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O puto charila

Os tempos da escola primária deixam, em todos, memórias indeléveis. Não é raro cruzar-me com este ou aquele, ou ouvir falar de sicrano ou beltrano, ou reencontrar fulano X ou Y, antigos colegas de escola. Alguns lembram-se, outros não. Talvez seja característica minha, que tenho (ou vou tendo) boa memória e mantenho-me na região onde nasci e cresci. Os meus filhos frequentaram a minha escola primária, embora tudo seja agora diferente. Diferente embora igual, enfim, como sabemos. E a ligação próxima e afectiva, embora por vezes difícil, que mantenho com as minhas memórias, deixa-me muitas vezes sorrisos irónicos , não por nostalgia ou saudade (que também existem, evidentemente), mas por ver como o mundo dos adultos é, tantas vezes, idêntico ao das crianças. Mais dissimulado, mais crescido, mais composto, mais filtrado, mais difuso, mais indirecto, mais complicado. Mas o essencial está lá. Permanece. E o que vi e senti muitas vezes na infância continuo, com suportável frequência, a reencontrar agora.

Quando andava na prímária havia por lá um espécime a que os putos, à falta de melhor, chamavam de puto charila. Nunca percebi bem o que queria dizer o termo, mas também nunca procurei. Provavelmente teria uma decepção se escavasse um pouco, possivelmente descobriria tratar-se de uma corruptela de um termo qualquer. E o encanto, o link com aquele pequeno espaço de memória, esvair-se-ia. Portanto, não o faço. Um puto charila será sempre o puto charila da minha infância.

Era, de um modo geral, um miúdo armado ao pingarelho. Muitas vezes, um recém-chegado.  Geralmente, ficava muito excitado logo à chegada, embora a nossa escola fosse pequena, numa terra modesta. E para não se sentir desintegrado, aspirava a ser aceite pelos grupinhos mais fixes de putos, os que tinham as brincadeiras mais arriscadas, os que faziam frente às professoras, enfim, os nossos James Dean, mesmo que fosse rebeldia de fachada e ondas de fancaria. Éramos todos putos. Aí, o puto charila deslumbrava-se e suspirava. Para ser aceite, entrava de mansinho, pedinchava, fazia favores. Não hostilizava ninguém, de início. Alguém que o aceitasse. Lisonjeava, conciliava, amaciava os naturais conflitos de putos. Até que, enfim, lá acontecia que lhe davam entrada e guarida no grupinho fixolas. Aí, num misto de deslumbre, soberba e sentido de gratidão, passava, bom, como se diz, a ser mais papista que o Papa. Estava sempre na linha da frente, num misto de euforia, espírito de camaradagem, satisfação por se ter, como se diz agora, integrado. E quando o grupinho fixolas, bem, andava uma milha, ele andava duas. O grupinho baril dizia mata, ele vociferava esfola. Nos momentos críticos era sempre mais agressivo, com maior bravado, mais escarcéu. Uma espécie como aquele cãozinho da grafonola. Mas não fazia por mal. Era apenas uma forma de se sentir integrado. Na verdade, tanto os amiguinhos como os outros sabiam que ele era, apenas, um puto charila.

Às vezes dava-se mal. Pouco dado a visões largas e de conjunto, de perceber estratégias, de entender rudimentos básicos de jogos como o xadrez. Os amigalhaços do bandinho achavam-no grunho, saloio, um espalha-brasas, mongo, pouco fixe, pouco cool. Era geralmente pouco perpicaz, de uma inteligência tacanha, fugaz, imediata. Incapaz de perceber uma ironia, um àparte. "Marra" e ele marrava. Mas iam-no suportando, porque era útil. Mas por vezes escorraçavam-no quando ele passava das marcas, ou por ser desbocado, ou por se atraver a dizer o que não lhe cabia e não lhe era concedido no interior do bandinho. Ele, aí, deprimia, batia fundo, mas rapidamente arreganhava os dentes e tentava, por todos os meios, recuperar o  que considerava um estatuto perdido. Recuperar as boas graças. Vêem como sou fixe? Vejam como fizeram mal. Aceitem-me de volta, por favor. Não? Hão-de cá vir. Hei-de provar que mereço. Então, o puto charila tornava-se irritante, idiota, cego, estúpido. Proferia dislates e disparates com profusão, agredia, desdenhava, desprezava a eito, sobretudo aqueles que olhavam o bandinho de soslaio ou, pura e simplesmente, o ignoravam. Por vezes, conseguia o que queria e recebiam-no de volta. Reduzido a um mero sabujo, mas que importava isso? Ele seria, ainda, para todos e para sempre, tão-somente e apenas um puto charila.

Por vezes sorrio ao lembrar-me disto. Porque os reconheço, por vezes, já crescidos. E outros que, não os tendo conhecido na infância, deduzo que o seriam. Uns putos charilas. Por todo o lado, em muito sítio. Aqui, ali. Onde? Na blogosfera, por exemplo.

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