Sábado, 11 de Abril de 2009

Sou jornalista há mais de vinte anos e nunca tive outra profissão. Acredito na importância do jornalismo para a democracia. Acredito que é fundamental ter jornalistas livres e sem medo - mesmo e sobretudo quando têm motivos para ter medo. Acredito que um jornalista responde antes e depois de tudo perante a sua consciência, como prevê o Código Deontológico e o actual Estatuto dos Jornalistas. Acredito até que em certas ocasiões faz sentido um jornalista violar leis - sobretudo se forem as leis de um Estado não democrático ou se se violar a lei para, por exemplo, demonstrar como é fácil violá-la (como quando se compram substâncias ilegais para mostrar a facilidade com que podem ser compradas), mas não acredito em isenções especiais de cumprimento da lei para jornalistas ou garantias administrativas, como aquelas que antes do 25 de Abril protegiam os polícias de acusações de cidadãos "vulgares" e conferiam à sua palavra valor de verdade irrefutável.

 

Acredito na importância daquilo a que dou o nome de jornalismo de investigação - aquele que procura para além das aparências, das declarações do dia-a-dia, da superficialidade que faz o noticiário corrente, que tenta chegar ao fundo dos assuntos e dos casos através do estudo, do cruzamento de fontes e depoimentos, da reconstituição de factos: um jornalismo que recusa instrumentalizações e agendas externas, independente e com a paixão da verdade. Acredito no poder do jornalismo - o poder de denunciar, de expor, de contar a história não oficial, de interrogar e sindicar todos os poderes. E, por acreditar no poder e na nobreza do jornalismo,  acredito na necessidade da sua regulação. Não me parece desejável que ninguém guarde estes guardas - em que me incluo. Não me parece saudável que se assuma que ninguém pode criticar os jornalistas e o jornalismo sem ser acusado de tentativa de censura, silenciamento ou perseguição. Não me parece - não é decerto - saudável o corporativismo virulento que acolhe certas críticas públicas de jornalistas ao jornalismo, um corporativismo que reproduz os corporativismos que os jornalistas passam a vida a criticar nas outras profissões e que, como todos os corporativismos, protege e consagra a mediocridade e a falta de rigor, execrando como traidores os que o repudiam.

 

O corporativismo que reclama a auto-regulação para nada regular, o corporativismo que clamou contra os novos poderes fiscalizadores da Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas (constituída por  uma assembleia de jornalistas eleitos por jornalistas e presidida por um juiz) para nunca mais se lembrar da sua existência - talvez porque a Comissão nada fez até agora que se pareça com  uma actividade fiscalizadora efectiva. Decerto porque não há casos de óbvia violação dos deveres de jornalistas a ocorrer à vista de toda a gente - decerto porque, ao contrário do resto da sociedade onde não cessam de encontrar motivos de escândalo e suspeitas de malfeitorias, entre os jornalistas só há gente séria e sem interesses de qualquer espécie. É isso,os jornalistas são, e todos, infalíveis. E aquilo que publicam, tudo, é só verdade. Tal qual.

 

(publicado ontem no dn)


17 comentários:
De j a 11 de Abril de 2009 às 13:30
Eu não tenho nenhuma dúvida de que você é isenta e séria, nenhuma mesmo.
Mas a questão não é essa, e também não vou perder mais tempo com isso, não adianta... até porque você acaba a dizer que lhe mando «bocas rascas».

Bom fim de semana.


De f. a 11 de Abril de 2009 às 13:44
tem graça, não sei do que fala. eu disse-lhe o quê? acho q está a confundir com uma resposta a outra pessoa.


De Carlos Marques a 11 de Abril de 2009 às 13:44
Dear f.
Concordo consigo, no entanto se o jornalismo está como está é porque não há consequências para os poderosos, todos os poderosos, jornalistas incluídos. Se não há justiça, de quem é a culpa? Quantos anos passaram desde o inicio da Democracia por cá? A quem interessa que a Justiça não funcione desde que se tenha poder? Falando da questão da namorada, também não gostei daquele anúncio à capa da revista cor-de-rosa: "...vai ao cinema com a namorada". Acho que a Fernanda devia ter-se revoltado logo. A Fernanda faz falta, essa é que é essa. Continue a preocupar-se com as injustiças.


De Pedro Jordão a 12 de Abril de 2009 às 02:26
Acho que o Carlos faz todo o sentido ao concordar com o texto da f. Faz menos sentido quando justifica a situação com generalizações um pouco gastas. Acho mesmo que o problema é o contrário: gastar-se tanto tempo a dizer que o mal está "no estado da Justiça" e outras inconsistências do género em vez de se começar a atacar eficzmente e caso a caso o que falha. De resto, o problema é básico: se a classe se protege sem critério de justiça, não há modo de se auto-regular. E os abusos e a hipocrisia, como se vê, existem.


De Guilherme Pereira a 11 de Abril de 2009 às 13:48
No próprio DN, comentei a tua crónica.

Transcrevo:

“Estás, Fernanda, infelizmente quase sozinha na substância do que escreves neste texto, que susbscrevo como jornalista e cidadão. Aliás: és, tu, jornalista, vítima do jornalismo que denuncias, inclusivamente na tua própria casa de trabalho, que não implica os "donos" da dita mas alguns mais mordomos que o mordomo - falo dos delactores teus colegas (?) e dos directores sérios que tens.”

Nota

Sou amigo pessoal do Rui Hortelão, que é director-adjunto do DN e um puto fixe. Além de bom camarada de profissão, é um excelente futebolista na nossa equipa de futebol de praia…

:)


De Manuel Fazenda Lourenço a 11 de Abril de 2009 às 13:49
Eu não tenho, como é natural, quaisquer certezas sobre o caso Freeport . Apenas muitas dúvidas e questões sobre a conduta da justiça e dos jornalistas.
Mas há uma coisa a que sou sensível. Ao facto de uma mulher, neste caso, defender com coragem e inteligência o homem que ama. Há já muitos anos li uma frase do Camus que me marcou para sempre : «Se tivesse que escolher entre a justiça e a minha mãe, escolheria a minha mãe».
Quero crer que não é esta a opção que motiva as suas intervenções. Mas se fosse, para mim estaria bem.
Não são investigações de pretensos justiceiros que tornam o mundo melhor.
O que pode tornar o mundo melhor é uma mulher defender o seu homem, ou um homem defender a sua mulher.
Mesmo que tenham de pagar um preço elevado por essa atitude.



De Guilherme Pereira a 11 de Abril de 2009 às 14:01
"Não são investigações de pretensos justiceiros que tornam o mundo melhor. " - esta frase é na mouche, Manuel.
Freeport: eu tenho pelo menos uma certeza - Sócrates não tem nada a ver com aquilo, não será sequer arguido, embora se sujeite a esta prostituição intelectual de um certo tipo de jornalismo de merda com que o tentam cravar na cruz, levar ao calvário e posteriormente à capitulação.( usei esta linguagem pascal a propos...)

Estou bem informado, meu amigo.
O Freeport vai ser mais um flop e o rato que sairá das vísceras da montanha garanto-lhe que é de esgoto.
Só não lhe faço o desenho ou faculto foto porque este não é o meu blogue.

Páscoa Boa!


De Paulo Bastos a 11 de Abril de 2009 às 18:26
Se cancio quer escolher entre a justica e o socrates que escolha. Mas que o diga para quem a ler que fez a escolha.
O que me interessa é o processo Freeport e a questão das pressões sobre o poder judicial
O resto... se os patrões da cancio a querem manter (desde que nao seja com dinheiro meu sob a forma de subsídios ou publiicade estatal), mantenham. Dela só leio grátis e como puro divertimento.


De Jose Nunes a 11 de Abril de 2009 às 16:17
Infelizmente o corporativismo salazarento ainda não foi apagado na nossa sociedade.E até pessoas que me pareciam ser imunes a este virus mostram que afinal ainda estão prisioneiros dessa sarna peçonhenta.No jornalismo isto é mais visível.


De alexandra tavares-teles a 11 de Abril de 2009 às 16:19
f, só venho aqui deixar-te (ando por longe, estes dias) um beijo


De Amado Estriga a 11 de Abril de 2009 às 19:47
Começo por pedir imensa desculpa por me intrometer num tão "convivial" ambiente como este e, desde já, com duas declarações iniciais de interesses: não sou, nunca fui nem serei jornalista e, não a conheço de lugar algum.
Devo confessar-lhe que - eventualmente não sem alguma vergonha! - jamais tinha lido algo escrito por si. Questão de deambulações por universos diferentes, tão só!
Mas, tanta zurzidela (quanta defesa) por essa blogosfera " adentro, despertou-me um instinto básico, inerente a qualquer ser humano. Curiosidade. Quem é e o que fará correr tanta tinta?
Sou, por natureza, pouco dado a circunlóquios. Isso é apanágio de quem não sabe o que quer e ao que vai.
Devo cumprimentá-la? Estou em crer que sim, com uma pequena ressalva. Carrega em si o que de mais importante a vida nos dá. O seu código genético. Só a esse deve obedecer. Só esse lhe deve merecer respeito, porque o único que nos pode magoar! Só esse lhe dirá, sem sofismas, o que está certo e o que está errado. Qualquer outro, seja ele deontológico ou do processo civil, é falho porque gerado numa miríade de genéticas avulsas. Daí a necessidade de estar constantemente a ser revisto. Para o bem e para o mal!
Acima de tudo, ouça-se!! Consulte o Código Deontológico apenas para saber se nesse dia deve pôr saia ou calças !!
A gritaria dos outros é apenas acicate para se ouvir ainda com mais vigor!
Fico satisfeito por tê-la "descoberto".


De Pois pois a 11 de Abril de 2009 às 22:22
Pois pois... e nós somos como o Pai Natal, não?


De SMA a 12 de Abril de 2009 às 00:17
Qualquer consumidor de informação fica consumido com o nível de corporativismo de muitos jornalistas que nos directos televisivos chega a ser de um tom confrangedoramente liceal - parabéns pela coragem de ser Jornalista e de exigir tanto à sua classe quanto ela exige aos demais.


De Sérgio a 12 de Abril de 2009 às 09:40
Força Fernanda!
Não ligues à canalhice.


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