o tráfego automóvel, e os inconvenientes por ele causados a peões e moradores, não desaparecerá. Apenas irá chatear peões e moradores noutras partes de Lisboa. O que, naturalmente, em nada perturba a Fernanda, que mora na Baixa. Mas perturba-me a mim, que moro numa das colinas adjacentes à Baixa, e que serei fortemente prejudicado com os planos da autarquia.

Mas, é claro, a Fernanda tem o direito de defender os seus interesses num artigo de jornal, e ainda lhe pagam para isso. Eu, se quisesse defender os meus interesses, nenhum jornal me aceitaria o artigo, ou lhe daria o mesmo destaque que dá ao da Fernanda - e muito menos me pagaria!


De f. a 13 de Fevereiro de 2009 às 14:00
luis, já percebi que gostaria que eu ganhasse a vida doutra forma. paciência.

quanto ao resto, desculpe, mas é um pouco pleonástico. a baixa é o centro da cidade. do ponto de vista geográfico, histórico, e sentimental. é uma área classificada arquitectonicamente. e, estando situada num baixio, acumula mais facilmente os gases poluentes. por outro lado, obrigar o trânsito a deixar de convergir para aqui só pode contribuir para, a médio prazo, desincentivar a entrada de carros na zona central da cidade. tudo isto são motivos mais q suficientes para ser tratada como a excepção q é. não tem nada a ver com índices de moradores, mas com mera racionalidade de gestão da cidade.


De m&m a 13 de Fevereiro de 2009 às 15:41
para retirar os carros da baixa concordo com estes argumentos e apenas estes são válidos , não os do artigo (que podem ser usados pela generalidade dos lisboetas, como bem escreveram o Lavoura e o A. Parente).


De Guilherme Pereira a 13 de Fevereiro de 2009 às 12:32
E eles a darem-te porque te pagam onde trabalhas. Arre! O tema: concordo com a decisão do António Costa e obviamente com o que escreveste. O dilema não é entre popós e transeuntes ou moradores, mas de mera verificação do que se passa naquele inferno de hoje. eu uso transportes públicos e quero as patinhas mais as olheiras com olhos para fruir aquela parte desta "Lisboa que eu amo". o popó, a mais das vezes, fica sossegadito na garagem em Azeitão. e ele agradece. trapinhos do Costa, li antes - tou mais virado pros trapos do JPP, que o Costa, na quadratura qualquer coisa, até que aparece arranjadito q.b. para o meu gosto. vou pro refeitório agora dar ao dente. os meus colegas acham aquilo horrendo posto que têm que amanhar tabuleiro e misturar-se com a geração rasca. inté.


De Luis Melo a 13 de Fevereiro de 2009 às 14:28
Custa-me ver a F. sempre a generalizar, a classificar á sua maneira.

Para si, apenas existem dois tipos de pessoas:
- Os maus: "Quem passa de carro na Baixa [...] de janelas bem fechadas, e que acha que ali não mora ninguém e que para ir às compras é no Colombo"

- Os bons: quem vive nas ruas da Prata ou do Ouro passar a poder abrir as janelas e não sentir a casa tremer nas horas de ponta

E portanto, quem for contra os bons, é um grandessíssimo egoista.

Já para não falar na vantagem de sair á porta da loja, quando se vem de táxi.

Aqui está um excelente artigo de opinião a defender o desaparecimento do trânsito na baixa.

Nota: à primeira vista, também sou a favor da diminuição do trânsito na baixa. Mas se me apresentarem argumentos destes... sou contra.


De Antifarsista a 13 de Fevereiro de 2009 às 14:44
Olhe, meu caro, o jornalismo de causas está sempre disposto a aplaudir todas as besteiras, desde que venham do lado do poder.
Como se vê...


De Fernando Penim Redondo a 13 de Fevereiro de 2009 às 15:28
É absurdo contrapor as pessoas aos carros, como se dentro dos carros não existissem pessoas, ou como se as pessoas dentro dos carros fossem energumenos ou cidadãos de segunda.
É tanto mais absurdo quanto as mesmas pessoas são, alternadamente, peões e automobilistas.

Estes lirismos urbanos, ou "novos paradigmas urbanos" como gosta de dizer António Costa, são apenas irresponsáveis tentativas de resolver os problemas criados ao longo de decénios de mau planeamento disfarçando os sintomas em vez de curar a doença.

Há milhares de pessoas que tentam desesperadamente sobreviver em empregos distantes e com as creches possíveis. Essas pessoas não podem estar à mercê dos "intelectuais de magazine"; se querem passarinhos a chilrear vão para o campo.
O Alentejo é imenso.


De MC a 13 de Fevereiro de 2009 às 16:43
pequeníssimos detalhes:

-há mais pessoas com ou sem carro, do que carros com pessoas
-muitas das pessoas nos carros, poderiam passar a ser pessoas fora dos carros
-as pessoas dentro dos carros prejudicam gravemente a qualidade de vida das pessoas fora dos carros, mas o inverso não acontece


De Guilherme Pereira a 13 de Fevereiro de 2009 às 17:24
ó Fernanda, explica lá a esse antifarsista, cujos comentários OFENSIVOS aterram e poluem o meu endereço de mail, pese embora não serem publicados, que estou FARTO de insinuações, tipo eu estar do lado do poder, coisa e tal, até lambe-botas do JS já me chamou, ele, JS, que até nem usa esses adereços. Lamber tb não é o meu estilo - a não ser na cozinha, qd sou eu o cozinhador por conta própria. Chiça, Fernanda - achas que eu mereço estar a dar ao litro há uma porrada de horas e ainda levar destas, e ter que escrever ainda por cima nos intervais? e a massa choruda ( eh,eh,eh) que te pagam pk trabalhas - isso é conversa? tens aqui people 5 estrelas mas há tb uns escalrachos cuja verve ( fixe, esta)) me faz urticária.


De fernando f. a 13 de Fevereiro de 2009 às 17:33
O que é bom para Lisboa: comboios , metropolitano autocarros de preferência eléctricos . O resto é conversa de brasa e sardinha.


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