Quinta-feira, 5 de Março de 2009

Why, as revealed this week, will more than 20% of parents applying for places in secondary schools this September fail to get their first choice? Easy, say politicians and leader writers. There aren't enough good schools, or enough places in the ones that exist.

So we must create more good schools with more places, while closing the bad schools or beating up their teachers until they improve and become good schools. Then all will be well.

Over the last decade, we've heard this story as often we've heard Gordon Brown say he was a thoroughly prudent chancellor and, if things went belly-up, it was somebody else's fault. But what do we mean by a good school? Examination results are the only criteria we accept, and politicians imply these have something to do with quality of teaching, sound leadership, strong discipline, clarity of aims and so on. And these can all make a difference. The brutal truth, however, is that the surest way to turn a bad school into a good one is to change the pupils who attend

As research from the London School of Economics has shown, the differences between intakes even among community comprehensives is enormous. "The average ability of pupils going into the 'best' comprehensive schools is way above average ability in the worst," says a summary of the research, published in the LSE's magazine CentrePiece. The scores of the average pupil in the "worst" comprehensive fall into the bottom third in tests at 11, while the average in the "best" come in the top third. If schools that have greater freedom to select pupils are included - church schools and academies mostly - the gap is even greater.

(...)

 

We need to face the truth. Britain has a problem with school admissions because it is a grossly unequal society, in which rich and poor are segregated. Schools wouldn't have such grossly dissimilar intakes - and such dramatically contrasting results - if extremes of wealth and disadvantage, which Labour has reduced only marginally if at all since 1997, were not so great. The never-ending debate about pupil admissions and bad schools is a diversion. We have a social and economic problem, and we have to tackle that before we have a hope of curing educational problems.


Peter Wilby, Guardian

 

Recomendo a leitura do artigo, sobretudo aos defensores dos vouchers e coisas do genero. Tambem gostava de saber o que pensa o Hugo Mendes de tudo isto.


19 comentários:
De Luís Lavoura a 5 de Março de 2009 às 10:36
Mas os vouchers são positivos, precisamente porque permitem aos alunos de classes e bairros mais desfavorecidos matricularem-se nas mesmas escolas que os alunos de classes e bairros mais favorecidos!

O nosso sistema atual é que promove a desigualdade, ao obrigar as crianças a frequentar as escolas do seu bairro. No sistema atual, uma criança que nasça num mau meio social é obrigada a frequentar a escola desse meio, é-lhe interditado o acesso a uma escola de um bairro melhor!

Se o sistema de vouchers fôr implementado conjuntamente com uma cláusula first come, first serve nas matrículas - em que a escola não é autorizada a discriminar as matrículas dos alunos em função da sua proveniência - então o sistema de vouchers é muito mais igualitário e menos discriminatório do que o atual.


De jj.amarante a 5 de Março de 2009 às 10:51
Então e os sociólogos (ou os economistas) portugueses já se lançaram à tarefa de ver qual a correlação entre o ranking das escolas portuguesas e o ranking da riqueza das famílias dos alunos? Conhece algum estudo quantitativo sobre esta relação? Ou temos que continuar a discutir baseados nas crenças de cada um?


De JDC a 5 de Março de 2009 às 10:55
O João Galamba tem filhos? Preferia que o seu filho ficasse numa turma "boa", estimuladora, onde o professor consegue "puxar" mais por eles ou quereria uma turma "misturada", onde supostamente os "bons" puxam pelos "maus"? Acredita mesmo que os "bons" puxam pelos "maus"? É que eu só vi os "maus" a puxarem "bons". O ritmo e exigência de uma turma é (quase) sempre ditado pelos alunos mais "lentos" e não o contrário...

O problema dos "maus" alunos é social, vem antes da escola. Não é proibindo a selecção dos alunos que se melhora o nível de ensino...


De Hugo Mendes a 5 de Março de 2009 às 11:46
Antes de responder ao João Galamba.

caro JDC,

«Acredita mesmo que os "bons" puxam pelos "maus"? É que eu só vi os "maus" a puxarem "bons". »

Sim, é o que mostram estudos há decadas. Nas turmas mais heterogéneas, os alunos mais fracos ganham com a partilha da aprendizagem com os melhores alunos, sem que estes sejam prejudicados na qualidade da sua aprendizagem. Por muito contra-intuitivo que seja...


De JDC a 5 de Março de 2009 às 11:55
Fica então a correcção. Mas que é muito contra-intuitivo, é. Do que conheço e vivi, fiquei sempre com a noção do contrário...


De LA-C a 5 de Março de 2009 às 21:01
Não é nada contra-intuitivo, pelo contrário, é bastante óbvio. Qualquer bom aluno aprende imenso a explicar a matéria a um mau aluno, especialmente quando é paciente e tem de explicar a matéria de 2 ou 3 vezes diferentes.


De JDC a 6 de Março de 2009 às 00:46
Nalguns casos sim, nalguns casos não... O que me parece intuitivo é que o ritmo e "intensidade" de ensino é regido pelo grupo mais lento.

Mas este assunto morreu a partir do momento em que há estudos que me mostram que estou errado...


De Luís Lavoura a 5 de Março de 2009 às 11:53
Eu tenho o meu filho mais velho numa escola pública com um ambiente muito heterogéneo cultural e socialmente. Tanto há filhos de pais com doutoramento (eu e mais outro), como há filhos de donos de cafés e tutti quanti.

O que a professora do meu filho me diz é que, precisamente, em termos escolares, os bons alunos (como o meu filho) puxam pelos maus. Que a turma como um todo é muito beneficiada pelo facto de nela existirem alguns alunos muito bons.


De Hugo Mendes a 5 de Março de 2009 às 13:29
Olá João,

By and large, (sabes que) concordo com o autor do artigo. Mas vale a pena acrescentar:

1) Não acho que as estratégias - melhorar a qualidade das escolas e dividir de forma menos desigual a 'qualidade' do seu público - sejam mutuamente exclusivas (pelo contrário, são complementares, como explico à frente). A qualidade dos alunos não é a única variável que explica os resultados destes; a qualidade dos professores é muito importante, e tanto mais importante quanto mais dificuldades os alunos apresentarem (por outras palavras, ensinar bons alunos é 'fácil' :))

2) Sem qualquer regulação, os vouchers – ou a possibilidade da escolha de escola – beneficiam não apenas quem melhor conhece o sistema (num sistema público de escolha muito limitada mas com alguma margem de manobra, este conhecimento dos shortcuts, muitos deles de legalidade ambígua, também beneficia as classes médias e altas), mas dá sobretudo poder às escolas. O discurso da liberdade de escolher a escola é por vezes de uma hipocrisia atroz, porque sem regulação, a liberdade real não está do lado de quem procura, mas de quem oferece os serviços: isto é, da direcção das escolas para escolher os seus alunos, o que só reforça e reproduz tendências de segregação. Por isso, qualquer sistema de escolha de escola tem que limitar a capacidade selectiva de quem acaba por tomar a decisão final de alocação dos alunos. Sem regulação, a liberdade de escolha dos pais é canibalizada pela liberdade de escolha dos alunos pelas escolas (a mesma coisa acontece com os hospitais, este mecanismo isto não tem nada de particularmente extraordinário).
É claro que um sistema de alocação dos alunos em função da sua morada de residência não é particularmente igualitário, to say the least, porque apenas reproduz a segregação residencial e estimula todo o tipo de manobras (moradas fictícias, etc.) e outros efeitos perversos (especulação imobiliária, etc.).

Eu seria a favor de um sistema que fosse capaz de heterogeneizar bastente o intake das escolas (em teoria, sou mesmo a favor de um sistema educativo totalmente público com ampla autonomia para as escolas - mas, claro, não na escolha dos alunos). Mas aqui há vários problemas:
- de cariz técnica: qual é melhor instrumento para proceder a esta mistura de alunos? Faz sentido pensar em quotas residenciais? O uso de sorteios, como já propôs a OCDE? As notas anteriores dos alunos? Não acho que haja estudos de larga escala que permitam tirar conclusões robustas sobre a eficácia das diferentes soluções, nem tenho nenhum solução que prefira à primeira vista. Acho que há muito para explorar neste campo.

- de cariz política-micro: como gerir isto dentro das escolas, e garantir que estas – i.e., as suas direcções – respeitam os requisitos impostos pelo Estado central? Isto é um campo minado, e por muito boas intenções que o legislador tenha, há regra geral uma ampla margem de manobra para as escolas subverterem as soluções mais ‘igualistaristas’. Claro, o mecanismo pode ser imposto centralmente e limitar o shirking local – talvez seja possível desenhar e implantar um, mas convém lembrar as dificuldades muito próprias desta dimensão.

- de cariz político-macro: este é talvez o problema mais sério – a pressão parental. O caso inglês é um bom exemplo. Nunca o movimento compreensivo, iniciado pelo Labour em meados dos anos 60, conseguiu acabar com as grammar schools, ainda que a lei para aí apontasse. O Thatcherismo neutralizou, de 1979 em diante, os poucos progressos feitos durante a década e meia anterior (com Thatcher, curiosamente, como Ministra da Educação no início da década de 70), e as grammar schools continuaram a ser o espaço por excelência da reprodução das elites inglesas. O problema mais sério, porém, não está nas elites, que sempre defenderão os seus privilégios como podem. Ao contrário do movimento compreensivo dos anos, o problema hoje, meio século depois, está nas expectativas e comportamento das classes médias, que recusam aceitar partilhar os seus filhos com os filhos das working classes nas mesmas escolas. Os pais de classe média têm expectativas de que os seus filhos consigam beneficiar da fraca mobilidade social que ainda existe na sociedade britânica, e fazem o máximo por eles. (cont.)


De Luís Lavoura a 5 de Março de 2009 às 16:30
A mim parece-me que evitar a escolha dos alunos pelas esclas não é complicado: pode fazer-se o mesmo que se faz para a escolha dos cursos universitários, por exemplo. A alocação de estudantes por cursos universitários é feita de forma centralizada, sendo que há certas prioridades (notas mais altas no caso da entrada na Universidade, área de residência no caso das escolas) e, a partir daí, o sorteio deve ser a regra. Ao fim e ao cabo, é o mesmo sistema centralizado que se utiliza para a repartição dos professores pelas escolas. Que eu saiba, ninguém se queixa de que as escolas andem a escolher os seus professores - o sistema centralizado é que distribui os professores pelas escolas. Não há razão nenhuma para que não se estabeleça um sistema centralizado semelhante para distribuir os alunos pelas escolas, no contexto de um sistema de vouchers.


De viana a 5 de Março de 2009 às 23:54
Concordo no essencial com a análise do Hugo Mendes, e em absoluto com a afirmação: "sou mesmo a favor de um sistema educativo totalmente público com ampla autonomia para as escolas - mas, claro, não na escolha dos alunos".

O Hugo Mendes faz bem em separar a questão das vouchers da questão da possibilidade da escolha da escola. Luis Lavoura confunde-as. Mas elas são distintas. A possibilidade de escolha da escola pelos pais do aluno não tem a ver directamente com a existência de vouchers ie . cheques que permitem a pais pagar parte da mensalidade numa escola privada). Os defensores dos vouchers , como ficou claro no comentário de NS mais a baixo, querem antes de mais que as escolas privadas e públicas sejam colocadas em pé-de-igualdade " perante o Estado: por razões puramente ideológicas e porque pretendem enfraquecer o sistema público de ensino que vêem como um meio de reprodução de ideologias socializantes . Os argumentos de que as vouchers aumentam a liberdade de escolha da escola ou permitem aceder a melhores escolas são simples fachada, usada para enganar os ingénuos quanto aos verdadeiros motivos do movimento-voucher . São argumentos de fachada porque são facilmente desmontáveis:

(1) a liberdade de escolha é proporcional à autonomia das escolas, e ao sistema de ingresso, e não há nada à partida que impeça as escolas de serem tão autónomas quanto queiram no âmbito dum sistema de ensino totalmente público e que os sistema de ingresso seja por sorteio público dos inscritos --- não é pois necessário escolas privadas ou vouchers para que haja tanta liberdade de escolha quanto se queira introduzir no sistema;

(2) os vouchers apenas permitem pagar parte das despesas numa escola privada, de outro modo seriam incomportáveis para o Estado, pois não haveria nenhum incentivo para que as escolas privadas restringissem as suas propinas; isto quer dizer que se os pais que sustentam as escolas privadas realmente não pretendem ver os seus filhos "misturados, em quantidade significativa, com filhos de pobres", então claramente escolherão apenas as escolas privadas cujas propinas sejam suficientemente altas para impedir a qualquer filho de pobre lhe ter acesso mesmo com voucher; a introdução de vouchers terá então como principal resultado inicial o aparecimento de escolas privadas de segunda, essencialmente preenchidos com alunos de pais da classe média e pais pobres; eventualmente, como essas escolas privadas de segunda terão um mix social não muito diferente duma escola pública, e dada a forte correlação entre sucesso educativo e nível de educação (fortemente correlacionado com a classe), rapidamente irá se verificar que o sucesso eductivo dessas escolas pouco irá diferir das escolas públicas, levando à passagem dos filhos da classe média (sem vouchers ) para a escola pública, pois a despesa acrescida com as propinas não compensará a (eventual) pequena diferença de resultados; assim que esta transferência começar, ela crescerá inexoravelmente, pois os resultados das escolas privadas de segunda irão se degradar cada vez mais; no final teremos escolas privadas de segunda, cada vez mais dedicadas a ensinar somente alunos de pais pobres financiados com vouchers , nada mudando em termos de mix social das escolas em geral, e portanto sem avanço na melhoria do sucesso educativo dos alunos vindos de meios desfavorecidos.

Uma nota quanto a (1). Efectivamente, um sistema totalmente público de ensino, mesmo com máxima autonomia das escolas, diminui a liberdade de escolha... daqueles que pretendem afastar os seus filhos dos "horríveis pobres", e que têm dinheiro suficiente para colocá-los em escolas privadas a salvo "dessa gente". Mas, ao contrário de outros, para mim o que interessa é maximizar a liberdade de escolha da maioria não a de minorias.

Uma nota quanto a (2). Mesmo que haja total liberdade para os pais escolherem as escolas onde submetem (para sorteio) as candidaturas dos filhos, na prática tal é limitado por uma questão de mobilidade: devido ao preço associado ao transporte, quanto menor fôr o rendimento dos pais mais limitados geograficamente ficam na sua escolha. Este problema não é de fácil resolução, que passará essencialmente pela subsidiação do transporte (escolar).




De Anónimo a 6 de Março de 2009 às 11:27
"a liberdade de escolha é proporcional à autonomia das escolas, e ao sistema de ingresso, e não há nada à partida que impeça as escolas de serem tão autónomas quanto queiram no âmbito dum sistema de ensino totalmente público e que os sistema de ingresso seja por sorteio público dos inscritos --- não é pois necessário escolas privadas ou vouchers para que haja tanta liberdade de escolha quanto se queira introduzir no sistema; "

Isto não faz sentido. Afinal o que é autonomia? Já vimos que de acordo com o Viana autonomia não significa responsabilização, uma vez que as receitas financeiras estão sempre garantidas. Autonomia significa, então, dar liberdade às escolas para escolher os programas curriculares a leccionar. Mas depois o ingresso é por sorteio!!! Quer dizer, os pais colocam no destino a sorte das as crianças !!! LOL

Istyo não faz sentido algum, ou então o Viana não faz a minima ideia o que é autonomia. Das duas, uma.


De viana a 6 de Março de 2009 às 13:18
Anónimo não sabe o que diz. Nunca há liberdade de escolha total para os alunos. Qualquer escola tem um número limitado de lugares. Se mais alunos concorrem, alguém tem de ficar de fora da escola que escolheu. Percebeu, ou precisa dum croqui?... Sendo assim, a liberdade geral é máxima quando todos os que concorrem a dada escola têm igual probabilidade de entrar, o que se consegue apenas com recurso a sorteio.

Há outra liberdade de escolha. A das escolas. Mas não é essa a que me refiro, nem quem interveio nesta discussão. Nem sequer é a essa liberdade de escolha a que (habitualmente) se referem os defensores das vouchers . Porque, obviamente, só interessa essa liberdade de escolha aos paisinhos que não querem os seus filhos misturados com os filhos "daquela gente". Pelo menos, Anónimo, assuma que é isso que quer: dar liberdade às escolas para deixar à porta "alunos indesejáveis". Essa liberdade não cabe obviamente no meu conceito de autonomia, como deixei bem claro no meu segundo comentário. A autonomia nunca poderá ser discriminatória no acesso, nem na construção das turmas (que é o que se encontra em algumas escolas públicas). E, sim, autonomia significa responsabilização: as escolas devem ser avaliadas em várias vertentes e tendo em conta o seu contexto sócio-económico , e as que cumpram certos parâmetros devem ser financeiramente recompensadas; terão liberdade total para aplicar esse dinheiro como quiserem, nomeadamente para recompensar quem nelas trabalha. Percebeu?...


De Anónimo a 6 de Março de 2009 às 15:10
Viana,

Se é verdade que qualquer escola tem um número limitado de lugares, não é menos verdade que actualmente nenhum aluno fica de fora da escola que escolhe ( escolha que está limitada ao critério de residência, refira-se). Ou seja o Viana vê fantasmas onde eles não existem.

Mas a questão central não é essa. O que está aqui em causa é saber se para o Viana, autonomia também significa dar liberdade às escolas para escolher os programas curriculares a leccionar. Se significar, o que você propõe é a loucura no seu estado puro. Se não significar, a dita cuja de autonomia não tem absolutamente nada. É melhor encontrar outro vocábulo para aquilo que o Viana quer significar, que de resto não se percebe muito bem o que é.


De viana a 6 de Março de 2009 às 16:40
O Anónimo não conhece escolas privadas em que há longas listas de espera?... Então desconhece de todo o sistema educativo que pretende criticar. No caso das escolas públicas não há tanta pressão, primeiro porque o número de possíveis alunos é à partida severamente limitado pelo critério geográfico, e segundo porque dentro da mesma área geográfica as escolas tendem a ter performances semelhantes, pois o mix social que as compõem é o mesmo, logo a procura das várias escolas disponíveis numa mesma área geográfica é suficientemente equilibrada para essencialmente todos os alunos poderem ficar na escola que escolheram.

O Anónimo pelo jeito só conhece duas cores: preto e branco; dependência ou autonomia total. Defendo a existência de um currículo mínimo comum a todas as escolas, que preencha digamos 2/3 do tempo escolar, e autonomia para as escolas preencherem os restantes 1/3 com as actividades que quiserem: religião; matemática; actividades artísticas; tempo livre; etc. No entanto, quem quiser pode defender uma autonomia total das escolas, sem currículo comum, **mesmo dentro dum sistema educativo totalmente público**. E isso é o que eu queria demonstrar: que a questão da autonomia das escolas nada tem a ver com a questão das vouchers, é apenas uma falsa desculpa que o movimento-voucher usa para encobrir as suas verdadeiras motivações, essencialmente de cariz ideológico.


De viana a 5 de Março de 2009 às 23:57
O que eu prefiro já deve ser evidente: sistema de ensino totalmente público, com ampla autonomia das escolas (com um programa mínimo comum e obrigatoriedade das turmas possuírem um mix social e de aptidões), e liberdade de escolha da escola pelos pais (incluindo transporte escolar para quem precisar) com admissão por sorteio.

Na impossibilidade prática de proibição de escolas privadas, acho que estas deviam ser obrigadas a admitir pelo menos 50% dos alunos por sorteio (de inscritos), os quais pagariam em proporção aos seus rendimentos. Ou seja, os alunos mais ricos efectivamente estariam a financiar os mais pobres. Esta sugestão seria muito difícil de rebater politicamente, e só não foi feita porque as elites no nosso país cometeriam um golpe de Estado.


De Hugo Mendes a 5 de Março de 2009 às 13:30
(cont.) E isto, por muito que nos seja difícil aceitar pelas desigualdades escolas e socio-económicas que provoca, é legítimo.
Convém, por isso, ter isto em consideração para não achar que culpa é apenas dos políticos (que, aliás, também são pais e mães), seja de que partido for.

Tornar as escolas ‘más’ em escolas ‘boas’ sem procurar alterar os mecanismos de school intake, sim, é uma solução de impacto limitado. Mas dado que é preciso encontrar formas de convencer as classes médias de que não precisam de fugir dos filhos dos pobres para terem um ensino de qualidade, melhorar o ensino em todas as escolas (formando melhores professores, distribuindo-os de forma mais equitativa por todo o sistema, criando mecanismos de integração social e escolar dos estudantes mais difíceis com impacto positivo nas sua aprendizagens, etc.) é um importante começo, de modo a contrariar a imagem (e, nalguns casos, a realidade) de que o ensino público é sistematicamente mais fraco.
Esta é dimensão dos incentivos (de forma a atrair as famílias ‘boas’ para as escolas ‘más’, ao mesmo tempo que se melhora o ensino nestas). Se aqui conseguirmos avanços, mais fácil se torna avançar na dimensão da regulação, criando regras que impeçam o contínuo avanço desregulado do mercado escolar. Mas, se fosse britânico, não estaria muito optimista.


De NS a 5 de Março de 2009 às 16:23
Repare que os vouchers são um mecanismo de aumento da liberdade individual e que isso os torna bons per si, pelo menos para quem aprecia liberdade individual em doses cavalares, como é o meu caso.

O que se diz, é que além desde efeito primário de aumento da liberdade, teriam o efeito secundário de aumentar a igualdade de oportunidades, com a criação de alguns mecanismos acessórios.

Mas deixe-me que lhe diga que me parece evidente que os filhos das pessoas mais educadas (não necessariamente das mais ricas) possuem vantagem sobre os filhos de pessoas menos educadas, mas não há nada que possa reverter essa vantagem, com excepção da institucionalização generalizada das crianças, medida que eu consideraria excessiva face ao objectivo.


De Hugo Mendes a 5 de Março de 2009 às 16:42
Caro NS,

«Repare que os vouchers são um mecanismo de aumento da liberdade individual e que isso os torna bons per si, pelo menos para quem aprecia liberdade individual em doses cavalares, como é o meu caso.»

Para muitas pessoas - que não para si, percebi -, nos serviços públicos, a qualidade é mais importante do que a liberdade de escolha (sobretudo quando esta nao permite escolhe efectiva, mas sanciona a segregação).

«O que se diz, é que além desde efeito primário de aumento da liberdade, teriam o efeito secundário de aumentar a igualdade de oportunidades, com a criação de alguns mecanismos acessórios.»

Pois, mas esses mecanismos não são bem "acessórios": são tão essenciais como
difíceis de implementar politicamente. Caso contrário, essa igualdade de oportunidades é pouco mais que retórica.

Hugo


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