Sexta-feira, 13 de Março de 2009
Paulo Pinto

Os tempos da escola primária deixam, em todos, memórias indeléveis. Não é raro cruzar-me com este ou aquele, ou ouvir falar de sicrano ou beltrano, ou reencontrar fulano X ou Y, antigos colegas de escola. Alguns lembram-se, outros não. Talvez seja característica minha, que tenho (ou vou tendo) boa memória e mantenho-me na região onde nasci e cresci. Os meus filhos frequentaram a minha escola primária, embora tudo seja agora diferente. Diferente embora igual, enfim, como sabemos. E a ligação próxima e afectiva, embora por vezes difícil, que mantenho com as minhas memórias, deixa-me muitas vezes sorrisos irónicos , não por nostalgia ou saudade (que também existem, evidentemente), mas por ver como o mundo dos adultos é, tantas vezes, idêntico ao das crianças. Mais dissimulado, mais crescido, mais composto, mais filtrado, mais difuso, mais indirecto, mais complicado. Mas o essencial está lá. Permanece. E o que vi e senti muitas vezes na infância continuo, com suportável frequência, a reencontrar agora.

Quando andava na prímária havia por lá um espécime a que os putos, à falta de melhor, chamavam de puto charila. Nunca percebi bem o que queria dizer o termo, mas também nunca procurei. Provavelmente teria uma decepção se escavasse um pouco, possivelmente descobriria tratar-se de uma corruptela de um termo qualquer. E o encanto, o link com aquele pequeno espaço de memória, esvair-se-ia. Portanto, não o faço. Um puto charila será sempre o puto charila da minha infância.

Era, de um modo geral, um miúdo armado ao pingarelho. Muitas vezes, um recém-chegado.  Geralmente, ficava muito excitado logo à chegada, embora a nossa escola fosse pequena, numa terra modesta. E para não se sentir desintegrado, aspirava a ser aceite pelos grupinhos mais fixes de putos, os que tinham as brincadeiras mais arriscadas, os que faziam frente às professoras, enfim, os nossos James Dean, mesmo que fosse rebeldia de fachada e ondas de fancaria. Éramos todos putos. Aí, o puto charila deslumbrava-se e suspirava. Para ser aceite, entrava de mansinho, pedinchava, fazia favores. Não hostilizava ninguém, de início. Alguém que o aceitasse. Lisonjeava, conciliava, amaciava os naturais conflitos de putos. Até que, enfim, lá acontecia que lhe davam entrada e guarida no grupinho fixolas. Aí, num misto de deslumbre, soberba e sentido de gratidão, passava, bom, como se diz, a ser mais papista que o Papa. Estava sempre na linha da frente, num misto de euforia, espírito de camaradagem, satisfação por se ter, como se diz agora, integrado. E quando o grupinho fixolas, bem, andava uma milha, ele andava duas. O grupinho baril dizia mata, ele vociferava esfola. Nos momentos críticos era sempre mais agressivo, com maior bravado, mais escarcéu. Uma espécie como aquele cãozinho da grafonola. Mas não fazia por mal. Era apenas uma forma de se sentir integrado. Na verdade, tanto os amiguinhos como os outros sabiam que ele era, apenas, um puto charila.

Às vezes dava-se mal. Pouco dado a visões largas e de conjunto, de perceber estratégias, de entender rudimentos básicos de jogos como o xadrez. Os amigalhaços do bandinho achavam-no grunho, saloio, um espalha-brasas, mongo, pouco fixe, pouco cool. Era geralmente pouco perpicaz, de uma inteligência tacanha, fugaz, imediata. Incapaz de perceber uma ironia, um àparte. "Marra" e ele marrava. Mas iam-no suportando, porque era útil. Mas por vezes escorraçavam-no quando ele passava das marcas, ou por ser desbocado, ou por se atraver a dizer o que não lhe cabia e não lhe era concedido no interior do bandinho. Ele, aí, deprimia, batia fundo, mas rapidamente arreganhava os dentes e tentava, por todos os meios, recuperar o  que considerava um estatuto perdido. Recuperar as boas graças. Vêem como sou fixe? Vejam como fizeram mal. Aceitem-me de volta, por favor. Não? Hão-de cá vir. Hei-de provar que mereço. Então, o puto charila tornava-se irritante, idiota, cego, estúpido. Proferia dislates e disparates com profusão, agredia, desdenhava, desprezava a eito, sobretudo aqueles que olhavam o bandinho de soslaio ou, pura e simplesmente, o ignoravam. Por vezes, conseguia o que queria e recebiam-no de volta. Reduzido a um mero sabujo, mas que importava isso? Ele seria, ainda, para todos e para sempre, tão-somente e apenas um puto charila.

Por vezes sorrio ao lembrar-me disto. Porque os reconheço, por vezes, já crescidos. E outros que, não os tendo conhecido na infância, deduzo que o seriam. Uns putos charilas. Por todo o lado, em muito sítio. Aqui, ali. Onde? Na blogosfera, por exemplo.


8 comentários:
De Rogério da Costa Pereira a 13 de Março de 2009 às 23:20
E a cantilena segue:

Puto charila, macaco sem pila.


De j a 14 de Março de 2009 às 00:25
Excelente o que escreveu, Paulo Pinto :)
Uma excelente caracterização do puto charila.

E surpreendido por o seu colega do Jugular também ter feito a "nossa" primária.


De Rogério da Costa Pereira a 14 de Março de 2009 às 00:33
jota, jota, jota: já vimos os dois esse filme. Vai querer repetir? É que às tantas a coisa descamba e acaba como de costume.


De j a 14 de Março de 2009 às 00:39
Hum...
Bem me parecia essa do puto charila, que também tinha por hábito estar à espera por umas pedradas na esquina.

Vá dormir, Rogério, que dos "velhos tempos" já me curei... lendo alguns idiotas.

E deixe lá a senhora, que eu também não gosto dela, mas haja modos.

Fique bem.


De Luis Moreira a 14 de Março de 2009 às 02:26
Eu fui puto charila algumas vezes.Sempre que mudava de escola , o que acontecia à cadência das colocações do meu pai.Ainda por cima tinha (tenho) dois irmãos mais novos o que me obrigava a ser puto charila tambem por eles. E como diz e bem Paulo, era por ser recém-chegado.Fui recém-chegado toda a vida ao contrário de si que ainda hoje vive junto à sua escola.Também os topo, os putos charilas,convencidos que eram os reis do sítio por terem as costas quentes.Amigos,vizinhos e família.Normalmente uns apanhadinhos que se agachavam ao primeiro embate.Depois iam fazer queixa aos professores,mas o puto charila recém-chegado de estúpido não tinha nada.Se não era o melhor era dos melhores e isso pacificava os professores.Os paizinhos recomendavam ao puto charila do sítio, mais cuidado e o pai do puto charila recém-chegado,recomendava que não era preciso partir as trombas a um gajo, todos os dias.Podia ser dia sim dia não!Infâncias na blogosfera!


De Guilherme Pereira a 14 de Março de 2009 às 02:44
Dei aqui um saltinho e fartei-me de sorrir com a prosa.
Depois.
Andei às voltas com os canhanhos e mais a origem do charila; concluí que tem que ver com o substantivo latino caritas, de cuja corruptela ( sobretudo feita nos bairros lisboetas mais ligados ao rio) acabaria por dar o charila em português - inexistente no nosso léxico normativo.
Depois, ainda.
Pus-me a matutar sobre a eventualidade de descobrir entre os não putos, assim crescidotes como nós, de um charila.
Por escalpelização e exclusão de partes cheguei a um nome.
Cá vai.
José Pacheco Pereira.
Que nem uma luva...


De Rui Herbon a 14 de Março de 2009 às 16:45
Mas quando andava na escola, provavelmente já com aquele ar molengão, devia ser o cromo ou o totó que passava a vida a levar calduços .
Mas o melhor é não falarmos mal do JPP senão ainda aparece por aí o Largo do Padrão e não há quem o ature.


De Guilherme Pereira a 14 de Março de 2009 às 17:01
Deus me livre de falar mal do JPP.
Conferir-lhe a título honorífico a comenda de puto chariila - fica assim: JPPPC - é uma Honra pátria que, madrugada dentro, me custou os olhinhos da cara.
Sou brupto e quadrado mas ainda não cheguei à Santa Apolónio dos parvos...
Deus conserve o homem.



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