Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009
"it is important to resist that theoretical gesture of pathos in which exclusions as simply affirmed as sad necessities of signification. The task is to refigure this necessary “outside” as a future horizon, one in which the violence of exclusion is perpetually in the process of being overcome."
Judith Butler, citada pelo Bruno
A luta pelo reconhecimento do casamento entre homossexuais pode ser feita de várias formas. Mas aquelas que recorrem a Judith Butler e a outros geralmente designados pós-modernos, i.e., Foucault, parecem-me profundamente erradas. Estes autores tendem a radicalizar o gesto crítico, pois vêem a sociedade como uma instituição essencialmente repressiva, constituida por delimitações, fronteiras e exclusões, que importa denunciar. Este suposto radicalismo anti-autoritário e libertário — que é herdeiro de uma certa tradição emancipatória de inspiração Marxista mas que abandonou a noção de classe — reduz a sociedade a um simples campo de forças e sistemas de dominação. A sua luta já não é pela apropriação dos meios de produção mas sim pela descontrução e contestação permanente da dimensão simbólica que caracteriza a sociedade. Esta crítica total é um gesto de pura negação, ignorando que a ideologia não é apenas um fenómeno repressivo mas inclui também uma dimensão de sentido positivo.
A ideologia não compreende apenas distorção, exclusão; ela também integra e configura a sociedade — dá-lhe um conteúdo substantivo. O problema desse tipo de posições é o de suspenderem automaticamente toda e qualquer normatividade (que, por definição, implica distinções qualitativas). Elas tornam-se abstractas e conduzem a máxima Marxista "tudo o que é sólido dissolve-se no ar" ao seu absurdo: tudo o que é sólido
deve dissolver-se no ar. A luta política torna-se assim numa estética formal: ser livre não é mais do que a permanente oposição a todas as formas de ordem e estabilidade social. Consequentemente, a liberdade é um gesto abstracto e formal que se opõe ao conteúdo substantivo de qualquer instituição ou construção social. Se algo exclui ou delimita, resta mobilizar todo o arsenal crítico contra estas cristalizações que oprimem e limitam a criatividade humana. Criar é constestar, negar. Esta estetização da luta garante vitalidade existencial e perturba o conformismo burguês, mas ela também vampiriza e instrumentaliza a própria realidade,que se torna em simples matéria prima (necessária) para os seus radicalismos criativos. São estas posições que permitem
"a ansiedade conservadora" que o Bruno refere. Mais: são estas posições que legitimam a ansiedade conservadora. Ninguém gosta (começando por mim) de ser instrumentalizado por um bando de burgueses pseudo-revolucionários que só encontram sentido na contestação permanente da realidade. Quando a luta pela transformação da sociedade se torna num projecto estético-existencial, o conteúdo substantivo das diferentes causas é secundário; o que está sobretudo em causa é o permanente gesto formal de rejeição. São estes autores que justificam posições delirantes e hiperbólicas como as do João Miranda e da Helena Matos, que, aproveitando a boleia do radicalismo, põem-se a imaginar cenários e possibilidades distópicos, envolvendo poligamia, animais e incesto, que perdem qualquer ligação com os temas realmente em discussão. Para evitar a chantagem conservadora é preciso abandonar o radicalismo estéril da mera oposição a toda e qualquer configuração de sentido. O casamento, como existe actualmente, não é apenas uma instituição repressiva que exclui; ela é uma instituição cujo valor pode ser reconhecido sem que isso legitime e cristalize a sua configuração actual. Trata-se de alargar a aplicabilidade do conceito, reconhecendo que o facto de valorizar uma determinada realidade (a relação entre duas pessoas) exige, necessariamente, que se façam distinções. Daí eu ter dito que aquilo que está em duscussão não é a liberdade (negativa) mas o reconhecimento (positivo) de que duas pessoas do mesmo sexo devem ser consideradas uma família a quem se deve aplicar a instituição casamento. Ao contrário da crítica radical, esta posição reconhece que a sociedade tem necessariamente uma dimensão conservadora, sem cair numa forma de tradicionalismo opressivo. Mais uma vez: o que importa é a transformação criativa da tradição, e não a sua negação.
De Aquasky a 19 de Fevereiro de 2009 às 16:25
Manuel Castells, em 2003, traz a lume o Poder da Identidade na era da informação. Ali pode-se encontrar contributos para pensar no poder que os sujeitos têm em agenciar a mudança social, poder esse que se associa a determinadas formas de construção da identidade colectiva. Enquanto que a identidade legitimadora é introduzida pelas instituições dominantes na sociedade com o propósito de expandir e racionalizar a sua dominação sobre os indivíduos, a identidade de Resistência é criada pelas pessoas que se encontram em condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação. Mas quando constroem uma nova identidade capaz de redefinir a sua posição na sociedade, i.e, quando esta identidade de resistência resulta em projectos (o feminismo, por ex) temos uma Identidade de Projecto. Um dos segredos para que isto aconteça é que as comunidades de excluídos é não cair na tentação de reproduzir a lógica daqueles que os excluem.
De
PGFV a 19 de Fevereiro de 2009 às 17:25
Mas Castells deixa bem claro que só se chega à identidade de projecto, após a identidade de resistência, uma vez que o grupo marginalizado, precisa de sentir orgulho das caracteristícas que serviram para a sua estigmatização.
Sejamos claros, e não aconteceu ( e acontece) isto com os negros?
Aprecio imenso a sua moderação e a elevação que põe no debate. Mas a "ansiedade conservadora" que refere é bem mais razoável que a frenética terraplanagem a que se entregam os eternos revoltados contra os (bons) valores eternos. Não está em causa a liberdade de que devem usufruir os gays nem o tratamento não discriminatório a que tem direito. Justifica-se mesmo o contrato de parceria ou equivalente para precaver certos efeitos no domínio do arrendamento ou das sucessões
Mas nunca o casamento. Não abastardemos instituições essenciais para a coesão social, com equiparações apressadas. A essência do casamento não são os afectos, são o sobrevivência da espécie, a socialização e educação dos filhos. O amor é instrumental para e esse fim quando é heterossexual porque só esse serve a sobrevivência de espécie. Quanto à pretensão de adopção de criança por casais gay é criminosa e contranatura e pode levar a situações trágicas. Próprio de sociedades decadentes...do ocidente. O resto do mundo, próspero e ascendente, ri-se...
De viana a 19 de Fevereiro de 2009 às 18:11
Concordo com a posição do João Galamba perante aqueles que apenas pretendem destruir, recusando-se a propôr construções alternativas. Particularmente, se não admitem que apenas a destruição lhes interessa.
No entanto, acho que o João Galamba erra ao associar essas intenções a quem, honestamente, como eu, defende, por exemplo, a possibilidade do contrato-casamento ser estendido a pessoas com (qualquer tipo) de parentesco ou a grupos de mais de 2 pessoas. Quem faz isto está a valorizar positivamente o contrato-casamento , e a ser coerente com o sentido do contrato-casamento : permitir a um grupo de pessoas usufruir de um conjunto de direitos perante a sociedade, direitos que foram associados ao contrato-casamento porque se achou que seriam úteis a pessoas que (para ser simplista) se amam (como por exemplo o direito a visitar alguém no hospital em condições especiais).
Quem está apenas interessado em destruir, em particular a "ordem social" que advém da existência do contrato-casamento , pura e simplesmente advoga que o Estado deixe de garantir o reconhecimento social das cláusulas do contrato-casamento . Qualquer contrato pode ser assinado por duas pessoas, mas sem a garantia do Estado, tudo as clausulas que envolvam terceiros - ex. Hospitais - são inaplicáveis na prática.
João Miranda e a Helena Matos têm alguma razão. Compreendo que do ponto de vista táctico não seja boa ideia dizer frontalmente o que se pensa sobre a questão, para quem pensa como eu, mas ou se é honesto ou se arranja uma boa justificação para parar a discussão no casamento homossexual. Que poderá ser a inexistência de um movimento social organizado para ir "além" do casamento homossexual. Negar, por negar, que a extensão do contrato-casamento nada tem a ver com a possibilidade de poligamia, por exemplo, que é o que efectivamente é o que o João Galamba faz, é, sicneramente , assumir que as pessoas são estúpidas, e dar o flanco à acusação de hipocrisia.
De acordo. Disse o mesmo por outras palavras nos Cursos de Pensamento Crítico em que dei a sessão sobre Butler. Que aprecio bastante e conheço pessoalmente - divergindo na passagem da teoria à política.
Mas Judith Butler não nega a acção política. O que ela nega é a tentativa de sedimentar "identidades" que podem levar a outras formas de exclusão, para as quais ainda não existe sequer "nome"...Essa abertura não significa dizer que circunstancialmente os movimentos sociais não possam assumir a "voz" apenas por certas "identidades" excluídas que lutam por um reconhecimento legitimado (como é o caso da luta pelo acesso ao casamento civil por pessoas do mesmo sexo). Ou será que esta é uma interpretação errada de Butler?
De João Pedro Cachopo a 19 de Fevereiro de 2009 às 19:42
É muito oportuna neste contexto – como não concordar? – a referência a Honneth e ao conceito de “reconhecimento” por ele desenvolvido.
Nada, também, contra o modo como habitualmente procuras circunscrever de modo assertivo, contrastando-a com a de outros autores, a tua posição; nada contra, naturalmente, desde que tal não arraste simplificações como aquelas em que por vezes incorres: aqui relativamente a Foucault (noutros textos, relativamente a Nietzsche).
Sabes – de resto, por experiência própria, aquando da polémica epistemológica jugular – como a acusação de pós-modernismo pode servir como “pau para toda a obra” no que toca a criticar um autor de que se conhece menos do que o debate exigiria. É que Foucault não só não se reclama do pós-modernismo, como, pelo contrário, se demarca dele explicitamente.
Bom, mas também não é de Foucault que trata o post. Além disso, retomando a referência a Honneth, sou sensível a uma crítica moderada como aquela que este filósofo defende sob conceito de reconstrução num livro recente, Patologias da razão.
No fundo a ideia que defendes segundo a qual “o que importa é a transformação criativa da tradição, e não a sua negação” é equivalente ao que escreveu o Bruno Sena Martins (no post em que cita Butler), a saber, que “sem fatalismo, avançamos sempre criando outras exclusões”. A única diferença reside no ponto de vista adoptado...
Ou seja, como alguém interessado nos autores de uma crítica que consideras radicais – acuso o toque - , peço apenas alguma moderação na crítica dos críticos moderados à crítica radical.
Duas notas:
- quanto ao carácter paradoxal de “ideologia” – à possibilidade de esta conter um momento de verdade -, o pensador que melhor reflecte a partir dessa hipótese é mesmo Adorno...)
- que tal – não me leves a mal - deixar esses tiques habermasianos como “Esta crítica total é um gesto de pura negação” ou “A luta política torna-se assim numa estética formal”
Um abraço de Paris.
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