Quarta-feira, 11 de Março de 2009

li há dias o recém lançado livro de manuela gonzaga sobre maria adelaide coelho da cunha, herdeira do fundador do dn. o livro, uma biografia, recomenda-se. maria adelaide (cuja história já foi origem de um filme de monique rutler e de um livro de agustina, 'doidos e amantes') foi internada num manicómio pelo marido e esteve lá por duas vezes (fugiu e foi apanhada). o que diz sobre essa experiência -- e que muito fala do estatuto da mulher no início do século xx, em consonância com a história contada por clint eastwood em the changelling (com a diferença de que maria adelaide era uma mulher rica e bem relacionada, ao contrário da telefonista do filme, e mesmo isso não a salvou de ser declarada louca por encomenda) -- serve de revelador para muitas situações.

 

diz maria adelaide que, num manicómio, tudo o que uma internada faz é levado à conta de sinal de loucura: se está calada é porque é louca, se fala é porque é louca, se chora é porque é louca, se não chora é porque é louca, se dorme é porque é louca, se tem insónias é porque é louca, e por aí fora. nada serve para provar o contrário da loucura, porque a loucura, como é sabido, não é um estado que o próprio possa negar, tem de ser avaliado exteriormente e por especialistas. há uma presunção de loucura -- ou culpa, se se quiser --que nada vindo do presumido louco pode contrariar, pelo contrário: qualquer declaração de sanidade só adensa a certeza.

 

algo de novo nisto? não, nada. é bom lembrar coisas que já sabíamos: que todos os nossos gestos, que tudo o que somos exteriormente em palavras e actos pode ser assim sujeito a um escrutínio direccionado que não só ignora tudo o que possa servir-lhe de refutação como encara cada um dos nossos actos, qualquer que seja, como uma prova da conclusão de que parte. de alguma forma, o caso de maria adelaide sublinha apenas, em caricatura, os mecanismos da percepção que temos dos outros e a forma como resistimos a reavaliar alguém depois de lhe termos passado a sentença.


12 comentários:
De lili a 11 de Março de 2009 às 21:31
Não é só dentro do manicómio que uma pessoa, que tenha uma doença do foro psiquiátrico sofra esse estigma de todas as suas acções e observações sejam conotadas com a sua doença. Já passei por isso, às vezes ainda passo.


De Guilherme Pereira a 11 de Março de 2009 às 21:57
Sempre que posso, Fernanda, vou àquele cafezito em frente ao Miguel Bombarda, ali a uns poucos metros da cidade universitária.
Vão lá, por uma, duas horas, alguns dos supostamente doidos internados.

Sou suspeito porque adoro falar com os chamados doidos - estes e outros.
Farto-me de tirar notas depois das nossas tão agraváveis conversas no café.

Não conheço o livro de que falas mas vou comprá-lo.
Subscrevo, por isso mas não só, os comentários que fizeste aos estigmas a que aludes.
O Lobo Antunes disse um dia que o diálogo, em sentido comum, mais não é senão o pretexto que usamos para, seja qual for a argumentação que nos contraponham, confirmarmos as palermices que já temos como certas.
Infelizmente, a vida tem-me obrigado a concordar com ele.
Muitos dos comentaristas deste JUGULAR a 13 são a prova exuberante da razão do escritor-psiquiatra...do Miguel Bombarda.

:)


De Luis Moreira a 11 de Março de 2009 às 23:39
Mas há tambem a doença subliminar ou não diagnosticada , por ténue nos seus sintomas, que mais vezes do que se julga, desvasta famílias, relacionamentos e carreiras que poderiam ser brilhantes.Comportamentos erráticos, ou tidos como tal, mas que têm profundas consequências na família mais próxima.Muitas vezes estes comportamentos são consequência de doença psiquiátrica hereditária, que arrasa gerações.Todos conhecemos pessoas que empobrecem tudo e todos com o jogo, que violentam filhos com o abuso do alcóol e com drogas,com sentimentos de dependência emocional que os leva a deixarem tudo por uma paixão fugaz.A doença obsessiva que cava profundas feridas entre irmãos...felizmente que a medicina moderna vem fechando os manicómios e tratando estes casos .Não posso deixar de referir o extraordinário "voando sobre um ninho de cucos".


De Guilherme Pereira a 12 de Março de 2009 às 01:31
De acordo Luis!

Obviamente que conheço tragédias que se abaterem sobre muitas pessoas e famílias por via de doenças realmente incuráveis.
Como jornalista, em serviço, já fiz 3 reportagens no pavilhão dos inimputáveis do Sobral Cid, em Coimbra, para onde são enviados em regime de medidas de segurança os casos de homicídios, por exemplo, considerados como inimputáveis pelos tribunais de julgamento.
E todos sabemos também do gozo mórbido que existe num qualquer lugar que disponha do doidinha da terra para entreter o pagode e todo o serviço.
Do que fala o livro e a que alude a Fernanda, tanto quanto percebi, é de outros quinhentos - e essas, sim, são tragédias encubadas e desenvolvidas em silêncio contra por (exemplo) o direito que todos temos ao nosso bom nome ou ao elementar direito de não sermos julgados pela populaça, via tortura chinesa do diz que disse sempre eternizado na mesa do café, ou até nos salões ditos nobres em que estas crueldades mil vezes repetidas se enfarpelam de doutas teses e grandiloquências que, no fundo, vão sempre dar ao mesmo.
E o mesmo, como escreveu a Fernanda, substancia-se nesse substantivo sem remédio chamado SENTENÇA.
É disso que se trata, creio eu.



De ana a 12 de Março de 2009 às 00:24
Não concordo consigo com o despejo sistemático dos doentes dos hospitais psiquiátricos. E, Luís Moreira, dê uma volta pelos sem abrigo de Lisboa. O que mais encontra são doentes psiquiátricos, postos fora do sistema hospitalar, mas que não têm, de forma evidente, as mínimas condições mentais para tomar conta das suas vidas. Mas os médicos e o sistema médico têm lá as suas teorias.

No entanto, as interdições de viúvas ricas com paixonetas juvenis, postas pelos filhos receosos que a fortuna se evapore, são uma constante nos tribunais, e com abundantes relatórios psiquiátricos. Aí, já as senhoras não têm direito a reger a sua vida e os seus bens.


De Guilherme Pereira a 12 de Março de 2009 às 01:47
De acordo, Ana, e já pelo menos há dois anos que Comissão Nacional para a Reestruturação dos Serviços de Saúde Mental defende, em nome da aproximação dos chamados doentes mentais às famílias, o encerramento de vários ditos hospitais psiquiátricos.
Sucede que muitas famílias se têm recusado a colaborar e sucede ainda que, apesar de haver um maior atendimento nos hospitais gerais, estes têm falta de pessoal clínico.
Um exemplo: os nossos seis hospitais psiquiátricos só têm 221 especialistas, contra 321 clínicos desta área que exercem nos 30 hospitais gerais.
Esta relação mostra que nos actuais hospitais psiquiátricos a relação de médicos para doentes é de 2,6 clínicos por 25 mil pacientes, um valor superior ao registado nas unidades gerais que é de 1,1 médicos por cada 25 mil.
O problema é mesmo delicado.


De Rui Herbon a 12 de Março de 2009 às 08:37
A normalidade é como o frio: não existe. O frio é um pouco mais ou um pouco menos de calor, e a normalidade é um pouco mais ou um pouco menos de loucura. Ou, in english: Normal? Didn't you mean average?


De Ana Matos Pires a 12 de Março de 2009 às 11:11
Que irritação, ao ler esta caixa de comentários apetece-me escrever uma pipa de coisas, fazer uma posta, vá, e estou sem tempo. Fica para depois.



De Guilherme Pereira a 12 de Março de 2009 às 12:03
Tb estou sem tempo, Ana, mas seria importante que escrevesses.
Apesar da vida louca que levo ( PC entre joelhos e 2 aulas é esquizofrenia) contabilizei esta madrugada 122 mails noreply para o meu aterro sanitário endereço, os quais correspondem a mais de 150 comentários no JUGULAR e outras tantas respostas minhas, uma das quais, e só essa, não foi publicada obviamente por questões técnicas ou de tempo.
Ou seja, a coisa vai em mais ou menos 400 ridículos
comentários que têm tsunaminado o vosso JUGULAR.
Seja: espero ansiosamente pelas coisas que tens para dizer.
Vou esgalhar uma aulita mas tou de volta.


De Guilherme Pereira a 12 de Março de 2009 às 12:34
Tb tou aflito. vou agora esgalhar uma conferência serôdia. mas depois quero ler-te. não deixes cá o moço em pulgas.


De Fernanda a 12 de Março de 2009 às 15:11
Entre os dois livros, entendi-me melhor com o da Agustina. Mas o que lhe queria dizer é isto: visite o aterro psiquiátrico do Lorvão.


De Cactus Jack a 12 de Março de 2009 às 18:13
Oh Fernanda, você cância as pessoas...!


Comentar post

Autores
Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Diogo Serras
Domingos Farinho
Fátima Rolo Duarte
Fernanda Câncio / f.
Filipe Nunes
Gonçalo Pires
Hugo Mendes
Inês de Medeiros
Inês Meneses
Irene Pimentel
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão
Mariana Vieira da Silva
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Shyznogud
Tiago Julião Neves

Arquivo

Isabel Moreira

Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon

correio | twitter | facebook

Fevereiro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29


artigos recentes

o piegas coelho

"Sit Ubo Sit!.Good dog!!!...

joão duque,

Populus in res publica su...

Os Cinco Pecados Mortais ...

Os Cinco Pecados Mortais ...

AT/DT

Todos os dias há uma nova

Hum, como falar do assunt...

Leituras: History Will Te...

João Fernandes no Reina S...

O tempora! O mores!

...

Antoni Tàpies (1923- 2012...

A bem da minha úlcera vou...

últimos comentários
José Luís Sarmento, eu não conheço lingua mais ins...
De facto, lembrei-me agora. Ou melhor: lembrei-me ...
Grande texto. É preciso repetir vezes sem conta to...
Mas porque é que não fazem um recurso com base num...
Você foi mesmo procurar a palavra "merdia" nos dic...
E o José luiz Sarmento lembrou-se agora que é cont...
Só um "idiota" nos podia ter chamado piegas nas di...
De acordo quanto à pieguice, porque é dela que der...
Eu não sou contra ESTE acordo ortográfico. Sou con...
Merdia - contracção entre a palavra merda e media,...
arquivo
tags

todas as tags

outros lugares
Subscrever feeds