Segunda-feira, 30 de Março de 2009

Não digo nada de novo, mas lembro que a disposição para nos fascinarmos com a excepcionalidade dos "monstros totais", como sempre que se discute a perigosíssima "humanização" dos fautores do Holocausto (ainda recentemente vieram uns tantos patetas rasgar as vestes por causa do filme The Reader), só serve à ocultação do mal que nos é vizinho, só serve ao espanto perante a complexa humanidade, tão próxima da nossa, dos perpetradores de formas atrozes de abuso e violência. De algum modo, o simpático vizinho que abusa da filha agradece o fascínio mediático pelos monstros austríacos, essa confortável comunidade imaginada de abusadores arquetípicos.

 

bruno sena martins fala de fritzl. mas podia estar a falar disto. eu vi sem saber ao que ia, e não quero que isso suceda a mais alguém. é disto que se trata: dua khalil aswad, 17 anos, lapidada no iraque (sim, no iraque apesar da ocupação) por ter uma relação com um rapaz de confissão distinta da sua. os rapazes e homens que a matam ao pontapé e com pedras não param de a filmar e fotografar com os telemóveis. para mostrar aos amigos e amigas, para verem mais tarde o testemunho do seu feito. e depois houve alguém que fez este vídeo com música para espalhar pelo mundo, não sei (não sabemos) se para festejar ou para lamentar.

 

não sei bem o que sinto: uma enorme tristeza, uma raiva cansada. a imensa amargura de saber que isto sucedeu e que nada do que diga ou faça pode fazer diferença. que nenhum herói, nenhuma heroína entrou naquele círculo e salvou dua khalil, que ninguém se ergueu para fulminar os seus carrascos -- e que eles vivem, vivem, viverão, terão as suas vidas normais, normalíssimas, com isto no coração.


34 comentários:
De mia a 30 de Março de 2009 às 14:01
e ainda a imensa dor de a maioria de nós assistir 'a um espectáculo lá deles'...


De Isabel Prata a 30 de Março de 2009 às 14:24
insuportável.


De Luís a 30 de Março de 2009 às 15:23
Espere aí, fernanda, vou vomitar e já volto...se conseguir.


De Anónimo a 30 de Março de 2009 às 15:29
não fui ver... perdi a coragem depois de ler o texto... mas há uma coisa que podemos fazer: não calar
é que da maneira como as coisas vão se calhar já faltou mais para em nome da tolerância vermos atitudes destas em Portugal ou qualquer outro país da UE...


De altino a 30 de Março de 2009 às 15:34
Não vi e não vou ver. Recusei ver este filme que está a ser divulgado no twitter (um dos poucos malefícios do twitter é precisamente apanharmos com merda como se fosse chuva tropical). Ainda bem que aqui vim, onde vi confirmadas as minhas suspeitas: violência gratuita, real, sofrimento a servir de entretenimento. E funciona, porque as pessoas vêem e ficam tristes e chocadas e, na verdade, logo esquecem. Repassam com o mesmo entusiasmo com que repassam uma receita ( mesmo assim eu prefiro as do Pingo Doce - pela qualidade da impressão também). Em suma, este mundo está fodido. Não se endireita porque cada vez somos mais a imbeciliza-lo.


De Anónimo a 30 de Março de 2009 às 16:23
altino, aquela violência é tudo menos gratuita. E não despreze assim tão rapidamente as emoções e as indignações dos outros. Eu vi, e tendo visto fiquei a saber um pouquinho melhor como funciona este mundo e não me parece que me deva sentir culpado por isso. Não me senti entretido, não senhor. Tenho mesmo a impressão de que a maior parte de nós escolhe outras coisas para se entreter.

Pedro


De Anónimo a 30 de Março de 2009 às 17:41
Sim, não sei onde o altino foi buscar essa da violência gratuita (mais uma daquelas ideias feitas que o pessoal debita); e também me parece que ele é muito rápido a julgar os sentimentos dos outros (sim, percebo a história da curiosidade mórbida).

mas pedro, por favor, o mundo funciona assim há milhares de anos. isto não nos diz como o mundo funciona. diz-nos como sempre funcionou.

relatos como este fazem parte da biblia. já se esqueceram que a prática se mantém desde então?

o mundo de hoje é o mesmo mundo de ontem. os homens e a natureza humana também. isso é que choca.


De Guilherme Pereira a 30 de Março de 2009 às 18:23
Pois claro que choca, e deve chocar.
Mas vamos silenciar?

"È preciso avisar toda a gente".


De Anónimo a 30 de Março de 2009 às 18:39
é preciso avisar toda a gente de quê?


De Guilherme Pereira a 30 de Março de 2009 às 23:57
Avisar toda a gente está entre aspas.
É verso de poema.
Cantado.
Padre Fanhais, conhece?
Não, não é um cromo da bola....
....esqueça.


De Anónimo a 31 de Março de 2009 às 14:51
não, não conheço; de facto padres não é o o meu campeonato.

nem dou esmolas para esse peditório.



De Guilherme Pereira a 1 de Abril de 2009 às 11:14
O padre (Fanhais) que refiro foi um cantor de intervenção que, por ser incómodo para a hierarquia da ICAR, acabou varrido da prestimosa instituição.
Se calhar, agora, já pode pensar duas vezes em dar para este peditório...
:)


De Guilherme Pereira a 30 de Março de 2009 às 16:39
Fernandíssima:

A barbárie dispensa adereços.

Detalhes:

1.

A vítima DUA ASHWA tinha 15 e não 17 anos.

2.

O vídeo, apesar de verdadeiro, apenas peca por insuficiência, visto que há PELO MENOS dois outros em poder do FBI que são bem mais chocantes e esclarecedores. Conheço-os, já os vi
Está lá quase tudo.

A desproprósito, publica se quiseres:

Nos 2 últimos dias inscrevi-me com nome, cara e blogue e estou a comentar no DN.

Escrevi lá a minha solidariedade ( a ti, obviamente) por um título do Expresso que te envolveu gratuitamente.
Finalmente: muito lastimo que a iniciatiava da ILGA
( 6ª feira e sábado) não tenha aqui qualquer simples referência aqui, a não ser o seu anúncio, por uma tua co-colega do JUGULAR.


De Luís Lavoura a 30 de Março de 2009 às 16:53
Convem lembrar que, não há muitos anos atrás, coisas semelhantes ainda se passavam na Irlanda do Norte. Um indivíduo que andasse a namorar outro da "outra religião" corria sérios riscos de ter os maiores dissabores.


De Anónimo a 30 de Março de 2009 às 18:31
se é isto que tem a dizer, melhor seria que estivesse calado.

Pedro Julgado


De texticulos a 30 de Março de 2009 às 17:45
Duas semanas após este atroz apedrejamento deu-se este massacre como represália. Ainda há esperança para aqueles povos, basta trabalharem um pouco nos métodos!

Arquitecturas de agressão

Sociedades, culturas e religiões desenvolveram-se em torno de padrões ou ideologias, práticas e crenças, delas resultaram, normas, valores e instituições, todas elas com a predisposição para resistir ou incorporar a mudança, que surge do contacto com outras, de estímulos internos, ou ainda de alterações no contexto em que estas existem. Estes "edifícios" cresceram durante séculos. Alturas houve em que foram agentes de desenvolvimento, noutras, a mais rígida fortaleza conservadora.

O ódio é uma emoção, intensa, de rancor profundo, revelado muitas vezes no desejo de restringir ou mesmo destruir aquilo que se odeia, culpando-o das suas más-sortes, protegendo a auto-estima ou fortalecendo os laços duma comunidade contra o "mal" (os outros).

As emoções e as arquitecturas matam! A jovem curda assasinada, Du'a Khalil Aswad, por amar um jovem doutra crença. Madhukar Ghate, na India, da casta Dalit(os intocáveis, a mais baixa das castas) por construir um poço. E tantos outros, desconhecidos. As emoções e as arquitecturas tambem constroem obras magníficas, lançam-nos em busca de novos mundos, unem pessoas. Concentremo-nos, nestas.
__
Textículos


De Anónimo a 30 de Março de 2009 às 18:20
os métodos deles são iguais aos nossos.

ainda há bem pouco tempo um travesti foi morto, à pedrada e à paulada, para diversão de um grupo de jovens (crianças??).

atrasados animais aqueles que...


De lili a 30 de Março de 2009 às 19:05
Continua o situacionismo.
A Gi também era uma toxicodependente sem abrigo, é abusivo estar a fazer uma comparação desta e dizer que os nossos métodos são iguais.


De Anónimo a 30 de Março de 2009 às 19:23
Mais uma que apreendeu uma palavra nova...

Peço desculpa. Os métodos não são iguais, são piores. Porque segundo consta iam lá todos os dias (durante quantos?) para ver se ela ainda se mexia.

"A Gi"... que intimas que nós éramos... tão lá de casa...

absolutamente ridículo!

e agora, lili, vá-se encher... de peelings lá para caneças.






De lili a 30 de Março de 2009 às 21:32
Não percebi que palavra nova é que apreendi.
O que apreendo do seu comentário é, que é além de ordinário e mal-educado, é mais um dos que culpa os desgraçados em vez dos verdadeiros culpados.


De Guilherme Pereira a 30 de Março de 2009 às 23:54
Boa Lili.


De Anónimo a 31 de Março de 2009 às 14:52
é normal que não perceba...


De Anónimo a 30 de Março de 2009 às 18:14
"nenhum herói, nenhuma heroína entrou naquele círculo e salvou dua khalil, que ninguém se ergueu para fulminar os seus carrascos -- e que eles vivem, vivem, viverão, terão as suas vidas normais, normalíssimas, com isto no coração"

eu só vi vítimas no filme. uns mais vítimas do que outros, é certo. mas tudo vítimas.

aqueles homens vivem com isto no coração, porque lhes disseram que aquilo é o certo; duvido que tenham noção ou consciência disso. duvido mesmo que saibam o que "é ter coração".

não me percebam mal. não os estou a desculpar. mas também não lhes vou atirar a primeira pedra ou apressar-me a fazer deles "um monstro total".

até porque entre a civilização e a animalidade há apenas uma barreira muito fina, que estala com facilidade.

quantos dos que se dizem indignados não seriam capazes de fazer o mesmo para vingar a (horrível) morte da adolescente?





De m&m a 30 de Março de 2009 às 21:42
"...apesar da ocupação..."
"...herói...circulo...salvou...fulminar carrascos..."

deuteronómio reloaded


De f. a 30 de Março de 2009 às 23:48
é, pois é. a história é a mesma. as palavras saíram-me as mesmas. desculpe a repetição.


De m&m a 31 de Março de 2009 às 14:29
não o defendo, até por falta de convicção, mas o livrinho não explica tudo. A f exagera.


De f. a 31 de Março de 2009 às 14:45
?


De m&m a 3 de Abril de 2009 às 13:04
esqueça. admito que a tenha interpretado mal


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