Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009
João Galamba

Numa discussão na qual Habermas criticava a autoridade da tradição, Gadamer respondeu “apesar de todas as críticas que podemos levantar contra ela, a autoridade da nossa tradição…é essencialmente o chão que suporta o consenso social. A sua força não reside em sobreviver a toda a crítica mas sim em tornar a crítica possível“ mas depois, para que não fosse mal interpretado, acrescentou "Tudo o que eu disse foi que não podemos apelar à tradição. Uma pessoa tem autoridade, mas nunca pode apelar a ela” (Gadamer, A Century of Philosophy, Continuum Publishing, 2006, pg. 13)

 

Um dos objectivos de Gadamer é rejeitar uma noção de autoridade entendida enquanto algo a que se apela numa discussão (e isto aplica-se tanto à razão como à tradição, o que nos leva a rejeitar o dualismo razão-preconceito). Ou seja, Gadamer — conhecido como um pensador conservador, note-se — rejeita, categoricamente, a naturalidade da tradição. Esta não legitima ou fundamenta nada; ela é apenas o horizonte de sentido partilhado que, simultaneamente, torna uma discussão possível e é transformada por essa mesma discussão (a relação é circular). É importante enfatizar que, se por um lado, uma argumentação só é possível enquanto situada numa tradição, por outro, a autoridade não pode ser directamente ou unilateralmente afirmada; ela tem de ser reconhecida. Ora, é esta dimensão de reconhecimento que os defensores do casamento entre homossexuais rejeitaram, na prática. Podemos dizer que assistimos a um movimento onde uma parte da população não se revê nas tradição actual. Existe, pois, uma falta de reconhecimento, que só pode ser restabelecido reformulando criativamente a tradição. Ao contrário daquilo que sugeres, nada disto implica um momento sartreano nem qualquer tipo de autonomia hiperbólica não situada. O meu ponto é simples: a pertença a uma tradição (momento de passividade) coexiste sempre com um distanciamento crítico (momento de actividade), e é esta relação dialéctica que permite que uma tradição se renove e não degenere num tradicionalismo dogmático e autoritário.


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