Recebi um hoje um telegrama (é verdade, um telegrama) de um senhor que habita numa casa que em tempos tive o azar de tomar de renda - coisa cheia de humidades, bolores e fungos vários e que, em virtude dessa tamanha insalubridade, em boa hora acabei por abandonar.
E dirigia-me uma série de palavras, o cavalheiro em causa, fulano de boa pinta cheio de conhecimentos e de uma inteligência e sagacidade que sempre me tomam de espanto. Que ao olhar pela janela virada a poente da casa que em má hora fora minha tinha visto uma vaca com asas. E cor-de-rosa. E a voar. E que por tetas levava torneiras de madeira rústica, indiciando que não era leite o que no respectivo ventre albergava. Dizia-me isto tudo, o senhor, quando de repente acrescentou: e olhe (faculto-vos o discurso directo), encontrei cá por casa uns escritos seus, coisas que deixou em gavetas esquecidas, aquelas do armário do tecto da cozinha, mesmo atrás da porta que dá para a sala, e aquela que está debaixo da sanita, e lembrei-me de lhe pedir se os posso publicar, assim duma forma que eu cá sei, juntamente com outras letras que outros ex-inquilinos e antigos proprietários, veja-se a coincidência, deixaram nas mesmíssimas gavetas. Como os deixou para ali, esquecidos ou lembrados, acrescentava ele, presumi que pudesse ser mesmo para isso, para que eu lhes possa dar o uso que bem entender.
Achei tão estranha e fabulosa a parte do pedido (já sou eu outra vez) que acabei por lhe responder apenas à questão da vaca, coisa bem mais corriqueira. Que sim, que quando lá vivi também a tinha visto muitas vezes, só que da janela virada a nascente - terá agora mudado de rumo. Certamente por uma questão prática.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
